FAKE NEWS NO CONTEXTO BRASILEIRO

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Faculdade de Comunicação Social

FAKE NEWS NO CONTEXTO BRASILEIRO

Dianne leite silva

Resumo

As fake news ganharam destaque na mídia após as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016 devido ao uso frequente do termo por Donald Trump e a grande quantidade de notícias falsas que circularam no período da campanha. A partir disso, foram levantas diversas discussões sobre os impactos das fake news em períodos políticos. Por isso, o objetivo deste trabalho é realizar uma análise exploratória sobre as fake news a partir da apresentação de conceitos e análises de casos que ocorreram em três momentos da política brasileira: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e o atentado à caravana do Lula em Laranjeiras do Sul (PR). O trabalho também mapeia as ações desenvolvidas pelo jornalismo tradicional em contrarreação ao fenômeno das notícias falsas.

Palavras-chave: Fake News. Notícias Falsas. Fact-Checking. Jornalismo.

Abstract

The fake news gained distinction in the media after the 2016’s presidential elections of the United States caused by the often use of the term by Donald Trump and the big amount of fake news that flowed at the campaign period. From that, it was raised a lot of discussions about the impacts caused by the fake news in policy periods. For this reason, the objective of this work was to make an exploratory analysis about the fake news, considering the presentation of concepts and case analysis that happened in three moments of brazilian policy: the ex-president Dilma Roussef’s impeachment, the murder of the Rio de Janeiro councillor, Marielle Franco, and the attack to the Lula’s caravan, in Laranjeiras do Sul (PR). The work also mapped the actions developed by the traditional journalism in counterpart to the fake news phenomenon.

Keywords: Fake News. Fact-Checking. Journalism.

Introdução

As notícias falsas ganharam destaque nas eleições dos Estados Unidos de 2016 com a disputa presidencial entre Donald Trump e Hillary Clinton, devido ao atual presidente denominar fake news as notícias que não lhe agradavam ou iam contra seus interesses. Além disso, durante o período de campanha, as notícias falsas ganharam mais proporção e foram mais divulgadas do que as notícias verdadeiras, conforme levantamento feito pelo BuzzFeed, em que 20 das notícias falsas mais compartilhadas tiveram alcance maior do que as 20 melhores histórias eleitorais de 19 principais sites de notícias. As duas fake news com maior repercussão foram: “Wikileaks confirma que Clinton vendeu armas para o Estado Islâmico” e “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump”. Apenas três, entre as 20 notícias falsas com maior alcance, eram contra Trump.

Uma simples pesquisa no Google do termo fake news resulta em 745 milhões de resultados, mais de 400 milhões na seção de notícias. As fake news são notícias falsas e podem ter diversos tipos e objetivos, mas este trabalho focou naquelas com intenção de enganar o leitor. Alguns sites produzem conteúdo semelhante a uma notícia ou copiam o nome de um veículo jornalístico de credibilidade associando-se a uma fonte inexistente ou manipulando notícias verdadeiras e fotos para confundir o leitor. Tudo isso pode causar diversos impactos além da desinformação, como danos à imagem de uma pessoa pública.

Entretanto, para que uma notícia falsa ganhe visibilidade, os leitores precisam compartilhar o conteúdo e a quantidade daqueles que divulgam informações falsas tem surpreendido. Somente no Brasil, em um único mês (junho de 2017), 12 milhões de usuários compartilharam informações falsas apenas sobre política, de acordo com estudo realizado pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (Gpopai/USP)Facebook (69%) e o WhatsApp (39%) os mais utilizados para este fimDigital News Report (2016). Disponível em: http://www.digitalnewsreport.org/survey/2016/. Acesso em 15 de mar de 2018.. O grande problema é que muitos leitores não checam as informações que circulam na rede devido a enorme quantidade de conteúdo disponível e, então, acabam reproduzindo-nas, auxiliando no impulsionamento das notícias falsas.

Esse estudo procurou, portanto, mostrar a relevância da discussão das fake news no cenário político a partir de um mapeamento bibliográfico do assunto. Apresentamos um estudo de caso de três momentos na política brasileira em que as notícias falsas ganharam destaque, entre eles o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, e o atentado à caravana do Lula, em Laranjeiras do Sul (PR). O debate sobre os usos e efeitos das fake news também levaram as empresas de jornalismo a elaborarem alternativas para combater as notícias falsas, desse modo, esse trabalho também mapeou ações que têm sido desenvolvidas pela mídia tradicional ou mesmo pelas novas agências de checagem.

 

JORNALISMO E FAKE NEWS

Neste capítulo discutimos o conceito de boato e fake news, explicando tipos, motivos que levam ao compartilhamento, quem produz, por que produzem, e técnicas utilizadas para engajar uma notícia falsa. Também abordamos a relação desse fenômeno com as novas tecnologias de comunicação, em especial, a Web 2.0.

bOATOS

 A manipulação de informação ou indiferença com a verdade ocorre há muito tempo através dos boatos ou rumores, ambos sinônimos. Para Kapferer (1989, p.13) o rumor é o meio de comunicação mais velho do mundo porque “antes de existir a escrita, o que se dizia de boca em boca era o único canal de comunicação das sociedades. O boato veiculava as notícias, fazia e desfazia reputações, precipitava os motins e as guerras”. Eles são utilizados até hoje e são descritos por Briggs e Burke (2004, p. 37), “como um ‘serviço postal oral’, funcionando com velocidade admirável” e, por vezes, não são espontâneos, sendo disseminados por “motivos políticos e, em tempos de conflitos, um lado regularmente acusava o outro de espalhar boatos”. A crença na veracidade do boato ocorre, geralmente, por serem recebidos de pessoas conhecidas (RENARD, 2007).

Segundo Renard (2007), há dois tipos de boatos: aqueles que as informações não foram verificadas e aqueles que possuem informações falsas. No primeiro, “Não se prejulga a veracidade do “barulho que corre” e, nesta acepção, um boato não é, necessariamente, falso” (RENARD, 2007, p. 97). Já no segundo, apesar de já ter sido confirmado que é falso, as pessoas continuam acreditando nele, “trata-se de uma “falsa novidade”, na qual as pessoas acreditaram ou ainda acreditam” (RENARD, 2007, p.97), como o caso do filho do ex-presidente Lula ser dono da Friboi ou que a Central Intelligence Agency (CIA) matou Eduardo Campos, candidato à presidência em 2014, para beneficiar Marina Silva.

Para reconhecer se a informação é um boato, Rouquete (1990) afirma que o mesmo possui quatro características: instabilidade, implicação, negatividade e atribuição. A instabilidade diz respeito ao indivíduo repassar a informação conforme seu próprio entendimento, algo motivado por fatores como esquecimento, acréscimo de informações ou reestruturação da mensagem. Essas
variações resultam na afirmação do autor de que o boato é produto de um processo de produção. Já a atribuição é explicada pelo receptor acreditar no boato e por confiar em quem o repassou. A implicação está relacionada ao envolvimento da pessoa no assunto e o grau de relevância para ela. Por fim, tem-se a negatividade dos fatos, um aspecto que chama mais atenção do que notícias positivas. Em notícias falsas sobre política, por exemplo, o uso da negatividade é recorrente, tendo em vista que pode denegrir uma personalidade política com o objetivo de enaltecer outra.

No ambiente virtual, os boatos ou notícias falsas são chamados de hoax, que “são histórias geralmente de origem desconhecida e sem qualquer fundamento, mas passadas adiante como informações autênticas” (REULE, 2008, p.15). Pucci (2016, p.18) explica que o grande diferencial dos hoaxes é o modo que o boato virtual é repassado. Entretanto, nas eleições à presidência dos Estados Unidos em 2016, com o uso frequente da palavra fake news por Trump e pela mídia, o termo ficou mais popular do que hoax. Embora refira-se a informações falsas que parecem uma notícia, tem sido utilizado constantemente para qualquer tipo de informação falsa. Apesar de existirem há muitos anos, as pessoas não usavam a expressão fake news especificamente porque o adjetivo fake só começou a ser utilizado com frequência a partir do final do século XVIIIAs fake news também são confundidas com fatos alternativos, mas o termo é controverso e ambíguo. A definição de fato é “algo conhecido ou provado como verdadeiro”No original: “the construction of a fact is always related to professionalism and motivated by the political sphere”.. Segundo a autora, um fato não existe isoladamente; para ter significado é necessário contextualização a partir de uma rede de outros fatos. Kadakas (2017) explica que, aplicando na atualidade, isso significa que fatos alternativos ou fake news não surgem de forma independente e são construídos com o objetivo de parecerem conteúdo jornalístico. Ela afirma ainda que os fatos alternativos e fake news são alguns dos componentes do regime da pós-verdade, conforme chamado por Harsin (2015 apud KADAKAS, 2017).

Kadakas (2017) diferencia fake news de fatos alternativos a partir da intenção do produtor. Para ele, os fatos alternativos estão relacionados mais com a interpretação da construção dos fatos, sendo eles intencionais ou não. Já as fake news referem-se à construção de notícias falsas intencionais que imitam conteúdos jornalísticos e são distribuídas pelas mídias sociais e, em alguns casos, pela mídia tradicionalNo original: “Alternative facts relate more to the interpretation of fact construction, whether intentional or unintentional; fake news refers to intentional falsehoods that imitate journalistic facts and is distributed via social media and, in some cases, mainstream media”.  . Figueira e Oliveira (2017) explicam que notícias distorcidas e fatos alternativos não eram um problema para a sociedade há três anos, mesmo com mudanças significativas no mercado de notícias. Essa preocupação foi alavancada com a utilização do termo fake news pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Após essa breve discussão sobre os termos “boato”, “fatos alternativos” e fake news, iremos tratar no próximo subcapítulo a questão da popularização da Web 2.0, no intuito de entendermos melhor acerca da participação online e como isso possibilita o aumento de notícias falsas, causando confusão no leitor.

Internet e participação online 

A produção dos computadores iniciou-se na segunda metade do século XX com finalidade bélica. Na década de 70, após avanços tecnológicos, os computadores começaram a ser comercializados como aparelho de uso pessoal. Em paralelo, a internet também estava em desenvolvimento, na época chamada de ARPANET (Advanced Research Projects Agency Network) e utilizada para envio de mensagens em tempo real. Posteriormente é que foi disponibilizada para a sociedade (BRIGGS; BURKE, 2004).

