MOVIMENTO ANTIVACINA E IMPACTOS SOBRE A SAÚDE COLETIVA

FUNDAÇÃO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO DE BARUERI INSTITUTO TÉCNICO DE BARUERI PROFESSORA MARIA SYLVIA CHALUPPE MELLO

MOVIMENTO ANTIVACINA E IMPACTOS SOBRE A SAÚDE COLETIVA

ANA BEATRIZ DA SILVA RIBEIRO

BEATRIZ RODRIGUES de ALMEIDA

CAIO JUN EGUCHI LEONARDO

DIOVANNA RODRIGUES FAGUNDES

GIOVANNA SILVA MADUREIRa

sUZANI DE JESUS NUNES

RESUMO

A imunização possui grande relevância na existência da sociedade à medida que desempenha melhorias na saúde coletiva de uma dada população, assim como beneficia economia de um determinado país, visto que a expectativa de vida em países que adotam a vacinação têm se elevado e custos relacionados ao tratamento de algumas doenças têm diminuído. Em síntese esta revisão bibliográfica evidencia a importância da imunização e os riscos que uma não adesão ao procedimento pode gerar, como a volta de doenças que outrora foram erradicadas, e esta erradicação se deve ao sucesso que as vacinas desempenham no combate à doenças ocasionadas por microrganismos. E além disso, este trabalho visa expor as correntes filosóficas contrárias à vacinação que geram ideais antivacina. Um dos artigos pioneiros para disseminação desses ideais foi o de Andrew Wakefield, que associava a vacina tríplice viral com o autismo. Em outra vertente surgiram argumentos que criticavam diversos fatores relacionados à composição da vacina, assim como os efeitos que desempenham no organismo.

Ademais, é importante ressaltar que a responsabilidade não é só do governo atuando na divulgação das campanhas e dos órgãos, assim como a população deve se  interessar por questões que dizem respeito  à imunidade coletiva.  Além disso, há o papel dos atuantes da área da saúde, que devem expandir o conhecimentos adquiridos, de forma a compartilhar com a população seus conhecimentos sobres os riscos e benefícios da imunização.  

  Palavras-chave: imunização; movimento antivacina; vacina e erradicação, questão individual e coletiva.


INTRODUÇÃo

A importância da vacina se dá pela proteção ao organismo humano à medida que previne o desenvolvimento de determinadas doenças, consequentemente a possível erradicação das mesmas, por meio de inoculação de microrganismos. Após ser inoculada, ocorre a produção de vários anticorpos específicos para combater o agente infeccioso através da memória imunológica (BALLALAI; BRAVO, 2016). Ainda que existentes os benefícios da imunização, há aqueles que não são adeptos a vacinação, por duvidarem de sua eficácia e segurança (WALDMAN; et al, 2010).

Um dos motivos mais conhecidos para o movimento antivacina se alastrar foi devido a um estudo feito pelo médico britânico Andrew Wakefield, onde dizia que existia um vínculo entre o autismo e a vacina tríplice viral. Sua proposta não possuía sequer algum embasamento, bem como não teve o consentimento do Conselho Médico do Reino Unido para colocar em prática os ensaios clínicos, ainda que tivesse sido publicada pela respeitada revista científica “The Lancet” (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).

 Os ativistas antivacinas estão generalizando o falso ocorrido para todas e quaisquer vacinas, não apenas de tríplice viral. Além do mais, a autora Eula Biss inclui valores culturais e filosóficos para o movimento antivacina, que integra a persistência na individualidade de escolha e opção sobre o que é melhor para si e para os filhos. Autoridades sanitárias mundiais se inquietam pelo fato dessas questões não serem apenas individuais, mas de saúde pública. Portanto, há diversos argumentos utilizados para justificar a recusa vacinal, sendo que o mais conhecido deles é a ligação do autismo com a vacina tríplice viral (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).

A recusa vacinal no Brasil não é totalmente relacionada ao movimento antivacina, mas também pela falta de percepção de riscos pela população de que não há necessidade de se imunizar contra doenças que já foram erradicadas (RICHTAMANN; LEVI, 2019).

Atualmente existem inúmeros tipos de vacinas criadas para combater doenças, causadas por vírus e bactérias. Esse recurso teve sua origem no ano de 1796, ao ser descoberta por Edward Jenner, médico inglês que realizou suas pesquisas em Bristol, focando seus experimentos à varíola, doença bastante temida da época (ALBERTO, 2009).

Criada há pouco mais de dois séculos e na atualidade, de acordo com a OMS, estima-se que de 2 a 3 milhões de mortes sejam evitadas a cada ano pela vacinação, e garante que as vacinas possibilitem resultado de prevenção a baixo custo, quando comparada com outras medidas, o que é muito importante para países sem condições para diagnósticos e tratamentos de doenças (BRAVO; CUNHA; MOURA, 2019).

Consideramos então o debate aberto sobre esse tema, com o objetivo de alertar sobre a prevenção de epidemias para tentar garantir a saúde e o bem-estar da sociedade. Do mesmo modo investigar sobre os riscos do movimento antivacina, para entender se se trata de uma questão individual, coletiva e/ou de saúde pública, e por isso a tamanha importância de levantar também a relevância do conhecimento das propriedades vacinais, bem como seus benefícios e a necessidade da conscientização da população sobre o uso adequado das vacinas. 

METODOLOGIA

A pesquisa foi confeccionada de modo a explicar o movimento antivacina e suas problemáticas, além investigar se a imunização é um aspecto de decisão individual, social ou de saúde pública. Esse estudo foi realizado por meio de revisões bibliográficas, baseadas em artigos científicos, a fim de apresentar resultados que comprovem a falta de embasamento diante do movimento antivacina. A revisão bibliográfica dispõe de artigos em português, publicados entre 2000-2019, utilizando dos sites Scielo, Google Acadêmico, SBim e a revista “Os riscos de não vacinar” do Scientific American Brasil. 

REVISÃO DE LITERATURA

VACINA

De acordo com o Programa Nacional de Vacinação em Portugal, vacinas são medicamentos com mais de 200 anos, que previnem doenças infecciosas causadas por vírus ou bactérias. A vacina prepara o corpo contra doenças infecciosas estimulando o reconhecimento do agente invasor e a produção de anticorpos no sistema imunológico, gerando a eliminação do patógeno (CABRAL; PITA, 2015).

 Segundo a OMS, a imunização é a principal parte do sistema de saúde para a população, pois oferece um ponto de contato no início da vida e dá a todas as crianças a oportunidade de terem uma vida saudável. A efetividade e o cuidado em assegurar que as vacinas não causassem danos à saúde, foram fatores que possibilitaram a obrigatoriedade desse método, desde a década de 70 com a criação do Programa Nacional de Imunização (PNI) (WALDMAN; et al, 2010).

O principal objetivo da vacinação é prevenir o desenvolvimento do quadro clínico, alcançando um nível de imunidade elevado na população, obtendo o controle ou eliminação de determinada virose, trazendo também uma imunidade indireta, pois quem não se vacinou fica protegido pela baixa circulação do vírus na comunidade, este fenômeno é também conhecido como efeito rebanho. Assim a vacinação não apenas protege aqueles que utilizaram da vacina, mas também auxilia a população num todo. Quanto maior o número de pessoas vacinadas, maior é o nível de proteção e menor é a chance de qualquer uma delas – vacinada ou não – ficar doente (TOSCANO; KOSIM, 2003).  

 Em média cerca de 116 milhões de crianças de todo o planeta tem acesso as vacinas básicas. Além disso, as vacinas também garantem a prevenção de doenças nos animais domésticos, bem como nos suínos, bovinos e ovinos, considerando que os surtos em animais também trazem consequências, já que os produtos vindos de animais infectados podem estar contaminados (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).  

