TRABALHO FINAL – A INFLUENCIA FRANCESA SOBRE A GINÁSTICA BRASILEIRA

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

TRABALHO FINAL - A INFLUENCIA FRANCESA SOBRE A GINÁSTICA BRASILEIRA

LUIGI ANTONIO ARANZANA TOMBOLATO

Resumo

Neste trabalho haverá a comparação de textos sobre métodos de ginástica produzidos no Brasil e na França. Para tanto, foi realizado um estudo histórico limitado às décadas de 1900 a 1930, tendo como fonte de análise as opniões e pensamentos de Georges Demeny e Fernando de Azevedo. Sua conclusão é que, nos textos de ambos os autores, a ginástica científica é defendida por ser uma prática equilibrada e controlada. No entanto, as influências de outras tradições produziram culturas ginásticas ecléticas nos dois países.

Palavras-chave: História, Brasil, França, Ginástica

Introdução

  No século XIX, a ginástica realizada por jovens franceses era criticada pelos médicos. Ela era praticada de forma irracional, o que tornava a pessoa fraca, ao invés de fortalece-la fisicamente. Segundo os médicos, era preciso metodizar a ginástica para torná-la consistente com as teorias fisiológicas, que contrapõem o valor do esforço físico e defendem o desenvolvimento econômico e energético no treinamento. Com essa argumentação, na França do final do século XIX, ganha-se importância a realização de uma ginástica caracterizada pela racionalidade científica.

Esses novos exercícios físicos do século XIX se espalharam lentamente na França, contudo possibilitaram novas maneiras de pensar a atividade física e o corpo. O interesse das pessoas em exercícios calculados aumentou dia a dia, produziam resultados mensuráveis ​​e mudaram gradualmente a forma como as escolas e os militares os faziam. As obras de Fernando de Azevedo podem nortear o impacto dessas performances francesas na educação física brasileira. Portanto, este trabalho tem como objetivo comparar os textos produzidos pelos dois países sobre a temática dos métodos exatos da ginástica, em especial dos pensamentos de Georges Demeny e Fernando de Azevedo, a fim de entender o ensino da ginástica nas duas visões.

Para tanto, foi realizado um estudo bibliográfico, utilizando um método histórico um tanto arbitrário dos anos 1900 aos 1930. A principal fonte de análise são os textos produzidos por Georges Demeny e Fernando de Azevedo em diferentes contextos culturais do início do século XX. Com isso, poderemos determinar as semelhanças entre as visões da ginástica dos dois países, mas também as diferenças. Metodologicamente, o objetivo é estabelecer uma história comparativa entre a ginástica brasileira e a francesa. A partir do início do século XX, a crescente influência da ginástica francesa no Brasil provou que era razoável escolher a ginástica francesa.

O significado da história comparada no campo da historiografia do esporte não está na justaposição de diferentes contextos nacionais, mas na busca sistemática de semelhanças e diferenças entre diferentes culturas. Portanto, essa comparação possui uma característica interessante, ou seja, a capacidade de fazer uma problematização transnacional original, que pode nos fornecer pistas sobre o que é comum e o que é específico (Melo, 2007).

o cENÁRIO FRANCÊS

Perto da conclusão do século XIX, o médico francês Fernand Lagrange (1846-1909) diz que a higiene nas atividades não cercava-se em esforço esgotante, mas, ao contrário, era trabalho regular e premeditado. No exemplar Physiologie des exercices dus corps, ele afirma que não existe um exercício para tudo e para todos as pessoas.
Logo, não bastava meramente se mexer, era vital fazer a prática de forma inteligente, entender suas características por forma de um conhecimento específico, cada momento mais próximo da ciência em uso no período.

Podemos, portanto, enxergar que as metas higienistas originaram a oportunidade da composição de uma ginástica científica que se proferiu entre instituições militares, no entanto, de acordo com os princípios higienistas do campo da saúde, com apoio no utilitarismo e em ensinamentos fisiológicos, que enraizaram esse pensamento como um firme costume da educação física. Para Vigarello e Holt (2008), os novos ginásios em Paris nutriam como natureza o entusiasmo em manobras calculadas, agentes de resultados mensuráveis que se expuseram no prado cultural francês sem soberbia, contudo aos poucos modificaram práticas na escola e no exército.

Nessa perspectiva a manifestação do estado francês foi mais intensa ao subsidiar ginásios que se propalaram nas escolas elementares a partir dos meados de 1850, na composição de uma Escola Normal Militar de Ginástica, na ascensão da passagem militar através dos jovens e por uma legislatura que aprovasse uma maior inclusão da ginástica nas escolas, como o decreto que fez com que a ginástica fosse fundamental para todas as camadas de ensino nas escolas francesas (Vigarello e Holt, 2008).