No início dos anos 90 foi criada a internet como uma grande rede de alcance internacional: a World Wide Web (WWW), por Tim Bernes Lee, porém, era necessário conhecimentos de linguagem de programação para navegar em rede. Em 2004 surgiu o termo Web 2.0 para definir a nova era da internet. O termo foi criado pela editora de livros de tecnologia O’ Reilly Media, fundada por Tim O’ Reilly, um dos inventores do termo Web 2.0. De acordo com O’Reilly (2005), um dos princípios fundamentais do conceito é a web como plataforma, que permite realizar tarefas de forma online, sem necessidade de instalação de um programa no computador, como ocorria anteriormente. Na primeira geração, cada site era trabalhado isoladamente, sendo
necessário conhecer linguagem de programação. Já com a Web 2.0, passou a ser “uma estrutura integrada de funcionalidades e conteúdo” (PRIMO, 2010, p.2).

A Web 2.0 é a segunda geração de serviços on-line e caracteriza-se por potencializar as formas de publicação, compartilhamento e organização de informações, além de ampliar os espaços para a interação entre os participantes do processo. A Web 2.0 refere-se não apenas a uma combinação de técnicas informáticas (serviços Web, linguagem Ajax, Web syndication, etc.), mas também a um determinado período tecnológico, a um conjunto de novas estratégias mercadológicas e a processos de comunicação mediados pelo computador” (PRIMO, 2007).

A segunda geração da web não foi apenas uma reformulação para facilitar o uso, mas também uma revolução na questão do conteúdo, pois os sites deixam de ser apenas para publicação e passam a ter interatividade, permitindo que o usuário participe e comente sobre o conteúdo.

A expressão cultura participativa contrasta com noções mais antigas sobre a passividade dos espectadores dos meios de comunicação. Em vez de falar sobre produtores e consumidores de mídia como ocupantes de papéis separados, podemos agora considerá-los como participantes interagindo de acordo com um novo conjunto de regras, que nenhum de nós entende por completo. (JENKINS, 2009, p. 30 e 31)

A Web 2.0, com sua estrutura que permite maior participação, possibilitou que a cultura participativa ficasse mais evidente, passando a ser uma preocupação das empresas. “A web empurrou essa camada oculta de atividade cultural para o primeiro plano, obrigando as indústrias a enfrentarem as implicações em seus interesses comerciais” (JENKINS, 2009, p.198). Segundo Jenkins (2009), as empresas de mídia só tiveram controle da interatividade do consumidor no início, quando o computador oferecia diversas formas de interação.

A expansão da web para o modelo 2.0 também modificou a participação da população no jornalismo. Atualmente, o leitor interage com o conteúdo através de curtidas e comentários, sendo possível para as empresas mensurarem o engajamento do público com o conteúdo e criarem estratégias para aumentarem o alcance. Canavilha (2010) explica que os blogues e redes sociais alteraram a dinâmica de distribuição de notícias, pois passam a ser “verdadeiros canais de distribuição instantânea”. Enquanto isso, os leitores incorporam essa atividade e passam a ser um novo tipo de gatekeepers, porque comentam e filtram as notícias que acreditam ser mais interessantes para suas conexões nas redes sociais.

A Web 2.0 também possibilitou aos leitores uma participação no processo de produção do conteúdo, o chamado Jornalismo Cidadão. “A principal característica
dessa nova modalidade de produção e circulação é a superação do modelo transmissionista emissor-meio-mensagem-receptor, típico do modelo convencional, uma vez que o receptor torna-se agente produtor” (FONSECA; LINDEMMAN, 2007, p.88). Conforme explica Fonseca e Lindemman (2007), o Jornalismo Cidadão tem o objetivo de desconcentrar a informação e permitir que outras vozes sejam ouvidas, propiciando uma “interatividade afetiva”, pois o internauta colabora com a produção de conteúdo, diferentemente dos demais veículos, que possibilitam apenas uma “interação superficial”, através de cartas e ligações, por exemplo. 

Com a facilidade propiciada pela Web 2.0 para criação de conteúdos, os leitores passaram a produzir o próprio conteúdo, seja a partir de sites colaborativos, como Wikipédia, sites de relacionamentos, ou até criação de sites e blogues próprios. O surgimento das redes sociais viabilizou ainda mais esse processo devido à simplicidade para criar um perfil ou página. Os jornais também tiveram que alterar sua dinâmica, pois, anteriormente, o foco era prender a atenção do leitor. Entretanto, com as mudanças da Web 2.0, o foco passou a ser a disseminação de informação: quanto mais o público se engaja com o conteúdo, maior é a possibilidade dele recomendar, discutir, pesquisar, repassar e, até mesmo, criar um material novo (JENKINS; FORD; GREEN, 2013). Essa dinâmica é chamada de “mídia espalhável” porque o intuito é espalhar o conteúdo, a fim de alcançar o maior número de leitores possíveis. Essa teoria é aplicada às fake news e aos boatos, já que eles precisam ser compartilhados para ganharem proporção no ambiente virtual.

Lavarda, Rocha, Silva e Silveira (2017, p. 4) acreditam que as pessoas compartilham informações falsas por três motivos: falta de checagem das informações, fontes não confiáveis e apoio ao boato. Segundo eles, os leitores não verificam se a informação é verdadeira pois, se soubessem que é falsa, eles não compartilhariam. A existência de inúmeras fontes não confiáveis na internet confunde o leitor porque qualquer pessoa pode criar portais, blogues e sites, e os leitores acreditam mesmo sem ter certeza sobre a credibilidade. Por fim, tem-se o apoio aos boatos, pois, apesar de saberem que determinada informação é falsa, muitos leitores disseminam o conteúdo por interesses ideológicos. Reule (2008, p. 24) afirma que até mesmo a dúvida leva as pessoas a compartilharem: ao receber o rumor, o indivíduo permanece em um estado de dúvida sobre o significado dos eventos ocorridos, ou mesmo sobre quais eventos ainda podem ocorrer. Na ausência de notícias formais, ele busca mais informações em suas redes sociais, ampliando a propagação do rumor.

Kapferer (1990, p. 82), ressalta que a vontade de acreditar na informação faz com que as pessoas não verifiquem se a mesma é verdadeira ou falsa porque “Rumores transmitem informações que queremos acreditar. O nosso desejo de acreditar é, às vezes, tão forte que ultrapassa os nossos critérios habituais de realismo e plausibilidade, sendo este último governado por nosso desejo de acreditar, e não o contrário”No original: rumors convey information we want to believe. Our desire to believe is sometimes so strong that it overtuns our usual criteria of realism and plausibility the latter in fact being governed by our desire to believe, not the other way around.. Kapferer (1990, p.10,11) ainda afirma que “uma vez tendo penetrado no corpo social, a falsa informação circula exatamente como informação verdadeira”No original: “once false information has penetred into the social body, it circulates just like true information”. e essa disseminação não está relacionada “com loucura ou alucinação coletiva, mas pura e simplesmente com as regras que fundamentam a vida social” já que essa tem como base a confiança.

Na próxima seção é aprofundada a questão das fake news a partir da definição dos tipos de notícias falsas e a intenção de quem produz.

tipos de fake news

As fake news podem ser classificadas em seis tipos: sátira como notícia, paródia como notícia, notícia fabricada, manipulação de foto, publicidade e relações públicas como notícias e notícia como propaganda. A classificação foi feita por Edson C. Tandoc Jr., Zheng Wei Lim & Richard Ling (2017) a partir do mapeamento de trabalhos acadêmicos publicados entre 2003 e 2017, que utilizavam o termo fake news.

A paródia como notícia está relacionada ao humor. É produzida uma notícia engraçada para atrair o leitor a partir de fatos reais, como é o caso do site Sensacionalista. Contudo, os leitores costumam ter noção de que o conteúdo é uma paródia. A sátira como notícia também é baseada no humor, mas, geralmente, utilizam notícias fabricadas. As notícias fabricadas não são baseadas na realidade e, às vezes, se valem de artifícios diversos para imitar veículos tradicionais, desde tipo de escrita, até mesmo uso de nome igual ou similar. Já a manipulação de fotos está associada à alteração de uma foto para gerar uma notícia – obviamente falsa – podendo ser desde a mudança da saturação das cores, até mesmo à exclusão e inclusão de itens na imagem.

A publicidade e relações públicas como notícia é a produção de conteúdo feita por empresas de publicidade e relações públicas, que tem por finalidade promover clientes e produtos. Utilizam entrevistas, fotos e diversos recursos para parecer uma notícia jornalística. São baseadas em fatos verdadeiros, entretanto, costumam ser parciais, pois apresentam apenas o lado positivo de algo para promover determinado produto ou cliente. Por fim, a notícia como propaganda tem por objetivo persuadir a concepção das pessoas sobre governo, organizações e lideranças. Assim como a publicidade e relações públicas como notícia, a notícia como propaganda, apesar de ser baseada em fatos reais, também é parcial, tendendo a realçar apenas um lado.

Os autores ainda relacionam o grau de facticidade, o quanto a notícia é baseada em fatos reais, com o grau de intenção do autor em enganar o público. Como mostra o Quadro 1, a notícia como sátira, apesar de ser baseada em fatos reais, não intui enganar as pessoas. Já a publicidade e relações públicas como notícia tem alta intenção em enganar. Apesar das notícias fabricadas terem baixo grau de facticidade, possuem como propósito enganar o público. Entretanto, mesmo a paródia como notícia não tendo como base fatos reais, também não tem finalidade de enganar

Intenção de Enganar x Grau de Faticidade

Grau de FaticidadeAlta Intenção de EnganarBaixa Intenção de Enganar
AltoPublicidade e relações públicas como notíciaNotícia como sátira
BaixoNotícia fabricadaNotícia como paródia

Edson C. Tandoc Jr., Zheng Wei Lim & Richard Ling (2017)

Após conhecermos os tipos de fake news, é importante sabermos quem são os produtores das notícias falsas. Por isso, no próximo tópico serão mostrados quem produz e divulga as notícias falsas e quais são suas intenções.

QUEM PRODUz e por quê?