No Brasil, as vacinações básicas para as viroses incluem sarampo, caxumba, poliomielite, rubéola, hepatite A e B, febre amarela e a varicela. Cada estado possui um centro de vacinações especiais para atender por exemplo, pessoas imunodeprimidas que devem ser vacinadas com vacinas inativadas. O Ministério da Saúde desenvolveu um calendário Nacional de Vacinação para guiar as pessoas na hora de se imunizar, visando atender as pessoas de grupos específicos, sendo eles divididos por prematuros, crianças, adolescentes, mulheres, homens, idosos, gestantes, grupos indígenas, ocupacionais e para animais domésticos (TOSCANO; KOSIM, 2003).

É importante ressaltar que tais calendários são desenvolvidos considerando aspectos individuais de cada grupo, como perfil epidemiológico das doenças regionais, hábitos, deslocamento da população e condições de infraestrutura disponíveis, além das diferentes características fisiológicas (FEIJÓ; CUNHA; KREBS, 2006). 

DESCOBERTA DA VACINA E VACINA NO MUNDO

A varíola foi uma doença muito temida que acompanhou a humanidade durante séculos, causando lesões irreversíveis e muitas mortes. É estimado que na Europa no século XVIII, o número de vítimas dessa doença tenha chegado a sessenta milhões (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Mesmo tendo se espalhado mundialmente, a varíola foi a primeira doença a ser extinta da Terra (REZENDE, 2009).  

Até o final do século XVIII não havia métodos funcionais para prevenir as doenças infecciosas, até que Edward Jenner concebe a descoberta da vacina, por meio de observações em épocas de surtos de varíola, em que um número significante de pessoas se mostravam imunes à varíola, onde todos que eram encarregados de ordenhar vacas, que geralmente estavam contaminados com a varíola bovina, também denominada cowpox (Cow = vaca; Pox = varíola), e as mesmas ficavam imunes à varíola na forma humana. Foi por meio dessa observação que Jenner passou a fazer experimentos para testar a vacina (APS; et al, 2018).  

Em 14 de maio de 1726, Jenner introduz o vírus em um menino chamado James Phipps, de 8 anos de idade, com o pus retirado da pústula de uma vaca, ou seja, inseriu o vírus da cowpox. Phipps contraiu a doença de forma plácida, mas logo foi curado. Após um período, injetou no mesmo garoto o mesmo liquido extraído de uma ferida de varíola humana e o garoto não desenvolveu a doença, estando agora imune a ela. Desde então Jenner começa a imunizar crianças, seguindo o mesmo método utilizado com Phipps (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).

Assim surge a primeira vacina que se tem registro, a antivaríola. E nesta data fica o marco da descoberta e da criação da palavra vacina que tem sua origem do latim vaccinus, “que diz respeito à vaca”. Em 1798, Jenner divulgou suas pesquisas na obra “Um Inquérito sobre as Causas da Vacina da Varíola”. Sua pesquisa não teve tanta polêmica igual a outras descobertas científicas, contudo sofreu muita resistência e enfrentou a classe média que demonstrava ceticismo e grupos religiosos que defendiam sobre o risco da degeneração humana pela contaminação do material bovino. A vacina conquistou a Inglaterra e assim, em 1802 foi criado em Londres o primeiro instituto vacínico (BRASIL, 2012 ).

 Em 1804, Marquês de Barbacena custeou sete escravos à Europa, para que fossem inoculados com o pus vacínico e trouxessem a vacina antivariólica para o Brasil. Com tal ato, em 1820, já haviam institutos vacínicos em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com o intuito de propagar a imunização. A vacina volta a ser descentralizada, em 1886, quando o Instituto Vacínico do Império é extinto, por conta de mudanças no Brasil que passa ser republicano e então Barão de Pedro Affonso cria, em 1894 o Instituto Vacínico Municipal, voltando a estudar e a propagar a vacinação (HENSEN, 2000).  

Houve uma epidemia de Varíola no Rio de Janeiro, em 1904, sendo aprovada a lei de obrigatoriedade da vacina e teve como consequência a Revolta da Vacina, levando a capital a anunciar estado de sítio e suspendendo a lei. De 1920 a 1980, vacinas como de BCG e febre amarela, são introduzidas no Brasil, assim como campanhas e programas de imunização são criados para ampliar a taxa de vacinação (ZYGBAND, 2017).

Fiocruz lança o primeiro lote de vacina contra sarampo, e em 1984 inicia-se a vacinação de poliomielite, sarampo, difteria, coqueluche e tétano, em crianças. Em 1986 teve a criação do personagem Zé gotinha, para a campanha de vacinação contra poliomielite, que foi bem aceito pela população levando a erradicação da doença em 1989. Entre 1990 e 2000, houve a implantação de vacinas de tríplice viral, meningite e hepatite-B, além de campanhas contra sarampo, hepatite B, tétano neonatal e vacinação para terceira idade (ZYGBAND, 2017).

 Com a efetividade das vacinas para a erradicação de diversas doenças, o anseio por uma alta cobertura vacinal aumentou, com isso houve a necessidade de expandir os calendários de vacinação para uma maior abrangência de diversos grupos distintos de pessoas, assim no ano de 2000 ocorreu a concretização do calendário básico de vacinação para as comunidades Indígenas do Brasil, disponibilizado pelo PNI e atualmente são ofertadas 14 vacinas (WENCZENOVICZ, 2018).  

Dentre essas 14 vacinas, em 2001 a vacina duplo adulto (dT) passou a ser indicada principalmente para as mulheres em idade fértil (12 a 49 anos), com o objetivo de tentar diminuir os casos de tétano neonatal. Ainda em busca do crescimento da cobertura vacinal, em 2002 foi implantada uma campanha nacional de vacinação contra a rubéola, dirigida às mulheres, o intuito dessa campanha foi alcançar a erradicação da SRC (Síndrome da Rubéola Congênita) no Brasil (SCLIAR, 2003).  

A partir de 2006 foi instituído o ‘’Dia Nacional de Prevenção da Catapora’’, visando promover uma conscientização da população sobre a importância da vacina varicela. Logo após no ano de 2008, a Campanha Nacional de Vacinação Contra a Rubéola teve grande importância e um eficaz impacto para o controle dos casos das imu; DUTRA, 2010). Essas doenças permaneceram devidamente controladas, até que no ano de 2009 outra doença surge, trazendo novamente a necessidade de uma extensa cobertura vacinal. Esse ano foi marcado pelo aparecimento da pandemia de Influenza A (H1N1), que estava circulando por diversos lugares do mundo, logo deu-se início a estratégias para contenção da doença, com a instalação de diagnósticos, tratamentos e isolamento (MILANESI; CAREGNATO; WACHHOLZ, 2011).

Entre os anos de 2010 a 2017, houve ampliações na taxa de vacinação de influenza, hepatite B e sarampo, implantação da vacina inativada contra poliomielite e de HPV para meninas a partir de 9 anos, assegurando a imunização de muitos (ZYGBAND, 2017).  

 OBRIGATORIEDADE E CAMPANHAS DE VACINAÇÃO 

As instituições que mais atuam nas campanhas de imunização global são Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a OMS (Organização Mundial da Saúde). A Unicef consegue a redução dos preços internacionais das vacinas e a OMS planeja os programas globais de vacinação, como a poliomielite e a do sarampo. Temos também instituições não governamentais atuando de forma positiva na globalização e disseminação da vacina, como por exemplo a GAVI (Global Alliance for Vaccine and Immunization), que foi criada em 2000 e já atuou fortalecendo os programas de vacinação nos 72 países mais subdesenvolvidos do mundo, acelerando a introdução de novas vacinas, melhorando o sistema de saúde e vacinação nos países e introduzindo novas tecnologias para a imunização (HOMMA; et al, 2011).

