RITUAIS RELIGIOSOS NA ERA VIKING PRÉ CRISTÃ: RITUAIS DOS POVOS ESCANDINÁVOS ENTRE OS SÉCULOS VIII AO X

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

RITUAIS RELIGIOSOS NA ERA VIKING PRÉ CRISTÃ: RITUAIS DOS POVOS ESCANDINÁVOS ENTRE OS SÉCULOS VIII AO X

Valeska da Silveira Berg

Orientador: Adriana de Souza Carvalho

Resumo

Esta dissertação pretende apresentar os rituais religiosos na Era Viking pré Crsitã, na Escandinavia, e a sua importância como forma de propagar esta cultura, já que é uma sociedade sem escrita e toda esta cultura é passada de forma oral ou ritual. Foi feito um trabalho de pesquisa voltado para esta finalidade, mostrando como essas crenças e essas práticas ritualísticas formavam uma comunidade e uma identidade e fez com que durante alguins séculos, gerações repetissem esses costumes e mantivessem essa cultura, até o momento da conversão ao Cristianismo. Um povo onde o calendário era regido pelos astros e delimitado com rituais e como estes estavam presentes e marcavam momentos específicos, como a ida e volta da guerra, eventos sociais e até com a fartura ou escasses desse povo. Foi apresentado também quem eram os vikings, sua estrutura tribal e social e uma breve passagem por sua mitologia, já que esta é a base de seus rituais.

Palavras-chave: Viking. Religião Nórdica Antiga. Mitologia Nórdica. Rituais.

Abstract

This dissertation intends to present the religious rituals in the pre-Christian Viking Era, in Scandinavia, and its importance as a way of propagating this culture, since it is a society without writing and this whole culture is passed on orally or ritually. Research work was done for this purpose, showing how these beliefs and ritualistic practices formed a community and an identity and made it possible for several centuries, generations to repeat these customs and maintain this culture, until the moment of conversion to Christianity. A people where the calendar was governed by the stars and delimited with rituals and how they were present and marked specific moments, such as the return of the war, social events and even with the abundance or scarcity of these people. It was also presented who the Vikings were, their tribal and social structure and a brief passage through their mythology, since this is the basis of their rituals.

Keywords: Viking. Old Norse Religion. Norse Mythology. Rituals.

Introdução

   A cultura viking tem despertado bastante interesse nos últimos tempos, devido a vários fatores, entre eles as séries, filmes e documentários que geraram um despertar de um interesse maior pela sua mitologia. O objetivo deste projeto é conceder uma visão da função dos rituais religiosos dentro desta sociedade, Homens do Norte como conhecidos na época, entre os séculos VIII e X, antes da se renderem ao Cristianismo, hoje denominada Mitologia Nórdica ou Religião Nórdica Antiga ( Old Norse religion). O impacto destes rituais no dia a dia e na formação da sua mentalidade e atividades predominantemente comerciais, rurais e bélicas. Outros aspectos do dia a dia, como casamentos, nascimento, agricultura, divórcio, família, eram orientados em torno de suas crenças e rituais. Uma religião voltada para cultos ritualísticos pagãos.

 O assunto é muito amplo, e cabe a reflexão de uma religião atuante e presente nessa civilização, mas de forma oral, descentralizada e bem diferente do cristianismo. Religião essa sem sacerdotes, templos ou locais de adoração. Com o presente projeto buscarei esclarecer a seguinte questão: Em uma cultura essencialmente oral, qual a importância dos rituais para a disseminação desta nas gerações e na formação desta sociedade.

