FAKE NEWS EM TEMPOS DE PÓS-VERDADE- UMA INTRODUÇÃO

Centro Universitário Internacional UNINTER

FAKE NEWS EM TEMPOS DE PÓS-VERDADE- UMA INTRODUÇÃO

ANA CLÁUDIA LEITEDiscente do curso de Ciência Política

Resumo

O presente artigo traz à baila a problemática das notícias falsas (fake news), num prisma histórico e filosófico, notícias falsas estas que ganharam nova roupagem na pós-modernidade, com o advento da relativização da verdade naquilo que foi denominado em 1992 de pós-verdade, adjetivo este que ganhou visibilidade global em 2016, após ter sido eleita a palavra do ano pelo Dicionário Oxford. Coube a nós neste trabalho, por meio de pesquisa exploratória a busca na história e na filosofia- nesta seara em especial a abordagem da lavra de pensadores da pós-modernidade-, o condão que baliza onde a racionalidade ao interpretar a “verdade dos fatos” passou a ser mitigada em favor da emotividade de “verdades palatáveis”. A partir deste balizamento, o passo seguinte foi dimensionar o impacto da rede de internet, por meio das mídias sociais na propagação das notícias falsas em tempos de pós-verdade; e, os impactos gerados advindos dessas notícias. Impactos estes que abarcam os mais diversos recônditos da seara humana, colocando em crise a ciência, a política, a segurança pública e etc. Diante da problemática global, existe a vertente que vê na própria rede o antídoto para as notícias falsas, por meio das agências de checagem, que estas fariam o papel de conscientização, equilibrando assim a batalha pela verdade dos fatos.

Palavras-chave: Fake News. Pós-Verdade.Pós-Modernidade.

Introdução

O presente trabalho aborda  a larga disseminação de notícias falsas (fake news), na contemporaneidade, e as implicações diretas que tal fato desencadeia na sociedade. Por meio de uma breve imersão exploratória histórica, pôde-se constatar que as notícias falsas sempre permearam a seara daquilo que concerne a política, com o afã de dominar a opinião pública, o que Chomsky (2013), chamou de “construir o consenso”. Ainda segundo Chomsky quem possui par excellence este mister de promover a narrativa do consenso, são aqueles que detêm  o poder, a mídia seria subserviente a este poder, atendendo ao papel apriorístico de veículo que leva às massas aquilo que o poder constituído dita como “verdade dos fatos”. 

Destarte, com o advento da internet e democratização deste meio, a mainstream mídia tem perdido o monopólio da notícia. Qualquer pessoa pode através das redes sociais tornar uma notícia viral e isto independente de sua veracidade. Segundo recente pesquisa publicada na Science realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT na sigla em inglês), dos Estados Unidos, uma notícia falsa (fake news), espalha-se 70% mais rápido que uma notícia verídica, fato este que explica-se segundo a supracitada pesquisa, pelo fato das fake news mesclarem algo fantástico, inédito, inimaginável a um fato que pode ser real, dentro da lógica.  Este paradoxo seria portanto a “pós-verdade”.

Em 2016, o termo pós-verdade (post-truth) foi eleita a “palavra do ano”, pelo Dicionário Oxford. Em síntese o adjetivo expressa que o racional (logos) perde frente ao emocional (pathos), ou diante da vontade de sustentar crenças, apesar dos fatos demonstrarem o contrário.

O busílis de tal peculiaridade é que as notícias falsas podem influenciar no processo eleitoral, assassinar reputações e até mesmo promover o pânico e a barbárie.

O fato em si não é novidade, os boatos (hoax) e implantação de notícias falsas são encetadas desde os primórdios, o ineditismo dá-se pelas dimensões do fenômeno, na contemporaneidade. 

Pesquisadores das mais diferentes áreas debruçam-se sobre o tema, no afã de entender a complexidade e os meios para coibir as mazelas advindas da pós-verdade. A nós coube a revisitação da literatura física e virtual, apontamento histórico e filosófico do fenômeno. E na contemporaneidade as suas mais variadas matizes desse fenômeno polissêmico, que são as notícias falsas em tempos de pós- verdade.



2. NOTÍCIAS FALSAS NA HISTÓRIA 


 

Platão n’A República no afã de corroborar os “reis- filósofos”, apregoou a disseminação daquilo que ele chamou de “nobres mentiras”, essas seriam necessárias como cimento social para pavimentar a República nos moldes de uma SofocraciaSofocracia: (de sophrosine: virtude da moderação), ou governo dos sábios., como idealizou o moscardo de Atenas. Diz ipisis litteris o diálogo socrático, Platão (2000, p. 108): “Sócrates — De que arte nos valeremos agora para fazer
acreditar numa nobre mentira — uma daquelas que qualificamos  de necessárias —, principalmente aos chefes ou, pelo menos, aos outros cidadãos?”.