O decreto Nº 78.231, de 12 de agosto de 1976, determina nos seus artigos que vacinas determinadas pelo Ministério da Saúde serão obrigatórias em território nacional e que as mesmas serão de responsabilidade da rede de serviços de saúde (BRASIL, 1976).  

Por mais que tenha uma parcela da população que critique tal decreto, a vacinação além de trazer benefícios a saúde pública, também traz um grande impacto econômico. De acordo com os pesquisadores da Johns Hopkins University, em países de baixa e média renda, para o período de 2011-2020, a cada US$ 1 investido em vacinas, US$ 16 deixarão de ser gastos com as enfermidades e suas consequências (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).

Com a epidemia da varíola no século XX, diversos países se encontraram na necessidade de criar campanhas que estimulassem a vacinação, promovendo a erradicação do seu vírus. Este processo no Brasil se deu por volta de 1966 a 1973 e podemos dizer que essa cultura está associada a um longo processo de introdução de vacinas, campanhas de vacinação e de vacinação em massa empreendidas pelo Estado brasileiro desde o final do século XIX (HOCHMAN; MODELLI, 2011).

As campanhas de imunização atuam desde o surgimento das vacinas e vem passando por um processo de aperfeiçoamento, como uma importante ferramenta para a diminuição do número de mortos e portadores de doenças e sequelas ocasionadas devido à baixa imunização. No ano de 1961 iniciou-se no Brasil a produção da vacina contra varíola junto das primeiras campanhas da vacina oral contra poliomielite, sendo criado em 1986 o personagem Zé Gotinha, considerado o símbolo da vacina, e como

“[…] referencial para a população, em termos de métodos de prevenção, principalmente os referentes às doenças evitáveis por vacinação…a proposta da marca englobaria, além da vacinação, as demais ações básicas de saúde da criança: crescimento e desenvolvimento, reidratação oral, aleitamento materno” (BRASIL, 1988).

Com a ajuda do personagem em 1989, ocorreu o último caso da doença no Brasil (NASCIMENTO, 2010).

No Brasil, as estratégias utilizadas para influenciar a vacinação da população tem atingido uma alta eficiência e servido como influência e inspiração para inciativas em outros países. As campanhas contra a varíola e poliomielite, demonstram que os programas de cobertura vacinal oferecidos e coordenados pelo Ministério da Saúde apresentam resultados positivos (PONTE; PÔRTO, 2003). O Brasil ganha valorização das vacinas, sendo exemplo mundial de organização de campanhas de imunização nacional, com a participação da sociedade, além da produção de vacinas de qualidade (SCHATZMAYR, 2003).  

PRODUÇÃO DA VACINA  

Os processos de pesquisa e desenvolvimento de uma vacina abrangem estágios investigativos e pré-clínicos/clínico, assim como qualquer outro produto farmacêutico. A vacina é um produto de origem biológica e de função preventiva, por isso existem aspectos únicos e específicos dentro de suas etapas de produção. O estágio de exploração inclui etapas de descobrimento, escolha de antígenos, a seleção de um agente alvo, resposta esperada e modo de administração. Uma vez que todas essas etapas estejam decididas e os antígenos a serem utilizados estejam definidos(LANDIM; et al, 2011).  

Para a produção de uma nova vacina, é necessário que o estudo passe por ensaios pré-clínicos, onde são feitos os testes em células humanas e em animais, com a finalidade de certificar a segurança no uso do antígeno e garantir que em seu produto final terá capacidade de exercer uma função eficaz ao entrar em contato com o sistema imunológico.

O estágio de testes clínicos das vacinas é um dos mais importantes, nesse estágio a quantidade de pessoas necessárias para realização de testes é muito grande, podendo chegar até a 40 mil indivíduos em alguns casos, além da quantia, os indivíduos devem ser sadios. Uma grande parte das vacinas são especialmente direcionadas às crianças, por isso os testes e os demais procedimentos são avaliados e fiscalizados a todo instante, buscando com isso, a aprovação dos protocolos em relação a segurança e aos benefícios do produto (BUCKLAND, 2005).

Os estágios clínicos envolvem 4 fases: a primeira é feita para avaliar a segurança e a tolerância da vacina em um pequeno grupo de indivíduos sadios, verificando se é benéfico para o ser humano. Após a primeira fase ser bem-sucedida, começa a segunda etapa, que é onde é realizado teste em um grupo maior de indivíduos portadores da patologia para verificar a sua aplicabilidade e eficácia. Se os resultados da segunda fase foram positivos, inicia-se a terceira etapa, que pode envolver milhares de pessoas de vários países. A terceira fase determina os riscos e benefícios da vacina, enquanto a quarta etapa é quando o produto já é disponibilizado no mercado (QUENTAL; FILHO, 2005). 

A empresa que está produzindo a vacina divulga o projeto ao público para informar que estão aceitando voluntários para testes experimentais. A pessoa se voluntaria por livre e espontânea vontade, podendo sair durante o processo. De acordo com Alexander Precioso, “O voluntário é o elemento principal para confirmar se uma vacina funciona”. Os voluntariados passam por um monitoramento de até 5 anos, podendo ter riscos durante o processo e além disso, assinam um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para que o voluntario possa se manifestar de forma autônoma, consciente, livre e esclarecida (MARTINS, 2018). 

Vacina no organismo 

O sistema imunológico de uma pessoa começa a se formar na fase de gestação, quando a mãe passa os anticorpos para o filho através da placenta. Após o nascimento da criança, o bebê recebe os anticorpos através do leite materno. O sangue do bebê contém leucócitos produzidos na medula óssea que atuam na imunização do corpo e são subdivididos em granulócitos (neutrófilo, eosinófilo e basófilo) e agranulócitos (monócito, linfócito e células dendríticas) (ALBERTO,  2009).   

O objetivo da resposta imunológica é limitar e impedir a entrada do invasor ou uma vez que ele entrar, matá-lo. O sistema imune é dividido em duas partes, que caracterizam dois tipos de respostas: a imunidade inata ou natural e a imunidade adquirida ou adaptativa (CANHAS, 2011).

A resposta imune inata, por sua vez, faz sua defesa imunológica por meio de duas divisões: a primeira e a segunda barreira, responsáveis pela proteção e pelo reconhecimento das substâncias e dos microrganismos estranhos que conseguiram passar pela primeira barreira, respectivamente. E assim destruí-los através de células fagocitárias; substâncias microbianas; linfócitos naturais killer e também pelos mecanismos de febre e inflamação. E é valido salientar que esta é uma resposta de defesa, na qual o ser humano já nasce  (CANHAS, 2011).

Uma vez que um microrganismo denominado “estranho” entra no corpo, células fagocitárias são enviadas para o local onde houve o reconhecimento desse microrganismo e há nesse momento a fagocitose e fragmentação do mesmo. A fragmentação ou mesmo o microrganismo inteiro são chamados de antígenos. Esses antígenos são muito importantes para a comunicação do sistema que gera imunidade e ainda serão responsáveis por avisar que há uma infecção por algum microrganismo e assim serão acionados os mecanismos da resposta imune adquirida (SCIENTIFIC AMERICAN,2019).

A resposta imune adaptativa, ao contrário da resposta imune inata, é mais específica e é adquirida à medida que ocorrem exposições a determinados microrganismos, que podem ser através de infecções ou vacinação. E essa imunidade aumenta em função de cada exposição sucessiva de um mesmo microrganismo. Quando essa exposição secundária ocorre, é chamada de resposta de memória, que é melhor em grau de intensidade (CANHAS, 2011).