 Segundo o filósofo Ernest Cassirer “E a religião é um enigma não só no sentido teórico, mas também no sentido ético. Está repleta de antinomias teóricas e contradições éticas. Promete-nos uma comunhão com a natureza, com os homens, com os poderes sobrenaturais e com os próprios deuses. No entanto, seu efeito é precisamente o oposto. Em sua aparência concreta ela se torna a fonte das mais profundas dissensões e lutas fanáticas entre homens. A religião alega estar de posse de uma verdade absoluta, mas a sua história é uma história de erros e heresia. Oferece-nos a promessa e a perspectivas de um mundo transcendente – bem além dos limites de nossa experiência humana – e permanece humana, demasiado humana.” ( CASSIRER, 2012, p. 122). 

 A citação de Cassirer, cabe bem quando falamos em paganismo nórdico e suas características, dentro de uma visão moderna e contemporânea.

 Esses termos acima são utilizados como referência quando se fala em crenças e práticas religiosas dos povos do território Escandinavo, que hoje se encontram a Dinamarca, Noruega, Suécia e Islândia.

 Essa religião é considerada pertencente à conexão indo-européia, devido ao parentesco linguístico com os povos que são principalmente da parte do sudoeste da Eurásia ( massa que forma em conjunto a Europa e a Ásia.). E teve influências da cultura celta, germânica, fino-úgricas e lapões. Não era uma religião homogênea, pois também sofria interferências de outros povos, devido a casamentos e outros contatos. Eram politeístas e não tinham essa dualidade de bom e ruim, pecado e salvação, acreditavam na vida após a morte, na imortalidade da alma, onde até a forma de morrer interferia nesse destino.

Como dito anteriormente uma crença religiosa politeísta e com muitos deuses, cada qual com sua característica dual e suas funções, onde dependendo da situação, época ou cerimônia se cultuava ou ritualizava para um ou outro.

 Como metodologia adotei a descritiva pesquisando fontes secundárias e bibliográficas, alguns livros, projetos e artigos sobre o assunto. Fazendo uma profunda pesquisa e análise descritiva da sociedade, cultura, função e relevância destes rituais, no período já citado entre os séculos VIII e X, antes de se converterem ao cristianismo.

Existem alguns estudos sobre o tema no Brasil, porém como assunto Viking é muito amplo, devido sua cultura e mitologia serem bem extensas e volúveis, o assunto abordado em específico não é tão comum achar um material compilado. essa foi a razão pela escolha do tema.

quem eram os vikings, período da Era Viking e crenças

Os vikings foram um povo que viveu na Escandinávia, atuais territórios da Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia e na Groelândia, na época da "Era Viking" eram conhecidos como os homens do norte. Com uma cultura tribal, não homogênea, eram guerreiros, agricultores, pecuaristas, comerciantes, poetas, artesãos e exploradores.

 Ficou estabelecida como a “Era Viking” o período entre o final do século VIII , com a invasão do mosteiro de Lindisfarne em 793 ao X, com a batalha de Hasting, em 25 de setembro de 1066, e a conversão destes ao Cristianismo.

"A era Viking tradicionalmente começa com o celebre ataque ao mosteiro de Lindisfarne, Inglaterra, em 793 d.C. A maioria das incursões dos escandinavos nesse período era totalmente predatória, atos isolados de pirataria nas costas europeias...O fim do período viking em todo o mundo Ocidental coincide com a passagem do paganismo para o cristianismo. Um escandinavo deixa de ser viking quando se tornava cristão, no referencial de Regis Boyer. A conversão definitiva da Islândia (1000) e a batalha de Hastings (1066), tornaram-se os marcos principais do desfecho da mais famosa fase da história nórdica"  ( Langer, 2015, p.165).


A religião desta civilização era politeísta e com uma enorme variedade de seres sobrenaturais, entre deuses, outros espíritos e entidades mais relacionados com a natureza e o ambiente familiar, como protetores e responsáveis pela fertilidade, fecundidade, prosperidade e segurança, como os elfos (álfar), gigantes (jötnar) e anões (dvergar).