Maquiavel (2014, p. 139 ), no Príncipe, capítulo XVIII- Sobre como os príncipes devem manter sua palavra-, assevera da importância em distorcer a verdade, em prol da boa governabilidade:

Todo mundo concorda que é louvável um príncipe que mantém a sua palavra e vive com integridade, e não com astúcia. Mesmo assim, a nossa experiência tem sido que aqueles príncipes que fizeram grandes coisas têm sabido como, com astúcia, transtornar o intelecto dos homens e, no fim, conseguido superar aqueles que se firmaram sobre a sua palavra. 

Resta claro que a mentira e/ou distorção da verdade sempre permeou o jogo político. Distorções estas que teve incremento substancial com o advento da prensa de GutenbergA prensa de tipos móveis foi inventada pelo alemão Johannes Gutenberg por volta de 1450. A invenção e a difusão da prensa móvel é amplamente considerada como o acontecimento mais influente do segundo milênio d.C, revolucionando a maneira como as pessoas concebem e descrevem o mundo, e inaugurando a Idade Moderna. no século VX.  Exemplo notório é o processo de assassinato de reputação que a Rainha da França, Maria Antonieta sofreu, como narra Lever (2004), em biografia onde discorre acerca da campanha difamatória que a soberana foi submetida pelos panfletos sensacionalistas da época. Um desses panfletos, inaugurado em 1772, pelo reverendo Henry Bate, popularmente conhecido como o capelão de Lord Lyttleton, que, tratava-se em suma de um diário matutino, composto de uma sucessão de parágrafos sobre notícias, quase todas falsas,cujo nome era: The Morning Post. Em 13 de dezembro de 1784, este diário matutino do capelão de Lord Lyttleton, publicou um parágrafo que sugeriria que um homem, estava a  prestar serviços sexuais à Maria Antonieta, em troca de favorecimento financeiro. Darnton (2017): 

A rainha francesa tem afeição pelos ingleses. De fato, a maioria de seus favoritos procede desse país; mas quem mais prefere é o senhor W. É sabido que esse cavalheiro tinha sua carteira vazia quando chegou a Paris e, no entanto, agora leva uma vida cheia de elegância, bom gosto e moda. Mantem suas carruagens, seus uniformes e sua mesa sem economizar gastos e com todo o esplendor.

Notícias como esta, que visavam denegrir a imagem da Rainha da França era o habitué, naqueles idos pré- revolução francesa. Noticiosos desse jaez, ajudaram a fomentar a ira dos revoltosos. De acordo com a lavra de Lever (2004 p. 395), já no cárcere em inquirimento prévio, foi  perguntado à Maria Antonieta, se ela tinha ensinado “a arte da dissimulação” ao marido, com a qual o rei tinha enganado o povo da França; Maria Antonieta respondeu: “Sim, o povo tem sido enganado, tem sido cruelmente enganado, mas não por meu marido ou eu”. Aludia portanto a então Rainha da França deposta Maria Antonieta, que toda a nação estivera a ser enganada pela mídia.

Ainda em França, já nos estertores do século XIX, dá-se o caso Dreyfus, cujo processo iniciou-se em 1894, o assassinato de reputação à qual o  capitão Dreyfus foi submetido por meio de incontáveis libelos acusatórios produzidos em grande parte pela mídia, que culminaram em um processo fraudulento, foi desvelado mediante o ativismo aguerrido do escritor Émile Zola e, assim, tornou-se mundialmente conhecido como um dos casos mais latentes de Fake- News, fomentados pela mídia, que induziram a justiça ao erro, já conhecidos. Dreyfus foi posto numa trama que fomentou o ódio em toda uma nação, ódio este que era alimentado diariamente por uma mídia, que Émile Zola adjetivou repetidas vezes, em seu seminal opúsculo- Eu Acuso (1901) de: “imprensa imunda”, (grifo nosso).

Diz Émile Zola ( 1901 p. 118): ” Ei-los portanto com a imprensa imunda. Seguindo-lhes as pegadas, envenenam a nação de mentiras. Pregam às paredes falsidades e histórias imbecis, como para agravar propositalmente a desastrosa crise moral que atravessamos”.