A reposta imune adaptativa é dividida em duas: resposta humoral e resposta celular, ambas têm a função de fazer o reconhecimento dos antígenos, ativar células imunes, que vão através de vários mecanismos, neutralizar os antígenos e eliminá-los por meio de células efetoras e de memória. A diferença entre as duas é que a resposta humoral é mediada pelos linfócitos B, responsáveis por produzir anticorpos que se localizam no sangue e nas secreções das mucosas, que vão combater esses antígenos que estão extracelularmente. Por sua vez, a resposta celular é mediada pelos linfócitos T, que são responsáveis por matar vírus e bactérias que não podem ser alcançados intracelularmente por outras células circulantes. Além de que, esses linfócitos necessitam de uma apresentação específica de antígenos que é proporcionada pelas células apresentadoras de antígenos (APC´s) .Tanto as células B, também conhecidas como linfócitos B, quanto os linfócitos T, são células exclusivas da resposta imune adquirida (CANHAS, 2011).

A resposta imune adquirida pode ainda ser dividida em passiva e ativa. A imunidade ativa é aquela que resulta da vacinação que induz a exposição artificial a um antígeno, ou através do desenvolvimento natural de uma infecção/doença, e tem longa duração. Já a imunidade passiva é caracteriza por gerar uma imunização sem que haja a necessidade de exposição a um antígeno, feita por meio de transferência de anticorpos específicos, normalmente contidos em soros, quando é uma imunidade artificial. Além de poder ser transferida também da mãe para o feto, por transferência placentária de imunoglobulina G e transferência de colostro de imunoglobulina A, estas caracterizam uma imunidade passiva natural (CANHAS,2011).

TIPOS DE VACINAS  

A imunização ativa obtida por meio das vacinas possui o objetivo de estimular o hospedeiro a produzir uma resposta imune primária, geralmente influenciando a proliferação de células B, a resposta de anticorpos e a sensibilização de células. A proteção oferecida pelas vacinas é resultado de um processo imunológico no qual o organismo humano detecta uma substância como estranha para então começar o processo de metabolização, neutralização e/ou eliminação (CORRER, SOUZA, 2016). 

 

Vacinas atenuadas

Essas vacinas são caracterizadas por apresentar em sua composição microrganismos vivos. O ideal seria que todas as vacinas fizessem o uso somente de microrganismos mortos, porém alguns microrganismos causadores de doenças, em seu estado morto não são capazes de gerar a produção dos anticorpos. Nesses casos é feita a utilização de microrganismos vivos atenuados, ou seja, enfraquecidos e incapazes de causar malefícios à saúde, o agente permanece vivo e multiplica-se no hospedeiro, gerando uma infecção similar à natural, e assim oferecendo uma proteção mais completa e duradoura, ou seja com menor número de doses, fazendo com que uma a duas doses administradas ao longo dos anos seja suficiente. Exemplos de vacinas desse tipo são as contra sarampo, catapora, varíola, caxumba, rubéola, e febre amarela (YARAK, 2017). O uso desse tipo de vacina deve ser administrado somente em pacientes sadios para que não apresente riscos, não devem ser administradas em gestantes, imunossuprimidos, pessoas com AIDS, pacientes em uso de drogas imunossupressoras e pacientes que estejam fazendo quimioterapia, pois certamente a imunidade dos mesmos será de nível baixo (BRASIL, 2015). 

Vacinas inativadas

As vacinas inativadas são aquelas feitas a partir de microrganismos mortos ou partes do mesmo. Essas vacinas são consideradas mais seguras, podendo ser administradas a gestantes ou imunossuprimidos, porém não promove uma alta eficácia como as outras, sendo assim necessário a aplicação de outras demais doses, para uma proteção de longo prazo. Nestes casos os microrganismos são cultivados em laboratório e não há a necessidade de expor o vírus inteiro ao organismo, uma vez que apenas uma proteína do mesmo é capaz de fazer com que o sistema imune reconheça essa parte como algo estranho, sendo assim, é feita a produção dos anticorpos e a criação de uma memória. Alguns exemplos de vacinas com vírus ou bactérias inativos são as vacinas contra coléra, raiva, influenza, hepatite A e as vacinas feitas a partir de partes dos microrganismos são as contra hepatite B e meningite (BRASIL, 2015).  

Vacinas conjugadas

Vacinas Conjugadas: São aquelas em que se unem, por exemplo, componentes proteicos, que são imunologicamente mais potentes a um polissacarídeo que é imunologicamente menos potente. Isso é feito, pois polissacarídeos estimulam pouco o sistema imune do hospedeiro assim com tal união ele passa a ter uma potência que antes não possuía, gerando uma melhor resposta imunológica. Como por exemplo, vacinas contra o hemófilo, contra o pneumococo e contra o meningococo C (CORRER, SOUZA, 2016). 

Vacinas combinadas

São aquelas compostas por antígenos de mais de um microrganismo, ou seja, num mesmo fraco contém várias vacinas diferentes como é o caso da vacina tríplice viral contra o sarampo, caxumba e rubéola, e a vacina tríplice bacteriana contra difteria, tétano e coqueluche. Podem ser misturadas também na hora da aplicação, conforme as orientações específicas do laboratório que produziu, como por exemplo, a vacina tetravalente (CORRER, SOUZA, 2016).

A ÉTICA E A IMUNIDADE COLETIVA 

Devido ao efeito biológico que a imunidade de grupo exerce, há uma redução da incidência e da taxa de transmissão de doenças em uma dada população, desse modo a vacinação protege também aqueles que não se vacinaram. Logo, quando a maioria da população está imunizada a disseminação de doenças infecciosas é controlada (IRIART, 2017).

Ao levarmos este conceito para o campo da ética, percebemos que é de suma importância para determinados grupos da sociedade, grupos estes que por algum motivo não podem fazer o uso de determinadas vacinas, o que o acarreta na sua não imunização, levando estas pessoas a ficarem propensas a contrair algumas doenças (IRIART, 2017).

Pacientes oncológicos fazem parte dos grupos que não podem se imunizar com certas vacinas, mais especificamente as chamadas vacinas atenuadas (contra sarampo, rubéola, varicela, febre amarela, herpes zoster, poliomielite, rotavírus e BCG). O oncologista Fernando Maluf explica (2018):

 “[…]Como o paciente com câncer é um paciente no qual o sistema imunológico está “fraco”, devido a presença do câncer que debilita as energias do organismo, o uso de vacinas atenuadas pode implicar em risco de desenvolvimento de doença. Assim, toda vacina atenuada não deve ser aplicada em pacientes com câncer”

         Já as vacinas inativadas e as vacinas toxoides (hepatite A e B, HPV, alguns subtipos de influenza e pneumonia) podem fazer parte da imunização desses pacientes, desde que o paciente não esteja fazendo quimioterapia. A partir do momento em que se inicia o tratamento quimioterápico, essas vacinas não poderão ser tomadas. Enfatiza o oncologista Fernando Maluf (2018):

 “[…]É preciso lembrar que pacientes em quimioterapia a imunidade pode ficar muito baixa, suscetíveis a infecções fatais por microrganismos que vivem em nosso próprio corpo, incapazes de formar uma reposta ou memória imunológica. Por isso, em pacientes fazendo quimioterapia, não devemos aplicar qualquer vacina”

Doenças graves como a febre amarela em determinadas épocas, ganham um avanço no risco e então ocorrem as epidemias do vírus. Embora o governo federal realize campanhas de vacinação em áreas de concentração da doença, ainda há o risco de contaminação, principalmente nos grupos de gestantes, idosos, crianças que ainda não atingiram a idade para tomar certas vacinas, pessoas em quimioterapia e em determinados tratamentos de saúde, e não podem receber a imunização, por causa dos riscos de reações graves (GUIMARÃES, 2018).