Eram dois grupos de deuses, os Aesires (Ases), os mais importantes da Mitologia Nórdica que moravam em Asgard e estavam relacionados à guerra, governantes e ao caos, e os Vanires (Vanes), estes habitavam em Vanaheim e tinham ligação com a natureza, fecundidade e fertilidade.

Os deuses Ases eram 6, Odin, Frigga, Thor, Alomam, Balder e Týr. Cada um com sua função bem definida, os mais reverenciados eram Odin ou Wotan, o Deus supremo, o chefe dos deuses, considerado por Rudolf Simek o mais versátil de todas as deidades,  acumulando as funções de pai, deus da morte da guerra e da vitória, da poesia, das runas e do êxtase e o deus Thor, filho mais velho de Odin, o deus do trovão, o mais forte dos deuses, matador de gigante, guerreiro, carregava consigo Mjölnir, seu poderoso marteloO martelo pode ter sido uma variação do machado, símbolo do raio na Escandinava. Jhonni Langer, 2015. Entre os Vanires os deuses mais importantes eram Freyr, deus da fertilidade, paz e riqueza e Freya a deusa do sexo, beleza, amor, da fertilidade e também como guardiã do mundo doméstico.

A religião nórdica antiga, não tinha uma estrutura eclesiástica, liturgias padronizadas, sacerdotes profissionais, ou seja, não existia uma única religião, organizada e regulada, com dogmas e práticas bem definidos, devido a essa organização alguns pesquisadores preferem adotar o termo Forn Sidr (antiga tradição).

Nesse sentido, a Religião Nórdica Antiga, era representada por práticas religiosas, como rituais, crenças, mitos, bruxaria, magia e xamanismo. Sendo estas bem variáveis, de acordo com a região, classe social e gênero do praticante. A relação com os deuses era bem intimista, próxima e individual. Existiam pouquíssimos templos, e estes eram destinados a um Deus específico, de acordo com a devoção daquela região. Logo, esses rituais aconteciam em suas residências, florestas, salões, cavernas, bosques, lugares altos ou fontes. 

Os rituais que geralmente eram cerimonias de casamento, funeral e enterros, e para fins de fertilidade e fecundidade em épocas de colheita, para bons presságios, sorte nas viagens e na guerra, para cessar a escassez, cura e proteção. Era comum sacrifícios de animais e até de humanos em determinados rituais, que veremos mais a frente.

O uso da magia também era muito comum, ao mesmo tempo que poderia ser usada para fins benevolentes, poderia também causar má sorte, doenças, acidentes, ferimentos e maldições (PRICE, 2002).

A religião escandinava antiga, assim como os deuses que cultuavam, não tinham uma visão bem definida de bem e mal, certo e errado, pecado ou salvação. Acreditavam na vida após a morte e a forma de morrer, determinava seu destino. A finalidade dos guerreiros era ir para Valhalla (salão dos mortos), onde Odin ou Wotan residia em Asgard. Quem morresse em batalha seria levado para Valhalla, pelas Valquírias, do original nórdico valkyrja ( aquela que escolhe os mortos), para aguardar o Ragnarök, o fim do mundo. Lá viviam e festejavam com seus ancestrais.  Devida a essa crença, que os vikings eram tão temidos nos campos de batalha, pois não temiam a morte, já que morrer na guerra era algo muito glorioso.

“Um homem deve ser reticente, refletido e intrépido em batalha; alegre e ativo até a morte”15 BRONDSTED, Johannes. Op. cit., p. 231. .

Figura 1 — Tapeçaria de Bayeux
Tapeçaria de BayeuxRetrata a Guerra de Satmford em 1066, um marco do fim da "Era Viking"


A ESTRUTURA SOCIAL VIKING E AS PRÁTICAS RITUALISTICAS

Como era uma civilização com uma cultura basicamente oral, essas práticas religiosas, eram importantes para reafirmar essas crenças e passar para as gerações seguintes suas tradições, costumes e mentalidade e criar uma percepção de unidade.

