MEMÓRIA DA ARQUITETURA MODERNISTA EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

MEMÓRIA DA ARQUITETURA MODERNISTA EM SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Luiza luciano medeiros de Moraes

Orientador:
Prof. Dr. Carlos Eduardo Ribeiro Silveira

Resumo

Este projeto procura compreender a influência dos estímulos sensoriais em um indivíduo inserido em uma arquitetura, especificamente no edifício modernista. Busca-se a capacidade de projetar e manipular uma experiência completa para o usuário, a partir da necessidade de criação de vínculos entre um grupo de pessoas e uma arquitetura em questão. Será levantado um panorama geral da história, da preservação patrimonial e da percepção ambiental para que, ao fim, haja uma melhor assimilação do recorte específico escolhido para estudo e seu respectivo potencial: a modernista “Residência Olivo Gomes”. Sob essa ótica, a experiência sensorial pode ser vista como uma das melhores ferramentas para compor memórias marcantes e até alterar relações pré-estabelecidas ou inexistentes.

Palavras-chave: Modernismo. Arquitetura. Percepção. Experiência. Patrimônio.

Abstract

This project seeks to comprehend the influence of sensory stimuli on an individual inserted in an architecture, specifically in the modernist building. It is sought the capacity to design and manipulate a complete user experience, based on the need of bonding between a group of people and the architecture in question. It will be brought up the general overview of history, heritage preservation and environmental perception so that, at the end, there is a better assimilation of the specific section chosen for study and its respective potential: the modernist “Residência Olivo Gomes”. From this perspective, the sensory experience can be seen as one of the best tools to compose remarkable memories and even change pre-established or non-existent relations.

Keywords: Modernism. Architecture. Perception. Experience. Patrimony.

Introdução

Os sentimentos de pertencimento e de identificação de uma população com o local em que vive envolvem diversos fatores, e variam conforme as experiências individuais. A cidade de São José dos Campos, assim como muitas cidades brasileiras de médio/grande porte, passou por diversas fases. Em alguns momentos de sua história, houveram aparentes quebras de identificação entre ela e seus habitantes, resultando em uma memória afetiva superficial, insuficiente para que, nos dias atuais, houvesse um uso e uma ocupação plena de seus espaços. Essa pesquisa tratará, em especial, a fase modernista da arquitetura em São José dos Campos e como, hoje, se pode solucionar a falta de laços entre as pessoas e as arquiteturas dessa tipologia.

Ao levantar a memória modernista da cidade, espera-se atuar nas brechas da vivência humana da arquitetura, buscando estimular uma percepção ambiental intensa a partir da sensorialidade. Para desenvolver os sentimentos e estreitar a relação atual entre os habitantes e as arquiteturas modernistas, este trabalho buscará, no primeiro momento, compreender o passado histórico de formação de Sâo José dos Campos, partindo de sua principal característica: a indústria e a tecnologia. Será brevemente abordada a trajetória da industrialização mundial, de São José e do Movimento Moderno na Arquitetura, para que, em um raciocínio temporal, se faça uma interpretação da cidade e de sua construção social, entendendo seus resultados atuais. Posteriormente serão tratadas neste trabalho questões pertinentes à preservação patrimonial de interesse cultural, ponderando o papel e situação da arquitetura modernista nesse cenário. Em seguida alguns pontos da experiência sensorial e percepção ambiental serão brevemente discutidos para que se crie uma base teórica de entendimento das possíveis frentes de atuações projetuais futuras.

Por fim, a pesquisa se aproximará de seu objeto-alvo: a Residência Olivo Gomes. Seu estado atual é um reflexo de uma sociedade que não possui a devida identificação ao bem pois, apesar do potencial que essa construção carrega consigo – exemplificado pelas propostas já existentes e apresentadas aos órgãos governamentais responsáveis – ainda não recebeu a justa ocupação e manutenção de seu espaço. Por se tratar de uma edificação recente e que possui proteção estadual por lei de tombamento, seu estado de conservação ainda se caracteriza como bem preservado, porém ela se encontra atualmente sem um uso específico.

Esta monografia se faz pertinente por sua proposta de mobilização social a partir de uma atuação individual, para que haja um entendimento do potencial cultural, social e econômico da arquitetura modernista. A abordagem metodológica da monografia se desenvolve em uma análise que parte do geral para o específico, tanto em seu corpo principal quanto em seus subtítulo. Vale ressaltar também que na construção deste trabalho algumas dificuldades foram encontradas mediante ao cenário da pandemia do COVID-19, impossibilitando, por exemplo, visitas e entrevistas em campo, bem como o acesso à materiais físicos de pesquisa. Algumas questões se desviaram da expectativa inicial deste trabalho, porém, com adaptações, acredita-se que foi possível atingir um desenvolvimento satisfatório da pesquisa. 

História, Cidade e Modernismo

Neste trabalho, os estudos serão abordados partindo da compreensão geral até um entendimento e aplicação específica. Ou seja, será levantado um panorama geral da história, da preservação patrimonial e da percepção ambiental para que, ao fim, haja uma melhor assimilação do recorte específico escolhido para estudo e seu respectivo potencial: a modernista “Residência Olivo Gomes”. Neste primeiro capítulo será apresentado um breve resumo histórico da industrialização no mundo, passando pelos principais pontos desde o surgimento na Inglaterra – com a Revolução Industrial -, seu desenvolvimento, a posterior chegada ao Brasil até sua expansão no país nos anos de 1930, entendendo sua relação pertinente às cidades brasileiras de caráter industrial e tecnológico. Em seguida, será exposta sucintamente a origem da cidade de São José dos Campos e sua evolução ao longo do tempo, com o objetivo de melhor compreender seus principais fatores de formação que determinam e influenciam até os dias atuais a relação da população com o município e seus ambientes. Como uma especificação mais aprofundada ao histórico da cidade, têm-se, em seguida, o subtítulo que apresentará a fábrica Tecelagem Parahyba, a qual, além da grande influência e impacto em São José, tem vínculo direto com o bem modernista específico de estudo deste trabalho. Por fim, ainda neste capítulo, serão dissertados os principais pontos da trajetória do Movimento Moderno na Arquitetura, delimitando ao final algumas observações sobre a influência em São José dos Campos.

História da industrialização: 1780 até a expansão industrial brasileira na década de 1930

Na história da industrialização, de acordo com Hobsbawm, o pioneirismo inglês marcou o início da Revolução Industrial, por volta de 1780, após a invenção da máquina a vapor em 1698 e suas consequentes aplicações que desdobraram o mundo moderno. Advindos da Revolução Inglesa do século XVII, os burgueses, principais fomentadores da industrialização, já possuíam vantagens e poderes no parlamento. Segundo Hobsbawm (1968) “Há vários séculos que a economia europeia mostrava fortes sinais de expansão e desenvolvimento econômico, ainda que houvesse atravessado sérias crises ou deslocamentos econômicos”, porém foi nos 200 anos precedentes da revolução que houve o principal acúmulo de capital pelos ingleses que alicerçou o futuro desenvolvimento da indústria. Em vista dessa ascensão de capital e das inovações promovidas pela burguesia, o Estado adotou uma série de medidas que beneficiaram o desenvolvimento industrial.

À medida que as indústrias cresciam, a demanda de mão de obra também aumentava. Anteriormente ao período industrial, a burguesia investiu na expansão dos latifúndios e nos cercamentos de terras, o que ocasionou a expulsão de muitos camponeses. Os agora ex-trabalhadores rurais viam como saída apenas o êxodo rural e, nas cidades, a possibilidade de se tornarem mão de obra para essa nova forma de trabalho na cidade industrial. A atratividade das inovações e a esperança ilusória de trabalho nas grandes cidades fez com que inúmeros artesãos também abandonassem as áreas rurais para se estabelecerem nos bairros periféricos que não possuíam condições mínimas de habitação nem saneamento decente, causando um déficit habitacional nos centros urbanos. Essa nova classe de proletários industriais ficou conhecida como operários, e atuavam em condições precárias em benefício do lucros exacerbados dos empreendedores: alta carga horária de trabalho, baixíssima remuneração, ambientes insalubres e sem direitos garantidos por lei, inclusive a exploração de mulheres e crianças.

Figura 1 — Ilustração retratando a tipologia das casas das classes sociais mais baixa, provavelmente de operários pela proximidade com a fábrica, que se vê ao fundo
Ilustração retratando a tipologia das casas das classes sociais mais baixa, provavelmente de operários pela proximidade com a fábrica, que se vê ao fundoGravura de Gustave Doré de 1872. Publicação original: London: A Pilgrimage. Tradução: Londres: uma peregrinação

Em contrapartida, a sociedade também experimentou benefícios advindos da produção industrial, como o maior domínio da ciência e da tecnologia; investimentos em melhorias de transporte, consequentemente em infraestruturas; e o menor custo das mercadorias, causando estímulo ao consumo (HOBSBAWM, 1969).

Em uma análise geral, baseada nas obras de Hobsbawm sobre as mudanças econômicas causadas pela Revolução Industrial, costuma-se dividir sua expansão em 3 fases: Na primeira, em meados do séc XVIII até início do séc. XIX, houve o surgimento na Inglaterra e um início de desenvolvimento na França, época em que o principal combustível maquinário era o carvão; A segunda, a partir do final do séc XIX, se caracterizou pela expansão para o restante da europa, Estados Unidos e Japão, onde os motores já eram movidos à combustão e alimentados pelos derivados do petróleo; Após a Segunda Guerra Mundial, se demarca a terceira fase já no século XX, evidenciada pelo alargamento do industrialismo para o restante do mundo e o surgimento das tecnologias de massa. O neocolonialismo, que teve início no século XIX, só foi possível com a ascensão econômica e militar trazida pela revolução industrial. Apenas depois da Segunda Guerra Mundial os países emergentes começaram a conquistar sua independência, porém acompanhada da consequente submissão econômica às potências capitalistas.

No Brasil, que até 1822 era colônia de exploração de Portugal, ainda não havia um crescimento significativo das atividades industriais, se restringindo apenas aos produtos que não concorriam com as fabricações do Reino e países associados. Leis protecionistas das cartas régias de 1755 e 1766 impediam a criação de manufaturas de diversos setores, e apenas após a vinda definitiva da família real em 1808, a política econômica da Colônia mudou. Até aquele momento, as atividades industriais que caracterizavam o país eram as lucrativas agroindústrias do açúcar, um produto escasso no mercado exterior, e a manufatura têxtil, que sofreu diversas restrições ao longo do tempo pois competia com a produção das potências internacionais. O desenvolvimento do comércio brasileiro se dificultou com o tratado de livre-comércio e a abertura dos portos, deixando o país sem chances significativas de competir com produtos ingleses. A mão de obra escrava, que por muito tempo foi adotada no país, também foi um fator relevante de impedimento para o desenvolvimento industrial, pois não permitia a especialização do trabalho e não formava mercado consumidor.

A restrição de importações durante a Primeira Guerra fez com que o mercado nacional expandisse seus lucros internos, possibilitando, após esse período, houvesse futuramente a importação das maquinarias e a consequente modernização e diversificação dos produtos brasileiros. A partir da década de 1930, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque, as indústrias de base no Brasil se tornaram foco de interesse tanto por parte dos investidores, que procuravam alternativas mais lucrativas para investir, e também pelas iniciativas governamentais. Nessa fase houve a procura de locais estratégicos para instalação dessas indústrias, e São José dos Campos se destacou com seu potencial.