De acordo com o Centro de Controle de Prevenção de Doenças, dos EUA, a vacina para febre amarela é altamente segura assim em condições normais o vírus inoculado da vacina irá provocar as células de defesa e estimular a produção de anticorpos. Porém, em determinados grupos de pacientes, como os que possuem o sistema imunológico debilitado ou os que apresentam alguma alergia a elementos do ovo, a imunização pode trazer problemas graves, já que há o risco do vírus atenuado se multiplicar e causar reações adversas (GUIMARÃES, 2018).

Quando há aumento de casos de doenças como a febre amarela, o paciente oncológico deve se proteger não indo às áreas de risco e usando repelente. Por isso, é importante que maioria da população se imunize, para que estes grupos não venham contrair as doenças (MALUF, 2018). 

   

MOVIMENTO ANTIVACINA  

Após a criação da vacina, as críticas vinham de vários setores da população, onde os pais recusavam o uso da linfa infectada pela versão bovina do vírus da varíola, para a proteção de seus filhos. A igreja acreditava que pela origem do animal, a criação de Jenner “não era cristã”. A tensão social na época focava na obrigatoriedade da vacinação que ia contra as liberdades individuais, segundo a população. A obrigatoriedade de vacinação, previa punição aos pais que não vacinassem seus filhos, com isso surgiu na Inglaterra pessoas que faziam parte do movimento chamado atualmente como antivacina. O movimento tomou tanta proporção que, em 1885 em Leicester, 100 mil pessoas fizeram uma marcha contra a vacinação com um caixão de uma criança. Autoridades inglesas recuaram retirando as penalidades previstas nas leis de obrigatoriedade (TAKATA; GIGARGI, 2014).  

  Apesar de ser comprovado que as vacinas evitam milhões de mortes por ano, aumentando a expectativa de vida da população e mostrando ter um grande impacto na saúde, a aceitação das vacinas ainda não é universal (MIZUTA et al, 2018).  

Contudo, para que possam ter o resultado esperado atingindo seu potencial em saúde pública, é de extrema importância que sejam aceitas em larga escala e que ganhem a confiança de seu público-alvo, para que tenha seu uso ampliado e adequado (SUCCI, 2018). Para a aplicação da vacina em larga escala, é necessário verificar sua eficácia diversas vezes, mas com a falta de imunização pode ocorrer propagação e contaminação de epidemias, assim como a erradicação pode ocorrer com a devida vacinação. As pessoas que optam por ter uma imunidade naturalmente, adquirem a doença podendo não resistir aos sintomas e então provocando o óbito, pois o corpo demora dias para que os anticorpos sejam produzidos (SCHAFER et al, 2019).  

Mesmo com vantagens sociais (evitar enfermidades) e econômicas (priorizar investimento mais barato e poupar nos tratamentos caros), a imunização pode gerar efeitos que aumentam a desconfiança na efetividade da vacina na vida de pessoas com baixo acesso a informações. Sintomas como febre e dor na região de aplicação são chamados de efeitos adversos e com isso um grande número de brasileiros evita o procedimento (BEZERRA, 2018). Muitos especialistas acreditam que o debate sobre o movimento antivacina tenha ganhado força a partir de 1982, quando um documentário chamado DPT: Vaccine Roulette associou a vacina tríplice bacteriana, contra difteria, tétano e coqueluche, a inflamações crônicas cerebrais (SAMORANO, 2015).

 Os argumentos utilizados pelos grupos antivacinas não tiveram grandes mudanças nos últimos dois séculos e esses questionamentos sobre a necessidade das vacinas, somada a falta de confiança pode vir a ocasionar cada vez mais uma queda das coberturas vacinais trazendo graves consequências (SUCCI, 2018).

Foi possível analisar que pais que vacinam seus filhos desconhecem a lei que obriga a imunização, e afirmam que o ato de vacinar tem relação com um costume familiar e cultural da vacina. Já os que não vacinam são cientes em relação a obrigatoriedade da vacina, optando por não vacinar por crenças pessoais. Entretanto, a decisão do indivíduo de não se imunizar não irá trazer danos só a ele e sim à população, tendo uma diminuição da imunização da população e podendo ocasionar surtos de infecções (NASSARALLA et al, 2019).

Cobertura vacinal Brasil x Europa

Na Europa o movimento antivacina, ganhou força com o artigo de Andrew Wakefield, onde dizia que a vacina tinha relação com o autismo e ganhou mais força com o artigo em que relacionava a timerosal (substância contida na vacina da época) com autismo. Com isso, a vacinação compulsória causou revolta para a população que defendia seu direito de escolha (HARTMANN, 2016). Em alguns países da Europa, as campanhas não tem se tornado suficiente, pois o ceticismo em relação a eficácia da vacina é enorme, uma estratégia adotada foi a adoção do calendário vacinal em dia como um dos documentos necessários para a matrícula escolar. Ao contrário do Brasil, onde tal medida seria um problema para a educação (LEVI, 2019).

“{…} Minha opinião é de que, num país como o nosso, recusar a matrícula de uma criança na escola porque ela não está com as vacinas em dia é algo muito ruim. O acesso à educação aqui é lamentável e não há por que torná-lo mais difícil”(LEVI, 2016).
  

Universidades internacionais uniram-se para estudar países com amostra de cerca de 1000 pessoas. De acordo com esse estudo a Europa tinha sete entre as dez principais populações de recusa a vacina, só os Franceses eram 300 vezes a média internacional. Em contra partida ao movimento antivacina, a França teve o maior surto de sarampo da década, com mais de 22.000 casos registrados (KRISCH, 2016).

O Rio de Janeiro, enfrentou a Revolta da Vacina em 1904 e a principal causa foi a tão temida obrigatoriedade da vacina contra varíola. A população na época era leiga no quesito vacina, portanto a revolta era contra a imposição da mesma, por afirmarem que seus direitos de liberdade estavam sendo corrompidos (LEVI, 2016).

 Atualmente o Brasil é um dos países com maior cobertura vacinal do mundo, tendo o PNI como referência, já que oferece todas as vacinas, gratuitamente, recomendadas pela OMS (AGUÍAR, PIMENTEL, 2019). Porém, mesmo com as vacinas sendo oferecidas gratuitamente, a taxa de recusa vacinal tem aumentado no país, não apenas pelo movimento antivacina, que é pequeno no Brasil, mas sim porque há uma percepção da população de que não há necessidade de se imunizar contra doenças que já foram erradicadas, sendo então a vacina vítima de seu próprio sucesso. Muitas vezes a sociedade espera por um óbito de uma determinada doença, e então formam-se filas nos postos de saúde para a prevenção (RICHTAMANN; LEVI, 2019).

No Brasil há indivíduos hesitantes, que se situam em dois polos, um de aceitação e outro de recusa total da vacinação. A proporção de hesitação no país é diferente e inferior comparado ao dos Estados Unidos e Europa, o grande desafio do Brasil é educar a população, passando orientação e conhecimento. A adesão dos grupos antivacinas preocupa o Ministério da Saúde com a percepção da queda do índice de pessoas que se imunizam atualmente. Em 2016, apenas 76,7% da população se vacinou contra a tríplice viral, quando a meta era 95%(SHIMIZU,2018). 

Para aumentar a taxa de adesão a vacina, o Ministério da Saúde tem lançado campanhas para promover discussões sobre o calendário vacinal (AGUÍAR, PIMENTEL, 2019). Felizmente o movimento antivacina não condiz com as taxas de doenças mais elevadas, enquanto a maioria se mantém imunizado o efeito rebanho permanece suficiente para manter as epidemias sob controle (KRISCH, 2016).

