MAPEAMENTO E DIAGNÓSTICO DE SUSCETIBILIDADE A MOVIMENTOS DE MASSA NAS SUÍTES GRANÍTICAS DO SEMIÁRIDO PARAIBANO.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

Departamento de Geografia do CERES, UFRN

Geografia Bacharelado

MAPEAMENTO E DIAGNÓSTICO DE SUSCETIBILIDADE A MOVIMENTOS DE MASSA NAS SUÍTES GRANÍTICAS DO SEMIÁRIDO PARAIBANO.

RAQUEL cardoso DE ARAÚJO

Orientador: Saulo Roberto de Oliveira Vital

FORMULAÇÃO DO PROBLEMA


Nas Litologias pertencentes aos Cinturões Móveis Neoproterozoicos da Paraíba ocorrem movimentos de massa, tais como: rolamentos de blocos, desplacamentos de rochas ou queda de blocos? Fatores geofísicos influenciam diretamente para que o processo ocorra, e quais impulsionam esses processos? A declividade, associada aos fatores estruturais, pode indicar a suscetibilidade da área de estudo aos processos de movimentos de massa? Intervenção antrópica e modificações na paisagem podem aumentar os riscos nas áreas classificadas como suscetíveis aos processos? 

O Manual Técnico de Geomorfologia classifica os fenômenos de Movimentos gravitacionais de massa como "efeitos dos processos que atingem determinada área de forma rápida ou lenta, notabilizados pela ação da gravidade, combinados com a ação da água e associados a fatores naturais e/ou antrópicos." Portanto, é notório que estes processos ocorrem principalmente nos relevos de declividades acentuadas, bem como a esfoliação esferoidal, que provoca o descamamento da Rocha, provavelmente associada com termoclastia favorecem à formação de fraturas ou diaclases das rochas, resultando no aparecimento de marcas de escorregamentos e desmoronamentos de blocos.

Construção de hipótesES

Os movimentos de massa ocorrem na superfície terrestre frequentemente provocados por atividade biológica ou por processos físicos resultantes das condições climáticas e da ação de forças gravitacionais na superfície terrestre. Assim, considera-se que a declividade, associada a outros fatores geofísicos do relevo terrestre, podem deflagrar eventos de movimentação de massa, principalmente se impulsionados pela ação do intemperismo físico ou químico na superfície das rochas e solos. (PENTEADO, 1980, p.100)

Desse modo, é provável que nas litologias predominantemente de rochas cristalinas ocorram processos de movimento gravitacional de massa, como as quedas e rolamentos de blocos de rochas, tombamentos ou desplacamentos, considerando que tais processos ocorrem frequentemente nas encostas íngremes de paredões rochosos, e contribuem decisivamente para a formação dos depósitos de tálus. (Torres et al., 2012) Os estudos geofísicos realizados nas áreas estudadas foram determinantes para classificá-las como suscetíveis aos referidos processos, visto que esses processos ocorrem com determinada frequência nestas localidades, sendo relatados por moradores das áreas circunvizinhas e, em casos mais excepcionais, documentados em Blogs ou Jornais locais. 

Cicatriz de rolamento de rocha na Serra de Brejo do Cruz, Pedra da Turmalina, PB.Fotografia 1 — Cicatriz de rolamento de rocha na Serra de Brejo do Cruz, Pedra da Turmalina, PB.
O autor (2020) Pedra... (2014)

Considerando a relevância dos fatores físicos e estruturais da área estudada, como o percentual de declividade das vertentes, as descontinuidades das rochas, as foliações e os padrões de dissecação do relevo, fez-se possível identificar quais áreas seriam naturalmente às mais suscetíveis. Considerando o que é exposto por Marimon (2009) a suscetibilidade natural da área de estudo pode ser preliminarmente indicada, com base nos graus de declividade das vertentes. Deste modo, são atribuídas classes de suscetibilidade considerando o percentual de declividade das encostas: declividades entre 25 e 45º são classificadas como de moderada e alta suscetibilidade, e as vertentes com declividades mais elevadas são classificadas como de muito alta suscetibilidade. A ocorrência de eventos pretéritos na área de estudo também pode classificá-las como de muito alta suscetibilidade.