Segundo Allcott e Gentzkow (2017), as notícias falsas podem ser produzidas por diversos tipos de site, entre eles os que utilizam nomes e design semelhantes ao de grandes veículos de comunicação, sites de humor e de opinião política. No primeiro caso, o leitor se depara com nomes de grandes empresas do ramo jornalístico, design e endereço dos sites similares e, por vezes, confunde com sites de empresas tradicionais. O mesmo ocorre em páginas nas redes sociais que direcionam a sites com nomes diferentes, mas utilizam a logo de portais famosos, como G1 e R7.

 

Diversos sites utilizam as redes sociais para aumentar o alcance das fake news, “para surpreender os internautas e ganhar compartilhamento em suas postagens com finalidades muitas vezes econômicas. O leitor acaba por acreditar nessas informações falsas, tomadas como notícia, e torna o rumor ainda maior” (LAVARDA; ROCHA; SILVA E SILVEIRA, 2017, p. 4).

Outro tipo que pode, mesmo sem intenção, confundir o leitor são os de humor como SensacionalistaO Sensacionalista (https://www.sensacionalista.com.br/) é um site de produção de notícias como paródias baseado em eventos reais, que publica notícias satíricas sobre assuntos atuais como “Amigos de Temer dizem que propina não é deles, é de um amigo”, “Lula diz que frase na série de Padilha não é sua, é de um amigo” e “Petista cancela Netflix mas abre outra conta em nome de laranja”. Quem não conhece o tipo de conteúdo que o site produz ou lê apenas a chamada em uma página na rede social pode acreditar em sua veracidade. Porém, quem realmente clica na notícia, já se depara com o slogan “isento de verdade”, em vermelho, bem abaixo da logomarca do site.

Por fim, tem-se os sites que possuem inclinação política, como o Ceticismo Político, que divulgam informações falsas intencionais para atacar um partido ou personalidade política. Recentemente, essa situação pôde ser vista com o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Após as notícias sobre o assassinato, surgiram fake news sobre o envolvimento da vereadora com criminosos em que, de acordo com o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o Ceticismo Político teve papel fundamental. Apenas quatro horas após o início dos boatos sobre o envolvimento da vereadora com facção criminosa, o site publicou a notícia “Desembargadora quebra narrativa do PSOL, e diz que Marielle se envolvia com bandidos e é ‘cadáver comum’”. A fake news foi compartilhada 361.005 vezes no Facebook em apenas cinco dias e atingiu 1.090.658 impressões no Twitter em somente três diasWhatsapp. Pouco depois, a notícia foi ainda mais divulgada devido ao compartilhamento da mesma por outra página de opinião política, a do Movimento Brasil Livre (MBL).

Alcott e Gentzkow (2017) esclarecem que alguns sites são criados em períodos eleitorais com a intenção de divulgarem notícias falsas para influenciar os eleitores, sendo que a maioria deles sai do ar logo após as eleições, como ocorreu nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016. Os sites BuzzFeed e The Guardian investigaram separadamente a origem dos sites das notícias falsas e revelaram que mais de 100 sites que publicavam fake news foram feitos por adolescentes em uma pequena cidade da Macedônia, chamada Veles (SUBRAMANIAN, 2017 apud ALLCOTT; GENTZKOW, 2017). Outro responsável pelas quatro das dez fake news foi o Endingthefed.com, criado por um romeno de 24 anos (TOWNSEND, 2016 apud ALLCOTT; GENTZKOW, 2017).

Há duas motivações principais para as pessoas produzirem fake news, segundo Allcott e Gentzkow (2017). A primeira é o dinheiro. Quanto mais cliques um site recebe, mais ele lucra com propagandas. Portanto, notícias que viralizam nas redes sociais podem atrair uma receita significativa de publicidade. Esse foi o caso dos adolescentes de Veles, por exemplo, que produziram histórias favorecendo Trump e lucraram dezenas de milhares de dólares (SUBRAMANIAN, 2017 apud ALLCOTT; GENTZKOW, 2017). A segunda motivação, no entendimento dos autores, é ideológica. O conflito entre os posicionamentos políticos é tão radical que as pessoas utilizam informações falsas para denegrir pessoas e partidos a fim de implantar a dúvida. Esse foi o caso do Endingthefed.com, que diz ter começado o site para ajudar Donald Trump (TOWNSEND, 2016 apud ALLCOTT; GENTZKOW, 2017), e do Ceticismo Político e MBL, que tentaram denegrir a imagem da vereadora assassinada, Marielle Franco.

Para engajarem uma notícia falsa com maior velocidade, os produtores podem utilizar recursos tecnológicos mais avançados como os robôs, mais conhecidos como bots, que são criados a partir de programas de computadores simulando o comportamento humano e “já dominam parte da vida nas redes sociais e participam ativamente das discussões em momentos políticos de grande repercussão” (DAPP, 2017, p.6).

“Redes massivas de automação
de contas, também conhecidas como botnets, podem manipular algoritmos em redes sociais como Facebook, Twitter e YouTube e levar os usuários a conteúdos a favor ou contra candidatos e problemas”.  (ARNAUDO, 2017, p.4)No original: Massive networks of automated accounts, also known as botnets, can be built to manipulate algorithms in major social networks such as Facebook, Twitter and YouTube and can drive users to content supporting or attacking candidates and issues.

A prática ainda é aprimorada para direcionar a informação a partir do conhecimento de quem é o público. Para isso, são utilizadas empresas que guardam rastros dos usuários, como hábitos de acessos de sites e compras, traçando um perfil psicológico dessas pessoas.

A propaganda computacional pode assumir a forma de contas automatizadas (bots) para espalhar informações, manipular algoritmos e disseminar notícias falsas para formar a opinião pública, entre outros métodos. Essas técnicas estão sendo usadas em combinação com a análise e uso de grandes conjuntos de dados de informações sobre cidadãos de empresas e governos. (ARNAUDO, 2017, Computational Propaganda in Brazil: Social Botsduring Elections, p.13)No original: Computational propaganda can take the form of automated accounts (bots) spreading information, algorithmic manipulation and the spread of fake news to shape public opinion, amongst other methods. These techniques are being used in combination with the analysis and usage of large data sets of information about citizens held by corporations and governments.

A violação da privacidade dos usuários para criação de propaganda computacional direcionada com intuito de influenciar na opinião dos usuários das redes sociais e auxiliar na construção de imagem do candidato é um dos problemas que influencia na política, como é o caso recente da Cambridge Analytica. A empresa atuou ao lado do presidente estadunidense Donald Trump nas eleições de 2016 e no referendo de saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). A empresa obteve dados de mais de 80 milhões de usuários do Facebook sem autorização, com detalhes sobre identidade, rede de amigos e o que eles curtiam, para esquematizar traços de suas personalidades e, a partir disso, direcionar o conteúdo. Segundo informações reveladas à imprensa pelo ex-diretor de Tecnologia da empresa, Christopher Wylie, as informações foram compradas de um pesquisador da Cambridge University que obteve os dados através de um aplicativo de perfil psicológico. O ex-diretor afirmou também que o conteúdo direcionado incluía propagandas políticas e fake news

Estudos de Casos

Neste capítulo veremos um estudo de caso de três situações que ocorreram na política brasileira em que houve grande visibilidade para as fake news, são elas: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016, o atentado contra o ex-presidente do Brasil, Lula, no Paraná, e o assassinato da vereadora assassinada, Marielle Franco, no Rio de Janeiro.

No mesmo ano do impeachment de Dilma ocorreu a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016 e, apesar de ambas terem ocorrências de fake news, o termo ganhou popularidade com Donald Trump, por denominar fake news tudo aquilo que discordava ou ia contra seus interesses, como, por exemplo, a situação de que ele teria desavenças com o serviço de inteligência dos EUA por estarem investigando o resultado das eleições. No seu primeiro dia de trabalho, 21 de janeiro de 2017, ele visitou a CIA e atacou os jornalistas dizendo que a situação era mentira: “Eles estão entre os seres humanos mais desonestos da Terra e eles meio que fizeram soar como se eu tivesse uma rixa com a comunidade de inteligência e eu só quero que você saiba a razão pela qual você é a parada número um é exatamente o oposto”Trump criou o Fake News Awards, uma premiação que ocorreu em 17 de janeiro de 2018 para repórteres que escreveram algo errado, o deturparam ou produziram relatórios falsos antes e durante seu mandato. Foram inclusas publicações em redes sociais e matérias corrigidas posteriormente. Das 10 matérias selecionadas, quatro eram da CNN, duas do The New York Time, e as demais do Washington Post, ABC News, Newsweek e Time. Entretanto, ele incluiu na 11ª posição matérias de vários veículos que tratavam acerca da influência da Rússia nas eleições dos Estados Unidos de 2016.

O prêmio foi motivo de críticas na arena pública por ser considerado prejudicial à liberdade de imprensa e à primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos, que impede o Congresso norte-americano de infringir direitos fundamentais, como limitar a liberdade de expressão e imprensa. John McCain, senador republicano, em editorial no Washington Post, afirma que a forma como Trump utiliza o termo fake news é mesma que está “sendo usado por autocratas para calar repórteres, prejudicar opositores políticos, evitar a investigação da mídia e enganar os cidadãos”Durante a campanha presidencial dos EUA circularam fake news através das redes sociais que, de acordo com Recuero (2009), são compostas por “representações de atores sociais e suas conexões” possibilitando os usuários a terem centenas ou milhares de conexões, sendo “maiores e mais amplas do que as redes offline com potencial de informação que está presente nessas conexões”. A autora ainda afirma que “as informações que circulam nas redes sociais assim tornam-se persistentes, capazes de ser buscadas e organizadas, direcionadas a audiências invisíveis e facilmente replicáveis”. E isso, atrela-se ao fato da circulação de informações ser também uma circulação de valor social, acarretando em impactos na rede, como foi visto nas eleições dos EUA, em que as notícias falsas tiveram maior engajamento no Facebook do que as principais notícias dos maiores veículos de comunicação do país nos três meses anteriores. 