O conceito de hesitação da vacina é um dos grandes problemas mundiais, já que aquele que hesita não tem uma opinião formada, sendo assim não é a favor e nem contra as vacinas, apenas busca informações pra decidir aderir ou não a imunização ao seu filho ou a ele próprio, na maioria das vezes essas informações são procuradas nos meios digitais, onde ao passo que é possível encontrar informações extremamente sérias e coerentes, pode-se encontrar outras completamente falsas, pseudociências, com uma tremenda irresponsabilidade científica e social, as conhecidas fake news, desse modo, diversos grupos de indivíduos constroem seus argumentos embasados no que veem na internet (RICHTMANN, 2019).

Adesão dos pais ao não procedimento de vacinação de seus filhos

Durante toda a existência da raça humana, é fato que houveram mudanças sociais, demográficas, assim como em outros diversos campos. Todas essas mudanças ligadas à sociedade, trazem um impacto na imunização das crianças, uma vez que a sociedade não é a mesma. Para Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, as vacinas estão diretamente ligadas a essas mudanças socioculturais, uma vez que na sociedade de hoje não se conhece algumas doenças, pois já foram erradicadas e se estas já foram erradicadas, não há percepção de risco , logo há dificuldade de enxergar seus males e perigos. Para a pediatra Ana Escobar, consultora do programa “Bem Estar”, muitos pais mais jovens não conhecem a realidade de crianças com sarampo ou poliomielite, pois devido as mudanças sociais geradas pelo sucesso das vacinas que trouxe como consequência a erradicação dessas doenças, não existe um estímulo que faça com que esses pais levem seus filhos aos postos de vacinação para a devida imunização (ESCOBAR, 2018).

Muitos pais usam do argumento de que algumas doenças foram erradicadas, ou até mesmo dizem que a doença é “leve” e por isso não veem motivo para vacinarem seus filhos, pois acreditam que o sistema imunológico de seus filhos consegue lidar com a doença (COUTO; BARBIERI, 2015).  

Além disso, outros possuem medo dos efeitos, como reações adversas que as vacinas podem trazer para seus filhos e assim usam disso para justificarem sua decisão, que referencia os casos da poliomielite paralítica associada a vacina sabin, bem como o caso do autismo relacionado com a vacina MMR. Em outra vertente, encontra-se os pais que criticam as vacinas quanto a sua composição e seu mecanismo de ação, que envolve adjuvantes, conservantes, além de outras substâncias, como as vacinas que apresentam em sua composição a presença de alumínio e mercúrio com que pais (geralmente favoráveis a terapia homeopática) achem inadmissíveis, pois não acham correta a administração de substâncias químicas em um corpo saudável ou até mesmo a introdução de uma doença para que o organismo saudável de seus filhos não desenvolva essa doença. Existem também aqueles que criticaram a eficácia da vacina, pois acreditam que a imunidade oriunda da própria doença, ou seja, o filho desenvolver a doença, é mais eficaz do que a imunidade proveniente da vacina, que segundo estes podem até gerar uma imunidade temporária (COUTO; BARBIERI, 2015).

“[…]A primeira coisa foi que eu não encontrei em nenhum lugar evidência científica que comprove a efetividade das vacinas. Na verdade, o que te faz dar ou não? Tudo está baseado no seu medo de que seu filho vai morrer, no final da história é isso. Então, se meu filho não tomar a vacina ele pode pegar uma doença que seja letal. Se eu der a vacina, eu tenho 100% de chance que aquela vacina vai evitar que meu filho tenha essa doença? Não. E ainda tem muitos casos de crianças que contraem as doenças pelas quais elas são vacinadas. (FSG) Eu acho que se minha filha pegar uma rubéola ela vai adquirir uma imunidade tão eficiente, mais eficiente do que uma vacina, porque é uma vez só, você pegou, resolveu e pronto. Uma caxumba também (CMB, Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos, 2015).

O calendário de vacinação Brasileiro também foi apontado por alguns, como “exagerados”, pois fazem com que o bebê, ou seja, com idade precoce, inicie sua imunização muito cedo com as vacinas BGC e da Hepatite B. Estes pais embasaram-se na questão da formação do sistema imunológico da criança que até então está se desenvolvendo até os seis meses de idade. Não só a idade relacionada com o calendário, mas também a administração simultânea das vacinas, ou seja, as que são administradas no mesmo período, bem como a data e a dose das imunizações. Pois acreditam que em um organismo tão pequeno, e ainda em formação, não seja necessária a administração de doses tão grande de vacinas (COUTO; BABARBIERI, 2015).

Outras críticas de cunho socioeconômico foram levantadas e defendidas sobre o “achismo” de que a maioria das doenças estão relacionadas com a falta de saneamento básico associadas a falta de atividades básicas, como a boa alimentação e assim somente a população que não possui estas condições estão susceptíveis a adquirirem estas doenças Logo, pais que possuem em seu perfil boas condições financeiras, não necessariamente precisam vacinar seus filhos. Por fim, a crítica à indústria farmacêutica, que para muitos pais, acham na imunização e na produção de vacinas um meio de gerar lucro (COUTO; BARBIERI, 2015).

“[..]Eu acredito que existe um fator econômico também em vacina, na medicina. Tem muito laboratório, tem muito assunto que eu realmente às vezes não acredito 100% que seja em busca de saúde pública, eu acho que têm alguns interesses por trás. Eu acredito que existam muitas vezes interesses econômicos, por isso que a gente se aprofunda um pouco mais. Muitas vezes o que importa é o dinheiro, e não a saúde pública, que deveria ser.” (COUTO; BARBIERI, 2015).


 Falta de informação e escolaridade

Em um estudo mais profundo, foram feitas pesquisas nos registros de mais de 150 mil crianças a procura de distinções entre crianças que não foram imunizadas corretamente e crianças que nunca foram imunizadas por conta da crença da família, que achava que a vacina causava autismo. Taís resultados concluíram que, famílias que não conseguiam imunizar seus filhos eram mães jovens e solteiras, com baixo grau de escolaridade e de uma classe mais pobre. Já as famílias que eram contra a vacinação por acharem que causava autismo, possuíam uma renda mais alta e continham acesso aos meios de comunicação. Foram admitidos, por parte das famílias que eram contra a vacina, que os seus pediatras não exerciam nenhuma influência em relação as decisões a respeito da vacina (SILVA; CASTIEL; GRIEP; 2015).

Religião

O uso de argumentos, contra a adoção das vacinas, que se fundamentam em crenças religiosas, ocorre logo após criação da vacina descoberta por Jenner. De acordo com o teólogo inglês reverendo Edmund Mossey, as tentativas de prevenção da varíola seria um ato diabólico já que as doenças seriam punições de Deus pelos pecados cometidos pelas pessoas. Certos casos de oposição à vacina da varíola ocorreram entre alguns grupos religiosos, como os quakers na Inglaterra, e entre os batistas, na Suécia, onde afirmavam que seria um pecado mudar os planos de Deus, no entanto, se ele decretou que a pessoa deveria morrer de varíola, logo tal fato deve ser respeitado (LEVI, 2013).

No passado, os católicos apresentaram uma enorme preocupação pelo fato de algumas vacinas contra vírus, utilizarem durante sua produção materiais vindos de abortamentos não espontâneos. É fato que vacinas como a de hepatite A e varicela são produzidas através do crescimento de tais vírus em cultura de células de embriões, vindas de fetos abortados. No entanto, essas linhagens de células não estão presentes no resultado final, elas somente são usadas para o crescimento do vírus. Contudo a igreja católica em sua posição final, compreendeu que os abortos não eram realizados com o intuito de produzir as vacinas, sendo então moralmente aceitável. Mas ainda assim, incentiva a pesquisa para vacinas alternativas (LEVI, OSELKA, LEVI, 2018).