São José dos Campos: origens até sua industrialização

A cidade de São José dos Campos está localizada no estado de São Paulo, na região do Vale do Paraíba. Ela se encontra na planície aluvial do Rio Paraíba do Sul, parte baixa do vale entre a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estima que em 2020 ela abriga uma população de quase 730.000 habitantes, sendo o segundo município de interior mais populoso do Brasil. De acordo com a EMPLASA (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S/A), São José faz parte da Macrometrópole Paulista (MMP), um dos maiores aglomerados urbanos do Hemisfério Sul. É um município atualmente conhecido por sediar importantes empresas, indústrias, centros de ensino e unidades de pesquisas tecnológicas, como a mais avançada indústria aeronáutica da América Latina – o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) -. Seu caráter atual de modernidade, ritmo acelerado e de alta importância socioeconômica é reflexo de uma história de evolução, transformações e concentração de poderes e interesses. Nesta seção será apresentado um panorama geral para melhor compreender sua consolidação e como hoje a cidade se apresenta para sua população.

Mapa 1 — Mapa de Localização de São José dos Campos e seus municípios limítrofes
Mapa de Localização de São José dos Campos e seus municípios limítrofesDisponível no Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos de São José dos Campos – Julho/2015 (p.16)<http://servicos2.sjc.sp.gov.br/media/563436/pmgirs_sjc_posaudiencia.pdf>

Apesar de ainda existirem dúvidas e incertezas em relação às origens de São José, muitas fontes apresentam firmes embasamentos em documentações e pesquisas que se tornaram fundamentais para o que se conhece hoje como a história da cidade. A vertente mais difundida foi a descrita no livro “São José dos Campos e sua História”, do autor Agê Júnior. Essa obra trouxe afirmações que se tornaram registros legais e oficiais da cidade, e neles se conta que o padre José de Anchieta, um dos primeiros jesuítas da história do Brasil, foi o fundador de São José. Porém, pesquisas recentes realizadas pela Universidade Do Vale do Paraíba levantaram documentações da época em que a cidade ainda se caracterizava como Aldeia e Vila de São José do Parahyba e observaram que haviam incongruências ao atribuir ao padre Anchieta a implantação da aldeia pois ele teria morrido no final do século XVI, anos antes de São José se tornar aldeia, no século XVII. Acredita-se que esta responsabilização ao grande nome de Anchieta se tornou um mito favorável para São José, pois colocá-lo como parte de seus primórdios seria um incremento de peso para sua importância e influência.

Mapa 2 — Croqui delimitatório da Vila de São José
Croqui delimitatório da Vila de São JoséDisponível em: <https://www.camarasjc.sp.gov.br/promemoria/2015/09/01/mapas/>Acesso em 27 de setembro de 2020.

Com essas novas descobertas, viu-se que por volta de 1680 o padre Manoel de Leão, que já estava fixado onde hoje é a região da cidade vizinha de Jacareí, notou em São José um local com potencial para se alocar e evitar os constantes alagamentos do Rio Comprido e ataques indígenas, sendo então o responsável genuíno do aldeamento na região. Assim se iniciou a história da cidade: uma consolidação conforme as políticas coloniais, na região do planalto em que hoje está localizada a Matriz de São José.

Mapa 3 — Croqui urbanístico da Vila de São José, destacando a Matriz e a cadeia, por Arnaud Julien Pallière (1821)
Croqui urbanístico da Vila de São José, destacando a Matriz e a cadeia, por Arnaud Julien Pallière (1821)Disponível em: <https://www.camarasjc.sp.gov.br/promemoria/2015/09/01/mapas/>. Acesso em 27 de setembro de 2020.

O projeto jesuítico se desenvolveu com a catequização dos indígenas e o uso de sua mão de obra nas lavouras, com benefícios escassos porém não escravista. Em 1767, como resultado de políticas da Capitania, a Aldeia de São José foi elevada à condição de Vila e, a partir disso, em sua história oscilou em seus nomes, como Vila Velha ou Vila D’Aldeia de São José, à medida em que se desenvolvia.

Já em 1862, a Vila passou a ser a cidade de São José do Parayba. Como afirma Papali em sua dissertação de 1996 “[…] a cidade de São José dos Campos vinha se constituindo, e formando seus cafezais, pela presença bastante numerosa de pequenos e médios lavradores. Sua economia divergia da tendência das outras cidades paulistas que possuíam influentes e poderosos barões do café, e São José experimentou diversas crises advindas de sua organização rural. Essas recessões trouxeram consequências estruturais para a sociedade que vinha se formando pois, apesar de ser majoritariamente rural, alguns moradores já se importavam com a salubridade e urbanização. Apenas a partir de 1850 a produção cafeeira teve um crescimento significativo na cidade, tendo seu ápice por volta de 1886 (PAPALI, 1996).

Com o surto de epidemias na Europa no século XIX, novas políticas de sanitarismo e embelezamento urbano foram criadas, visando a modernização e uma higienização das cidades. Enquanto isso, São José dos Campos vivia em um momento desconexo em relação ao contexto principal das outras cidades, como afirma Valéria Almeida em sua dissertação:

Inscrita em realidade histórica diversa, a modernização urbana de São José dos Campos, ao contrário das demais cidades que tentavam afastar as doenças do século, com o fim de tornar os espaços salubres, estava intimamente ligada ao bacilo de KochA tuberculose é uma doença infecto contagiosa causada pelo bacilo de Koch – nome este em homenagem ao descobridor do seu agente causal – que ataca tanto o homem como os animais. Sua forma de transmissão é através de gotas de saliva. Os bacilos inoculados são conduzidos pelos vasos linfáticos até os gânglios linfáticos. A afecção pode ser apenas aparente lesionando o gânglio pulmonar ou pode atingir vários órgãos, entre quais o pulmão é o mais frequente. Seus aspectos anatômicos são variados: dores torácicas, tosse, febre, emagrecimento, suores etc. (Larrousse Cultural apud ALMEIDA, V.23, p.5782, item: tuberculose).. (…) Este período marcou tanto a organização espacial quanto a estrutura social do município com a introdução de novas profilaxias e meios de tratamento dos doentes tuberculosos. (ALMEIDA, 2008, p.16-17)

Figura 2 — Propaganda do Sanatório Vicentina Aranha para tuberculosos – Década de 1920.
Propaganda do Sanatório Vicentina Aranha para tuberculosos – Década de 1920.Disponível em:<https://www.camarasjc.sp.gov.br/promemoria/2016/11/07/propaganda-do-sanatorio-vicentina-aranha-decada-de-1920-2/>. Acesso em 01 de outubro de 2020.

São José investiu em estruturar esse novo conceito de prevenção e tratamento da tuberculose e, no início do século XX a cidade recebeu um grande fluxo de imigrantes com essa doença, que vieram de outros locais como São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Nisso se construiu o período sanatorial da cidade, que se manteve até 1950 com a inauguração da rodovia Presidente Dutra, que interligou os estados de São Paulo e Rio de Janeiro e marcou em São José o início de sua fase industrial (Almeida, 2008).

Novas preocupações das políticas municipais de São José sobressaíram ao seu passado de investimento sanatorial. Esse período sanatorial foi de suma importância pois instaurou na cidade o começo de uma infraestrutura sólida, fator atrativo para os investimentos que, a partir da década de 1920, seriam destinados principalmente ao setor industrial, mas também ao de comércio e serviços. Com incentivos do Governo no período da ditadura militar, São José se reestruturou em torno dessa nova forma de economia, empregando sua população nas indústrias e planejando seu território urbano e, assim, atingia seu status cosmopolita que permanece até os dias atuais.

Tecelagem Parahyba

Como já abordado neste documento, a primeira fase da indústria no Brasil, entre os anos de 1920 até 1940, se caracterizou principalmente pelo ramo têxtil e, em São José, a de principal destaque foi a Tecelagem Parahyba, fundada em 14 de março de 1925. As indústrias que surgiam possuíam novas demandas urbanísticas de implantação e, em 1938, políticas sanatóriais de zoneamento dividiram os espaços da cidade por setores funcionais. A tecelagem Parahyba se instalou no primeiro bairro industrial da cidade: o bairro de Santana, localizado na zona norte.

Figura 3 — Parques urbanos, em destaque a área verde correspondente ao que é atualmente o Parque da Cidade Roberto Burle Marx. Modificado pela autora.
Parques urbanos, em destaque a área verde correspondente ao que é atualmente o Parque da Cidade Roberto Burle Marx. Modificado pela autora.Fonte: Plano Diretor, Lei Complementar 612/2018<https://www.sjc.sp.gov.br/servicos/urbanismo-e-sustentabilidade/uso-do-solo/plano-diretor-lei-complementar/>

O período da crise de 1929 trouxe para a Tecelagem a necessidade da reorganizar suas atividades produtivas e, Olívio Gomes, que havia sido contratado como gerente, recebeu em 1933 o controle da empresa. A fábrica marcou a região pela construção de vilas operárias, a escola da fábrica e as cooperativas de alimentos, e nas décadas de 50 e 60, a Tecelagem Parahyba atingiu a marca de 70% do mercado nacional de cobertores e crescia em exportações. Neste período, Olivo também contratou Rino Levi e Burle Marx para a construção e paisagismo de sua residência dentro do complexo da Fazenda Parahyba, que até os dias atuais permanece com cerca de 960.000 m² de área.

Fotografia 1 — Tecelagem Parahyba, em Santana (1957)
Tecelagem Parahyba, em Santana (1957)Fonte: arquivo público do município de São José dos Campos (apud Ramos, 2009).

Já na segunda fase industrial de São José dos Campos, de 1950 até o final dos anos 1960, a cidade recebe incentivos do Estado para tecnologia, e setores mais diversificados de produção, como a Johnson&Johnson (1953), na área farmacêutica e a General Motors (1957), de automóveis. O CTA, Centro Técnico Aeronáutico, hoje Aeroespacial, o ITA e o INPE também se instalaram nessa época e permanecem até os dias atuais.

Figura 4 — Painel espacial artístico do atual Parque da Cidade Roberto Burle Marx, com destaque aos pontos de interesse turístico.
Painel espacial artístico do atual Parque da Cidade Roberto Burle Marx, com destaque aos pontos de interesse turístico.Plano Diretor do Parque da Cidade – 2016. Autor: Edison Braga.

A Tecelagem Parahyba procurava se modernizar, porém, com a terceira fase da industrialização a partir de 1970, o caráter de alta tecnologia e de especialização da mão de obra dominava o mercado, principalmente após a chegada de novas empresas na cidade. A fábrica não suportou o período de hiperinflação e entrou em decadência. Em 1993, foi decretada a falência da unidade, com a decisão de desligamento da família Gomes.

História do Movimento Moderno na Arquitetura

Bem como a chegada da industrialização no Brasil, exposta acima, outro marco das inovações no país foi a influência do Movimento Moderno, por volta da década de 1920. Como uma proposta de ruptura com as antigas tradições, o modernismo foi uma corrente relevante para diversos campos da sociedade e das ciências e, especificamente nas artes, influenciando fortemente a história da literatura, arquitetura, design, escultura, teatro e da música.

O cenário mundial dos anos de 1920 envolveu uma gama de mudanças e acontecimentos importantes, como a Revolução Russa em 1917 e o fim da Primeira Guerra em 1918. Devido à esses e outros marcos, a população, principalmente da Europa, se encontrava em um momento de decisão sobre o futuro e sobre suas convicções, que ainda permeavam pelo nacionalismo do pós-guerra. Nesse contexto do início do século XX, artistas e pensadores da época começaram a se manifestar ambiciosamente com uma mentalidade idealista e transformadora, que se reverteu nos movimentos culturais dessa fase. O progresso tecnológico, científico e cultural se fez presente nos diversos âmbitos da sociedade, principalmente das artes, e causou em muitos o desejo de experimentar essa nova realidade vanguardista.

Figura 5 — Capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna, 1922 , Di Cavalcanti.
Capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna, 1922 , Di Cavalcanti.Reprodução fotográfica Romulo Fialdini. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural. <https://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento84382/semana-de-arte-moderna-1922>. Acesso em 20 de novembro de 2020.