Para Allcott e Gentzkow (2017), as redes sociais foram uma fonte importante de informação, mas não dominante, pois apenas 14% dos americanos as classificaram como sua fonte mais importante. Porém, eles constataram que um estadunidense adulto viu uma ou várias fake news nos meses em torno das eleições, além de 50% da população que, em algum momento, se lembraram de ter visto e acreditar na notícia lida. Isso porque, segundo eles, as pessoas tendem a acreditar em informações que favorecem seu candidato preferido. Neste caso, observamos que as redes sociais alteraram o processo de produção e distribuição de notícias. Isso ocorre, de acordo com Kapferer (2013), devido a vontade da pessoa em acreditar na informação, fazendo com que a mesma não verifique se as notícias são verdadeiras ou falsas. Logo, elas compartilham o conteúdo e, consequentemente, sua rede de conexões é influenciada, justificando a grande quantidade de fake news nas eleições presidenciais dos EUA de 2016.

 Impeachment da presidenta Dilma Roussef

O impeachment da presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, que ocorreu em 2016, também teve influência das notícias falsas e utilização de robôs para impulsionar sua viralização nas redes sociais. O Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (GPOPAI/USP apud Lavarda, Sanchotene e Silveira, 2017) mostrou que três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook durante a semana que antecedeu a votação do impeachment no Senado eram falsas. Foram analisadas 8.290 reportagens de 117 veículos, entre eles jornais, revistas, sites e blogs noticiosos entre 12 de abril de 2016 e 16 de abril de 2016.

Entre as notícias estava a matéria “Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$ 30 bilhões a Friboi”, do site Pensa Brasil, portal conhecido justamente por divulgar notícias falsas tanto sobre política, quanto famosos. A fake news, publicada em 13 de abril de 2016, foi compartilhada 90.150 vezes (GPOPAI apud LAVARDA; SANCHONETE; SILVEIRA, 2017).

“Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$ 30 bilhões a Friboi”
“Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$ 30 bilhões a Friboi”Site Pensa Brasil. Capturado em: 18/04/2018

 

Um dos motivos que poderia levar os leitores a acreditar na falsa notícia é o fato de que o maior doador da campanha à presidência de 2014 de Dilma foi a
JBS, empresa do ramo alimentício dona de marcas como Friboi e Seara. Na época estavam ocorrendo diversas investigações da operação Lava-Jato da Polícia Federal. Por isso eles tentaram confundir o leitor com o título atribuindo a suposta investigação à Polícia Federal (PF). No decorrer na fake news novamente atribuem à PF e afirmam ser uma investigação “ultra-secreta” de “delegados e investigadores que não comem nas mãos do PT”. 

No subtítulo, “Esses são os juros que o povão nem sonha que existam. Se há subsídio nojento neste país, é o que foi dado pelo PT para que fosse formado um cartel de carnes que enforca a pecuária brasileira”, há uso informal da língua, com palavras como “povão” e “enforca”, utilização do adjetivo “nojento” para referir-se ao país e há, claramente, um caráter opinativo.

Na matéria eles afirmam que a ex-presidenta deu a anistia à dívida da Friboi com o BNDES, dando a entender que fez isso devido aos rumores de que o filho de Lula era sócio da empresa, dando a possibilidade de direcionar para uma matéria específica a respeito do assunto, a qual já não está mais disponível. Ainda escreveram uma frase que afirmaram ser da presidente e tinham reescrito: “A crise chegou em vocês, então, não precisam pagar o empréstimo, coitadinhos”. Ao lado, entre parênteses, constava os dizeres de deboche da redação. Também foram utilizados dados sobre os juros concedidos em empréstimos, mas sem citarem fontes, utilizando expressões coloquiais e uso de adjetivos com intuito de enfatizar a situação, como, por exemplo, no trecho: “que nunca se viu em lugar nenhum, em nenhuma economia decente e muito menos num contrato de empréstimo bancário”.

A segunda matéria mais compartilhada foi intitulada “Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: ‘Atirar para matar'”, do site Diário do Brasil, também conhecido por disseminar notícias falsas. A matéria, publicada em 13 de abril de 2016, obteve 65.737 compartilhamentos (GPOPAI apud LAVARDA; SANCHONETE; SILVEIRA, 2017) e não está mais disponível no site, porém, há uma cópia no site Pensa Brasil, que ainda pode ser acessada

“Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: ‘Atirar para matar'”
 "Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: 'Atirar para matar'"Site Pensa Brasil. Capturado em: 18/04/2018

A fake news afirma que o Presidente do Partido Democrático Trabalhista (PDT) no Distrito Federal, José Sílvio do Santos, manda militantes pró-Dilma irem armados à Esplanada e levarem cordas para “enforcar deputados e senadores golpistas”. Entretanto, o real presidente na época, e que se mantém até hoje, é George Michel Sobrinho. Em seguida, há uma suposta entrevista do site O AntagonistaSite com notícias e opiniões sobre política. https://www.oantagonista.com/. com o falso presidente do PDT, em que ele afirma ter realmente dito o que foi posto, mas que só lançou a ideia e estaria atrasado para ir à igreja, fazendo, inclusive, uma crítica aos frequentadores de igrejas.

O autor dos dizeres era integrante do partido e foi expulso, conforme nota oficial do real presidente do PDT no Distrito Federal, George Michel Sobrinho: “O PDT torna público que este cidadão, por não ter nenhuma autorização para se manifestar em nome da instituição, foi expulso do quadro de filiados do partido”. Apesar da notícia não constar mais no site do Diário do Brasil, é possível encontrar compartilhamentos da fake news no Facebook. Um, inclusive, questionando a veracidade do assunto.

Comentários sobre suposta notícia do presidente do PDT
Comentários sobre suposta notícia do presidente do PDTGrupo do Facebook Família Bolsonaro. Capturado em 18/04/2018

Comentários sobre suposta notícia do presidente do PDT
Comentários sobre suposta notícia do presidente do PDTPágina e-farsas. Capturado em 18/04/2018

A última notícia, também do site Diário do Brasil, atacava o aliado político da ex-presidenta, Lula, com título “Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão?”. Essa publicação foi compartilhada mais de 58.601 vezes (GPOPAI apud Lavarda, Sanchotene e Silveira, 2017) e pode ser acessada no site até hoje.

A matéria possui linguagem coloquial como “‘costurar’ apoios”, divulgando diversas informações sem fontes e atribuindo algumas ao canal Globo News e ao site O Antagonista. Além disso, a notícia é encerrada com frase opinativa “Com o desenrolar de novas delações premiadas, Lula corre o risco iminente de ter um mandado de prisão expedido a qualquer hora”.




“Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão”
“Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão”Site Diário do Brasil. Capturado em: 18/04/2018


assassinato da vereadora marielle franco

Na noite de 14 de março de 2018, a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), foi assassinada a tiros no centro da cidade. O Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP) identificou, a partir de um questionário online realizado com 2.520 pessoas, que, nessa mesma noite, começaram a ser compartilhados alguns boatos a respeito do assunto no Whatsapp  e no dia seguinte iniciaram a divulgação no Facebook e Twitter. 

O assunto dominante dos boatos envolvia variações de um texto relacionando a vereadora ao traficante já falecido, Marcinho VP, que foi recebido por 916 entrevistados. Desses, 51% disseram ter recebido por meio de grupos de família no WhatsApp, 32% em grupos de amigos, 9% em grupos de colegas de trabalho e 9% em outros grupos ou mensagens diretas. Também circulou uma imagem falsa que afirmava ser Marielle no colo de Marcinho VP, que foi recebida por 229 pessoas, sendo que 41% delas afirmaram ter recebido a foto através de grupos de família.

Já as notícias falsas começaram em 16 de março, após a publicação no Twitter do deputado Alberto Fraga (DEM-DF)  com acusações de envolvimento de Marielle com o Comando Vermelho. Fraga afirmou ainda que ela foi casada com Marcinho VP. A desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Marília Castro Neves, publicou em sua página no Facebook acusações semelhantes.

Publicação no Twitter do Deputado Alberto Fraga
Publicação no Twitter do Deputado Alberto FragaFacebook Monitor de Debate Político do Meio Digital. Capturado em 22/04/2018

Publicação no Facebook da Desembargadora Marília Castro Neves
Publicação no Facebook da Desembargadora Marília Castro NevesFacebook Monitor de Debate Político do Meio Digital. Capturado em: 22/04/2018.

O jornal Folha de São PauloMatéria da Colunista Mônica Bergamo da Folha de São Paulo. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2018/03/desembargadora-diz-que-marielle-estava-envolvida-com-bandidos-e-e-cadaver-comum.shtml. Acesso em 24 jun. 2018. republicou a postagem da desembargadora que, em seguida, foi disseminada pelo Ceticismo Político no Facebook e republicada pelo Movimento Brasil Livre (MBL). A revista Veja também abordou o tema. De acordo com o Monitor de Debate Político do Meio Digital (USP), em menos de um dia essas publicações tiveram juntas mais de 450 mil compartilhamentos e, visto que as manchetes desses sites não mencionavam que as acusações eram falsas, tais serviram como mais um meio para difusão das mentiras.

Fake News do Ceticismo Político sobre Marielle Franco
Fake News do Ceticismo Político sobre Marielle FrancoSite Ceticismo Político. Capturado em 22/04/2018.

A falsa notícia considera como fonte a matéria da Folha de São Paulo e utiliza trechos da publicação da desembargadora para construir a notícia. Eles utilizam o termo “extrema esquerda” para se referir àqueles que repudiaram a publicação e tratam com sarcasmo a situação de quererem denunciá-la ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Também utilizam uma frase de Marília Castro Neves se defendendo, afirmando que não tinha problemas pessoais com Marielle, apenas se opunha à politização de sua morte.


O Monitor de Debate Político no Meio Digital (USP) constatou que as sete notícias mais compartilhadas sobre os boatos acerca da vereadora somaram 582 mil compartilhamentos. Entre elas, a do Ceticismo Político (232 mil), Veja (178 mil), GGN (39 mil), Folha de São Paulo (37 mil), DCM (35 mil), Política na Rede (31 mil) e, por último, uma notícia da Aos Fatos, agência de checagem negando os boatos (30 mil).


A matéria do Ceticismo Político permanece no site, entretanto, sua página no Facebook foi removida justamente por causa dessa fake news. Segundo pesquisa do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a publicação do Ceticismo Político foi a maior influenciadora do debate e possuiu 361 mil compartilhamentos no Facebook e mais de 1 milhão de impressões no Twitter.