Com o começo do século XX uma proposta para a confecção de um método gaulês de ginástica unificado para ser empregado nas escolas da França foi feita. Esse denominado método francês de ginástica por influência de Georges Demeny (1850-1917). Com o perfil centrado em polivalência, por meio da ligação do método sueco (mecanizado), da ginástica de Demeny (controle da energia), do método puro de Hébert e da inclusão dos jogos escolares. Além disso, as atividades eram reguladas a partir de medidas higiênicas para não extenuar (fadiga mental) e esgotar o praticante, assim como administrar o momento de duração da trabalho, o turno, a ambiente climatológica ideal, o fardamento correto e o espaço.

Demeny, biólogo e professor francês (Soares e Fraga, 2003) era um dedicado praticante de ginástica e se destacou nos saberes de análise dos manobras por meio da concepção de uma câmera cronofotográfica (Baker, 2007). Os estudos de Gleyse e Soares perante os guias escolares e de salubridade na França (2012), expõem que no fim do século XIX e início do século XX, estritamente dos anos de 1880 até os anos de 1940, exercícios físicos feitos com controle e harmonia eram os únicos concebidos com bons.

Mas, a oração da ginástica inteligente não era isolada, ancorava-se em um conhecimento medicinal e nos fundamentos da higiene. Relacionava-se com essa forma a ideia de energia particular, dado nas circunstâncias para a prática da s atividades. No livro Les bases scientifiques de l'éducation physique, publicado pela primeira vez em 1903, atestava que a evolução da educação física era mais racional e exata que a intelectual, pois se tinham bases físicas e biologicas para tal.

A separação entre uma ginástica científica e outra não sistematizada estava em uma arranjo que discernia a "boa educação física" das demais. Demeny crítica que sem uma ginástica metódica e exata o sujeito iria a o ginásio em busca dos maiores halteres e barras, sem ter o preparo para tal, e com eles faria movimentos desordenados, caretas e um gasto exagerado de energia para a obtenção de um resultado pífio.

No exemplar Evolution de l'éducation physique: l'ecole française, de 1909, Demeny visa a constituição da história da educação física francesa no século XIX e não omite sobre a disseminação dos esportes naquele âmbito.

No mesmo artigo, Demeny comparou a tradição da ginástica francesa com a tradição da ginástica sueca e enfatizou as características ecléticas da prática corporal francesa. Desse modo procurou mostrar que a ginástica científica pode preparar jovens de quase todas as idades para o serviço militar e a prática de atividades físicas.

Mas é irrefutável que a ginástica, como forma de ensino e prática utilitária, ocupa um lugar central em sua proposição. Em seu Guide du Maitre, a ginástica ocupa uma posição central. Por outro lado, dança, luta livre e jogos ao ar livre também são brevemente apresentados neste manual (Demeny, 1904).

Talvez as competições e performances não apresentem um equilíbrio ideal, o que não favorece o desenvolvimento harmonioso do corpo e não pode economizar energia pessoal.

Esse debate surgiu no Brasil no começo do século XX, no entanto teve um impacto supremo porque na composição do novo mercado, a composição da região girou em torno do ensino de ginástica e da coordenação de cursos privados em sociedades, associações e clubes. Vale evidenciar que a ginástica está vigente neste país com influência europeia desde o século XIX. Entretanto, no início do século XX, sobretudo nas décadas de 1920 e 1930, a educação física no Brasil era formada em escolas de treinamento específicas de origem civil e militar. Nosso meta atual é mostrar a performance dessa mentalidade europeia no Brasil por meio de incentivos.

 








O cenário brasileiro sobre influência francesa

A intervenção da costume francês de ginástica, bem como a intervenção cultural da França sobre fortes cidades brasileiras, era registro no contexto do fim do século XIX e início do século XX. No Brasil das quatro primeiras dezenas do século XX, a discussão em torno do método supremo de educação física levou boa parte dos textos comentar a respeito do assunto.

Ao estudar publicações de jornais do fim da década de 1920 e início da de 1930, podemos presumir o ecletismo das posições descritas em torno do ideia de gymnastica scientifica. O jornal Diário de Notícias, carioca, publica em 1931 o editorial de Luiz Furtado Coelho, intitulado "A educação physica: ramo da educação integral". Onde o autor ressalta que o método de  gymnastica scientifica une o physico e o moral e que o método de Ling há muito usado pelos países desenvolvidos já tem essa característica. Sendo em sua visão o único científico.

Se Coelho defendia uma ginástica sueca como a única científica, o mesmo não se é capaz observar em outros arquivos. Para o também carioca jornal O Paiz, em 1929, evidencia no artigo "A prol do Brasil futuro", que o exemplo de ginástica científica era a França.

Durante a década de 1930, na cidade do Rio de Janeiro, além do espaço organizacional das escolas, a ginástica preenchia o espaço de institutos e clubes esportivos, como o Instituto Feminino de Cultura Physica, que cedera, segundo o jornal O Paiz, no texto "Mens sana in corpore sano", de 1931, uma estrutura que concorria com as instituições europeias. Nele o modelo de ginástica seguido era o alemão. A solução para o conflito é o defensor do ecletismo e da racionalidade científica da reconciliação. Em primeiro lugar, a educação física deve ser dotada de uma base científica que seja sempre apoiada pela experiência europeia de diferentes países, ainda que tenham características opostas. Portanto, a ginástica se consolida como uma prática racional e sistemática no Brasil, que é propícia à disciplina da multidão e à integração de diferentes proposições.