 No tocante ao grau de declividade das vertentes, a área de estudo é classificada como de alto grau de suscetibilidade aos movimentos de massa, visto que o percentual de declividade das vertentes é acentuado, principalmente nas altitudes que superam os 500 metros, as quais ocorrem percentuais superiores aos 45 %, e algumas vertentes convexas superam o 75% de percentual de declividade, o que é determinante na suscetibilidade da área aos referidos processos.

Mapa de Percentual de declividade das vertentes da área estudada.Figura 1 — Mapa de Percentual de declividade das vertentes da área estudada.
O autor (2020)

Entretanto, deve-se ressaltar que outros fatores como o intemperismo físico ou químico nas rochas podem acelerar a ocorrência desses processos, principalmente associados à retirada da vegetação nas vertentes íngremes, aumentando significativamente os riscos e a suscetibilidade natural das encostas e dos paredões rochosos. Fatores litológicos e estruturais, como a formação de fraturas ou diaclases das rochas, resultam no aparecimento de marcas de escorregamentos e desmoronamentos de blocos nestas suítes. Na área estudada identificou-se a ocorrência de pelo menos cinco Litologias, todas pertencentes aos Cinturões Móveis Neoproterozoicos, que compreendem extensas áreas representadas por planaltos, alinhamentos serranos e depressões interplanálticas elaborados em terrenos dobrados e falhados, incluindo principalmente metamorfitos e granitóides associados. (IBGE, 2009, p.29)

Ressalta-se que grande parte do terreno é constituído das suítes máficas e ígneas félsicas Neoproterozoicas das seguintes Unidades Litoestratigráficas: Granitoides Brasilianos Indiscriminados, Suíte Dona Inês, Suíte Poço da Cruz; e dos terrenos pertencentes ao Grupo Seridó, tais como as litologias Caicó e Caicó Metavulcanosedimentar. No tocante à ocorrência dos movimentos de massa nessas Litologias, deve-se ressaltar que esses terrenos são formados por rochas cristalinas (granitos, riolitos...) com presença de descontinuidades (disjunções e fraturas), portanto, áreas suscetíveis a ocorrência de deplacamento, queda de blocos e movimento de massa, principalmente quando associada a relevos íngremes. (Torres, 2016)

Grande parte do terreno em que está inserida a área de estudo é formado por rochas granitóides bastante deformadas, podendo também estar muito fraturadas, com pronunciada anisotropia textural (normalmente em todo o maciço) apresentando descontinuidades geomecânicas e hidráulicas, o que pode facilitar a percolação de fluidos e o intemperismo que influenciam  na percolação de água e na estabilidade de obras subterrâneas e taludes de corte.(Torres, 2016, p.81)

Portanto, é notório que os aspectos geológicos e estruturais corroboram as hipóteses preliminares de que ocorrem nessas áreas movimentos de massa, favorecidos pelas descontinuidades das rochas, como planos de intersecção de juntas e falhas, que favorecem o desplacamento das mesmas nas zonas de contato litológico.

 

Mapa Geológico da área de estudoFigura 2 — Mapa Geológico da área de estudo
Projeto: Evolução Crustal e metalogenia da Província Mineral do Seridó, CPRM

Definição dos objetivos

Geral

Elaborar mapeamento e diagnóstico de suscetibilidade aos movimentos de massa, como quedas de blocos nas vertentes dos maciços graníticos do semiárido Paraibano, utilizando técnicas de mapeamento geomorfológico e estrutural.

