PSICOTERAPIA INFANTIL:  ILUSTRANDO A IMPORTÂNCIA DO VÍNCULO MATERNO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

UNIVERSIDADE CESUMAR - UNICESUMAR

PSICOTERAPIA INFANTIL ILUSTRANDO A IMPORTÂNCIA DO VÍNCULO MATERNO PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA

MARIENE F. B. VENTURA


                  1. INTRODUÇÃO
Diante da proposta de elaborar um estudo de caso em psicoterapia infantil,  utilizando como referência o caso clínico de uma criança de 8 anos com base na importância do vínculo materno para o seu desenvolvimento, foi constituído o relato da história de vida, bem como, da história clínica da criança em questão. O estudo destes aspectos proporcionou a construção de uma hipótese diagnóstica sobre a qual, posteriormente, foram informadas as técnicas utilizadas e a conclusão do presente trabalho.


                    2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Condições sociais e psicológicas influenciam de forma positiva ou negativa o desenvolvimento da criança, fatores como: o papel da família na estruturação da infância, proporcionando satisfação para as necessidades básicas de saúde, condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento físico e cognitivo, como ainda, uma atmosfera de afeição e segurança associada ao vínculo da criança com a mãe, resultado dos sentimentos e comportamentos da mesma em relação ao filho, que por sua vez, refletem as suas próprias experiências, principalmente aquelas que teve, ou ainda tem com os próprios pais. Partindo destas informações, apresentam-se padrões de relacionamentos parentais que dão origem à forma como ambos os pais vinculam-se ao filho, provendo ou não suas necessidades físicas e emocionais. Desta forma, são expostos conteúdos pertinentes ao fornecimento de uma base segura para o desenvolvimento da criança para que, no futuro, torne-se segura e confiante quanto a si própria.


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Se uma pessoa teve a sorte de crescer em um bom lar comum, ao lado de pais afetivos dos quais pôde contar com apoio incondicional, conforto e proteção, consegue desenvolver estruturas psíquicas suficientemente fortes e seguras para enfrentar as dificuldades da vida cotidiana. Nestas condições, crianças seguramente apegadas aos seis anos são aquelas que tratam seus pais de uma forma relaxada e amigável, estabelecendo com eles uma intimidade de forma fácil e sutil, além de manter com eles um fluxo livre de comunicação." (Bowlby, 1984).