O mais curioso é que os posicionamentos oficiais das grandes religiões são sempre adeptos e favoráveis as vacinas e até mesmo trabalham para promoção das mesmas, no entanto dentro das religiões citadas, há grupos que trabalham contra elas. Um exemplo são os cristãos, onde há grupos como os Christian Science, uma comunidade fundada nos Estados Unidos, que proíbe qualquer tipo de vacina e assistência médica, outro exemplo seriam os Amish, grupo religioso também dos Estados Unidos, onde 2/3 dos seus membros não são vacinados, há também entre os mulçumanos, países como Paquistão, Afeganistão e Nigéria que proíbem vacinas como a de poliomielite e sarampo, ocasionando a aparição de epidemias provenientes disso (LEVI, 2019).

É o caso também da religião judaica, essa não condena as vacinas, mas alguns grupos pertencentes à comunidade ultra ortodoxa não confiam na imunização, acreditando que a mesma é perigosa (MADOV, 2019). Esse fator ocasionou um recente surto de sarampo, que atingiu principalmente as comunidades judaicas ortodoxas do Brooklyn, a origem do surto veio de uma criança não vacinada que após visitar Israel, onde há um surto ativo de sarampo, voltou doente e acabou contaminando outras pessoas (NOTICIA).

Em relação ao passado não só as alegações religiosas para não vacinação apresentaram uma queda, mas também a pratica desse movimento por populações com baixo esclarecimento, nos dias de hoje tem se tornado um evento realizado principalmente por indivíduos de classes socioeconomicamente mais altas. Uma justificativa plausível é o fato de essas populações terem acesso a tratamentos alternativos, como a homeopatia, ou a medicina antroposofia, tratamentos estes que muitas vezes não recomendam a vacinação (LEVI, 2016).  

Efeitos adversos

Apesar das vacinas apresentarem um alto padrão de segurança verificado no momento em que são produzidas, essas podem apresentar alguns efeitos adversos após sua utilização, assim como qualquer outro produto de origem biológica, ainda que esses efeitos adversos não seja algo esperado, os riscos oferecidos por esses possíveis efeitos advindos das vacinas são menores do que os riscos apresentados pelas doenças contra as quais protegem. Com isso, aumenta-se o medo e a desconfiança dos indivíduos sobre a imunização, e algumas pessoas tendem a questionar a eficácia e os benefícios trazidos pelas vacinas, duvidando da necessidade de se imunizarem contra doenças já erradicadas, pois as mesmas não apresentariam riscos à saúde. Esse pensamento é inquietante, uma vez que as vacinas são necessárias para a continuidade dessas doenças permanecerem erradicadas, e a interrupção do esquema vacinal poderia facilitar o retorno dessas doenças podendo gerar novas epidemias (ARAÚJO et al, 2007).

Em formulações vacinais, há presença de substancias que podem ocasionar efeitos adversos, como inflamação local, alergia e efeitos sistêmicos. Com os efeitos decorrentes dessas substâncias, o receio do ato de se vacinar aumenta, dando maior adesão para o movimento antivacina (NASSARALLA et al, 2019).

No entanto, a investigação deve focar nos fatores relacionados á vacina incluindo o número e o meio de cultivo dos microrganismos, o tipo ou cepa, o processo de inativação ou atenuação e substâncias conservadoras ou estabilizadores. Nos fatores associados aos vacinados inclui idade, doses prévias da vacina, sexo, doença anterior devida ao agente causal, doenças concomitantes e deficiência imunitária, anticorpos adquiridos passivamente por via transplacentária, e nos fatores relacionados à administração, que são reservados à agulha, seringa, local de administração, via de administração e técnica adequada de procedimento (ARAÚJO et al, 2007).

Os eventos adversos são divididos em duas classes, reações não imunológicas e reações imunológicas. As reações não imunológicas são as que apresentam efeitos já esperados, cujo suas complicações apresentam intensidade variáveis, essas também são decorrentes de defeitos ocorridos no processo de produção das vacinas e do manuseio no momento da aplicação. As reações imunológicas por sua vez ocorrem geralmente com pessoas que estejam com o sistema imunológico enfraquecido e fazem o uso de vacinas contendo microrganismos vivos. Eventos adversos em indivíduos hipersensíveis ocorre pela reação alérgica dos componentes presentes na vacina, como antibióticos, preservativos, estabilizantes e adjuvantes, além desses também são relacionadas a resíduos de linhas celulares ou embriões em que se cultivam os vírus vacinais (ARAÚJO et al, 2007). 

Autismo

Eventos adversos relacionados as imunizações contra difteria, coqueluche, tétano, hepatite B e a vacina tríplice viral já eram retratados nas mídias desde décadas atrás, onde supostamente a vacina tríplice viral foi a de mais influência sobre os pais que tiveram adesão ao movimento antivacina, esses alegavam a relação entre a vacina e o surgimento do autismo nas crianças que foram imunizadas com as mesmas (SILVA; CASTIEL; GRIEP, 2015).

 Essa ideia ganhou repercussão quando em 1998 o cirurgião gástrico Inglês Andrew Wakefield fez a publicação na revista The Lancet um artigo onde apontava uma relação direta do desenvolvimento do autismo com a vacina Tríplice, no artigo ele relatava que uma semana após receber a vacina, 12 crianças demonstraram distúrbios gastrointestinais seguido de malefícios causados no desenvolvimento mental das crianças, parecidos aos do autismo. Wakefield afirmou ainda que, os sintomas demonstrados pelas crianças configuravam uma “nova síndrome”, chamando-a de autismo regressivo, por se introduzir após um período normal de desenvolvimento (ZORZETTO, 2011).

Ainda que no texto descrito pela revista The Lancet não tenha apresentado quaisquer afirmação entre a relação do autismo e a vacina, Wakefield se encarregou de confirmar essa relação, uma vez que organizou e apresentou uma entrevista coletiva onde defendia seu argumento de que a vacina tinha vínculo direto com o surgimento do autismo, juntamente a essa entrevista Wakefield distribuiu vídeos para redes de televisão expondo e defendendo sua pesquisa. Nessa entrevista o principal assunto levantado em questão não foi o possível vínculo do distúrbio gastrointestinal e o de desenvolvimento do autismo, mas sim a suspeita de Wakefield, onde o mesmo apontava que o aumento dos casos de crianças com autismo desde de 1970 nos Estados Unidos poderiam ser advindos do uso da vacina tríplice viral (ZORZETTO, 2011).

Esta pesquisa de Wakefield, deu origem a discussões mundiais sobre a eficácia da vacina e sua segurança, fazendo com que grande parte da população optasse por não vacinar a si mesmo, nem mesmo seus filhos (SCHAFER et al,2019)

Após anos de investigação, Brian Deer prova a ausência de embasamento cientifico, e atualmente a relação entre vacinação e autismo já foi descartada, porém, a população ainda tem receio e desconfia desse benefício (SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2019).  

Outra correlação entre autismo e vacinação, é o timerosal (que contém composto orgânico de mercúrio, atuando como conservante), que é utilizado para evitar contaminação de fungos e bactérias. A população se baseava na ideia de que o mercúrio causasse doenças, entre elas o autismo (BEZERRA, 2018).

A partir dessas especulações, ocorreu uma sessão pública de questionamento, convocado pelo Senado e a Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Contudo não encontraram evidencias com os imunizados com a vacina contendo timerosal ou não, ou seja, não houve comprovação a associação do mercúrio e o autismo. Analisando a urina e fezes de quarenta lactentes nascidos e com as imunizações de rotina, e comparando com vinte que receberam vacinas sem timerosal, percebeu-se que o mercúrio é eliminado rapidamente do sangue para as fezes e que não aumenta as concentrações de mercúrio acima dos níveis seguros (PICHICHERO, 2002).