 Específicos:

  • Definir as áreas mais suscetíveis aos movimentos de massa, levando em consideração os aspectos estruturais, geomorfológicos e a frequência de ocorrência dos processos;
  • Atribuir classes de suscetibilidade, considerando aspectos geofísicos da área de estudo; tais como: altitude, geologia, estrutura e declive acentuado;
  • Elaborar prognósticos, considerando a probabilidade de ocorrência dos processos e existência de eventos pretéritos;
  • Determinar os prováveis Riscos e suscetibilidade natural da área estudada e classificar as áreas mais críticas a ocorrência dos eventos. 

Pesquisa Descritiva: O que será descrito?

A presente pesquisa caracteriza e descreve a ocorrência de movimentos gravitacionais de massa nas vertentes das suítes granitoides da Paraíba, especificamente nas Serras de Brejo do Cruz e Contendas, nas quais foram coletados dados que corroboram as referidas hipóteses, tais como: registros fotográficos, relatos de moradores das áreas periurbanas, pontos com GPS garmin e amostras de solos.

Considerando os dados coletados, fez-se possível diagnosticar a ocorrência nessas serras de pequenos a médios desplacamentos de rochas, que ocorrem nas encostas dos maciços residuais e estendem-se até o sopé das vertentes. Os eventos mais críticos ocorreram na Serra de Brejo do Cruz, PB, Pedra da Turmalina, em que foram registrados dois eventos entre os anos de 2012 e 2014, este último evento deixou uma cicatriz no maciço devido o desmoronamento de rochas, que despencaram de uma altura de cerca de 200 metros e, por pouco, não atingiu moradias no entorno da serra.

De acordo com o técnico em gestão ambiental Alvares Kamark, a pedra despencou de uma altura de cerca de 200 metros e fez muito barulho ao rolar até uma mata. “Pelas arranhaduras deixadas na pedra principal da serra, não deve ter sido somente uma pedra que despencou. Pelo rastro deixado, dá para entender que outras pequenas pedras acompanharam, formando um desmoronamento considerável”, contou. A cidade de Brejo do Cruz fica bem abaixo da serra e como contam os moradores do município, vários desmoronamentos já aconteceram, mas nenhum que chegasse perto das residências e com a mesma intensidade do que foi registrado nessa segunda-feira. 

Alvares Karmak relembrou que há dois anos um desmoronamento parecido ocorreu, mas na parte de trás da serra, onde é menos habitado. Ele acredita que esses fenômenos acontecem por causas naturais como a erosão provocada pela água da chuva e dos ventos. Porém, não deixou de destacar que o perigo acontece quando as pessoas começam a construir desordenadamente em locais que podem representar perigo. (PB AGORA, 2014)


Pesquisa explicativa: o que será explicado?  

Na referida pesquisa explica-se que as vertentes dos relevos de clima semiárido ocorrem os movimentos gravitacionais de quedas de blocos, que são movimentos rápidos de blocos ou lascas de rochas caindo pela ação da gravidade, sem a presença de uma superfície de deslizamento na forma de queda livre. Ocorrem principalmente nas encostas íngremes de paredões rochosos e contribuem decisivamente para a formação dos depósitos de tálus. (Torres et al., 2012). Esses movimentos ocorrem naturalmente na superfície terrestre, mas os fatores antrópicos, como uso do solo, ocupações humanas nas vertentes íngremes, retirada parcial ou completa da vegetação nas encostas podem deflagrar eventos mais frequentes e de maiores magnitudes, bem como acarretar em desastres e perdas de vidas humanas.

Portanto, a presente pesquisa explana os principais aspectos do mapeamento geomorfológico aplicado às análises de suscetibilidade e risco, assim como explica a importância dos aspectos geofísicos, estruturais e litológicos na classificação das potenciais áreas suscetíveis e de risco, bem como a relevância dos fatores antrópicos como potencializadores e deflagradores dos processos de movimentos gravitacionais de massa.