Na arquitetura, o modernismo foi proveniente principalmente da corrente racionalista européia, e teve como principais influências Le Corbusier e a Bauhaus, uma escola inovadora de artes na Alemanha. Esse movimento possuía uma forte conexão de seus princípios com a indústria, desde a possibilitação das novas técnicas e materiais construtivos – fator de extrema importância para a determinação do estilo e das diretrizes predominantes do movimento em relação à construção – até o vínculo com a ideia da revolução, compartilhando também o pensamento de ruptura com a sociedade anterior pela oposição entre a produção das máquinas ao trabalho artesanal, como apresenta Lauro Cavalcanti:

A defesa da indústria sobre o artesanato visava obter qualidades intrinsecamente universais e se traduzia, estilisticamente, pela eliminação do ornato e conseqüente simplificação das construções para produção em série, de modo a fornecer habitações, principalmente para as camadas operárias. (CAVALCANTI, 1999, p.180)
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Em 1923, Corbusier publica seus ensaios “Vers une architecture” – em português “Por uma arquitetura” – como um texto que se tornou conhecido como um manifesto do Movimento Moderno. Além de abordar nessa obra uma visão de futuro e sua relação com o funcionalismo, Le Corbusier também apresenta os famosos 5 pontos de diretriz para a nova arquitetura modernista, que são: fachada livre, janelas em fita, pilotis, terraço jardim e uma planta livre.

Os Cinco Pontos da Nova Arquitetura foram publicados originalmente em 1926 por Le Corbusier na revista francesa L’Espirit Nouveau. São eles: 1- os pilotis – que elevam a massa acima do solo, 2- planta livre, obtida mediante a separação entre as colunas estruturais e as paredes que subdividiam o espaço, 3- a fachada livre, o corolário da planta livre no plano vertical, 4- a janela longa corrediça horizontal ou “fenêtre em longueur” e finalmente 5- o jardim de cobertura que supostamente recriava o terreno, coberto pela construção do edifício. (Frampton, 1997, p.188).

Fotografia 2 — À esquerda: fachada norte do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, 1946. À direita: casa modernista da rua Santa Cruz, de Gregori Warchavchik.
À esquerda: fachada norte do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro, 1946. À direita: casa modernista da rua Santa Cruz, de Gregori Warchavchik.<https://epoca.globo.com/a-biografia-do-palacio-capanema-23114692> <https://www.archdaily.com.br/br/01-17010/classicos-da-arquitetura-casa-modernista-da-rua-santa-cruz-gregori-warchavchik>

No Brasil, a influência modernista chegou por volta de 1920 com episódios importantes como a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. As Américas ainda viviam fortemente a abordagem do nacionalismo, e a compreensão e aplicação do moderno no país envolvia abranger a tradição local (Bittar, 2005). Nos anos finais da década de 20, os ideais de reformismo de Corbusier se assemelhavam com o momento vivido no país: a instauração do Estado Novo no Governo de Getúlio Vargas. Em 1927 Gregori Warchavchik projeta em São Paulo (rua Santa Cruz) a primeira casa modernista do Brasil; em 1946 se inaugura o edifício do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro que, apesar de não ser o primeiro edifício modernista no país, se tornou, juntamente com a obra de Warchavchik, um ícone definitivo para o Movimento brasileiro. Muito da aplicação dos 5 pontos de Corbusier nas edificações brasileiras ocorreu sem que houvesse um total abandono dos estilos nacionais já vigentes nos anos 20, mas sim uma articulação entre o passado e o futuro das construções, como aponta Josicler Alberton:

Apesar da pouca maturidade desses arquitetos, suas ações estabeleceram um marco divisor entre a tradicional arquitetura brasileira, de visibilidade apenas local, e a nova arquitetura, cuja qualidade rapidamente obteve reconhecimento internacional no final dos anos 30. Profissionais como Lúcio Costa (1902-1998), Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), Oscar Niemeyer (1907), Rino Levi (1901-1965), Vilanova Artigas (1915-1985), entre outros, adequaram os princípios modernistas internacionais à realidade nacional, criando uma arquitetura tipicamente brasileira. (ALBERTON, 2006, p.11)


Relacionadas ao período industrial brasileiro de intensas transformações, exposto nos capítulos anteriores, as décadas de 40 a 60 – quando houveram grandes avanços técnicos e econômicos – foram marcadas pela maior produção da arquitetura modernista. Alinhado ao governo de Juscelino Kubitschek na década de 50, o desenvolvimentismo destacou a arquitetura moderna em diversas cidades, por carregar consigo as ideias de atualidade e de progresso.


Nessa mesma época os projetos residenciais com os princípios modernos aumentaram, e estavam inicialmente atrelados ao poder aquisitivo das famílias que prezavam por vivenciar o que havia de mais moderno na atualidade (ALBERTON, 2006, p.12-16). Apesar da necessidade de investimento ao erguer uma construção moderna na época, um dos fatores de sucesso da tipologia estava atrelado à viabilidade econômica do método construtivo do concreto armado, como aponta Bruand:

o êxito do concreto armado no Brasil não pode ser explicado unicamente por razões econômicas, mas não há dúvidas de que estas tiveram um papel decisivo, pois seus componentes básicos, areia e cascalho, eram encontrados em qualquer lugar, a preços muito baixos. Além disso, a preparação do concreto no próprio canteiro de obras não exigia operários qualificados, fato importante num país onde eles são escassos, mas que, em compensação, conta com uma abundante mão‐de‐obra não qualificada. …O concreto armado era o único material moderno que se prestava ao trabalho artesanal e, por conseguinte, o mais bem adaptado às necessidades de um país subdesenvolvido. (…) Portanto, independentemente de suas qualidades técnicas e plásticas, o concreto armado apresentava a vantagem de ser, de longe, o material mais barato para toda estrutura de maior porte (BRUAND, Yves, p. 16., apud ARANHA)

 

Nestor Goulart Reis aponta também como justificativa do sucesso da modernização dos projetos a identificação da arquitetura moderna aplicada nas residências, a qual se apresentava como um reflexo do novo estilo de vida da época. Ele descreve as transformações na organização e aparência das moradias no trecho de seu livro “Quadro da Arquitetura no Brasil”:


A casa tradicional com suas paredes auto–portantes foi aos poucos dando lugar à casa moderna. A edícula, localizada no quintal, foi integrada à construção principal, surgindo assim as áreas de serviços, ocupando geralmente parcelas dos afastamentos dos lotes. A organização frente-fundo, hierarquizada, foi substituída pela valorização de todas as fachadas, sendo possível encontrar na frente do lote a nova área de serviço devidamente protegida por muros. O paisagismo foi aos poucos sendo valorizado e os velhos quintais foram transformados em pátios e corredores, que quando conformavam jardins, faziam a ligação entre espaço externo e interno. Ambientes como a cozinha e banheiros ganharam igual importância no tratamento arquitetônico. A organização espacial acontecia em prol da valorização da vida familiar, então, os arquitetos buscavam continuidade espacial através da integração de ambientes como as salas e até, em casos mais inovadores, a cozinha (REIS FILHO, 1978, p. 88-95, apud ALBERTON).


São José dos Campos, em 1920, após a fase sanatorial, já havia recebido investimentos governamentais para seu desenvolvimento industrial e urbano e, em um ritmo acelerado, se tornava cada vez mais uma cidade moderna e estruturada. Entre os anos de 1950 e 1960 o trabalho contemporâneo dos arquitetos era reconhecido pela sociedade joseense, e passou a ser produzido não somente nas obras públicas ou urbanas, mas também atendendo ao setor privado da cidade. Um dos marco para o momento modernista da arquitetura na cidade, na primeira fase industrial de São José, foi a construção do Complexo Tecelagem Parahyba e Fazenda Santana do Rio Abaixo, que pode ser dividido em dois setores: o fabril e o residencial. Os projetos modernos para a fábrica de tecelagem e seus edifícios de apoio aos operários (escola e conjunto residencial), são de autoria de estudantes de Arquitetura da época, colegas dos filhos de Olivo Gomes. Quanto à residência da família Gomes, seu projeto foi realizado por Rino Levi e conta com painéis e paisagismo de Burle Marx, dois grandes nomes do movimento moderno. Em sua segunda fase industrial, São José dos Campos recebeu o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (CTA), criado pelo governo, que foi planejado em um importante e estratégico local da cidade pelo escritório do arquiteto Oscar Niemeyer, após vencer o concurso para desenvolvimento do projeto (OTTA, 2016).

Figura 6 — Edificações construídas para o CTA baseadas no projeto original de Niemeyer
Edificações construídas para o CTA baseadas no projeto original de NiemeyerFonte: Fundação Oscar Niemeyer. <http://niemeyer.org.br/obra/pro027>. Acesso em: 20 novembro 2020

Algumas das construções modernistas da cidade permanecem até hoje com sua linguagem simples e sua lógica de composições, mantendo sua preservação e em uso. Porém, conforme São José crescia, sua paisagem urbana se alterou com certa desordem para se adaptar à nova realidade, como afirma Tatiana Otta


Na última década o Município de São José dos Campos passou por grandes transformações, acrescentando à característica de destacado centro industrial, a de centro regional de prestação de serviços. Como conseqüência viu alterada sua configuração urbana, tendo bairros antes residenciais transformados em sub-centros comerciais e de serviços. É real o fato de que inúmeras edificações foram descaracterizadas para se adaptarem a pequenos comércios e clínicas, quando não demolidas para a construção de prédios comerciais e residenciais. (OTTA, p. 9, 2005)


Não é necessária uma análise minuciosa ao se comparar arquivos das construções em seu estado original com as mesmas nos dias atuais para perceber que a evolução contemporânea na cidade, em muitos casos, não se preocupou adequadamente em valorizar e compreender a linguagem já existente do passado, a história contada pelas arquiteturas. Essa temática de preservação, bem como exemplos de projetos e ocupações bem sucedidas, tanto em São José dos Campos quanto em outras cidades, serão abordados no próximo capítulo.


A Preservação do patrimônio modernista

A ideia de bem cultural tem suas origens durante a Revolução Francesa, que ocorreu no final do século XVIII, quando, após um onda de vandalismo nos monumentos históricos, houve a necessidade de fundar museus e arquivos com o objetivo de conservar obras de relevância para a identidade nacional francesa. Como Márcia Braga (2003) exemplifica, temos as ideias do francês Viollet-le-Duc (1814 – 1879), influenciado pela diversidade do movimento eclético de sua época, o qual se pautava na liberdade de execução de um “arquiteto criador”, que justificava a composição de uma unidade estilística arquitetônica; e, em oposição, o inglês John Ruskin (1819 – 1900), que:

acredita que as obras arquitetônicas não podem receber nenhum tipo de complemento e valoriza as ruínas a ponto de recomendar que projetos de arquitetura sejam pensados considerando também seu estado de conservação depois de alguns séculos. (BRAGA, 2003).


Já em 1883, as ideias mais ponderadas de restauração de Camillo Boito (1836 – 1914), apresentadas no III Congresso de Engenheiros e Arquitetos, iniciam diretrizes e leis que até os dias atuais apresentam aplicabilidade e relevância.

Esses pensamentos se propagaram pelo restante da Europa e, após a Primeira Guerra Mundial, por se tratar de um período de grandes perdas em diversas áreas e de um forte sentimento em massa de nacionalismo, aumentou-se a percepção de que era necessário para a sociedade preservar e proteger seus bens culturais. Conferências e reuniões em prol desse objetivo começaram a acontecer e, como resultado dos debates, uma série de documentos relevantes surgiram, como as Cartas de Atenas de 1931 e 1933 que, de acordo com Sandra Pelegrini, constituem “uma das mais importantes abordagens acerca da relação entre a preservação do patrimônio histórico e a crescente expansão das cidades”. Gustavo Giovannoni (1873 – 1947), acadêmico seguidor de Boito, foi um importante nome que defendeu “critérios que unificavam a arte do restauro e a colocava sobre base científica” (BRAGA, 2003). Como frutos dos muitos encontros nacionais e internacionais temos o conjunto de importantes documentos, que ficou conhecido como Cartas Patrimoniais, as quais pautam muitas ações e conceitos de preservação até os dias de hoje.