Para um estudo mais profundo, foram feitas também pesquisas nos registros de mais de 150 mil crianças a procura de distinções entre crianças que não foram imunizadas corretamente e crianças em que nunca foram imunizadas por conta da crença da família, que achava que a vacina causava autismo. Acabou resultando que, famílias que não conseguiam imunizar seus filhos eram mães jovens e solteiras, com baixo grau de escolaridade, e de uma classe mais pobre. Já as famílias que eram contra a vacinação por achar que causava autismo, possuíam uma renda mais alta e continham acesso aos meios de comunicação. Foram admitidos, por parte das famílias que eram contra a vacina, de que os seus pediatras não exerciam nenhuma influência em relação as decisões a respeito da vacina (SILVA; CASTIEL; GRIEP; 2015).

Falta de orientação ao paciente

A recusa vacinal normalmente está relacionada a fatores políticos, pessoais e socioculturais. É importante então, um acompanhamento antes mesmo do cidadão nascer para a sua imunização correta, por isso a importância e necessidade de UBS, que vão saber orientar e além disso, fornecem atendimento gratuito (CONSENSUS, 2019)

É importante também que pessoas da área da saúde, como médicos e pediatras, ajudem na manutenção da confiança nas vacinas, pois são eles que mantém um contato maior com a população. Estar preparado para responder as dúvidas dos pacientes é também essencial para a disseminar a importância da vacina. A OMS criou em 2012 um projeto para discutir e entender a recusa vacinal por parte da população, onde sua estratégia era de conscientizar a população a respeito da importância da vacina (SUCCI, 2018).  

São vários os fatores para a diminuição da cobertura vacinal no país. De acordo com Nereu Henrique Mansano, o país prioriza muito as condições agudas de saúde, mas se esquecem da Atenção Primária a Saúde, fazendo com que assim a demanda vacinal não seja atingida (CONSENSUS, 2019). O Dr. Guido Carlos Levi acredita que, os hesitantes a respeito da vacina devem procurar um profissional da saúde que orientem os pais a respeito da importância da vacina, ajudando assim, a controlar a recusa vacinal (LEVI; RICHTMANN, 2019). 

 Sobrecarga imunológica 

O conceito de sobrecarga imunológica pressupõe que os seres humanos, especialmente os de menos idade, são incapazes de responder de maneira segura e eficaz ao grande número de antígenos vacinais administrados, considerando que até os dois anos de idade as crianças recebem um total de 21 injeções contendo 33 vacinas. Daí surge grupos e os chamados médicos seletivos que aconselham o retardamento e espaçamento da aplicação da vacina, adiando o início das vacinações para quando o sistema imunológico do bebê estiver mais “maduro”. Entretanto, o recém-nascido, já tem capacidade de responder aos antígenos estranhos antes mesmo do nascimento. O problema dessa demora para se administrar as vacinas, é que enquanto elas não são aplicadas as crianças ficam vulneráveis as diversas doenças que poderiam ser evitadas pela imunização. É comprovado que quando uma criança nasce, em poucas horas seu tubo digestivo é forrado por bactérias, e que a quantidade de antígenos que a criança tem é milhares de vezes maior do que os antígenos provenientes da vacinação. É certo dizer então que se hipoteticamente fosse administrado milhares de doses de vacina em uma criança, apenas uma pequena parcela do seu sistema imunológico seria utilizada, o sistema imunológico possui enormes reservas que não seriam seguramente gastas com a aplicação da vacina (LEVI, 2016).  

LEVANTAMENTO DE DADOS SOBRE AS TAXAS DE IMUNIZAÇÃO NO BRASIL

Na década de 60, introduziu-se no Brasil a vacina contra o sarampo, neste mesmo período o país registrou a obrigatoriedade das notificações compulsórias de sarampo, que visavam o rápido controle da doença. E nas décadas seguintes, mais especificamente nos anos 80, o Brasil apresentou o maior índice notificados 129.942 casos de sarampo, o que representou uma incidência de 97,7 por 100.000 habitantes (DOMINGUES, et al 1997).

Com o passar dos anos, esse índice diminuiu e no ano de 2018, 10.330 casos foram registrados no Brasil, aumentando estes entre os meses de junho e agosto, sendo julho o mês de maiores ocorrências, com 3.950 casos. Já no ano de 2019, com a conscientização e campanhas, a imunização tem aumentado sendo  confirmado 3.729 casos, entre os meses de janeiro e setembro. Tendo com menor número de registros de casos confirmado do que em 2018 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2019).

Distribuição dos casos de sarampo 2018 – 2019, Brasil
Distribuição dos casos de sarampo 2018 - 2019, BrasilAdaptado do site do Ministério da Saúde (2019).

 Como constatado na figura 1, a incidência de casos de sarampo era maior entre as idades de 20 a 29 e devido a isto, a priorização para as campanhas de vacinação dentre essa faixa etária é de extrema importância. Foi notável em conjunto as incidências de que, crianças acima de 6 meses e menores de 5 anos obtinham um maior número de internações. Por isso, se mostra necessário as campanhas voltadas para estes grupos específicos(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2019).

 

CONCLUSÃO

De acordo com as revisões bibliográficas, é possível identificar que os argumentos utilizados, tanto culturais como filosóficos possuem um embasamento inferior ao da importância da vacina. Ao mesmo ponto que, a falta de percepção de risco é também prejudicial, pois gera a volta de doenças que já foram supostamente erradicadas, como o sarampo e assim faz com que as vacinas se tornem vitimas do seu próprio sucesso. Além disso, foi possível perceber que no Brasil o movimento antivacina existe, porém a maior incidência é de hesitantes vacinais, e com isso  se ressalta a importância das campanhas e carteiras de vacinação em dia.

Há necessidade de destacar o uso das vacinas para assegurar a proteção da saúde, uma vez que, nesse tema a acomodação é inaceitável considerando que a imunização representa um dos grandes avanços oferecidos pela medicina. Sendo necessária a luta pela disseminação da vacina, tendo como base o compartilhamento de informação e o esclarecimento acerca dos benefícios e malefícios advindos dos efeitos provenientes da imunização pelas vacinas é um debate mundial, tendo dois polos um de aceitação e outro de recusa total.

Vale salientar que as organizações institucionais voltadas a vacinação como a Organização Mundial da Saúde e o Programa Nacional de Imunização mostram-se eficientes no desempenho de suas funções, visto que as campanhas vacinais do Brasil é referência mundial. É nítido a importância da iniciativa do governo na divulgação das atividades desses órgãos e na educação da população em relação a imunização, fornecendo informações sobre efeitos adversos, composição, benefícios e o risco da recusa vacinal, levando em consideração que com a maioria da população vacinada o efeito rebanho se mantém suficiente para manter as epidemias sobre controle, porém ainda é necessário uma maior cobertura vacinal no país para que a permanecia da erradicação de doenças. Mesmo a vacina tendo vantagens sociais, econômicas e sendo oferecidas gratuitamente, sua aceitação ainda não é universal, dificultando o trabalho dessas instituições, já que existem doenças que podem deixar sequelas ou até mesmo serem fatais.

A responsabilidade parte de duas vertentes, o governo que atua na divulgação das campanhas e dos órgãos, tendo a responsabilidade de zelar pelo o que ta descrito na constituição vigente do Brasil, que todas as informações incluindo as taxas de mortalidade, bem como os índices de imunização devem ser de domínio público. Além disso cabe também à população o interesse por assuntos voltados a imunização pública, uma vez que passam do campo do pensamento individual e vão para o campo da ética e moral coletiva.

Referências

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