 Pesquisa Bibliográfica teóricas-conceituais:

Acerca do referido tema, considerou-se a relevância da abordagem dos principais conceitos que norteiam os estudos geofísicos e geomorfológicos acerca das fragilidades ou potencialidades de uma determinada área a ocorrência de determinados  processos, tais como os movimentos de massa ou processos erosivos. Guerra et al.; (2017) discorrem sobre os movimentos de massa (ou perda de massa) como movimentos do solo e/ou rocha sob a influência da gravidade, sendo um movimento material coletivo, sem necessariamente ser influenciado por água ou gelo. No entanto, água ou o gelo pode diminuir a resistência ao cisalhamento das encostas, e assim, os solos se comportam fisicamente como plásticos ou, em muito condições úmidas, como fluidos (apud Abrahams, 1986; Brunsden, 1988; Selby, 1993; Goudie e Viles, 1997; Clague e Robert, 2012; Kanungo e Sharma, 2014; Guerra e Jorge, 2014).

No tocante às quedas de blocos, que é o movimento de maior predominância em climas semiáridos, os autores PINOTTI et al.; (2013) ressaltam que as principais causas da movimentação de blocos podem estar associadas à variação térmica do maciço rochoso, perda da sustentação dos blocos por ação erosiva da água, alívio de tensões, vibrações e outras (apud Guidicini e Nieble, 1984). Para este autores, uma movimentação de blocos de rocha ocorre quando um pedaço de rocha desloca-se sobre uma encosta íngreme e cai até sua base, enquanto a queda de detritos envolve uma mistura de solo, regolito e rochas. Quando isto ocorre, o material desprendido das vertentes acumula-se na base da encosta, na forma de talus. (PINOTTI et al.; 2013. p.171)

No que concerne aos principais tipos de movimentos de massa que envolvem quedas ou ruptura de blocos rochosos, os autores PINOTTI et al. (2013) utilizam a classificação dos processos proposta por Infanti Jr. e Fornasari F. (1998):

  • Queda de blocos: materiais rochosos de volume e composição litológica variadas, que se destacam de taludes ou encostas íngremes, com movimento caracterizado como sendo do tipo queda livre;
  • Tombamento de blocos: movimento dado pela rotação de blocos rochosos, condicionados pela presença de estruturas geológicas no maciço, com mergulho acentuado; 
  • Rolamento de blocos: consiste em movimentos de blocos de rocha ao longo de superfícies inclinadas. Os blocos geralmente se encontram parcialmente imersos em matriz terrosa, desprendendo-se dos taludes e encostas por perda de apoio; 
  • Desplacamento: desprendimento de lascas ou placas de rochas formadas a partir de estruturas (xistosidade, acamamento etc.) devido a alivio de tensões ou por variações térmicas. O desplacamento pode ocorrer em queda livre ou deslizamento ao longo de uma superfície inclinada.

Especificamente sobre o conceito de suscetibilidade, considera-se o que é exposto por Saito (2004) que a entende como característica inerente do meio, representando a fragilidade do ambiente em relação aos escorregamentos e quedas de blocos, diferenciando-se do conceito de vulnerabilidade, o qual é definido como predisposição de um sujeito, sistema ou elemento, ser afetado por um evento ou acidente. Acerca do referido conceito, ZERÊRE (2005, p. 81) o entende como a probabilidade espacial de ocorrência de um determinado fenómeno num dada área com base nos fatores condicionantes do terreno, independentemente do seu período de recorrência. Para este autor, para que ocorre o risco é necessário que existam elementos em risco ou elementos vulneráveis, ou seja, população, equipamentos, propriedades, atividades económicas em risco num determinado território, portanto, o diferencia do conceito de suscetibilidade. 