Nesse quadro, Fernando de Azevedo (1894-1974) foi um crucial pedagogo brasileiro cuja fama está relacionada a diversas instituições de ensino, como o Ginásio Mineiro, Escola Normal da Capital Federal, Universidade de São Paulo, onde ocupou o cargo de professor e gestor em além de ser membro nominal da Academia Brasileira de Artes. Por fim, Azevedo é um pedagogo prepotente e defensor da educação física escolar. Chegou a participar da função de presidente de ginástica do Ginásio Mineiro com a monografia “Poesia do corpo ou ginástica escolar” escrita em 1915.

Quando Linhales (2009) analisou a relação entre esporte e escola no início do século XX, referiu-se à obra desse educador e determinou a posição de conciliação entre a ginástica e o esporte no autor. Embora critique a escola pela adoção imediata e mecânica do esporte, ele parece ter sido afetado pelo desenvolvimento dos fenômenos esportivos nas principais cidades brasileiras.

Mesmo assim, Azevedo, enquadrado no debate da época, tinha algumas retenções ao esporte como fundamental prática de educação física. Em Da educação physica, o que ela é, o que tem sido, o que deveria ser, uma reedição revista e ampliada de Poesia do corpo ou gymnastica escolar (Azevedo, 1915), foi muito persuadido pelas ideologias francesas. Ele diz que: "o atletismo, no sentido de 'cultura da força pela força', nos parece tão condenável com a cultura exclusiva do aparelho muscular por meio de exercícios violentos que é um crime na ginástica educativa." (Azevedo, 1920, 1960, p. 73).

A menção imediata de Azevedo a Demeny indica que o pedagogo sofria forte influência dos pensamentos vindos da França sobre a ginástica, o que trouxe Azevedo a criticar a metodologia britânica, que era baseada unicamente em jogos e esportes, desconsiderando a ginástica.

Ele, como Demeny, vinha apreensivo com as barreiras, os zelos higiênicos, o equilíbrio e a moderação das atividades pelo controle preciso de métodos científicos. A educação física deveria controlar os gastos demasiados de energia para corpos ainda não firmes, conquista essa que seria cumprida apenas pela ginástica científica. Esse plano conciliatório era conexo com o debate presente no Brasil do início do século XX e também com a disposição do método gálico de ginástica que não se contrastava ao esporte, mas defendia a ginástica como ato imprescindível de composição da criança. Essa perspectiva pode ter persuadido a eleição da técnica francesa como a principal nas escolas brasileiras na década de 1930, pois o principal fator para sua adesão foi seu ecletismo.

Os principais entendedores brasileiros, como Américo Netto, Coelho Neto e o próprio Fernando de Azevedo, colocaram-se então em uma estado conciliador entre esportes e ginástica. Em contraste, destacou-se como antagonista o médico Carlos Sussenkind de Mendonça, no exemplar O sport está deseducando a mocidade brasileira, de 1921 (Mendonça, 1921).

Conclusão

Georges Denemy e Fernando de Azevedo, basicamente criaram a fundação do pensamento sobre a ginástica científica tanto na França como no Brasil. Isso criou um favoritismo para o uso de uma ginástica equilibrada, sem excessos. Porém, a afronta com outras tradições contidas em ambos os países deu origem a uma ginástica eclética


Referências

A educação physica: ramo da educação integral. Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 26 jun. 1932.

A prol do Brasil do futuro. O Paiz. Rio de Janeiro, 8 nov. 1929.

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CoelhoBeatriz. Citação direta: diferença entre citação curta e citação longa nas normas da ABNT. Blog Mettzer. Florianópolis, 2021. Disponível em: https://blog.mettzer.com/citacao-direta-curta-longa/. Acesso em: 10 mai. 2021.

CoelhoBeatriz. Conclusão de trabalho: : um guia completo de como fazer em 5 passos. Blog Mettzer. Florianópolis, 2020. Disponível em: https://blog.mettzer.com/conclusao-de-trabalho/. Acesso em: 10 mai. 2021.

CoelhoBeatriz. Introdução:: aprenda como fazer para seu trabalho acadêmico. Blog Mettzer. Florianópolis, 2021. Disponível em: https://blog.mettzer.com/introducao-tcc/. Acesso em: 10 mai. 2021.

DenemyGeorges. Evolution de l'éducation physique: L'Ecole francaise. Paris: Fournier, 1909.

DenemyGeorges. Guide du Maitre: chargé de l'enseignement des exercices physiques dans les écoles.. 3. ed. Paris: F R. De Rudeval Ed, 1904.

DenemyGeorges. Les bases scientifiques de l'éducation physique. 8. ed. Paris: F Alcan, 1931.

DMITRUKHilda Beatriz (Org.). Cadernos metodológicos: diretrizes da metodologia científica. 5. ed. Chapecó: Argos, 2001. 123 p.

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