                   3. HISTÓRIA CLÍNICA

Ana, 8 anos de idade, encaminhada ao ambulatório de psicologia infantil por demanda escolar. A queixa sobre a paciente diz respeito ao fato dela estar repetindo a primeira série do primeiro grau, apresentando dificuldades para leitura e escrita, notas baixas, entre outros problemas que resultam no baixo rendimento do aprendizado. A mãe de Ana relata que a paciente tem demonstrado agitação, dificuldades para concentrar-se nas atividades e tarefas escolares, impaciência, intolerância, dificuldades para adequar o sono e hiperatividade. Ana é filha primogênita de Pedro, 28 anos e Paula, 24 anos. Juli, 1 ano e 8 meses de idade, é a irmã mais nova de Ana, segunda filha. Pedro e Paula casaram-se quando Pedro tinha 20 anos e Paula 16. Aos 18 anos, Paula descobriu estar esperando pela filha Ana, sua primeira gravidez. Segundo o relato, a gravidez foi planejada, no entanto, marcada pela ameaça de um aborto ao quinto mês de gestação, quando Paula precisou submeter-se à um tratamento vitamínico e a permanecer em repouso até o nascimento de Ana, durante este período, Pedro responsabilizou-se totalmente pela casa. Paula desejava que o bebê fosse menina, enquanto Pedro desejava um menino, e nos primeiros momentos após Ana ter nascido, ele não se aproximava da filha, contudo, dedicou-se muito aos cuidados com a criança, chegando até mesmo a impedir que os outros se aproximassem dela. Paula passou pela primeira semana do período pós-parto na casa de sua mãe, mas diante dos constantes pedidos de Pedro, retornou ao lar, onde ele passou a cuidar dela e da filha. Quando Ana completava 1 mês e 4 dias de vida, foi hospitalizada devido à uma pneumonia, permanecendo internada por quatro semanas. A mãe diz no relato que "entrouxava tanto a menina, que até tirar a última pecinha de roupa, ela já estava resfriada". Passados alguns meses desta hospitalização, houve a necessidade de retornar ao hospital com a filha Ana, onde a criança teria sido novamente internada, desta vez, por conta de uma desidratação. Diante do problema ocorrido, Paula alega que não tinha conhecimento quanto a alguns cuidados necessários, como dar água ao bebê quando este não era amamentado no peito. Ana não teria sido amamentada no peito, pois segundo Paula, o leite que produzia tinha "cheiro e gosto ruins, gosto de remédio", por conta do tratamento a base de vitaminas pelo qual havia passado no período da gestação. Aos 2 anos, Ana sofreu uma queda onde quebrou o braço, e alguns meses mais tarde, quando estava nas redondezas de onde moravam, a criança quase teria sido atropelada. Quando Ana estava com 3 anos de idade, Pedro perdeu o emprego, e assim, foram despejados do condomínio onde moravam. Foi quando viram-se obrigados a morar no mesmo terreno onde morava a família de Paula, naquela época, composta pelo seu pai, sua mãe, seu irmão de 3 anos de idade (mesma idade de Ana), e ainda seu outro irmão, que assim como ela também era casado. Ana e o seu tio da mesma idade não se davam bem, desta forma, houve a necessidade de trocar o horário que Ana frequentava a escola, já que os dois estudavam na mesma turma e brigavam muito. Sobre o desenvolvimento da linguagem da filha, Paula relata que Ana falou as primeiras palavras aos 6 meses, dizendo "papá" e "oó" (vovó). Ana costumava chamar a mãe de vovó, e apesar dos esforços de Paula para que Ana a chamasse de mãe, ela diz que a criança respondia negativamente em um gesto com a cabeça, dirigindo-se por várias vezes à sua avó chamando-a por mãe (Ana sempre cultivou muito afeto por sua avó). Apesar de Ana ter passado pelo início da sua vida escolar de forma tranquila, a mãe relata que a professora de Ana já vinha reclamando há muito tempo quanto a dificuldade na concentração, inquietude e a resistência da menina diante do desenvolvimento de atividades propostas em classe. Relata ainda que esses comportamentos de Ana haviam se agravado após o nascimento de Juli, sua irmã mais nova. 


                     4. HISTÓRIA DE VIDA

Ana, atualmente, está com 8 anos de idade e é filha primogênita de um jovem casal, Pedro de 28 anos e Paula, 24. Ela é irmã mais velha de Juli, que tem 1 ano e 8 meses de vida. Ana é fruto de uma gravidez planejada pelos pais, da qual a mãe desejava uma menina, enquanto o pai, um menino. Os primeiros meses de vida de Ana foram difíceis — ela passou por uma pneumonia e poucos meses depois, por uma desidratação — segundo a mãe, tais acontecimentos se deram por fatores como a falta de informação quanto à cuidados dos quais a criança necessita quando ainda é bebê. Aos 2 anos de idade, Ana fraturou o braço ao sofrer uma queda e logo após isto, quando andava por perto da onde morava, quase foi atropelada. Quando Ana tinha 3 anos, ela e os pais enfrentaram dificuldades porque o pai havia perdido o emprego e eles foram despejados do condomínio onde moravam, foi quando viram-se obrigados a morar no mesmo terreno em que moravam seus familiares por parte de mãe, entre estes, um tio com a sua mesma idade, com o qual nunca teve uma boa convivência — foi preciso trocar o horário em que Ana frequentava a escola, já que ela e o tio estudavam na mesma classe e brigavam muito. Ana sempre cultivou um afeto especial por sua avó, e muitas vezes enquanto aprendia falar, dirigia-se à ela chamando-a de mãe. Hoje, Ana é uma criança que apresenta alguns problemas de comportamento, aprendizagem e relacionamento com os colegas, mesmo que o início da sua vida escolar tenha acontecido com tranquilidade. 