Acerca das muitas definições utilizadas nas bibliografias sobre os riscos e suscetibilidade a determinados processos, considerou-se também alguns conceitos técnicos propostos pelo Ministério das Cidades (MCID) em parceria com o Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED/UFSC) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) no Curso de Capacitação de Técnicos e Gestores Municipais no Mapeamento e Gerenciamento de Riscos de Deslizamentos em Encostas e Inundações, no qual aborda-se alguns conceitos importantes que são comumente utilizados nos estudos de Risco e prevenção de desastres. Desse modo, deve-se considerar a relevância de alguns destes conceitos comumente utilizados por profissionais e técnicos que atuam na prevenção e contenção desses processos, tais como:

Vulnerabilidade: Grau de perda para um dado elemento ou grupo dentro de uma área afetada por um processo;

Suscetibilidade: Indica a potencialidade de ocorrência de processos naturais e induzidos em áreas de interesse ao uso do solo, expressando-se segundo classes de probabilidade de ocorrência; 

Risco: Probabilidade de ocorrer um efeito adverso de um processo sobre um elemento. Relação entre perigo e vulnerabilidade, pressupondo sempre a perda.


No tocante à avaliação e gerenciamento dos riscos, ZERERÊ (2005) explica que a avaliação do risco implica na classificação da importância do risco estimado para os elementos vulneráveis e a probabilidade de mitigação dos seus efeitos deletérios, que devem ser considerados nos processos de decisão. Para este autor, a gestão do risco implica a tomada de decisões acerca das medidas preventivas e de mitigação a serem adotadas, e da classificação do Risco Aceitável e do Risco Tolerável. "Sempre que se fala em risco está implícito que há um nível de aceitação ou tolerância bem presente que, no entanto, raramente é avaliado." (ZERERÊ, J. L, 2005, p. 93). Portanto, a gestão do risco perpassa a classificação dos mesmos e os respectivos graus de risco, bem como a possibilidade de prevenção do eventos e mitigação dos danos e efeitos deletérios aos elementos vulneráveis a esses processos, que podem ser populações, estruturas, estradas ou construções humanas. 

Acerca dos fatores condicionantes a ocorrência de movimentos de massa no ambiente terrestre, Carmo et al.( 2016) consideram a importância da análise das variáveis morfométricas aos estudos destes processos, bem como da relevância dos fatores que devem ser avaliados para os cálculos da suscetibilidade, como a Geologia, onde as diferenças entre os tipos de rochas podem ocasionar a rápida movimentação de massa por suas características texturais e estruturais de formação. Para esses autores, as variáveis morfométricas são instrumentos importantes para a análise geomorfológica de uma determinada região, pois permitem estudar os processos desde a sua gênese à evolução destes processos nas formas de relevo. (CARMO et al. 2016) 


Vários dos fatores condicionantes desses processos geomorfológicos, seja os processos erosivos lentos ou os movimentos de massa, estão relacionados as variáveis morfométricas, como a orientação de vertentes, o grau de inclinação das encostas e a forma do terreno, que é definida a partir da associação dos tipos de curvaturas vertical e horizontal. Então, a morfologia do relevo é um fator importante para definir a suscetibilidade que um local possa ter tanto na ação erosiva quanto a movimentos de massa em um terreno. (CARMO et al.; 2016)

 

Portanto, deve-se levar em consideração as variáveis morfométricas das áreas de estudo, bem como a existência de fatores condicionantes - que podem ser naturais ou de origem antrópica - na determinação dos graus de risco ou suscetibilidade aos movimentos de massa, visto que a previsão destes eventos não é tão simples, principalmente os de queda/rolamentos de blocos que são os mais difíceis de prevê o início do processo, sua trajetória e o alcance dos blocos (PINOTTI et al. 2013; apud Ribeiro et al. 2009) 

Acerca dessas variáveis, deve-se ressaltar que esses aspectos influenciam diretamente na ocorrência dos movimentos de massa, pois a morfologia das vertentes, bem como a sua orientação azimutal, ou seja, a direção em que as encostas estão voltadas, podem implicar numa maior suscetibilidade natural aos referidos processos e deflagrar eventos de movimentação gravitacional de massa.

TRÊS CONCEITOS DA GEOGRAFIA CENTRAIS NA SUA PESQUISA E UMA REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA DE CADA UMA.