Émile Zola (1901 p. 62), desvela todo o ardil da imprensa sem meias palavras, ao inquirir acerca da solidez da razão, num trecho que nos remete a pós-verdade, a qual a razão é mitigada em favor de fatos fabricados para encontrar eco emocional na sociedade:

Aí está, França, o que encontro em primeiro lugar, na demência que te arrebata: as mentiras da imprensa, o regime de contos ineptos, de baixas injúrias, de perversões, em que ela te lança todas as manhãs. Como poderias querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias, a claridade de tua inteligência, a solidez de tua razão?

Já em solo nacional, mais precisamente no Brasil Colonial escravocrata, a qual Gilberto Freyre (2006, p. 95) em sua Magnum Opus– Casa Grande e Senzala-, nos conta da escassez dos víveres naqueles idos. Onde já colhia-se os frutos da agricultura, enquanto ainda era muito raro encontrar carne fresca, leite e ovos, conjuntura esta que é berço de um boato, que atravessou séculos, a saber: é neste cenário colonial que surge uma notícia falsa (fake news), secular, a de que seria maléfico para a saúde e até mesmo fatal a ingesta de leite e manga, misturados. Cumpre a nós desvelar o boato (hoax) secular, a qual muitos ainda hoje, são impelidos por terceiros, ao intentar fazer consumo dos dois alimentos concomitantemente, com a menção à notícia falsa. Explica a nutricionista Anita Sachs, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),- Ramalho (2018): “O leite era, então, um alimento bastante raro, e caro, exclusivo dos patrões, os senhores de engenho. Como eles não queriam que essa preciosidade fosse consumida por escravos, inventaram e espalharam a lenda, que sobreviveu até hoje”. 

Ainda em solo nacional, o próprio advento do golpe militar que resultou na proclamação da República, em 15 de novembro 1889, foi também precedido de uma série de boatos que anteciparam a queda da monarquia no Brasil, como narra Gomes (2013, p.42):

Enquanto Glicério e Aristides se encontravam com Benjamin, um boato

começou a tomar conta do centro do Rio de Janeiro. Dizia-se que o governo tinha
ordenado a prisão de Deodoro e determinado a transferência de várias unidades militares para outras regiões do país, em uma tentativa de conter os focos de rebelião nos quartéis. Falava-se também que o visconde de Ouro Preto planejava dissolver o Exército e substituí-lo pela Guarda Nacional, supostamente mais fiel à Monarquia. Os rumores eram plantados de forma proposital na rua do Ouvidor — definida pelo historiador Anfriso Fialho como “coração e ouvidos do Rio de Janeiro” 

Já em dias hodiernos o caso da Escola Base, é  considerado o calcanhar de Aquiles da mídia brasileira. Em março de 1994, a mainstream mídia, deu ampla divulgação em uma série de reportagens acerca de seis pessoas que estariam envolvidas na prática de abuso sexual de crianças, alunas da Escola Base, localizada no Bairro da Aclimação, no estado de São Paulo. Toda a grande imprensa, abarcando: jornais, revistas, emissoras de rádio e de tevê, tomaram como base, boatos (hoax), de ouvir dizer, sem nenhuma investigação prévia ou conjunto probatório que atestasse este “ouvir dizer”. Quando a verdade dos fatos, veio à tona, a escola já havia sido depredada, os donos estavam falidos, suas vidas devastadas com a pecha de um crime vil e abjeto. Ribeiro (2000, p.36), narra como deu-se a tratativa entre o jornalista- Antônio Carlos Silveira dos Santos que esteve na Escola Base para fazer a matéria e o editor- Paulo Breitenvieser do jornal Diário Popular ,onde foi vinculada a matéria que seria o estopim para as demais que viriam na sequência, referente aos “crimes cometidos na Escola Base”: 

O dono da escola foi pego de surpresa, mas não se encontrou nada que provasse qualquer ligação com um suposto crime. Ninguém poderia ir para a cadeia, nem pro flagrante nem por prisão temporária.
Chegou à redação por volta das oito horas da noite e foi direto conversar com o editor Breitenvierser. 

– Como é? A matéria é boa? 

– Está redonda, tem fotos de todo mundo, mas não tem prova nenhuma contra a escola. 

Editor e repórter conversaram mais um pouco sobre o que poderia ser a manchete do dia. “Se a gente desse a matéria, a gente ferrava o japonês”, conta Antônio Carlos. “Mas se a gente não desse e saísse publicado em outros jornais, quem estava ferrado era a gente.” 

– Faço a matéria? 

– Faz, mas não pega pesado.