 

Conforme visto, o foco deixou de ser o assassinato da vereadora e passou a ser as notícias falsas sobre sua índole. Em consequência, surgiram diversas notícias para desmentir os boatos. Segundo Bruns (2011), o público pode ocasionar uma nova forma de cobertura noticiosa através do desempenho ativo no consumo de notícias, denominado gatewatching, com foco principal na republicação, divulgação, contextualização e curadoria de conteúdo já existente, ao invés da criação de um novo conteúdo jornalístico.


Porém, as notícias falsas não se restringiram ao meio digital. O Jornal do Brasil impresso divulgou na capa da edição de 19 de março de 2018 que a irmã da vereadora iria ser candidata nas eleições deste ano.


Capa do Jornal do Brasil de 19 de março de 2018
Capa do Jornal do Brasil de 19 de março de 2018Site Revista Fórum. Captura em 18/04/2018.

Entretanto, na tarde do mesmo dia, através do perfil oficial do PSOL no Twitter, a informação foi desmentida.

Nota do PSOL
Nota do PSOLTwitter do PSOL. Capturado em 24/06/2018.

O Jornal do Brasil retornou suas atividades em 25 de fevereiro deste ano, menos de um mês depois do assassinato da vereadora Marielle Franco. Neste caso, é provável que a fake news publicada foi gerada por um erro de falta de apuração que pode ter ocorrido devido ao prazo limite de tempo, pois diversas notícias são publicadas sem que todos os dados sejam confirmados realmente e, por isso, os jornalistas ficam reféns das informações que chegam até as redações (KUNCZIK, 2001). Tuchman apud Kunczik (2001) reitera que essa situação acarreta em diversos perigos, entre eles: risco de processo por difamação, perda de anúncio, queixas por parte do público e críticas internas. Alguns comentários no Facebook mostram a indignação das pessoas com o Jornal do Brasil.

Comentários sobre fake news do Jornal do Brasil
Comentários sobre fake news do Jornal do BrasilFacebook. Capturado em 01/08/2018

Atentado contra o ex-presidente Lula

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi vítima de um atentado em Laranjeiras do Sul (PR), em 27 de março de 2018. No episódio, foram disparados quatro tiros contra os ônibus da comitiva, três deles acertaram o veículo com jornalista e, o outro, o ônibus de convidados da caravana. Porém, Lula estava em um terceiro veículo e ninguém ficou ferido. Logo em seguida surgiram as fake news afirmando que o atentado foi armado para que o ex-presidente se fizesse de vítima. Até mesmo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) questionou a veracidade da situação.

O Monitor de Debate Político no Meio Digital realizou um estudo, divulgado dois dias após o atentado, e constatou que seis das dez notícias mais compartilhadas no Facebook sobre o ataque aos ônibus da caravana disseminaram boatos de que Lula teria forjado o atentado, totalizando 556 mil compartilhamentos. Duas são noticiosas, sendo uma da Folha de São Paulo e outra da Veja, somando 121 mil compartilhamentos. Uma é satírica, do site Sensacionalista, com 67 mil compartilhamentos e a última é analítica, do blog do Sakamoto, tendo 44 mil compartilhamentos.

Em primeiro lugar, com 195 mil compartilhamentos, está a fake news do Pensa Brasil, intitulada “Jornalista dentro no ônibus entrega PT ‘Foi tudo armação os tiros’”. A falsa notícia já começa afirmando que “um jornalista contou…”, com uso do artigo indefinido, invalidando a informação por não ter uma fonte real. Na matéria, utilizam as palavras “falsa”, “vitimar”, “Lula” e “Polícia Civil” em caixa alta para chamar a
atenção do leitor. Também utilizam adjetivos no diminutivo como “coitadinho” e acusam o PT de armar a situação.

“Jornalista dentro no ônibus entrega PT ‘Foi tudo armação os tiros’”
“Jornalista dentro no ônibus entrega PT ‘Foi tudo armação os tiros’"Site Pensa Brasil. Capturado em: 23/04/2018

Para fazer com que os leitores acreditem na informação, eles colocam no meio do texto a citação, em vermelho e negrito, do artigo 5º, inciso XIV da Constituição Federal, em que é resguardado o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional.

Artigo 5º da Constituição na fake news do Pensa Brasil
Artigo 5º da Constituição na fake news do Pensa BrasilSite Pensa Brasil. Capturado em: 23/04/2018

Além disso, foi incluído um link para uma nova matéria com título “‘Falsa Comunicação de Crime’, atentado a ônibus de Lula é mentira, confirma relatório da PRF, assista”. Nesta, há um vídeo adicionado em 30 de março de 2018 no canal do Youtube “Polyana Galdino”, com 40 inscritos e dez vídeos enviados, sendo oito deles relacionados à política e, em sua maioria, ataque a membros do Partido dos Trabalhados (PT).

Redirecionamento para outra fake news
Redirecionamento para outra fake newsSite Pensa Brasil. Capturado em: 23/04/2018

A segunda matéria mais compartilhada (110 mil) foi a do Jornal da Cidade Online, baseada em uma publicação no Facebook do ator Carlos Vereza, em que ele advertia sobre a encenação do atentado para vitimizar o ex-presidente, visto que seria julgado o pedido de habeas corpus no dia 4 de abril. Porém, pelo fato de a fonte utilizada não ser especialista em política, a matéria se torna irrelevante, mas, para tentarem tornar a opinião do ator como verdade, eles utilizam adjetivos para exaltá-lo como famoso e respeitado.

“Vereza advertiu sobre o atentado que o PT iria encenar”
"Vereza advertiu sobre o atentado que o PT iria encenar"Site Jornal da Cidade. Capturado em: 23/04/2018

Após republicarem a opinião do ator, eles afirmam que a “informação estava certa” e que o objetivo era tirar atenção das denúncias do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, contra o ex-presidente, além de esconder agressões e insucessos da caravana, denominado pelo site como “um retumbante fiasco”. Eles também chamam Lula de meliante e causam confusão no leitor ao desvalorizarem os veículos tradicionais do país, inclusive com imagens da matéria da Folha de São Paulo, ao afirmarem que “não faltou ao PT a providencial e parcial ajuda da imprensa amiga”.

O site Imprensa Viva republicou a matéria do Diário do Poder, que utilizava supostas autoridades em perícia, para afirmar que o atentado foi forjado, inclusive adjetivando-os como “experientes”, a fim de mostrar que eles são quem possuem a razão, entretanto, sem citar nomes.

“Tiros nos ônibus de Lula – Policiais experientes não descartam hipótese de armação”
"Tiros nos ônibus de Lula – Policiais experientes não descartam hipótese de armação"Site Imprensa Viva. Capturado em: 23/04/2018

Praticamente todas as informações são atribuídas ao Diário do Poder e, ao final, utilizam como fonte “opiniões de peritos que circulam na internet (…)”, não tendo validade alguma. Entretanto, eles usam uma linguagem diferente dos demais, sem adjetivação frequente.

Portanto, ao observamos a análise das notícias, percebemos similaridade com as características dos boatos apresentadas por Rouquete (1990): a negatividade, já que são elegidas personalidades a fim de que suas imagens sejam denegridas; a implicação, pois circularam em momentos relevantes para que a notícia ganhe força – nos casos mostrados, a semana que antecedeu a votação do impeachment da Dilma, o assassinato da Marielle Franco e a denúncia contra Lula, que podem fazer o leitor acreditar que a informação é condizente –, e atribuição, porque esses sites publicam as notícias e os leitores as consideram verdadeiras. Em alguns casos, as informações foram atribuídas a uma fonte. Reule (2007) explica que isso é estratégia para dar credibilidade ao boato virtual, tentando fazer com que o leitor acredite na informação e repasse-a.

Em alguns casos, a imprensa tradicional precisou publicar notícias desmentindo as fake news, algo que só foi necessário devido a existência da notícia falsa. Isso mostra uma mudança na forma como o assunto passa a ser tratado pelos
veículos de jornalismo tradicionais, causado pelas facilidades proporcionadas pela internet, que permite que qualquer pessoa, mesmo sem especialização, publique conteúdos. Os usuários ainda encontram facilidade para criar redes de disseminação, influenciando na produção da agenda pública (SANTOS, 2011, p. 1-2). Essa situação pode causar maior confusão naqueles que estão em dúvida e buscam por orientação, pois, de acordo com McCombs (2002), o agendamento funciona com maior eficácia em pessoas com “necessidade de orientação”, que é estabelecida conforme a relevância do assunto e dúvida da pessoa.

McCombs e Shaw (2002) têm como premissa que os meios de comunicação de massa funcionam como mediadores entre o sistema político e a população, sendo que tais mediadores são responsáveis por determinar a agenda pública, a qual reúne os problemas sociais mais relevantes.

Na sua seleção diária e apresentação de notícias, os editores focam nossa

atenção e influenciam nossas percepções naqueles que são as mais importantes questões do dia. Essa habilidade de influenciar a relevância dos tópicos na agenda pública veio a ser chamada de função de agendamento dos
veículos noticiosos.  (MCCOMBS, 2009, p.17 e 18)


Diante dessa problemática da divulgação de falsas informações que culminam na desinformação dos leitores, os veículos de comunicação e profissionais do meio não estão apenas observando a situação, mas também agindo. Por isso, veremos no próximo capítulo o que os jornalistas e veículos de comunicação têm feito para lidarem com as fake news.

AÇÕES JORNALÍSTICAS CONTRA FAKE NEWS

A internet afetou a forma de geração de renda das empresas de jornalismo no século XXI, principalmente devido a queda da circulação do jornal impresso. De acordo com Pew Research Center (2016), 2015 foi o pior ano para o setor jornalístico estadunidense desde o início da recessão econômica mundial. A renda oriunda de publicidades teve queda de 8%, e, das assinaturas digitais, 7%, maior queda desde 2010. No Brasil, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC), houve uma queda de 41,4% na tiragem impressa dos principais jornais diários do Brasil, são eles: Super Notícia (MG), Globo (RJ), Folha (SP), Estado (SP), Zero Hora (RS), Valor Econômico (SP), Correio Braziliense (DF), Estado de Minas (MG), A Tarde (BA) e O Povo (CE). Ao todo, os jornais perderam 488 mil leitores pagantes nos últimos três anos.