O Brasil atualmente conta com a importante ação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que toma como partido o Artigo 216 da Constituição Federal de 1988 para estabelecer uma definição comum de patrimônio cultural, sendo os bens “de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. No campo dos bens materiais, particularmente das edificações, as tipologias sofreram diversas alterações ao longo dos anos, bem como o meio em que elas se inserem. A partir dessa plasticidade, as diretrizes de conservação se depararam com a necessidade de se tornarem mais contemporâneas, com uma aplicação específica e que abrangessem também as necessidades das construções de datação recente.

O primeiro subtítulo deste capítulo, “Princípios gerais de preservação e restauração na arquitetura moderna”, foi fundamentado nas teses de mestrado e de doutorado de Silvio Oksman, e conta com a exposição da visão do autor sobre as diretrizes mais relevantes no que tange a preservação pensada na ótica patrimonial modernista. No segundo, será brevemente apresentada a situação atual de São José dos Campos em relação à preservação de seus patrimônios modernistas: os órgãos de influência na cidade, as leis mais relevantes, suas edificações tombadas e uma visão geral da sociedade pautada no artigo de Tatiana Macedo Otta.

Panorama geral dos princípios de preservação no patrimônio arquitetônico moderno

Em um projeto onde se tem, em qualquer que seja o nível de envolvimento, um bem patrimonial, espera-se que o profissional encarregado, geralmente um arquiteto, busque aplicar de uma forma sensata e responsável os parâmetros desse projeto de intervenção. A bagagem de formação da pessoa incubida é de total relevância para o devido tratamento do bem e, como exposto na introdução acima, muito se construiu para que houvesse hoje uma fundamentação teórica relevante no que tange à preservação do patrimônio. Apesar das inúmeras tendências nas tipologias construtivas e nas correntes de pensamentos ao longo do tempo, documentos como as Cartas Patrimoniais e comissões como o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS) continuam influenciando projetos até os dias atuais. Embora apenas os conselhos, os congressos e as correntes de pensamentos possuam uma capacidade de adaptabilidade conforme a sociedade varia e se atualiza, muitos documentos que marcaram a história do patrimônio não sofreram substituição, mas sim receberam ao longo do tempo em seu conjunto novos tratados, leis e manifestos que exprimem as contemporaneidades de cada época.

Quando falamos de patrimônio material modernista construído, visualizamos inúmeras arquiteturas ilustres e algumas de menor relevância que se inserem na paisagem de nossas cidades. Há menos de cem anos o mundo vivenciou sua idealização, produção e seu recente reconhecimento como patrimônio cultural e, somado às suas características peculiares, esses fatores tornaram sua compreensão e tratamento especialmente contemporâneos. No Brasil, a linguagem construtiva colonial se destacou para ilustrar a nação no campo da arquitetura, e os primeiros órgãos oficiais de preservação, apesar de terem sido criados por nomes ligados à arquitetura moderna, consequentemente se pautavam com empenho no tombamento e preservação dessas construções antigas (OKSMAN, 2011). Para explicar esse acontecimento, Silvio Oksman afirma:

Esta postura tinha como objetivo explícito conferir à arquitetura moderna o caráter de continuidade da tradição arquitetônica brasileira e confirma-se pelo tombamento precoce dos edifícios modernos, como por exemplo a Igreja da Pampulha. Entretanto, excluindo as obras de Oscar Niemeyer, há poucos registros de tombamento de patrimônios modernos no órgão. (OKSMAN,p. 119, 2011)


Esses tombamentos de prevenção de poucas obras foram, no geral, as experiências patrimoniais mais relevantes que poucas arquiteturas modernas vivenciaram, o que permitiu que, nas obras sem proteção oficial, houvessem usos e ocupações indevidas, descaracterizando em vários casos o bem original. Serão brevemente analisadas algumas diretrizes de preservação já existentes, bem como a aplicabilidade individual das mesmas em ações projetuais.

Apesar de sua importância histórica, muitas metodologias de conservação dos pensadores pós-iluministas não são aplicadas nos projetos contemporâneos, devido à sua radicalidade. Porém, como já mencionado neste capítulo, as ideias de Camillo Boito são promissoras e embasaram conceitos atuais determinadas pelas organizações internacionais, que aconselham as diretrizes de patrimônio. Apesar de existirem muitas outras diretrizes de preservação e outros parâmetros de sistematização, para o fim desta monografia será adotada a metodologia de Silvio Oksman em sua dissertação de mestrado “Preservação do Patrimônio Arquitetônico Moderno: a FAU de Vilanova Artigas”, em que analisa algumas recomendações internacionais do ICOMOS, visando a possibilidade de uma aplicação projetual coerente especificamente em construções modernas. Os critérios escolhidos e analisados pelo autor serão descritos nos parágrafos seguintes, e são eles: mínima intervenção; distinguibilidade; distanciamento histórico e autoria; autenticidade; reversibilidade ou retrabalhabilidade.

O princípio da “mínima intervenção” defende um entendimento aprofundado do valor do bem, para que, a partir disso, seja possível assimilar as reais necessidades de intervenção nesse patrimônio. A alternativa da manutenção se mostra com frequência a melhor opção para se atuar na arquitetura modernista: por se tratar de construções recentes, geralmente há pouca degradação causada pelo tempo, o que viabiliza um tratamento focado na conservação. Porém, existem muitos casos em que já houve perda de desempenho ou uma descaracterização, no geral causadas por decisões invasivas, que contribuíram para a perda da originalidade da edificação e que, por isso, possuem a necessidade de uma atuação profunda.

No que tange à distinguibilidade, Boito já havia iniciado essa discussão com os princípios da diferença de estilos entre novo e velho e as diferenças de materiais. A tecnologia atual nos permite reproduzir com extrema similaridade texturas e aparências de um determinado objeto, porém, como apresentado na Carta de Veneza, a intervenção precisa “ostentar a marca do nosso tempo” (Carta de Veneza, Art 9º). Apesar dos materiais e das técnicas construtivas das edificações modernas ainda serem aplicados na atualidade e serem facilmente encontrados no mercado, “os projetos devem preocupar-se para evidenciar as intervenções por uma aplicação diferente daquela utilizada no edifício original” (OKSMAN, 2011). 

Sobre o uso e adequação dos edifícios, a Carta de Veneza estabelece que ” a conservação dos monumentos é sempre favorecida por sua destinação a uma função útil à sociedade; tal destinação é, portanto, desejável, mas não pode nem deve alterar a disposição ou decoração dos edifícios” (Carta de Veneza. Art 5º), ou seja, o uso deve ser compatível com a sua estrutura para que haja uma devida ocupação. De acordo com Silvio Oksman:

a flexibilidade dos espaços dos edifícios modernos permite ocupações diversas. Uma das principais características da arquitetura moderna – a independência entre estrutura e vedação – favorece a implantação de variados programas (OKSMAN, p.118, 2011).


Uma característica que marca e especificidade do tratamento das arquiteturas modernas é sua recente produção e reconhecimento como patrimônio. Muitos dos arquitetos idealizadores dessas obras ainda estão vivos, ou seus escritórios e familiares ainda possuem autoridade para responder pelo nome do autor do projeto. Apesar de parecer uma vantagem, “a possibilidade de consulta aos arquitetos pode comprometer o valor da obra” (OKSMAN, 2011) pois a compreensão de patrimônio cultural vai muito além da concepção inicial e individual de um projeto: é uma herança pública que conta a história de uma sociedade ou grupo de pessoas, que forma nelas uma memória, uma identidade e firma sua cultura (ZANIRATO, 2018). E como afirma a Carta de Veneza, “o conjunto do valor dos elementos em causa e a decisão sobre as eliminações a serem feitas não podem depender somente do critério do autor do projeto” (Carta de Veneza. CURY,2000).

A respeito da autenticidade, Silvio afirma:

A existência de projetos detalhados dos edifícios modernos sugere a possibilidade de reconstrução. Os documentos referentes a um edifício – projetos fotografias, ilustrações – são essenciais para sua compreensão, entretanto não devem ser encarados como a possibilidade de reprodução. (OKSMAN, p.118, 2011)


Assim como no ponto anterior apresentado, a ideia de uma reconstrução ou retomada do projeto inicial pode violar o princípio de que o patrimônio é um conjunto de fatores inerentes à uma obra. Reconstruir é uma ação similar à de resgate da imagem original idealizada para aquela arquitetura, que permeia nas ideias ousadas de Viollet-le-Duc sobre agir no bem e “restabelecê-lo em um estado completo que pode não ter existido nunca em um dado momento” (LE DUC, 2000). Portanto, a preservação da imagem da memória social prevalece na maioria dos casos, em detrimento de restabelecer o plano inicial que não foi consolidado.

Por fim, a questão da retrabalhabilidade envolve flexibilizar as ações ao ponto de permitir intervenções futuras no bem. Como Oksman defende:


“o conceito da reversibilidade considera que as novas intervenções devem permitir a leitura do edifício, somando ao valor que lhe foi atribuído o das novas propostas, nos diversos tempos em que forem executadas.” (OKSMAN, p. 58, 2011). 


A arquitetura moderna, como já exposto no parágrafo sobre uso e ocupação, já possui em sua estrutura essa capacidade de adaptação e, com a ação profissional de um arquiteto que compreende o valor do edifício, pode atender com facilidade à esse princípio da retrabalhabilidade.

Adotar esses e outros princípios gerais de conservação e preservação do patrimônio arquitetônico moderno é, geralmente, o diferencial de um bom projeto de intervenção, pois suas ações bem fundamentadas levam o bem a receber um apropriado uso e uma ocupação saudável. Além dessas responsabilidades dos profissionais e das organizações, a conscientização da esfera social – onde a importância do tombamento toma grandes proporções quando se torna um objetivo coletivo – e a consequente mobilização da esfera legislativa, também são fundamentais para que a cada vez mais tenhamos nossos bens patrimoniais devidamente integrados à cultura local.

 Preservação dos patrimônios culturais modernistas em São José dos Campos

São José dos Campos é uma cidade que possui ricas paisagens e muitos bens de grande valor histórico e, desde 1960, conta com órgãos e incentivos culturais por parte do governo, como o Departamento de Educação e Cultura. Em 1985 foi criada a Fundação Cultural de São José dos Campos, posteriormente denominada Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR), onde até os dias atuais, em conjunto com o Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural (COMPHAC), de 1984, e com o Conselho Gestor do Sistema de Arquivos (CG/SAMSJC), de 2001, atua nas decisões judiciais, políticas e culturais que tangem o patrimônio do município (Leitura técnica do Município para revisão do Plano Diretor, 2016, p.42). Não se pode excluir a influência de órgãos das instâncias estaduais e federais como o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), respectivamente.

De arquiteturas patrimoniais tombadas pelo Estado em São José temos apenas quatro, conforme a tabela 1 abaixo: a Igreja São Benedito, também conhecida como a Igreja Matriz, que foi protegida oficialmente em 1980; o Sanatório Vicentina Aranha, citado neste trabalho; a Residência modernista Olivo Gomes e seu parque ajardinado; e a Escola Estadual Sant’Anna do Paraíba, estando interligada ao bem citado anteriormente pela história da Tecelagem Parahyba. Tanto a Residência quanto a Escola se caracterizam como arquiteturas modernistas. Já na instância municipal são protegidos por lei: 28 construções, incluindo o Complexo: Fazenda Santana do Rio Abaixo e Tecelagem Parahyba de Cobertores; 17 patrimônios arbóreos; e como patrimônio imaterial, a Banda de Santana.