Movimentos gravitacionais de massa e quedas de blocos

PENTEADO (1980, p.100) entende os movimentos de massa como processos que ocorrem na superfície terrestre frequentemente provocados por atividade biológica ou por processos físicos resultantes das condições climáticas e da ação de forças gravitacionais na superfície terrestre. Torres et al (TORRES, F. T. P.; MARQUES NETO, R.; MENEZES, S. O, 2012, p. 88) complementa que a ação da gravidade é fator principal da ocorrência desses processos, embora não seja o único.

De acordo com o que é explanado no Manual Técnico de Geomorfologia, os fenômenos de Movimentos gravitacionais de massa são "efeitos dos processos que atingem determinada área de forma rápida ou lenta, notabilizados pela ação da gravidade, combinados com a ação da água e associados a fatores naturais e/ou antrópicos." De acordo com Guerra et al.; (2017) os movimentos de massa (ou perda de massa) são movimentos de solo e/ou rocha sob a influência da gravidade, sendo um movimento material coletivo, sem necessariamente ser influenciado por água ou gelo. No entanto, água ou o gelo pode diminuir a resistência ao cisalhamento das encostas. 

"As quedas de blocos são movimentos rápidos de blocos ou lascas de rochas caindo pela ação da gravidade sem a presença de uma superfície de deslizamentos, na forma de queda livre." (TORRES, F. T. P.; MARQUES NETO, R.; MENEZES, S. O, 2012, p. 91). Caracterizam-se por serem movimentos rápidos e difíceis de prever, que podem ser induzidos por eventos climáticos, como excesso de chuva e variação da temperatura; biológicos, como raízes em crescimento em juntas e fraturas com potencial de alavancar blocos; ou eventos sísmicos, naturais ou induzidos antropicamente. (Goes, 2018)


Mapeamento geomorfológico aplicada à gestão dos riscos

Santos et al (2006, p. 04) propõe que "o mapeamento geomorfológico constitui um dos principais métodos para o estudo e a pesquisa em geomorfologia, mas também pode ser utilizada no planejamento ambiental (apud Ross, 1990), fornecendo informações sobre as potencialidades, vulnerabilidades, restrições e riscos de ocupação e intervenções possíveis na paisagem."

De acordo com Simon et al (2019, p.14) o mapa geomorfológico é a base das pesquisas ambientais aplicadas ao estudo do relevo terrestre. Além da representação cartográfica das feições morfológicas, o mapa, como produto final, é a concepção sintética do relevo, o fundamento da pesquisa geomorfológica.

Conforme explana Diniz et al (2017) dentre as metodologias de mapeamento geomorfológico  utilizadas no Brasil, destaca-se a proposta de Jurandyr Ross (1992), que baseia-se na metodologia concebida pelo Projeto RADAM-BRASIL, no qual Professor Jurandyr Ross atuou ativamente e colaborou com os estudos do relevo brasileiro. No tocante a esta metodologia, ressalta-se que foi a que obteve maior grau de aceitação pela comunidade geomorfológica brasileira, "e parte do entendimento das relações entre os fatores endógenos e exógenos e criam diferentes conjuntos de táxons no relevo, utilizando a hierarquia dos conjuntos de geoformas embutidos uns nos outros que adota os conceitos de morfoestrutura e morfoescultura, advindos da escola russa." (Diniz, Marco Túlio Mendonça; Oliveira, George Pereira; Maia, Rubson Pinheiro; Ferreira, Bruno, 2017, p. 690).


Suscetibilidade ou riscos geológico-geomorfológicos:

Acerca da suscetibilidade, Saito (2004) a entende como característica inerente do meio, representando a fragilidade do ambiente em relação aos escorregamentos e quedas de blocos, diferenciando-se do conceito de vulnerabilidade, o qual é definido como predisposição de um sujeito, sistema ou elemento, ser afetado por um evento ou acidente. 

Zererê (2005, p. 81) o entende como a probabilidade espacial de ocorrência de um determinado fenómeno num dada área com base nos fatores condicionantes do terreno, independentemente do seu período de recorrência. Para este autor, para que ocorre o risco é necessário que existam elementos em risco ou elementos vulneráveis, ou seja, população, equipamentos, propriedades, atividades económicas em risco num determinado território, portanto, o diferencia do conceito de suscetibilidade. 