As manifestações das religiosidades na Escandinávia durante a Era Viking  constituem-se da somatória das práticas e costumes que denominamos de mito, religião e magia. Para esclarecer um pouco mais, definiremos o mito como a narrativa fantástica que trata da cosmovisão de um povo e conferem sentido a vida; a religião como os ritos públicos edificados na sociedade e que lhe fornece uma identificação coletiva; e a magia como as práticas rituais de cunho doméstico  e cotidiano.  (Menezes, Ricardo, 2016)   

      

Ricardo Menezes, chama a atenção da importância desses rituais para a formação da identidade deste povo. Uma cultura fundamentada pela poesia e contos, que dessa forma massifica sua mitologia e a mantém na memória dos seus descendentes.

Uma civilização com um funcionamento social, voltado para essa cosmovisão, uma junção de práticas e costumes baseados nessa religião que define a sociedade viking, seus códigos e seus valores.

Sua terceira teoria ( Dumézil) é uma inversão das duas primeiras, pois agora Dumézil sustenta que a ideologia determina a representação das relações sociais – as relações sociais são expressões de modos de pensar. Um dos modos de pensar dos indo-europeus é a ideologia tripartida que se manifesta na divisão tripartida da sociedade (sacerdotes, guerreiros e produtores)... a formulação geral desse modelo é a seguinte: a sociedade proto-indo-européia era tripartida, mas essa tripartição desapareceu gradualmente em tempos ainda muito remotos, e é por isso que não encontramos a divisão social tripartida em sociedades arcaicas; porém, outras formas de divisões tripartidas sobreviveram (em mitos, contos, lendas) e são essas as formas que observamos. (Boulhosa, 2006, p.09)


A organização social dos vikings era bem hierarquizada, No topo havia um líder tribal, os  karls, onde sua liderança necessitava estar bem alinhada com os valores de seus ancestrais. Este era responsável pelo planejamento e estratégias para o alcance da vitória nas batalhas, e acumulava o papel de chefe religioso, o rei tinha essa mesma responsabilidade. Abaixo deste estavam os nobres e na sequencia os nórdicos livres, que eram a maioria na sociedade e na base encontravam-se os escravos.

O interior das comunidades era regido por conselhos locais ou assembleias, onde todos os homens livres poderiam participar, chamadas things.

Os homens livres, os jarls, seriam os artesãos, agricultores, guerreiros, comerciantes, poetas e os exploradores, os thrals, os escravos eram pessoas não livres, sequestradas ou tidas como espólio da batalha, era uma parte importante da economia e cultura viking, a exploração e venda desses seres humanos.

A família era a base dessa civilização, dentro desta estrutura o homem tinha o dever da educação, da moral, transmitir sua base cultural e social e de prover a família, além de protege-la e ao seu rei. A mulheres possuíam uma certa liberdade, faziam as tarefas domésticas, teciam, fiavam, faziam as roupas da família e podiam possuir bens, como terras, cultiva-las e praticar o comércio.

Os rituais e práticas religiosas,  como já dito, tinha um papel fundamental para manter a unidade deste povo e reafirmar suas crenças e sua cultura. Essas práticas ritualísticas estavam mais voltadas para os ciclos sazonais, situações de crise e práticas do cotidiano como: batismo, funerais, sagração de terras e templos, juramentos (Lnager, 2004:05)

É o momento de comunicação entre esses seres humanos e as divindades e para obter êxito nessa comunicação, usavam-se referências conhecidas através da mitologia, respeitando as preferências e funções de cada deus.


Os banquetes rituais

No período alto medieval, o conceito público e privado era bem próximo, existia uma relação entre o rei e seus subordinados muito próxima, onde o primeiro tinha como responsabilidade alimentar e proteger o segundo.

Os banquetes eram rituais simbólicos de aproximação, onde se juntavam o rei e todos os guerreiros dessa comunidade para juramentos e demonstrar fidelidade e comprometimento com suas obrigações políticas e militares com este rei, discussões a afirmações de paz.