Como consequência da crise econômica, os veículos de comunicação demitiram funcionários, restringiram acesso ao conteúdo digital e inseriram publicidade nas notícias. Embora a quantidade de assinantes digitais tenha aumentado, a renda ainda não é significativa para acabar com a crise financeira dos jornais no Brasil. Entretanto, as fake news podem ser a solução para os jornais saírem da crise, tendo em vista que, em pesquisa realizada pelo Istinctif (2017) com 2000 pessoas, 60% dos entrevistados concordaram que o aumento da cobertura de notícias falsas na mídia mostra a necessidade da recepção de informações por uma fonte com uma grande equipe de notícias, e 57% estão optando por consumirem conteúdo de veículos que mostrem todos os lados da história.

Por isso, veremos nesse capítulo as ações que os jornais e empresas de comunicação estão realizando para solucionar e diminuir o alcance das notícias falsas, tendo em vista o retorno de sua credibilidade e recuperação da crise financeira.

Fact-Checking 

O fact-checking, ou checagem de fatos, é uma dessas ações e também é a base para diversas outras, que consistem na averiguação da veracidade de uma informação, normalmente realizada por jornalistas ou agências especializadas. A checagem dos fatos surgiu em 1991, na CNN, em Washington, quando o jornalista Brooks Jackson foi designado à tarefa de checar a veracidade das falas dos possíveis candidatos à presidência dos Estados Unidos em anúncios de televisão. Em seguida, ele criou o Ad Police, a primeira equipe especializada em checagem de propaganda eleitoral. Em 2003, com apoio da Universidade da Pensilvânia e do Anneberg Public Policy Center, ele criou o FactCheck.org, primeiro site de factchecking independente, que continua no ar até hoje.

Já em 2007, surge o Politifact.com, do jornalista Bill Adair, que trabalhava no St. Petersburg Times, atualmente Tampa Bay Times. Desde o início, o PolitiFact concentrou-se em examinar declarações específicas feitas por políticos. Em 2009, ele ganhou um Pulitzer pelo projeto. Dourado (2016) explica que o site cita nome dos autores da pesquisa e editores com o intuito de passar confiança sobre os dados. A autora também afirma que é comum, dependendo do “fato político ou parceria editorial entre veículos”, a checagem virar fato jornalístico, já que o resultado da pesquisa vira notícia entre os meios de comunicação.

Na América Latina, em 2010, surge o primeiro site de checagem de fatos, o Chequeado, na Argentina, criado pela jornalista Laura Zommer. No Brasil, em 2008, no O Globo, surgiu o Promessômetro, criado pelo jornalista Fábio Vasconcelos, como primeira iniciativa de checagem de fatos. Em 2010, houveram diversos projetos de checagem, mas pontuais, como o Mentirômetro e o também Promessômetro, da Folha de São Paulo. Quatro anos depois, em 6 de agosto de 2014, foi criado o primeiro blog de fact-checking, o Blog Preto no Branco, do O Globo, com intuito de checar frases de políticos em campanha. Contudo, o projeto terminou em 2015. Em 19 de agosto do mesmo ano, a Agência Pública, especializada em jornalismo investigativo, cria o Truco, que verifica falas, correntes e informações em circulação na internet ou em redes sociais.

Em 7 de julho de 2015, nasce a Aos Fatos, a qual, segundo sua equipe, foi uma agência criada “para preencher uma lacuna de cobertura jornalística prestigiada somente em época de eleições”. Em novembro de 2015, a Agência Lupa surge no Facebook e, em fevereiro de 2016, é lançado o próprio site. De acordo com o site da empresa, eles são “a primeira agência de notícias do Brasil a checar, de forma sistemática e contínua, o grau de veracidade das informações que circulam pelo país”.

Diversas iniciativas surgem em períodos eleitorais e algumas só funcionam durante as campanhas eleitorais para analisar frases de candidatos e promessas.
Esse tipo de fact-checking é chamado de promise-tracking, conforme explica Stencel apud Dourado (2016). Ele afirma que a “competição está aumentando em todo o mundo. Em 10 países, eleitores têm mais que um checador ativo para consulta”No original: “Competition is on the rise around the world, too. In 10 other countries, voters have more than one active fact-checker to consult”..

Os checadores, como são chamados aqueles que realizam a checagem dos fatos, possuem uma rede internacional, o International Fact-checking Network (IFCN), do Ponynter, a fim de maior transparência baseada em um código de princípios. De acordo com o Duke Reportes ‘Lab, a quantidade de checadores do mundo mais do que triplicou nos últimos quatro anos: em 2014 eram 44 e, neste ano, chegou a 149. Esse aumento mostra o interesse das empresas na busca pela verdade, podendo ser tanto para retomar a credibilidade de um veículo jornalístico, quanto para desmentir notícias que denigrem uma empresa ou personalidade pública. Anteriormente, sem as redes sociais e a grande quantidade de jornalistas nas redações, não havia tanto interesse no fact-checking, pois é parte do trabalho do jornalista.

Sites e Blogs brasileiros de Fact-Checking

O fact-checking começou como projeto dentro de jornais e se tornou uma alternativa para a indústria de notícias no combate à desinformação e possibilidade de reversão da crise de credibilidade do jornalismo, pois as empresas tradicionais passaram a assumir o papel de qualificadores do que é falso ou verdadeiro, se autolegitimando como fonte confiável. Iniciando com agências independentes de checagem, como Truco, Lupa e Aos Fatos, que são membros do International Fact- Checking Network (IFCN), trabalham baseando-se na transparência, imparcialidade e apartidarismo.

A Truco trabalha a partir de uma frase relevante para o debate público, visando manter o equilíbrio da cobertura e garantir a fiscalização a partir de um revezamento de verificação das personalidades e autoridades. A agência utiliza oito selos para classificar as declarações: verdadeiro, sem contexto, contraditório, discutível, exagerado, distorcido, impossível provar e falso. Eles também atuam em parceria com o site Congresso em Foco no projeto Truco no Congresso, que tem por objetivo averiguar a veracidade de frases ditas por congressistas através de cruzamento de dados proferidos em discursos com projetos de lei apoiados pelas bancadas.

Metodologia da Truco
Metodologia da TrucoTRUCO

A Aos Fatos parte do mesmo princípio que a agência Truco: de checar declarações de personalidades políticas. Entretanto, acreditam que quem está no poder merece e deve ter preferência. As classificações são definidas pelos selos: verdadeiro, impreciso, exagerado, falso, insustentável e contraditório.

Metodologia da Aos Fatos
Metodologia da Aos FatosAos Fatos

A Lupa, a partir do acompanhamento do noticiário diário de política, economia, cidade, cultura, educação, saúde e relações internacionais, busca corrigir informações falsas ou imprecisas. Possui oito selos para classificar as declarações: verdadeiro, verdadeiro, mas…, ainda é cedo para dizer, exagerado, contraditório, insustentável, falso e de olho.

Metodologia da Lupa
Metodologia da LupaLupa

A partir da iniciativa das agências de checagem, os portais de notícias
passaram a criar um espaço dedicado ao fact-checking, como era o caso do O Globo com o blog É Isso Mesmo, que tinha por intuito verificar informações apresentadas por políticos, lideranças ou propagadas pelas redes sociais. Atualmente, o projeto foi substituído pelo Fato ou Fake? que envolve jornalistas do G1, O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, GloboNews e TV Globo. A medida, por incluir mais profissionais, é uma solução para verificação de mais notícias e com mais eficiência. Além disso, o projeto conta com um bot no Facebook e Twitter responsável por responder se a notícia é falsa ou verdadeira com base nos conteúdos já apurados, incluindo um número de WhatsApp em que usuários cadastrados terão acesso aos conteúdos checados. 

Alguns deles são voltados apenas para boatos que circulam pela internet, como é o caso do G1 com o banco de boatos É ou Não É?. Eles checam com frequência os mais diversos tipos de boatos, desde mortes por um vírus novo, até questões políticas, permitindo ao leitor enviar sugestões de boatos para que sejam verificados. O Extra, através do #ÉBoato ou #ÉVerdade?, e o UOL, com o UOL Confere, funcionam da mesma forma. Além desses, há outros sites conhecidos por desmentirem boatos como o boatos.org e o e-farsas.

 Publicidade contra fake news

A publicidade tem sido forte aliada no processo de autolegitimação do jornalismo como detentor do poder para diferenciar os conteúdos falsos dos verdadeiros. Algumas propagandas questionam o leitor sobre compartilhamentos de notícias falsas causando preocupação, mas, geralmente, são seguidas do nome do veículo com palavras como “credibilidade” e “confiança” para que o leitor passe a confiar somente naquele veículo. “Dessa forma, as fake news dão oportunidade ao jornal de demonstrar sua importância enquanto organização que reitera o valor do jornalismo a partir do capital simbólico da credibilidade” (EICHLER; KALSING; GRUSZYNSKI, 2018, p. 149).

O The New York Times, jornal estadunidense, lançou, em fevereiro de 2017, uma campanha publicitária contra as notícias falsas intitulada Verdade, que traz diversas definições de verdade, enfatizando a importância do jornalismo com a qualidade, mostrando que isso requer recursos, comprometimento e expertise. Em abril do mesmo ano, foram divulgados quatro filmes mostrando o trabalho e a dedicação dos jornalistas para produzirem uma matéria. A campanha foi veiculada em toda a
televisão nacional e local, digital, mídia social, publicidade ao ar livre e impresso em fevereiro e, inclusive, foi premiada pela The Drum Digital Trading Awards. 


Campanha do The New York Times
Campanha do The New York TimesThe New York Times

A partir dessa iniciativa, diversos veículos começaram a realizar campanhas, entre eles o jornal O Globo. Em 12 de março de 2017, o veículo lançou uma campanha publicitária com o intuito de alertar o público sobre as questões das fake news, reforçar a credibilidade e confiança em conteúdos produzidos por profissionais e divulgar o blog de fact-checking “É isso mesmo?”. A campanha contou com inserções na mídia impressa e internet com frases como “Mentira tem pernas curtas. Mas cauda longa”, “Onde há fumaça, há fogo. Ou não”, e “O que os olhos não veem a gente investiga”. 