                      5. HIPÓTESE DIAGNÓSTICA

Durante as sessões de atendimentos realizados em contato com a paciente, foram observados comportamentos impulsivos e hiperativos, considerando a forma rápida como Ana movimentava-se no espaço da sala, não concluía as brincadeiras e mostrava-se impaciente ao realizar tarefas previamente determinadas, como os testes psicológicos. Relata-se que, à princípio, Ana parecia desconfiada e desconfortável em permanecer na sala durante os atendimentos, que foram caracterizados por constantes rituais obsessivos e brincadeiras de "esconde-esconde", em tentativa de controlar a situação, e consequentemente, suas próprias ansiedades e medos internos. Por meio de uma avaliação psicopedagógica, evidenciaram-se dificuldades na alfabetização associadas à características de ansiedade e agitação, influenciando seu processo de aprendizagem e provocando conflitos nas relações com os colegas. Foram realizadas avaliações das áreas percepto-motora e sócio afetiva, indicando baixo nível maturacional, estando compatível com a idade de 5 anos. Outros apontamentos indicaram dificuldades no estabelecimento de relacionamentos interpessoais, caracterizados por excesso de atritos nas relações e pelo afastamento afetivo da figura materna. Como consequência, foi possível identificar um desajuste social e imaturidade (em função de características de egocentrismo, primitivismo e pobreza de impulsos). Dados os resultados apontados pelos testes, a observação dos comportamentos da paciente e a análise sobre sua história de vida, a hipótese diagnóstica é de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Outros elementos relacionados ao vínculo estabelecido entre a criança e os pais, podem servir como hipóteses para justificar os sintomas da paciente. Alguns acontecimentos da história de vida de Ana, apontam para determinada insuficiência de cuidados e afetos dos quais a criança necessita para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. Isto trás a possibilidade de identificar falhas no seu processo primário de estruturação psíquica. É possível relacionar a hiperatividade e impulsividade com a existência de dificuldades nos processos de simbolização, elaboração e identificação. A soma de todos os aspectos falhos da estrutura empobrecida que foi oferecida à criança, resultam em comprometimentos na forma como ela se relaciona com o outro, não havendo sentimentos suficientes de segurança. Há prejuízos quanto a representação psíquica de si própria, e consequentemente, da sua individualidade e própria identidade.


6. TÉCNICAS UTILIZADAS

Foram executadas entrevistas com a mãe, tendo como finalidade a coleta de informações pertinentes à história de vida da paciente, bem como, sessões de atendimentos com a própria paciente, utilizando o teste de avaliação psicométrica Bender e a técnica projetiva H.T.P. Houve também, a necessidade de aplicar uma avaliação psicopedagógica e neurológica devido a demanda de baixo rendimento no aprendizado escolar. 


7. CONCLUSÃO

O estudo do caso Ana, trouxe a possibilidade de ampliar a compreensão referente ao valor do vínculo estabelecido entre a criança e os pais, principalmente com a figura materna. A ilustração do caso mostra percepções muito coerentes quanto a relação do desenvolvimento infantil com a estrutura na qual este desenvolvimento é pautado, revelando por meio do relato sobre os 3 primeiros anos de vida, muitos exemplos de falhas que resultaram em danos psíquicos, os quais foram refletidos nas atitudes, comportamentos e relacionamentos interpessoais da criança. Desta forma, devemos destacar as vivências da criança desde a sua concepção, gestação, nascimento e primeiros anos de vida, como instrumento essencial de análise para construção de hipóteses explicativas quanto às suas características, sintomas, diagnóstico e estratégias para traçar um tratamento adequado às suas necessidades.

Referências

MONDARDO, Anelise Hauschild; VALENTINA, Dóris Della. Psicol. Reflex. Crit., Porto Alegre , v. 11, n. 3, p. 621-630, 1998. . Psicoterapia infantil: ilustrando a importância do vínculo materno para o desenvolvimento da criança.. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79721998000300018&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 29 mar. 2021.

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