Destarte, os exemplos anteriormente postos, no afã de fazer um breve pincelamento de alguns episódios, explicitam peremptoriamente que a disseminação de notícias falsas não é  uma inventividade da era pós-moderna, não sendo portanto, nenhuma novidade, todavia as notícias falsas em dias hodiernos vêm embaladas na pós-verdade e é acerca dessa “nova roupagem” das notícias falsas que trataremos doravante nos tomos seguintes.


3. O ÉTIMO COMPOSTO: PÓS-VERDADE


Importante balizar que pós-verdade não é sinônimo de mentira. Como visto anteriormente, a mentira permeia a política, o poder, a mídia na construção do consenso, as relações humanas, em sua mais vasta amplitude, desde os primórdios. A pós-verdade vem como um ingrediente a mais para transformar as mentiras em algo palatável, digerível por meio das emoções. A pós-verdade visa trazer à baila informações inverossímeis e contraditórias, onde a mentira não é posta de forma explícita, mas envolta em chamarizes emotivos que tornam o discernimento entre o que é verdade e mentira dentro da notícia, num exercício complexo. Diante deste fato, o cidadão aceita como verdade aquilo que encontra eco emotivo dentro de suas concepções de mundo, preterindo assim a “verdade dos fatos” que por vezes é muito menos atrativa que uma pós-verdade bem elaborada.  

Em 2016, a expressão pós-verdade (post-truth), ganhou global repercussão , ao ser eleita a palavra do ano pelo Dicioário Oxford (2016). Em síntese a palavra expressa que o racional (logos) perde frente ao emocional (pathos), ou diante da vontade de sustentar crenças, apesar dos fatos demonstrarem o contrário

Segundo o Oxford Dictionaries (2016) o étimo composto pós-verdade foi usado a priori em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, em um ensaio para a revista The Nation.  De acordo com o artigo de Tesich, os norte- americanos estariam  traumatizados com uma sequência de escândalos, a saber: Watergate, o caso Irã-Contras e etc, que começaram a mitigar a verdade dos fatos e conspirar diuturnamente por sua supressão,  D’Ancona apup Tesich (2017, p.21):


Estamos rapidamente nos tornando protótipos de um povo em que os monstros totalitários podem babar em seus sonhos. Todos os ditadores até agora tiveram de trabalhar duro para suprimir a verdade. Por meio de nossas ações, estamos dizendo que isso não é mais necessário, que adquirimos um mecanismo espiritual capaz de despojar a verdade de qualquer significado. de uma maneira bastante radical, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em um mundo da pós-verdade. (grifo nosso)



Ainda de acordo com o Oxford Dictionaries (2016), posteriormente em  2004, o escritor norte-americano Ralph Keyes, intitulou obra  de sua lavra, com o termo: The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life; e, em 2005 o comediante norte-americano Stephen Colbert popularizou uma expressão informal relacionada ao mesmo conceito de verdade, definida como “a qualidade de parecer ou ser sentido como verdade, mesmo que não seja necessariamente verdade”.

Todavia, quem mais contribuiu para a popularização mundial do termo foi a revista The Economist, do advento da publicação do artigo: “Art of the lie”Arte da mentira, em 10 de setembro de 2016.

Na tese postulada, pelo britânico The Economist (2016), a “pós-verdade” disseminou-se ao largo, especialmente por culpa da internet e das redes sociais. “A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante”, diz o semanário. “Mentiras compartilhadas online, em redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade.” 

 Na literatura pode-se encontrar o lastro daquilo que entendemos hodiernamente como pós-verdade, todavia com denominação distinta, como no clássico de Orwell 1984, onde o autor cunha o termo “duplipensar”, onde a mentira estaria sempre a um passo da realidade, Orwell (2009, p. 212):


 Mesmo ao usar a palavra
duplipensamento é necessário praticar o duplipensamento. Porque ao utilizar a palavra admitimos que estamos manipulando a realidade; com um novo ato de duplipensamento, apagamos esse conhecimento; e assim por diante indefinidamente, com a mentira sempre um passo adiante da verdade.




Segundo D’Ancona (2017, p. 93): “A ideia do “duplipensar”- o poder de manter duas crenças contrárias na mente de uma pessoa, e aceitar as duas”- é o antepassado direto da pós-verdade”.