Tabela 1 — Patrimônio Cultural Tombado pelo Estado de São Paulo
Patrimônio Cultural Tombado pelo Estado de São PauloCONDEPHAAT. Leitura técnica do Município para revisão do Plano Diretor de 2016 – tabela baseada nos arquivos da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR)

De acordo com a Leitura técnica do Município para revisão do Plano Diretor de 2016, as legislações relativas ao Patrimônio Cultural em São José dos Campos eram: Lei Orgânica; Lei Municipal 2.869/84, de 20 de setembro de 1984 e suas atualizações; Lei Municipal 3.021/85, de 27 de setembro de 1985; Lei Municipal 3.050/85, de 14 de novembro de 1985 e suas atualizações; Lei Municipal 4.455/93, de 21 de outubro de 1993; nº 5633/00, de 04 de maio de 2000; Lei Municipal 5.864/01, de 22 de maio de 2001 (Leitura técnica do Município para revisão do Plano Diretor, 2016, p.44). Além de documentos de relevância específica para este trabalho, como o Plano Diretor do Parque da Cidade Roberto Burle Marx – que será abordado com mais ênfase no título do cap 4 – , homologado em dezembro de 2016, houve também a efetivação do mais recente Plano Diretor do Município (2018), que buscou abranger questões de aplicação e ordenação da situação atual de São José dos Campos, inclusive no que tange a preservação de seus patrimônios culturais.

Tatiana Macedo Otta aponta sobre a atuação do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) do Município e que “tem diversificado os programas culturais e sociais para aproximar a população da memória da cidade através da preservação de bens históricos” (OTTA, 2016). A trajetória e o caráter de São José, já apresentados anteriormente neste trabalho, contribuíram para que na população houvesse um comportamento de desprendimento com sua história. Desde a incerteza de seus primórdios, como houve com a descoberta recente de que o padre José de Anchieta na realidade não havia sido o fundador da Vila, até o cunho industrial, que trouxe para a cidade grande fluxos populacionais e um ritmo moderno acelerado, são fatores que implicam nessa falta de identidade e consequente dificuldade de pertencimento de seus habitantes.

Otta também ressalta o potencial da população em criar vínculos especificamente com a Arquitetura Moderna, já que seu caráter de construção recente, porém de grande importância patrimonial, pode se enquadrar nas reflexões de Halbwachs em que “situações vividas só se transformam em memória se aquele que se lembra sentir-se afetivamente ligado ao grupo ao qual pertenceu” (D’ALÉSSIO, 1992 – 1993). Além dessa desvantagem da falta de identificação, outro fator de dificuldade para a luta pela preservação é a demanda do mercado imobiliário, onde os proprietários muitas vezes cedem à essa pressão, permitindo modificações e até a demolição das edificações antes mesmo que haja algum respaldo de um profissional que preza pela manutenção do patrimônio. No processo de proteção e tombamento municipal, a problemática da continuidade e aprovação é frequente pois, até que o processo seja aprovado na Câmara de Vereadores, a Legislação Municipal não tem poder de proteção ao bem, o que estimulou, em inúmeros casos, ações que dificultassem ou até mesmo impedissem o trabalho posterior pautado por lei (OTTA, 2005).

A cidade possui muitos bens modernistas de importância patrimonial, inclusive no âmbito industrial, como o conjunto da fábrica Johnson & Johnson e o da fábrica Kodak. Na tipologia residencial temos as duas unidades do protótipos residenciais projetados nos anos 50 pelo arquiteto Carlos Millan para os diretores associados à indústria de Olivo Gomes e outras, como as apontadas no artigo de “Inventário de Arquitetura Moderna no Vale do Paraíba e Alto Tietê” (Mello et al., 1999):

Ainda em São José dos Campos, vale lembrar da residência Nicanor Camargo Neves, projeto de 1957, de José de Campos Almeida e Luciano Salgado. O telhado em “asa de borboleta” e a composição de elementos vazados, denunciam a influência carioca presente na obra. Também são dignas de nota, as residências projetadas por Luís Erasmo Moreira, influenciadas pela estética de Mies van der Rohe e Richard Neutra, assim como, a residência Hiroshi Kameyama, projetada em 1970, por Rui Ohtake, construída em concreto aparente e apresentando volumes cromáticos que buscam amenizar a rigorosa linha organizadora da laje de cobertura que se estende até os limites laterais do lote. (Mello et al., 1999)(p. 8)

Figura 7 — Residência Amaury Fernandes (1997), projetada por Luís Erasmo Moreira em 1965.
Residência Amaury Fernandes (1997), projetada por Luís Erasmo Moreira em 1965.Fonte: Arquivo público do município <https://www.sjcantigamente.com.br/residencia-amaury-fernandes/>

Apesar de encontrarmos em São José edificações modernistas com grande potencial patrimonial e existirem boas diretrizes municipais de atuação para a preservação, ao observarmos os resultados atuais dessas construções podemos atestar que ainda há a necessidade de ações efetivas por meio dos órgãos para que, enquanto durar o trâmite a favor da conservação do bem, haja uma devida fiscalização e proteção. Porém, apesar da importância do registro da edificação como bem cultural, há uma carência no que tange à conscientização e participação da sociedade como um todo, fator primordial para uma devida inserção das construções no contexto urbano atual e uma mobilização em favor do propósito da arquitetura, impulsionando também o poder econômico (OTTA, 2016).

A percepção ambiental aplicada à produção da arquitetura

Os sentidos humanos na experimentação da arquitetura

Antes de iniciar este capítulo, é necessário que haja uma exposição dos conceitos espaciais que uma arquitetura pode se adequar, estabelecendo como orientação uma vertente de pensamento que auxilie no entendimento do ponto em questão. Será, então, adotado como conceito de “espaço” e de “lugar” as definições expostas por Yi-Fu Tuan em seu livro “Espaço e lugar: A perspectiva da experiência” (1983), onde ele defende uma abordagem muito utilizada pela Psicologia e pelo Humanismo, que analisa esses termos através da ótica do estima humano. Em adição aos aspectos físicos, mais analisados pela Geografia, o espaço, que seria apenas o produto ou expressão da ação humana, ganha, pela visão de Tuan, a apropriação afetiva e se torna, assim, um lugar. Também acrescenta à sua percepção o fator temporal da análise espacial, tanto no que tange à transformação do espaço – ambiente indiferente ao ser – em lugar – ambiente acrescido de valor ao ser -, quanto no âmbito do decorrer da vida humana e suas experiências, como defende:

A sensação de tempo afeta a sensação de lugar. Na medida em que o tempo de uma criança pequena não é igual ao de um adulto, tampouco é igual sua experiência de lugar (…) e isto não é apenas porque são diferentes suas respectivas capacidades mentais e sensoriais, mas também porque seus sentimentos pelo tempo pouco têm em comum (TUAN, 1983, p. 206).


A partir do alinhamento desses conceitos, é essencial também entender como os sentimentos causados por um ambiente surgem, e aqui será elucidada a influência da experiência sensorial do ser humano. Tuan bem aponta que o “lugar é uma mistura singular de vistas, sons e cheiros, uma harmonia ímpar de ritmos naturais e artificiais (…) Sentir um lugar é registrar pelos nossos músculos e ossos” (TUAN, 1983, p. 203). A vivência se torna subjetiva e singular a partir do inerente envolvimento dos sentidos e dos sentimentos humanos em sua percepção espacial. Apesar de se tratar de aspectos abstratos e geralmente não-mensuráveis, existem apontamentos biológicos, psicológicos e comportamentais que nos fazem melhor compreender o que ocorre na experimentação de um lugar, os quais serão discutidos brevemente a seguir, em busca de diretrizes que orientem e articulem o espaço, visando uma presença completa do indivíduo inserido nele.

Para Juhani Pallasmaa, a arquitetura que promove uma experiência completa é aquela que deve “provocar todos os sentidos simultaneamente e fundir nossa imagem de indivíduos com nossa experiência do mundo” (PALLASMAA, 2011, p.11). O autor defende que, muito além de apenas cumprir suas funções de uso, a obra construída deve fazer parte da identidade pessoal do indivíduo, direcionando sua percepção de mundo e de realidade através da vivência de seu espaço. O ser humano possui inúmeras facetas sensoriais que são como receptoras desse espaço do mundo exterior, como explicitado no trecho do artigo “Medida da visão e testes psicofísicos”:

A visão é um dos sentidos do homo sapiens, tal como os sentidos táteis, álgicos, térmicos, cefaloálgicos, posicional, de equilíbrio, auditivo, olfativo, gustativo e outros. A definição de sentido é a consciência dos efeitos de um estímulo que excita um dos órgãos dos sentidos. Os sentidos acima citados possuem em comum o estímulo físico, a estrutura de captação apropriada, as vias de condução e o sistema de interpretação. (KRONBAUER et al, 2008)


Os estímulos recebidos por um indivíduo são os agentes que articulam a experiência até que ela se torne em seu interior uma interpretação, e podendo se tornar até mesmo uma memória. O usuário em um espaço usa seus sentidos tanto para perceber o ambiente quanto para expressar suas vivências nele. Observando a presença inerente da subjetividade e do subconsciente na experimentação, como, então, podemos compreender e transformar este processo interior do ser humano em algo analítico e até manipulável? Nos próximos parágrafos será brevemente discutido alguns pontos de tradução do âmbito psicológico para o campo da atuação, sendo passível de aplicação, inclusive, em uma concepção projetual arquitetônica.

Quando pensamos em ambientes vivenciados por usuários, sabe-se que é quase impossível que mais de um tenha uma sensação idêntica sobre aquele lugar. Suas individualidades interpretam de modo particular os estímulos externos que receberam através dos seus órgãos sensoriais, variando também conforme o grau desenvolvimento ou não de seus sentidos (LIMA, 2010). Uma arquitetura incita não somente a visão do ser humano, mas também abrange quesitos intangíveis – como por exemplo os sons e cheiros -, resultando em deslumbramento ou em decepção do indivíduo a partir da multissensorialidade vivida, sem que este note na maioria das vezes, conscientemente, todas as associações por si feitas.

Em um projeto, além dos aspectos construtivos e funcionais, a articulação do espaço e a preocupação com a experiência do usuário são fatores de extrema importância quando se pensa em um ambiente completo. Sabe-se que a atratividade visual é popularmente considerada um dos principais requisitos de prazer do ser humano pois, na maioria, se caracteriza como um dos órgãos sensoriais de maior habilidade e de uso consciente. Ao captar estímulos de luz e de cores, o olho posteriormente envia essas informações para a análise cerebral onde, cruzando as informações com as memórias e percepções, cria uma opinião ou sensação, julgando, por exemplo, a agradabilidade do objeto em questão observado. O processo de recepção, absorção e interpretação de um estímulo também ocorre com os outros sentidos humanos, mas muitas vezes de maneira mais sutil e inconsciente (DIAS, 2017).

Pela visão representar, na maioria, a principal janela de recepção do mundo exterior, muito se fala sobre os estímulos de luz e formas sob a perspectiva psicológica das cores. As classificações e fundamentos apresentados pela Bauhaus refletem o poder de modificação de um elemento a partir da interpretação e da percepção. O elemento que antes se classificava como sendo um ponto, por exemplo, ao se movimentar em velocidade pode ser visto como uma reta, e a reta ao se interseccionar com um plano pode gerar uma sensação particular ao observador. Com as cores ocorre a mesma ressignificação a partir da adição da interpretação humana:

Corretamente usada, determinada cor pode expressar o caráter de um edifício e o espírito que este pretende transmitir, podendo ser claro e alegre, indicando festividade e recreação, um outro pode ter um ar austero, e eficiente, sugerindo trabalho e concentração, mas para os diferentes tipos de edifícios existem diferentes tipos de cores (RASMUSSEN, 2002, p. 226, apud DIAS, 2017, p.8).