Campanha do O Globo
Campanha do O GloboO Globo

Três dias antes, a Revista Veja publicou a edição de 9 de março de 2018 com duas capas, uma sendo a verdadeira e, a outra, apenas com notícias falsas que circulam na internet. O nome da revista foi acrescido de uma hashtag para constituir #Vejaseéverdade e, na parte superior, veio escrito um manifesto contra fake news para que ficasse claro que se tratava de um alerta contra as notícias falsas.

Capa da Veja
Capa da VejaVeja

O Facebook também utilizou, em maio de 2017, anúncios impressos no The Times, The Guardian e The Daily Telegrafy devido à preocupação com as eleições gerais do Reino Unido. A campanha contava com dez dicas para ajudar as pessoas a identificarem uma notícia falsa, entre elas estavam: verificação do endereço do site, fotos, datas e confirmação se a matéria era, ou não, uma sátira.

Em outubro de 2017, a Association of Magazine Media, com sede em Nova Iorque e representante de 150 membros nacionais, internacionais e associados,
realizou uma campanha ressaltando a capacidade de as revistas produzirem conteúdo profissional, confiável e seguro para as marcas. 

Campanha Association of Magazine
Campanha Association of MagazineBelieve Mag Media

 

A partir disso, a Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER), no Brasil, lançou, em 23 de janeiro de 2018, a campanha “Revistas. Eu acredito!”.

Campanha da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER)
Campanha da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER)Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER)

Recursos e Ferramentas para checagem de fatos

Os anúncios foram criados com intuito de chamar a atenção dos leitores para o problema das fake news. Porém, também existem diversas iniciativas para auxiliar os profissionais a verificarem as informações dos boatos, entre elas, um guia completo para averiguar conteúdos digitais com agilidade em situações de emergências. O guia, criado por jornalistas de diversas empresas, como BBC, Storyful, ABC e Digital First Media, está disponível para download em 13 idiomas e pode ser baixado em diversos formatos.

Outro projeto é o First Draft, do Shorenstein Center on Media, Politics and Public Policy, da Universidade de Harvard, que fornece orientação prática e ética sobre como encontrar, verificar e publicar conteúdo proveniente de redes sociais. Entre os trabalhos realizados estão um guia de campo para verificação de fake news nas redes sociais, o “UK ElectionWatch”, uma parceria com o Full Fact, que reuniu especialistas para checar as notícias sobre a eleição do dia 8 de junho de 2017 no Reino Unido, e o “Crosscheck”, um projeto colaborativo online de verificação de fatos. Já o Knight Center for Jounalism in the Americas, um programa de extensão e capacitação profissional para jornalistas na América Latina e no Caribe, tem
oferecido cursos de checagem de fatos em diversos idiomas, inclusive, um deles, em português, foi ministrado pela Diretora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila.

 

Para agilizar a checagem e, consequentemente, a publicação das notícias, a Duke University Reporters’ Lab trabalha em um projeto para automatizar a verificação de fatos. Na mesma linha, porém voltados aos leitores, a Aos Fatos, em parceria com o Facebook, criou o robô Fátima, uma inteligência artificial com intuito de realizar checagem mais avançada e instigar as pessoas a uma leitura mais crítica. O robô Fátima conversará com usuários através do Messenger para identificar a veracidade da matéria, checando reportagens, artigos de opinião ou de propagandas, a partir da existência de fontes e credibilidade das mesmas, autoria e levando em consideração também se a Aos Fatos já averiguou o assunto. O projeto está previsto para ser lançado no primeiro semestre de 2018. Já o Catraca Livre, em parceria com o Instituto SEB de Educação e com o apoio da Microsoft, iniciou em março deste ano um concurso, com prêmio de cem mil reais, para quem desenvolver uma ferramenta que auxilie na detecção de fake news.

O Google também tem atuado em diversas ações para combater as notícias falsas e, para auxiliar os usuários a identificarem-nas, criaram o selo de verificação de fatos. Com isso, artigos de fact-checking são destacados na busca e nas notícias. As empresas Agência Pública, Aos Fatos e Agência Lupa são parceiras neste projeto. Outra medida é conjunta com a International Fact-Checking Network (IFCN) para retirar dos resultados das pesquisas todas as notícias que tiverem dados errados ou falsos. A empresa também remodelou a função dos snippets, respostas que aparecem na página de busca sem necessidade de clicar em nada, alterando os algoritmos para evitar que notícias falsas apareçam nessa seção.

Outra ação de suma importância para o combate das fake news, e que tem sido trabalhada pelas empresas é a educação dos leitores. Conforme eles aprendem a identificar se um conteúdo é verdadeiro ou não, o alcance das notícias falsas pode cair consideravelmente. O Chequeado, da Argentina, criou o Chequeado Educación, com o intuito de ensinar estudantes a checarem os fatos e ensiná-los que isso é uma medida essencial para garantir uma sociedade democrática. Uma das inciativas foi o curso “Ciudadanía activa y valor de la palabra: verificación del discurso en modelos de Naciones Unidas y modelo legislativo”, para participantes do programa de simulações das Nações Unidas, que ensina jovens a desenvolverem diversas habilidades, entre elas, a retórica. No Brasil, a Lupa criou o LupaEducação, que visa ensinar técnicas básicas de factchecking para profissionais de qualquer área que tenham interesse no assunto.

projetos para eleição brasileira de 2018

Em agosto desse ano será lançado o Projeto Comprova, com intuito de evitar a desinformação nas eleições de 2018. O projeto reúne 24 veículos de comunicação: Agence France-Presse (AFP), Band, Radio Bandeirantes, Band News, Correio do Povo, Exame, Folha de São Paulo, Futura, Gaúchazh, Gazeta do Povo, Gazeta Online, Metro, Nexo, Nova Escolha, NSC Comunicação, O Povo, Piauí, Poder 360, Rádio Band News FM, SBT, Jornal do Commercio, UOL e Veja. Ainda conta com apoio do Google, Facebook, First Draft e Harvard Kennedy School.  Segundo eles, o objetivo é “descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas durante a campanha presidencial de 2018”https://projetocomprova.com.br. Acesso em 13 jul 2018.. Isso ocorrerá a partir do monitoramento e checagem das informações compartilhadas nas redes sociais, sites e aplicativos de mensagens. Será disponibilizado um número de WhatsApp para que os leitores possam enviar sugestões de assuntos.

Como parte do Projeto Comprova, o O Estadão lançou, em junho, o Estadão Verifica, um número de WhatsApp que possibilita aos leitores o envio de boatos que circulam pela rede para que os jornalistas da empresa realizem a checagem da informação. Após seleção das mais recorrentes, é realizada a verificação das informações que é, posteriormente, disponibilizada no blog do projeto.

A Agência Lupa, com apoio do Facebook, criou o Projeto Lupe!, voltado apenas para checagem de conteúdos relacionados à eleição brasileira de 2018. O projeto será hospedado na página da agência no Facebook e é composto de quatro iniciativas: verificar declarações de candidato à presidência, em texto e vídeos, e à governador, em texto; implantar um robô no Messenger, viabilizando às pessoas a checagem de informações pela ferramenta de mensagens do Facebook a partir do cruzamento das palavras-chave das perguntas feitas com o acervo de checagens da agência, disponibilizando resumo e links sobre aquele tema; promover um espaço exclusivo para checagem de boatos repetidos historicamente e que prejudicam a reputação dos candidatos à presidência; e possibilitar a checagem de informação acerca do processo eleitoral com o intuito de desmitificar boatos sobre as regras eleitorais.

A Lupa também trabalhou em parceria com o Canal Futura e com o apoio do Google para criar o Fake ou News?, objetivando ajudar os jovens a verificar as informações para identificar notícias falsas a fim de combaterem a
desinformação. O site do projeto reúne conteúdos como “Por que checar antes de publicar ou compartilhar uma informação?”, “Será que essa informação está dentro do contexto?” e “Nem tudo que se vê (e se ouve) é real. E agora?”. O projeto irá abordar 30 temas até as eleições de 2018 e ainda irá identificar notícias falsas.

Já a Aos Fatos realizou parceria com o ICFJ (The International Center for Journalists), instituição americana que promove qualificação de jornalistas e redações, a fim de expandir o alcance das informações verificadas durante o período eleitoral. O projeto é um desdobramento do Truthbuzz, que tem por objetivo viralizar a checagem de informação a partir de parcerias com grandes veículos e start-ups para combater a desinformação.

Conclusão

O presente trabalho teve como base a popularidade das fake news para realizar um levantamento bibliográfico sobre o assunto a partir dos boatos, com o intuito de examinar o fenômeno das fake news e suas diversas implicações, como o uso político e as iniciativas das empresas jornalísticas. Também foram analisadas notícias falsas na política, devido à frequência destas na área. Por isso, foram selecionados três momentos da política brasileira em que circularam fake news para que seu conteúdo fosse analisado, objetivando demonstrar as diferenças entre textos escritos pela imprensa e por sites que disseminam notícias falsas. Os momentos escolhidos levaram em consideração o alcance das notícias.

No levantamento bibliográfico percebe-se que, apesar dos trabalhos acadêmicos serem novos, as notícias falsas influenciam diversas estruturas midiáticas, como a alteração da agenda pública e a nova dinâmica de gatekeepers, por exemplo. Mas também utilizam técnicas da mesma para se promoverem como a questão da mídia espalhável. Além disso, buscou-se compreender o motivo dos leitores compartilharem notícias falsas e o porquê de as pessoas produzirem fake news e técnicas utilizadas.

Nas análises, ficou clara a intenção dos criadores de notícias falsas ao simularem formatos de sites de notícias jornalísticas dos veículos tradicionais. Entretanto, a linguagem utilizada é informal, às vezes opinativa, e as fontes são anônimas, mas utilizam palavras como “autoridades” ou afirmam que é de determinada profissão para enganar o eleitor que, por diversos motivos, como dúvida e falta de checagem, opta por disseminar a informação e faz com que a fake news alcance mais pessoas.