Eram banquetes regados a muita comida e bebida, forma de manifestar o poder desta administração.

Existia um modelo ritualístico na forma de beber e brindar entre os guerreiros. Ao centro do salão ficava uma grande cuba com a bebida, geralmente hidromel ou Ale (um tipo de cerveja), como simbolismo da produção de hidromel no outro mundoSegundo a Mitologia Nórdica, a bebida preferida dos deuses.. Se enchia um corno com cerveja, ou taça para o vinho, cada um ia bebendo e passando ao guerreiro ao ladoExistia a bebida individual, que era servida em pequenos cornos, mas não era muito comum., de mão em mão em círculos ou em filas sucessivas. Se brindava inicialmente aos deuses, Odin, com o intuito de agradecer a vitória e o poder dos reis, Njord e Frey, para fertilidade nas colheitas e para a paz. Depois ara os parentes falecidos, ao rei  e finalmente para o deus Thor e outros deuses pertinentes àquela tribo, comunidade.

Figura 2 — Banquete no Valhala, Carl Emil Doepler , 1905
Banquete no Valhala, Carl Emil Doepler , 1905Banquete... (2015)

  Festivais sazonais

Esses festivais eram momentos ritualísticos e ocorriam em períodos específicos do ano, de acordo com o calendário solar e lunar. Para os Escandinavos o céu  e os eventos astronômicos eram referência para o calendário, sazonalidade agrícola e orientação para navegação. Geralmente ocorriam em templos, áreas sagradas e habitações. 

Era comum na religiosidade nórdica sacrifícios de seres vivos, o blót, nesses rituais, geralmente, bois, cavalos, ovelhas e porcos. Os sacrifícios humanos eram mais raros, em rituais específicos, estes eram escravos, criminosos e crianças em menor escala.

Essas festas sacrificiais eram a mais importante tradição, dentro da religiosidade Viking. O oficiante do ritual, o Godi, diante da imagem do deus associado àquele ritual,  abatia esses animais e seu sangue era coletado em um recipiente chamado laut-bolli, o altar e as paredes do local onde este acontecia, eram sujas desse sangue e o restante era borrifado no povo que participava desse evento. Cobriam com a gordura destes, algumas imagens de madeira e a carne era cozida e os chifres usados para recipientes de bebidas, utilizados nos banquetes, já citados (Langer, 2015: 76)

Na Escandinávia, as festas sazonais na Era Viking, seriam três principais: Hansblót, no início do inverno ( outono), Midvetrarblót, no meio do inverno e Sumarblót, no início do verão.

 No início do inverno eram realizados sacrifícios (blóts) para a prosperidade, após a colheita da última safra e os animais sacrificados seriam os que não sobreviveriam ao inverno. No meio do inverno, seria no fim do período das noites mais longas, eram blóts para o renascimento da terra e para a abundância nas plantações, durante esse período também se realizava o alfablót, oferecido aos elfose eram presididos por uma mulher e no verão para a vitória, período das partidas dos navios para invasões e pilhagens. ( Tsugami, NEVE, 2018).

Os nórdicos usavam como referência básica do tempo, esse período "meio ano". Por isso a importância dessas marcações temporais e rituais como forma de calendário.

Figura 3 — Midvinterblót
MidvinterblótLarson (1915)

 Kostr : Casamento Viking

 O casamento viking, era um processo divido em dois momentos, primeiro o noivado e depois o matrimonio (brullaup), era uma relação contratual, um acordo entre as famílias, muitas vezes para selar a paz, evitar vinganças e disputas e para fortalecer alianças. 