Ou seja, elementos como as cores, formas, sons, cheiros e outros, que por si só são estáticos e determinados, ao adentrar na mente humana através de algum canal sensorial receptor, se relacionam com o indivíduo e passam a possuir, naquela mente, um significado particular. Corbusier (2000) já dizia que “a Arquitetura é um fato de arte, um fenômeno de emoção, fora das questões de construção, além delas. A construção é para sustentar; a arquitetura é para emocionar.”. Ao se entender que o criar emoção é manipular os elementos básicos formais, a percepção sobre as possibilidades de vivência dificilmente será a mesma. Não é o objetivo deste trabalho se aprofundar especificamente em cada sentido humano até aprender a manipulá-los com maestria, mas sim externar o papel subjetivo do arquiteto. Ordenar e modelar espaços é, também, ordenar e modelar sensações.

Se pensarmos em uma arquitetura que estimula multissensorialmente um indivíduo, podemos concluir que não será possível reproduzir sua exata vivência em um outro usuário, por mais que as condições se assemelhem perfeitamente. Isso se dá pois, apesar da aparente estaticidade de uma construção, a bagagem individual é quem dita as regras da interpretação única, relativa a uma só pessoa e a um só momento. Pallasmaa afirma essa condição específica quando afirma que:

as características de espaço, matéria escala são medidas igualmente por nossos olhos, ouvidos, nariz, pele, língua, esqueleto e músculos. A arquitetura reforça a experiência existencial, Nossa sensação de pertencer ao mundo, e essa é essencialmente uma experiência de reforço da identidade pessoal. Em vez da mera visão, ou dos 5 sentidos clássicos, arquitetura envolve diversas esferas da experiência sensorial que interagem e fundem entre si. (PALLASMAA, 2011, pg. 39)


Essa lógica é confirmada pelo seguinte pensamento de Tuan:

O paladar, o olfato, a sensibilidade da pele e a audição não podem individualmente (nem sequer talvez juntos) nos tornar cientes de um mundo exterior habitado por objetos. No entanto, em combinação com as faculdades “espacializantes” da visão e do tato, estes sentidos essencialmente não distanciadores enriquecem muito nossa apreensão do caráter espacial e geométrico do mundo. (TUAN, 1983)


Um termo da medicina que pode ser muito bem adaptado para essas questões sensoriais é a “idiossincrasia”, onde o dicionário Michaelis (2020) define como sendo a “constituição individual, em virtude da qual cada indivíduo reage diferentemente à ação de agentes externos”. Saber organizar uma estrutura física (agentes externos) em prol da experiência, levando em consideração as mais variadas constituições individuais, é o desafio do arquiteto e urbanista que quer promover, através de sua criação, uma vivência completa ao usuário.

Experimentação da arquitetura: memória e cultura

Após a elucidação anterior acerca da intensidade da relação entre os sentidos humanos e a percepção, neste subtítulo pretende-se expor argumentos que revelem a importância da memória na determinação da vivência e, principalmente, na formação de uma cultura. Tuan afirma que, no ser humano, os órgãos sensoriais possuem uma “capacidade excepcionalmente refinada para a criação de símbolos.” (TUAN, 1983 p.5), ou seja, após conhecer algo, somos capazes de criar uma referência para aquilo, um conceito. Ao longo da vida experimentamos e experienciamos diversos momentos, pessoas, lugares, culturas… porém nem todos tomamos como agradáveis ou como verdade para nós mesmos. Estamos constantemente absorvendo símbolos e ponderando as melhores escolhas para nosso “eu”.

A necessidade inerente de referenciação faz com que haja constantemente um interesse por estar em lugares e com pessoas que nos soe familiar. Para Halbwachs “o indivíduo que lembra é sempre um indivíduo inserido e habitado por grupos de referência; a memória é sempre construída em grupo, mas é também, sempre, um trabalho do sujeito.” (SCHMIDT, 1993). O autor afirma que a fixar algo na memória de uma pessoa se torna muito mais fluido e intenso se há envolvimento saudável em um grupo, onde nele o indivíduo acredita que possa encontrar referências confiáveis pois está predisposto a transformar determinada situação em uma memória. Porém, em termos práticos, o que isso significaria na experimentação de uma arquitetura?

Assim como foi exposta a relação direta existente entre o estímulo sensorial e uma experiência intensa, a predisposição em absorver símbolos poderia ser a chave para criar momentos marcantes, memoráveis. Ao analisarmos uma sociedade combinando as visões de Tuan e Halbwachs, podemos ponderar seu nível de apego à memórias e de vivência de marcos analisando: sua relação com os símbolos que carregam consigo questões relativas à memória; e sua predisposição a viver algo como um grupo, consciente ou inconscientemente. Ou seja, o quanto seus itens, lugares e figuras simbólicas refletem a identidade daquele grupo. Bachelard afirma que “é pelo espaço, é no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas permanências” (BACHELARD apud ANDRADE, 1998, p.29), que observamos os resquícios de uma identidade fundamentada ou não na valorização da memória.

Com o objetivo de incentivar uma experimentação consciente da arquitetura, será brevemente analisada através da ótica de Pierre Nora a situação da memória arquitetônica modernista em São José dos Campos. Seu diagnóstico se baseou em recortes relevantes, e tomou como pressuposto a “existência de vínculos entre a permanência de uma memória nacional francesa e certos elementos” (GONÇALVES, 2012). Nora analisou a sociedade não mais com foco nos agentes causadores da falta de memória e vínculo que observava, mas sim em questão com enfoque nos efeitos causados por isso:

não mais os determinantes, mas seus efeitos; não mais as ações memorizadas nem mesmo comemoradas, mas o traço dessas ações e o jogo dessas comemorações; não os acontecimentos por eles mesmos, mas sua construção no tempo, o apagamento e o ressurgimento de seus significados; não o passado tal como se passou, mas seus reempregos permanentes, seus usos e desusos, sua pregnância sobre os presentes sucessivos; não a tradição, mas a maneira como se constituiu e foi transmitida. Logo, nem ressurreição, nem reconstrução, nem mesmo representação; uma rememoração. Memória: não a lembrança, mas a economia geral e a administração do passado no presente. Uma história da França, portanto, mas de segundo grau.” (NORA, 1997, v.2: 2229-2230, apud GONÇALVES)


O investimento em retomar o patrimônio e torná-lo um memorial é mobilizar todo um grupo em uma direção à um momento de uma nova vivência da história. Para uma arquitetura que se perdeu na memória de uma parcela da sociedade, a estratégia de ressignificá-la é vivenciá-la conforme seu tempo e potencial. Em um olhar consciente e individual, o bem patrimonial é capaz de se tornar um marco e participante da identidade desse grupo. Vivenciar a história em suas múltiplas facetas é também investir na identidade individual e, consequentemente, coletiva. 

Residência Olivo Gomes

Autores: Rino Levi e Burle Marx 

Ao buscar entender as peculiaridades da Residência Olivo Gomes, a procura pelos autores de seu projeto se torna fundamental. Apesar do envolvimento de muitos profissionais nas diversas construções situadas no Complexo Tecelagem Parahyba e Fazenda Santana do Rio Abaixo – local hoje denominado “Parque da Cidade – Roberto Burle Marx”, no que tange à residência podemos destacar dois principais nomes: Rino Levi, responsável pela arquitetura e Burle Marx, pelo paisagismo. Será apresentado, então, um panorama geral para que haja uma melhor compreensão da linguagem e das principais características projetuais de cada um.

Fotografia 3 — Rino Levi
Rino Levi<https://arquivo.arq.br/profissionais/rino-levi> Acesso em: 23 de novembro.

Rino Levi (1901-1965), nascido em São Paulo e filho de imigrantes italianos, em 1921 iniciou seus estudos em uma instituição em Milão, de caráter técnico-científico e abordagem conservadora, porém, após dois anos de estudo, Rino fez sua transferência para a Escola Superior de Arquitetura de Roma, “onde se deparou com a proposta para um novo tipo de profissional, o arquiteto integral, que se formaria a partir da união do saber técnico-científico ao conhecimento artístico” (RAHAL, 2006). Essa mudança foi fundamental para a construção do trabalho de Levi, pois foi nessa instituição de Roma que obteve contato com professores que propagavam e defendiam ideias inovadoras na arquitetura, inclusive sobre o início do período moderno. Rino adquiriu da Itália a mentalidade de uma proposta modernista aplicada que se adaptasse ao local e à cultura específica, sem que houvesse necessariamente uma ruptura com as tradições.

Em 1926 Rino voltou ao Brasil, e no ano seguinte fundou seu escritório, iniciando, então, suas atividades profissionais. Seu olhar particular e seu conhecimento técnico se destacaram rapidamente no país, e sua autoridade no ramo fez com que ele fosse um dos pioneiros da época em atuar como um arquiteto que se dedicava com mais exclusividade às ações projetuais, se distanciando das etapas construtivas (RAHAL, 2006). Na dissertação de mestrado de Marina Silva Rahal, a autora destaca o diferencial das obras de Levi no que tange a preocupação com o conforto térmico, pois havia nele um enfoque em solucionar da melhor forma, usando as tecnologias mais recentes na época, fatores como a insolação, iluminação, ventilação, temperatura e acústica. Ao considerar as peculiaridades do clima brasileiro, Rino gerou projetos funcionais de grande relevância, como o Edifício Guarani (1936), o Cine Art-Palácio (1936) e a Residência Castor Delgado Perez (1958).

Figura 8 — Da esquerda para a direita: (1) Edifício Guarani.(2) Cine Art-Palácio.(3) Residência Castor Delgado Perez.
Da esquerda para a direita: (1) Edifício Guarani.(2) Cine Art-Palácio.(3) Residência Castor Delgado Perez. Imagens organizadas pela autora. Acesso em: 23 de novembro de 2020. (1)Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC Campinas. (2 Fonte: ArquivoArq. (3)Fonte: Acervo Digital Rino Levi – FAU PUC Campinas.

O certo é que se classifique a arquitetura como arte plástica, de caráter essencialmente abstrato. A função do arquiteto é o estudo da forma, em ligação com o ambiente e o clima, dentro de condições funcionais e técnicas, visando a criação harmoniosa de ritmos, ordenando volumes, cheios e vazios, jogando com a cor e a luz. (LEVI, 2003, p.315)

Figura 9 — Corte e planta do Cine Ufa-Palácio. Projeto do arquiteto Rino Levi em 1936. São Paulo.
Corte e planta do Cine Ufa-Palácio. Projeto do arquiteto Rino Levi em 1936. São Paulo.Fonte: Anelli; Guerra; Kon, apud RAHA 2001

Além da atenção dada ao conforto ambiental, temos também outras características marcantes na ação projetual de Rino: preocupação com o detalhamento dos desenhos; um programa de necessidades da edificação bem resolvido; uso de pátio em residências unifamiliares; destaque ao paisagismo; planta livre em residências; a grelha em fachadas, separando a estrutura do fechamento; elementos de concreto utilizados como caixilhos (LEITE, 2010). Mesmo inserido na lógica modernista, as produções do arquiteto se diferenciavam das tendências da época: um exemplo é o fato de que o estilo de Rino nunca chegou a se configurar como pertencente nem à escola carioca, nem à escola paulista do modernismo (ARANHA, 2008). Carlos Lemos analisa a postura de Levi no que tange ao diferencial e ao domínio da profissão:

Rino foi o anti‐Oscar por excelência; em vez de livrar‐se dos condicionantes do partido, procurava‐os para tentar vencê‐los. Disso decorreu uma arquitetura sobriamente bem composta, com cada coisa no seu lugar, justificando toda uma teoria bem estudada, como no caso de seus hospitais, assunto de constantes palestras, conferências e escritos. Não podemos dizer que tenha sido um artista livre, onde a liberdade aliada à imaginação levasse‐o a soluções personalistas por excelência. Não. Rino Levi foi o fiel servidor das regras e seu mérito está em tê‐las servido com bom gosto (LEMOS, Carlos, p. 158, apud ARANHA, 2008)


O arquiteto sustentava a postura racionalista, mas não deixava de lado a visão culturalista. Sua natureza criativa era expressada através da técnica que possuía, e a busca pela síntese das artes é um fator que pode ser observado no projeto da residência Olivo Gomes (1951). Os filhos de Olivo faziam parte do Clube dos Artistas, em São Paulo, que era frequentado por Carlos Millán e outros intelectuais e artistas da época. Millán foi o responsável por construir a escola para operários e o protótipo residencial para diretores da Tecelagem Parahyba. Carlos sugeriu que um colega, Rino Levi, fosse o responsável pela construção da nova residência de Olivo Gomes e família, que contou com a participação de Roberto Cerqueira Cesar no projeto (PLANO DIRETOR DO PARQUE, 2016). Para o paisagismo criou-se laços profissionais, e inclusive de amizade, entre Olivo, Rino e Burle Marx.