No tocante à avaliação e gerenciamento dos riscos, Zererê (2005) explica que a avaliação do risco implica na classificação da importância do risco estimado para os elementos vulneráveis e a probabilidade de mitigação dos seus efeitos deletérios, que devem ser considerados nos processos de decisão. Para este autor, a gestão do risco implica a tomada de decisões acerca das medidas preventivas e de mitigação a serem adotadas, e da classificação do Risco Aceitável e do Risco Tolerável. Para este autor, para que ocorre o risco é necessário que existam elementos em risco ou elementos vulneráveis, ou seja, população, equipamentos, propriedades, atividades económicas em risco num determinado território, portanto, as variáveis humanas os diferencia do conceito de suscetibilidade. 

 

Referências

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CARMO, Alcione Moreira do; SOUTO, Michael Vandesteen Silva; DUARTE, Cynthia Romariz; LOPES, Pamela Sampaio; SABADIA, José Antônio Beltrão. AVALIAÇÃO DE SUSCETIBILIDADE À MOVIMENTOS DE MASSA, UTILIZANDO AS VARIÁVEIS MORFOMÉTRICAS, PARA AS SERRAS DA PORÇÃO SUL DO MACIÇO CENTRAL DO CEARÁ. Revista Brasileira de Cartografia, Edição Especial Movimentos de Massa e Processos Erosivos: Sociedade Brasileira de Cartografia, Geodésia, Fotogrametria e Sensoriamento Remoto, Fortaleza, Ceará, n. 68/9, p. 177-1804, , 2016.

Diniz, Marco Túlio Mendonça; Oliveira, George Pereira; Maia, Rubson Pinheiro; Ferreira, Bruno. MAPEAMENTO GEOMORFOLÓGICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE. Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v. 18, n. 4, p. 689-701, 2017.

DOS SANTOS, Elisa Volker; CASAGRANDE MARIMON, Maria Paula. CARACTERIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS DE MASSA NA MICROBACIA DO RIO ITOUPAVA, MUNICÍPIO DE RIO DO SUL / SC – BRASIL. Revista Geográfica de América Central, Costa Rica, n. 47 E, p. 1-17, 2011.

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Silvia Saito. Orientadora: Dra. Maria Lúcia de Paula Herrmann Co-orientador: Dr. Joel R.G.M. Pellerin. ESTUDO ANALÍTICO DA SUSCETIBILIDADE A ESCORREGAMENTOS E QUEDAS DE BLOCOS NO MACIÇO CENTRAL DE FLORIANÓPOLIS-SC. Florianópolis, Santa Catarina, f. 133, 2004. Dissertação (Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Geografia) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, 2004.

Simon, Adriano Luís Heck; Lupinacci, Cenira Maria. A cartografia geomorfológica como instrumento para o planejamento . Pelotas: Ed. da UFPel, 2019. 172 p.

TORRES, F. T. P.; MARQUES NETO, R.; MENEZES, S. O. Introdução à Geomorfologia. Cengage Learning, São Paulo, SP, 2012.

Torres, Fernanda Soares de Miranda/ Organização Fernanda Soares de Miranda Torres [e].Edlene Pereira da Silva. Geodiversidade do estado da Paraíba / CPRM, 2016. Programa Geologia do Brasil. Levantamento da Geodiversidade. Recife, PE: ISBN 978-85-7499-160-3, 2016. 124 p.

Torres, Fernanda Soares de Miranda; Silva, Edlene Pereira da. Geodiversidade do estado da Paraíba. Recife, PE, 2016. http://rigeo.cprm.gov.br/jspui/handle/doc/14706 Data: 2016. Dimensões: 1:500.000.

ZERERÊ, J. L. Dinâmica de vertentes e riscos geomorfológicos . Lisboa: Relatório N° 41, 2005. 129 p.

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