 A literatura anglo-saxã em registros específicos deste tema germânico, identifica esposas e rainhas como "tecelãs da paz", que através da fertilidade entrelaçavam o sangue de tribos guerreiras, agiam como reféns para sua família dentro do campo inimigo, e procuravam acalmar ódios dentro de sua nova família. ( Medeiros, 2020, p.3)


A intenção geralmente partia do noivo ou de seu pai, que após a aprovação do pai ou guardião da noiva, pagava-se um valor pela noiva (mundr) e após o casamento o responsável pela noiva, pagava o "dote"  (heimanfylgja).  Ambos os valores eram incorporados ao patrimônio da mulher. O consentimento da noiva não era necessário, as viúvas tinham mais liberdade nesse quesito. Após esse tramite, ambos os homens apertavam a mão, selando o acordo e agendavam a data do matrimonio, o dia de maior preferência era a sexta feira, ou o dia de Frigg, a esposa de Odin (“a bem amada”), guardiã do lar, protetora da gravidez e maternidade e dos casamentos.

Era tradicional a produção de hidromel, seis meses antes do casamento, para ser bebido após a celebração, vindo daí o termo "lua de mel".

Esse ritual era celebrado geralmente na residência da família da noiva e tinha caráter legal após o casal ser visto juntos por no mínimo seis testemunhas.  Durante este era comum, que o noivo levantasse uma espada ancestral e declamasse sua linhagem e a sabedoria ancestral.

Ritos funerários

Na Era Viking, na Escandinávia, haviam basicamente dois tipos de funerais, a cremação e a inumação. Em ambas os corpos eram conservados com as roupas usadas no cotidiano e com seus objetos e jóias. Esses funerais eram variados, dependendo da classe social e da comunidade do morto, quanto maior seus bens e seu poder econômico, melhor e em maior quantidade seriam os objetos que seriam colocados junto ao corpo. A cremação era mais comum na parte da Suécia, Finlândia e Noruega. Cremavam em uma grande pira de madeira e após a cremação, em algumas localidades recolhiam os ossos e as jóias em urnas, ou potes de cerâmica, em outras espalham as cinzas no chão ou depositavam em um buraco.

A inumação era mais usual na Dinamarca e nas ilhas de Gotland, na Suécia. E eram mais comum na classe mais alta ou com os estrangeiros do leste europeu. Neste processo abriam um grande buraco no solo, como câmaras, escoradas com madeira e lá era depositado o corpo e seus pertences, inclusive comida, como pães e cerais, pois acreditavam que se vivia nesse túmulo após sua morte. Nas classes mais altas, enterravam junto, inclusive seus cavalos, havia um percentual para os herdeiros e o restante era colocado junto ao corpo. A mais famosa descoberta arqueológica de uma inumação é a Embarcação de Oseberg, encontrada na Noruega em 1904, uma embarcação túmulo de aproximadamente 20 metros de comprimento e cinco de largura. Dentro foi encontrados trenós, roupas, tapeçarias, tecidos, pente, entre outros objetos de uso no dia a dia, além de restos de 15 cavalos, cães e vacas. Foi encontrado também duas ossadas de duas mulheres, especula-se de que uma teria sido sacrificada para acompanhar a outra de maior status social, nessa jornada.

Fotografia 1 — Cabeça esculpida na carroça funerária de Oseberg
Cabeça esculpida na carroça funerária de OsebergHolst

Fotografia 2 — PRIMEIRAS IMAGENS DAS ESCAVAÇÕES O professor Gustafson e sua equipe escavaram cuidadosamente o barco e o retiraram do monte funerário em Oseberg em 1904.
PRIMEIRAS IMAGENS DAS ESCAVAÇÕES O professor Gustafson e sua equipe escavaram cuidadosamente o barco e o retiraram do monte funerário em Oseberg em 1904.Image Collection

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A motivação de pesquisar a importância da religião e suas práticas na cultura Viking é analisar o impacto que esta teve nessa civilização e em outras indiretamente. De entender como se transfere conhecimento e cultura por gerações em uma civilização sem escrita e tecnologia, somente pela força de suas crença

Neste estudo percebemos como a mitologia, rituais e crenças formaram a mentalidade da sociedade Viking da Escandinávia, no período dos séculos VIII ao X,  e construiram uma identidade ímpar a este povo. Se percebe a importância dos rituais e cultos aos deuses que acreditavam, como uma forma importante de preservar suas crenças e culturas, e que eram passados por gerações. Uma comunidade sem cultura escrita, que utilizam desses meios para preservação cultural, além de poemas e contos. 