Figura 10 — Roberto Burle Marx
Roberto Burle MarxFonte: <http://galeria22.com/biografia/roberto-burle-marx/> Acesso em 23 de novembro

Roberto Burle Marx (1909-1994) foi um grande paisagista da história brasileira e mundial, apesar de ter atuado também como ceramista, pintor, escultor, decorador, e entre outras áreas. Nascido em São Paulo, viveu sua infância no Rio de Janeiro e aos 18 anos mudou-se com sua família para a Alemanha, onde teve contato com as novas vanguardas e com a vida cultural da cidade. Em 1930 retornou ao Rio, se matriculou na Escola Nacional de Belas Artes e lá foi notado pelo seu professor Lúcio Costa, o qual alavancou o talento de Burle, trazendo influência ao nome do paisagista, fator que contribuiu diretamente para seu futuro cargo de governador de Pernambuco.

A partir de sua ocupação pública, Burle começou a exercer ativamente seu papel como modificador da paisagem urbana, e foi pioneiro em paisagismo na vanguarda moderna brasileira. Sua primeira atuação em Recife, a Praça de Casa Forte (1935), ainda continha linhas projetuais semelhantes ao período anterior, o ecletismo, mas pouco tempo depois Burle projeta na mesma cidade a Praça Euclides da Cunha, inspirada no livro “Os sertões”“ ‘Os Sertões’ é uma das obras mais emblemáticas do escritor pré-modernista Euclides da Cunha (1866-1909), publicada em 1902. A obra regionalista narra os acontecimentos da sangrenta Guerra de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro (1830-1897), que ocorreu no Interior da Bahia, durante 1896 e 1897. Trata-se de um relato histórico mesclado à literatura, posto que Euclides foi convidado pelo Jornal Estado de São Paulo para cobrir a guerra no Arraial de Canudos e nesse momento, surgiu sua obra.” (DIANA, 2019).. Nesse último feito, Marx demonstra seu pensamento diferencial, valorizando as características da paisagem da caatinga e fazendo disso um marco na produção de espaços livres da época.

Figura 11 — Praça Euclides da Cunha
Praça Euclides da CunhaNanquim sobre papel, 1935 [MARX, Roberto Burle. Arte e paisagem 2019] <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.042/638> Acesso em 23 de novembro

Segundo Ana Rita Sá Carneiro no livro Arquitetura Paisagística Contemporânea no Brasil, a concepção de jardim moderno de Burle Marx “originava-se de um pensamento que ordena a natureza – segundo princípios artísticos como harmonia, contraste, relação de cheios e vazios -, em que a vegetação definia piso, parede e teto” (CARNEIRO, 2010) . Burle projetou mais de 10 praças e espaços públicos em Recife, e é possível observar que, com o tempo, seus projetos se distanciam gradualmente da rigidez que havia anteriormente na época, passando a adotar cores e formas abstratas, caraterísticas já aplicadas, por exemplo, no paisagismo do Ministério de Educação e Saúde (1938) no Rio de Janeiro. A década de 40 foi um período de grandes contribuições em escala regional, como o Conjunto da Pampulha. Outros projetos de importância foram: o Parque do Flamengo (1954), a calçada da Avenida Atlântica em Copacabana (1970), e diversos projetos paisagísticos em Brasília (1970).

Fotografia 4 — Parque do Flamengo.
Parque do Flamengo.Fonte: Marcel Gautherot – Acervo do escritório de Burle Marx. <https://www.archdaily.com.br/br/774477/centro-cultural-dos-correios-promove-a-exposicao-jardim-de-memorias-nil-parque-do-flamengo-50-anos?ad_source=search&ad_medium=search_result_all> Acesso em 23 de novembro

Figura 12 — Calçadão de Copacabana, onde os padrões de pavimento abragem 4 km ao longo da Avenida Atlântica no Rio de Janeiro.
Calçadão de Copacabana, onde os padrões de pavimento abragem 4 km ao longo da Avenida Atlântica no Rio de Janeiro.Fonte: Burle Marx & Cia. Ltda. apud Archdaily, Rio de Janeiro. <https://www.archdaily.com.br/br/792669/roberto-burle-marx-um-mestre-muito-alem-do-paisagista-modernista>

Os projetos de Burle Marx contribuíram de maneira significativa na paisagem da cidades onde atuou, imprimindo as características marcantes que diferenciam suas obras e acarretou a esses lugares a possibilidade de representarem, no aspecto paisagístico, feições do ideal da cidade moderna. Em São José dos Campos, sua amizade com Olivo Gomes possibilitou que Burle produzisse um projeto de grande escala para o que era, na época, a área da antiga Fazenda Santana do Rio Abaixo. No que tange ao paisagismo da residência da família Gomes, pode-se observar o alinhamento com a descrição de Franco Panzini no livro “Projetar a Natureza” sobre o trabalho geral de Burle que:

[…] buscou uma estreita relação com as artes modernas e usou materiais vegetais e minerais inéditos. Com grande sensibilidade, esse profissional aliou-se aos arquitetos modernos de seu tempo e encarnou o espírito de seu tempo também em campanhas contra o desmatamento e na defesa do meio ambiente (PANZINI,p. 600, 2013)

Figura 13 — Painéis da Residência Olivo Gomes de autoria de Burle Marx. Colagem feita pela autora.
Painéis da Residência Olivo Gomes de autoria de Burle Marx. Colagem feita pela autora.Fonte: KON, Nelson. <https://www.archdaily.com.br/br/01-31181/classicos-da-arquitetura-residencia-olivo-gomes-rino-levi> Acesso em 23 de novembro de 2020

Além do paisagismo no jardim frontal em comunicação com a residência, Burle também produziu ali três painéis de cerâmica. No atual “Parque Roberto Burle Marx” temos outras participações tanto de Burle como de Rino, como o galpão abobadado em dois vãos de 22,50 metros, realizados pelos arquitetos Rino Levi, Roberto Cerqueira Cesar e Luis Roberto Carvalho Franco, que conta com um painel de ladrilhos esmaltados de autoria de Roberto Burle Marx (ARANHA, 2008). No parque há também as imponentes palmeiras imperiais, utilizadas em muitos projetos de Burle, que se tornaram marco para a cidade de São José dos Campos. Rino Levi e Burle Marx possuem projetos de inestimável significado histórico, artístico e cultural, e contribuíram em grande escala para a história da arquitetura e do paisagismo moderno, modificando e marcando a paisagem das cidades com suas características projetuais.

Residência Olivo Gomes: análise preliminar do bem

Como já apresentado anteriormente neste trabalho, a Residência Olivo Gomes é uma construção modernista, localizada na área da antiga Fazenda Santana do Rio Abaixo. Foi construída entre 1951 e 1957 como um pedido da Família Gomes, que na época era proprietária da Fábrica Tecelagem Parahyba e já morava em uma edificação existente no local, onde desde 1997 e até os dias atuais funciona o Museu do Folclore. O espaço da fazenda fez parte da vida cotidiana tanto da família quanto da população, principalmente por volta de 1940, quando, ao observarem a ausência de espaços livres públicos na cidade – como praças e parques -, disponibilizaram sua propriedade para uso e comemorações populares tanto pelos operários da fábrica quanto pela população do bairro, fator que marca o início da apropriação pública de um local que posteriormente se tornaria o Parque da Cidade de São José dos Campos (JORGE, 2007). Esse caráter hospitaleiro dos Gomes também pode ser observado na Residência, de autoria de Rino Levi e Associados, pois seu projeto foi concebido para receber grande número de pessoas, sendo palco inclusive de reuniões e festas para convidados da elite.

Fotografia 5 — Vista lateral esquerda da casa do Museu do Folclore de São José dos Campos, Brasil. 9 de maio de 2017, Sofia de Almeida Sampaio
Vista lateral esquerda da casa do Museu do Folclore de São José dos Campos, Brasil. 9 de maio de 2017, Sofia de Almeida Sampaiohttps://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Museu_do_Folclore_de_S%C3%A3o_Jos%C3%A9_dos_Campos_01.jpg

Figura 14 — Festas da sociedade paulista nos jardins da residêcia de Olivo Gomes
Festas da sociedade paulista nos jardins da residêcia de Olivo GomesFonte: Arquivo História da Fundação Cassiano Ricardo

Apesar do seu uso e importância, o local recebeu o reconhecimento como Parque Roberto Burle Marx somente em 1996, e apenas em 2004 foi declarado como patrimônio arquitetônico e ambiental pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico, Paisagístico e Cultural (COMPAHAC). Olivo pouco desfrutou da arquitetura modernista que encomendou, pois veio a falecer em 1957, seis anos após o início da construção. A Residência Olivo Gomes e seu parque ajardinado foram tombados em 2013 em instância estadual pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), resolução SC-97, de 23/10/2013 publicada no DOE (Diário Oficial Poder Executivo) de 07/11/2013, p. 72. da Secretaria de Cultura do Estado, que resolve:

Art. 1º. Fica tombada a Casa Olivo Gomes, compreendida como a construção residencial, os painéis artísticos e o jardim projetado por Burle Marx, integrantes do mesmo projeto. Os limites da área tombada, com 42700m², estão expressos no mapa abaixo. (DOE modificado,p. 72, 2013)

Figura 15 — Perímetro Tombado da área da Residência Olivo Gomes e o jardim no se entorno. Em preto: Residência Olivo Gomes. Em cinza: Perímetro tombado
Perímetro Tombado da área da Residência Olivo Gomes e o jardim no se entorno. Em preto: Residência Olivo Gomes. Em cinza: Perímetro tombadoPLANO DIRETOR DO PARQUE DE 2016. Fonte: Diário oficial – Seção 1 (São Paulo, 123(211)) – 7de novenbro de 2013

A Residência, como exposto acima possui diversas características marcantes de seu principal autor, Rino Levi, que contou contou com a participação de seu sócio, Roberto Cerqueira Cesar. Nesse projeto, Rino concretiza uma busca de sua carreira que é a “síntese das artes”: onde “integrando arquitetura, paisagismo, mobiliário, afrescos e murais, a casa se abre como um mirante para a paisagem, e a estrutura linear dispõe todos os ambientes em função da vista” (ENCICLOPÉDIA CULTURAL, acesso em 17 de novembro). A arquitetura tem um caráter peculiar por usufruir de sua implantação diferenciada próxima ao limite da várzea do rio Paraíba, um espaço contrastante com o centro da cidade que se localiza próximo dali. Os mais de 500.000 m² de parque destacam o espaço em que a edificação se situa, e o aproveitamento dessa zona, protegida legalmente pelo município (Lei nº 6493/04 e Lei Complementar nº 165/97), possibilitou a intensa relação com a paisagem natural, fator escasso em outras edificações modernas por se concentrarem majoritariamente no contexto puramente urbano.