Também foram mostradas as ações das empresas de comunicação para amenizar ou até mesmo solucionar a questão das fake news e evitar que as pessoas acreditem e disseminem o conteúdo falso. Diversas ações são baseadas no fact- checking, em que as empresas analisam a veracidade das notícias que circulam nas redes sociais ou ensinam o leitor a identificar uma fake news. Também utilizam propagandas e robôs para auxiliar o público no processo de checagem de fatos.

Além disso, foi abordada a crise dos veículos de comunicação, devido a inúmeros conteúdos oferecidos gratuitamente online e à necessidade de se adaptarem a uma nova forma de consumo de notícias da população. Isso com intuito de
mostrar que as fake news podem ser uma oportunidade de recuperação, pois iniciou-se uma disputa pela verdade entre os meios de comunicação, que passaram a investir em ações para levarem o público a acreditar que determinado veículo tem razão e, assim, retomarem a sua credibilidade e amenizarem, ou até mesmo solucionarem essa crise. 

Observamos que a preocupação com as notícias falsas é um evento recente devido às novas tecnologias possibilitarem a criação e disseminação de fake news de forma fácil. O conteúdo falso ganhou maior destaque com a possibilidade de engajamento, proporcionada pelas redes sociais. Porém, falta, por parte dos leitores, preocupação com a veracidade do conteúdo. Muitos deles simplesmente acreditam que a notícia é verdadeira por parecer um conteúdo jornalístico de empresas tradicionais. Apesar de observamos nas análises realizadas diferenças quanto à linguagem, layout e ausências de fontes, alguns leitores não conseguem perceber a diferença. Entretanto, há casos em que a divulgação das notícias falsas é realizada de forma intencional, atingindo, assim, justamente as pessoas que não conseguem diferenciar uma notícia falsa de uma verdadeira, aumentando, cada vez mais, a disseminação.

Na política, as fake news estão sendo usadas com frequência com intuito de denegrir candidatos, influenciando na decisão dos eleitores a respeito da política, como visto nas análises com os ex-presidentes do Brasil, Lula e Dilma Rousseff. Já no caso da vereadora Marielle Franco, a intenção também era denegrir sua imagem, porém, o objetivo era tirar a comoção da população acerca do assassinato e desmerecer seus atos em prol da sociedade. A preocupação com as notícias falsas torna-se cada vez maior com a proximidade das eleições e a possibilidade de influenciar na decisão de votos dos eleitores, fazendo com que os partidos, candidatos, empresas de comunicação e governos criem ações para solucionar o fenômeno das fake news ou, ao menos, minimizem seus impactos. Aproveitar os recursos tecnológicos é essencial para fazer com que as checagens e conteúdos verdadeiros se sobreponham às notícias falsas. Além disso, tendo em vista a dificuldade do leitor de identificar falsas notícias, é necessário buscar medidas atraentes para ensinar os leitores a identificarem um conteúdo falso.

 

Referências

AllcottHunt; GentzkowMatthew. Social Media and Fake News in the 2016 Election. Journal of Economic Perspectives. Sidney, v. 31, n. 2, p. 211-236, 2017.

aos fatos. Nosso método. Aos Fatos. Disponível em: <https://aosfatos.org/nosso-m%C3%A9todo/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

arnaudoDan. Computational Propaganda in Brazil: Social Bots during Elections . Computational Propaganda Research Project. Oxford, n. 8, 2017.

BrunsAlex. Gatekeeping, Gatewatching, Realimentação em Tempo Real: novos desafios para o Jornalismo. BRAZILIAN JOURNALISM RESEARCH. Brasília, v. 7, n. 11, p. 119-140, 2011.

BurkePeter; BriggsAsa. Uma História Social da Mídia: De Gutenberg à Internet. Tradução Maria Carmelita Pádua Dias. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. 432 p. Tradução de: A Social History of the Media (From Gutenberg to the Internet).

Cambridge Analytica, empresa pivô no escândalo do Facebook, é fechada. El País. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/02/internacional/1525285885_691249.html>. Acesso em: 20 ago. 2018.

CanavilhasJoão. Do gatekeeping ao gatewatcher: o papel das redes sociais no ecossistema mediático. In: II Congreso Internacional Comunicación 3.0. 2010, Covilhã, Portugal, 2010.

Como a Lupa faz suas checagens?. Agência Lupa. 2015. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2015/10/15/como-fazemos-nossas-checagens/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

Como ganhou corpo a onda de ‘fake news’ sobre Marielle Franco: Publicação em site polêmico amplificou campanha difamatória contra a vereadora assassinada. O Globo. 2018. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-franco-22518202>. Acesso em: 20 ago. 2018.

Desembargadora diz que Marielle estava engajada com bandidos e é ‘cadáver comum’. Folha de São Paulo. 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2018/03/desembargadora-diz-que-marielle-estava-envolvida-com-bandidos-e-e-cadaver-comum.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2018.

DIGITAL NEWS REPORTER. 2016. Disponível em: <http://www.digitalnewsreport.org/survey/2016/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

DouradoTatiana. Fact-checking como possibilidade de accountability do jornalismo sobre o discurso político: as três iniciativas brasileiras. In: 40º Encontro Anual da Anpocs. 2016.

EICHLERVivian Augustin; KALSINGJanaína; GRUSZYNSKIAna. O ethos do jornal O Globo e a campanha contra as fake news. Media & Jornalismo, v. 18, n. 32, p. 139-154, maio 2018. ISSN 2183-5462. Disponível em: <http://impactum-journals.uc.pt/mj/article/view/5681>. Acesso em: 7 ago. 2018.

FGVDAPP. Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil: Estudo sobre interferências ilegítimas no debate público na web, riscos à democracia e processo eleitoral de 2018, 20 ago. 2017.

FonsecaVirginia; LindemannCristiane. Webjornalismo participativo: repensando algumas questões técnicas e teóricas. Revista FAMECOS, v. 14, n. 34, p. 86-94, dezembro 2007.

iasbeckLuiz Carlos. Os Boatos – Além e Aquém da Notícia.. Lumina. Juiz de Fora, v. 3, n. 2, p. 11-26, jul./dez. 2000.

JenkinsHenry. Cultura da Convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.

JenkinsHenry; FordSam; GreenJoshua. Spreadable Media: Creating Value and Meaning in a Networked Culture. 1. ed. Nova Iorque: New York University Press, 2013. 352 p.

John McCain to Donald Trump: stop attacking the press. Vox. 2018. Disponível em: <https://www.vox.com/policy-and-politics/2018/1/17/16900824/john-mccain-trump-press>. Acesso em: 20 ago. 2018.

KadakasMarju Himma-. Alternative facts and fake news entering journalistic content production cycle . Cosmopolitan Civil Societies: An Interdisciplinary Journal. Sidney, Austrália, v. 9, n. 2, 2017.

KapfererJean-Noël. Rumors: Uses, Interpretations, and Images . 1. ed. New Brunswick (EUA): Transaction Publishers , 1990.

KUNCZIKMichael. Conceitos de Jornalismo: norte e sul-Manual de Comunicação. Edusp, 2001.

LAVARDASuelen de Lima; sanchoteneCarlos; SILVEIRAAda C. Machado da . Quando as notícias mais compartilhadas são falsas: a circulação de boatos durante a semana do impeachment no Facebook. In: XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2016, São Paulo. 15 p.

LAVARDASuélen et al. Notícias falsas e sobreposição ao jornalismo confiável: um questionamento de rumor e boato. In: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XVIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul. 2017, Santa Maria, RS.

MCCOMBSMaxwell. A Teoria da Agenda – A mídia e a opinião pública. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2009.

______. The Agenda-Setting Role of the Mass Media in the Shaping of Public Opinion. 2002. Disponível em: <http://www.infoamerica.org/documentos_pdf/mccombs01.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2018.

MCCOMBSMaxwell; SHAWDonald. The Agenda-Setting Function of Mass Media in The Public Opinion Quarterly. Oxford, v. 36, n.2, 1972.

monitor de debate político no meio digital. Disponível em: <https://www.facebook.com/monitordodebatepolitico/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

Na web, 12 milhões difundem fake news políticas. ESTADÃO. 2017. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,na-web-12-milhoes-difundem-fake- news-politicas,70002004235>. Acesso em: 20 ago. 2018.

OLIVEIRALuciana; FigueiraÁlvaro. The current state of fake news: challenges and opportunities. Procedia Computer Science, v. 121, p. 817-825, 2017.

Pew Research Center. 2016. State of the New Media. Disponível em: <https://assets.pewresearch.org/wp-content/uploads/sites/13/2016/06/30143308/state-of-the-news-media-report-2016-final.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2018.

PrimoAlex. O aspecto relacional das interações na Web 2.0. In: E- Compós, Brasília, v.9, 2007. 1-21 p.

PUCCIRodrigo de Toledo. Apuração e checagem de boatos na web: o caso do E-farsas.com. Mariana, f. 45, 2016 Monografia (Jornalismo)Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto.

RecueroRaquel. Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2009. 191 p.

RenardJean-Bruno. Um gênero comunicacional: os boatos e as lendas urbanas. Revista Famecos. Porto Alegre, v. 14, n. 32, p. 97-104, abril 2007.

ReuleDanielle. A dinâmica dos rumores na rede: a web como espaço de propagação de boatos virtuais. Porto Alegre, 2008. 132 p Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação)UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL.

RouqueteMichel-Louis. Le syndrome de rumeur. Communications, n. 52, p. 119-123, 1990.

SantosNina. AGENDAMENTO E SITES DE REDES SOCIAIS: UM NOVO LUGAR PARA O CIDADÃO? . In: Congresso Luso Afro Brasileiro de Ciências Sociais, XI. 2011, Salvador, Bahia.

tandoc jr.Edson C.; LIM Zheng Wei; lingRichard. Defining “fake news”: a typology of scholarly definitions. Digital Journalism, v. 6, n. 2, p. 137-153.

The Real Story of ‘Fake News’. Merrian-Webster. 2017. Disponível em: <https://www.merriam-webster.com/words-at-play/the-real-story-of-fake-news>. Acesso em: 20 ago. 2018.

TRUCO. Selos. Agência Pública. Disponível em: <https://apublica.org/checagem/>. Acesso em: 20 ago. 2018.

feito

Use agora o Mettzer em todos
os seus trabalhos acadêmicos

Economize 40% do seu tempo de produção científica