A Mitologia Nórdica, é riquíssima em personagens, deuses e seres sobrenaturais, cada um com suas funções específicas, e de comportamento bem discutível no mundo moderno, sem um código moral religioso bem estabelecido. Essa religião refletia diretamente em seu povo, que também vivia dentro deste contexto. Apesar de não haver um código moral religioso, possuiam leis civis, que orientavam suas ações e que possuiam penalidades para crimes.

Os deudes Nórdicos, como acreditavam, detinham poderes não só de perdoar e dar grandes bençãos, mas também de castigar e trazer destruição, tragédias e escassez. Por isso as práticas ritualísticas eram tão importantes para essa comuninade. Vimos que é nesse momento que entendiam que havia uma conexão direta com o deus cultuado, um estreitamento de relação, onde as oferendas e as práticas funcionavam para solicitações como, fartura, fertilidade, vitórias, entre outras, mas também para agradecer essas bençãos recebidas. Rituais marcavam os calendários, início e fim, também como forma de pedir e agradecer os ocorridos dentro daquele período específico e suas particularidades.

Dentro da rotina social, existia um sistema de classes bem definido e organizado, onde essa religião e suas práticas  também participavam ativamente em eventos, como casamentos, funerais e na forma que interagiam reis ou líderes tribais com seu povo. 

Nas guerras essas crenças mitológicas eram bem significativas e devido a peculiaridade deste povo, chamou muita  atenção das outras sociedades, pois como tinham uma visão bem única da morte e de sua glória ao acontecer em um campo de batalha para irem para Vahalla, não a temiam, isso influenciava diretamente sua forma de guerrear o que trouxe um estranhamento e um certo medo dos outros povos rivais.

Percebemos que os rituais Vikings como forma de ação, foram importantíssimos para a preservação de sua cultura em um período de tempo, funcionou de forma ativa para criar uma identidade e um sentimento de irmandade deste povo, mesmo sabendo-se que cada tribo possuia um deus mais cultuado ou adorado, não eram uma nação unificada, já que haviam várias tribos e suas características, mas essas crenças os aproximavam e traziam identificação. A Mitologia e suas crenças foi uma forma como se identificavam como semelhantes. Salientando que o termo Viking, só começou a ser utilizado no sentido de definir esse povo, no século XVIII, os Vikings não se auto denominavam desta forma, na época abordada, eram conhecidos como "Os homens do Norte" ou estrangeiros.

 O fim desta era doi marcado pela decisiva Batalha de Hastings (1066) e pela conversão ao Cristianismo, pois no momento em que se convertia, deixava de ser um  Viking. 

 

Fotografia 3 — Upssala, centro de culto na Suécia destruído no século XI
Upssala, centro de culto na Suécia destruído no século XIO autor (2020)

Fotografia 4 — CEMITÉRIO VIKING, EM LINHOLM, DINAMARCA
CEMITÉRIO VIKING, EM LINHOLM, DINAMARCAO autor (2020)



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Vida e sociedade no tempo dos Vikings: Escandinávia -- 800 - 1100 d.C.. Tradução Paulo Emilio Pires. Lisboa: Verbo, 2001. Tradução de: Vida e sociedade no tempo dos Vikings - Escandinávia -- 800 - 1100 d.C..


ANEXO A — Subtitítulo do anexo

Anexos são elementos que dão suporte ao texto, mas que não foram elaborados pelo autor.

feito

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