O espaço também conta com três painéis artísticos de Burle Marx, que reforçam a concepção da integração do paisagismo com a arquitetura, como descreve Renato Anelli:

“painéis e jardins são componentes ativos na realização do partido do projeto. O jardim expande o espaço interno, constituindo uma transição para paisagem mais ao longe. Os painéis principais sintetizam a forma da casa em seu ponto fulcral, do qual partem centrifugamente as linhas do espelho d’água, canteiros, muros de arrimo e viveiros de pássaro.” (ANELLI apud CONDEPHAAT, 2001, p. 118,119)


E na descrição de Vinie Pedra Jorge:

Observa-se a intenção do paisagista em conduzir o olhar do observador através do uso de cores, e de contrastes de luz e sombra. As cores vivas dos painéis casam com as escalas de massas de vegetação havendo uma hierarquia para a observação dos elementos de interesse: a casa, o grupo de guapuruvus, o jardim frontal. Os painéis se destacam através do espelho d’água que reflete a residência como foco principal. (JORGE, p.19, 2007)


Enquanto a residência teve sua construção finalizada em 1958, Burle executou o paisagismo de para os jardins em duas fases, de acordo com Vinie, sendo a primeira na região frontal da casa, durante os anos 50, e a segunda na parte posterior, durante a década de 60, mostradas na figura abaixo (figura 16). Na área restante (executada entre 1970 e 1993) houve apenas “a participação ‘informal’ do paisagista, mas não existe documentação na forma de desenhos ou relatórios que comprove esse fato” (JORGE, 2007).

Figura 16 — Croqui da área dos jardins e residência Olivo Gomes
Croqui da área dos jardins e residência Olivo GomesAutor: Fundação Cassiano Ricardo – DPH

No ano de 2008, o escritório Burle Marx & Cia. Ltda apresentou para a prefeitura um Projeto de Recuperação Paisagística do Parque da Cidade, que foi concebido após constatações feitas entre os anos 2000 e 2004 pelo sócio de Burle Marx, Haruyoshi Ono, o qual observou a descaracterização e a necessidade de reparos na principal contribuição de Burle, o jardim da residência Olivo Gomes. 

Posteriormente este projeto entrou como diretriz de preservação do paisagismo histórico no Plano Diretor do Parque da Cidade – Roberto Burle Marx de 2016 (inciso IV – Medidas a serem adotadas e ações a serem realizadas – IV 8.1 – Recomposição do paisagismo original, p.54).

Figura 17 — Planta paisagÍstIca humanizada para a tecelagem Parahyba de autoria de Roberto Burle Mrx
Planta paisagÍstIca humanizada para a tecelagem Parahyba de autoria de Roberto Burle Mrxhttps://arquivo.arq.br/projetos/residencia-olivo-gomes

Anelli afirma que essas contribuições de Marx são como “uma obra que condensa o significado da casa” (ANELLI, 2001), mas que também refletem os gostos da família, feições do espaço e traços dos autores. A residência concebida por Rino Levi e seus colaboradores é o resultado da convergência de suas habilidades técnicas e artísticas, que resultou em um programa arquitetônico icônico e bem resolvido. Existe uma divisão clara de setores em relação ao uso: o bloco dos dormitórios; a área social; e por fim, o setor de serviço e garagem. Sua distribuição se configura predominantemente em um pavimento, sendo que no nível inferior se encontra apenas a parcela em pendente da edificação e áreas como o salão de jogos e a garagem (FRACALOSSI, 2013).

A partir da fachada com o acesso principal no pavimento térreo, encontra-se à esquerda os oito dormitórios e quatro banheiros, distribuídos a cada par de quartos. O elemento de maior destaque nesse setor são as amplas esquadrias e seu sistema que, “para abrir completamente os dormitórios para a paisagem, as folhas das janelas são elevadas por um sistema de contrapesos que as embute completamente na testada da casa” (ANELLI apud CONDEPHAAT, 2001). Estes detalhes, na descrição de Anelli, são “pormenores construtivos” que revelam uma “sofisticação sem precedentes na obra de Levi”.

Já à direita se encontra a ampla sala de estar e jantar envolta por paredes repletas de janelas. O espaço se interliga a um terraço apoiado em pilares cilíndricos de concreto e projetado em direção à paisagem, e desse local avarandado, em conexão ao nível inferior, surge uma escada helicoidal cujo “desenho é singular: os degraus estão sustentados por uma viga curva de concreto e no seu perímetro externo por cabos de aço que partem da laje superior. Uma escultura para o alpendre.” (FRACALOSSI, 2013). Há também a possibilidade de chegar ao nível do salão de jogos por uma rampa que se projeta próxima ao corredor de acesso aos quartos. O setor de serviço se conecta com a sala e possui uma escada para área inferior, e conta também com um anexo de dois dormitórios para empregados.

Figura 18 — plantas esquemáticas
plantas esquemáticashttps://arquivo.arq.br/projetos/residencia-olivo-gomes

Em uma descrição brusca e resumida, Yves Bruand caracteriza as principais características da edificação:

blocos puros de contornos retilíneos, pilotis, paredes de vidro protegidas por grandes telhados salientes, terraço em balanço, escada em caracol e degraus suspensos, cerâmicas murais e jardim artificial de Burle Marx exercendo um papel de transição com o contexto natural, mas marcando bem a recusa de submeter‐se cegamente a ele.” (BRUAND,Yves, o p. cit., p. 281.)

Figura 19 — plantas esquemáticas
plantas esquemáticashttps://arquivo.arq.br/projetos/residencia-olivo-gomes

Já em uma análise mais subjetiva, a arquiteta Adda Ungaretti, do CONDEPHAAT, descreve o bem relacionando-o com as principais características projetuais de Rino já citadas neste trabalho, como a preocupação técnica e funcional, com grande ênfase no conforto ambiental:

Os detalhes construtivos, a seleção de materiais, os sistemas de ventilação e iluminação são cuidadosos e característicos do repertório do arquiteto: inovadores e sempre pensados na busca de associar o melhor desenho ao cumprimento adequado das funções: o notável sistema de caixilhos dos quartos, vãos iluminados sobre a bancada da pia da cozinha, divisórias de armários entre os ambientes são alguns exemplos. O uso das cores também é objeto de projeto sofisticado e cria efeitos como o da parede negra da sala em contraste com a paisagem feérica do exterior e o das duas cores dividindo a rampa que interliga as áreas sociais: sala e salão de festas de modo a anular o impacto da parede lisa. (UNGARETTI/ Processo de Tombamento)

Figura 20 — plantas esquemáticas
plantas esquemáticashttps://arquivo.arq.br/projetos/residencia-olivo-gomes

A expressão técnica e artística dos autores e colaboradores no projeto torna notória a singularidade dessa arquitetura. No Diário Oficial Poder Executivo (DOE) de 7 de novembro de 2013, expõe-se as principais pautas justificativas do tombamento, inclusive o reconhecimento da importância da Residência Olivo Gomes sendo uma obra “parte integrante dos processos de transformação e modernização do Estado de São Paulo na segunda metade do século XX” e também os influentes nomes envolvidos em sua concepção:

que a denominada Residência Olivo Gomes, na antiga Fazenda Sant´anna, em São José dos Campos, integra em concepção única de 1950 o projeto do arquiteto Rino Levi para a casa, painéis artísticos integrados à construção e o paisagismo desenhado por Roberto Burle Marx; que o projeto de Roberto Burle Marx representa superlativamente a excelência de sua produção no contexto da paisagem brasileira; que essa obra conjunta é exemplar de destaque na produção de seus autores e na história da arquitetura brasileira; (…) que o arquiteto Rino Levi e o paisagista Roberto Burle Marx são reconhecidos por suas contribuições para a cultura brasileira do século XX. (DOE, p. 217, 2013)


Pela relevância e interesse do Parque, existem muitas outras diretrizes e leis municipais que o protegem, inclusive abrangendo as construções que estão em seu território. Muitas dessas atualmente sediam órgãos administrativos do Estado de São Paulo e do município, como a própria Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) que atua em atividades municipais de interesse cultural. As antigas edificações da fábrica são propriedade do município desde 2017, e “ainda não há nenhum projeto de restauro ou sugestão clara para o uso das áreas desocupadas, algumas já bastante comprometidas pelos processos de deterioração.” (LIMA, 2018).

No que tange a Residência Olivo Gomes, ainda não foi possível fazer uma análise geral sobre o estado atual de preservação da edificação. Neste momento serão adotadas como as manutenções mais recentes as descritas no Plano Diretor do Parque da Cidade Roberto Burle Marx, onde em 2015 e 2016 a residência:


“passou por obras que recuperaram a instalação elétrica e hidráulica, fizeram a descupinização da edificação e dos móveis, providenciaram consertos na estrutura metálica de portas e janelas, revitalizaram o piso de madeira e envolveram também reparos nos forros, na vidraçaria, nas luminárias e em outros elementos.” (PLANO DIRETOR DO PARQUE DA CIDADE ROBERTO BURLE MARX, p.26, 2016)


Entende-se que, assim como o conjunto de construções presentes no Parque, a Residência faz parte de “um momento histórico importante para a região, possui qualidades arquitetônicas e espaciais particulares e se localiza num espaço de uso público, com grande potencial cultural e paisagístico.” (LIMA, 2018). A relevância dessa edificação é clara, principalmente ao analisá-la através do olhar de um arquiteto, porém, ao observarmos sua relação atual e histórica com a população, nota-se que, além da necessidade de simplesmente ocupá-la, é preciso também incorporá-la na memória da cidade.

Considerações finais

A arquitetura modernista de São José dos Campos se encontra em um estado de inércia, apesar da cidade possuir algumas obras importantes desse período. O rápido avanço industrial e tecnológico que impulsionou São José também suprimiu a cultura da memória e da valorização dos bens materiais que representam a trajetória.

O município, que é ainda muito conhecido por seu caráter moderno e desenvolvido, deixou para trás um pedaço importante de seu legado e, para que se retome a importância do patrimônio arquitetônico moderno, é preciso reafirmar a identidade dos habitantes em relação ao seu território. O objetivo deste trabalho foi compreender a formação da cidade e as principais brechas que poderiam ser a causa da desvalorização do bem patrimonial. Apesar da proteção em nível estadual da Residência Olivo Gomes e do constante interesse em seu espaço, é necessário que haja uma proposta além de uma simples ocupação e preservação, pois essa construção conta com um potencial e com uma riqueza histórica inestimável, assim como o Parque em que está inserida.

A estratégia de um envolvimento profundo da população, através de uma riqueza de experiência sensorial, é uma das possíveis propostas de atuação para este local, sendo que o uso e a abordagem de preservação projetuais ainda são passíveis de mudança. Retomar a importância e o orgulho da população em abrigar um patrimônio tão rico em seu território é um grande desafio, porém há um potencial existente nesse patrimônio que não pode ser ignorado.

Referências

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Ações de manutenção e conservação continuam na Residência Olivo Gomes. Prefeitura de São José dos Campos. São José dos Campos, 2015. Disponível em: http://servicos2.sjc.sp.gov.br/noticias/noticia.aspx?noticia_id=22376#:~:text=Resid%C3%AAncia%20Olivo%20Gomes-,O%20processo%20de%20manuten%C3%A7%C3%A3o%20e%20conserva%C3%A7%C3%A3o%20da%20Resid%C3%AAncia%20Olivo%20Gomes,interna%20e%20externa%20da%20casa. Acesso em: 23 nov. 2020.

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