Francis Bacon no capítulo primeiro dos Ensaios, aborda a verdade onde questiona-se acerca do porquê os homens sentirem-se atraídos e até mais confortáveis  diante à sombra da mentira que das luzes da verdade. Bacon (2015, p. 7):

Certamente há aquele êxtase no transe, que se faz como algema para prender a convicção; que afeta o pensamento e também a ação. […] Mas o que eleva a mentira à aceitação não é a dificuldade e o trabalho que os homens arrostam para descobrir a verdade, nem mesmo quando ela se impõe ao seu pensamento, mas um natural e corrupto amor pela própria mentira. […] Uma pitada de mentira sempre soma ao prazer.

Em sua investigação acerca da verdade, Bacon (2015, p. 8) postula que não há bem maior que a verdade e que esta deve ser sempre buscada com afinco: 

 Mas sejam quais forem os juízos falhos e afetações dos homens, a verdade que só julga a si, ensina que a busca da verdade, que é o amor ou galanteio a ela, o conhecimento da verdade que é a sua presença, e a convicção da verdade que é seu desfrute, é o bem soberano da natureza humana.



O pensamento de Bacon é tido como o fundador da era moderna, conhecido por acrescentar à Revolução Científica novas concepções sobre a teoria da observação e da experimentação. A  posteriori a lavra de Bacon, influenciou  os feitos de John Locke, sendo este, considerado o patrono do iluminismo. O iluminismo teve como base a racionalidade em seu bojo, racionalidade essa que só jaz na verdade. Diz D’Ancona (2017, p. 19 ):

Desde a Revolução Científica e o Iluminismo, porém, essas narrativas coletivas competiram com a racionalidade, o pluralismo e a prioridade da verdade como base para a organização social […] A racionalidade está ameaçada pela emoção. […] A ciência é tratada com suspeição e, ás vezes com franco desprezo.

 O que se segue à era moderna que nos legou o  iluminismo é a pós-modernidade, esta surge com a proposta de desconstruir a verdade por meio da relativização da racionalidade, intentando para tal derruir os ideais iluministas que foram calcados pelo enaltecimento da verdade. Segundo D’Ancona, para encontrar o busílis da pós-verdade é necessário buscar seu gênesis no pensamento advindo dos pensadores da pós-modernidade, a seguir nos debruçaremos nesta seara.


 4 . A PÓS-VERDADE E SUA RAIZ NA PÓS- MODERNIDADE


O advento do iluminismo, consolidou as luzes do modernismo e com ela  o total descrédito a tudo o que fosse obscuro e sem lastro na racionalidade. Em seu bojo havia a crença em  verdades absolutas, naquilo que podia ser verificado e confirmado pela ciência e seus métodos. A pós- modernidade, numa espécie de  processo dialético, propôs por meio de seus pensadores, a desconstrução dos paradigmas anteriormente construídos, no afã de reconstruir uma nova sociedade, calcada em valores flexíveis. Uma sociedade portanto mais plural e crítica. Nessa nova ótica  sob o prisma pós-moderno, absolutamente tudo deveria ser criticado e desconstruído, a começar pela crença em verdades absolutas, alcançáveis por intermédio da razão. 

Segundo D’Ancona (2018, p. 84), o pós-modernismo tem em seu gênese intelectual uma resistência à definição exata, sendo portando um corpo nada homogêneo em sua base filosófica. Uma escola filosófica pouco coesa portanto.   Que apesar de ser considerada frequentemente obscura e impenetrável, tem sido  ao longo das últimas décadas massificada e popularizada, extramuros da acadêmia. Para o autor se faz necessário seguir nessa linha de inquirição, caso tenha-se a pretensão de buscar as raízes mais profundas da pós-verdade. 

D´Ancona (2018, p. 85) observa que os pós-modernos, Richard Ashley, Derrida e Foucault foram contundentes ao exortarem em suas obras, o questionamento e desconstrução da linguagem, do idioma visual, das instituições e dos saberes adquiridos. Destarte, essa visão nada ortodoxa de mundo, onde a linguagem e a cultura seriam “constructos  sociais”Constructos Sociais: É a elaboração de valores, regras, normas, significados e símbolos sociais realizada pela sociedade, a partir das práticas individuais e sociais de cada um. A sociedade está permanentemente se redefinindo e renegociando essas questões., teria nos legado a pós-verdade nas dimensões como temos experienciado em dias hodiernos:

…seria ingênuo negar que os principais pensadores associados com essa escola pouco coesa, ao questionar a própria noção de realidade objetiva, desgastaram muito a noção de verdade […] Os filósofos pós-modernos preferiram entender a linguagem e a cultura como “constructos sociais”; ou seja, fenômenos políticos que refletiam a distribuição de poder através de classe, raça, gênero e sexualidade, em vez de ideais abstratos de filosofia clássica. E se tudo é um “constructo social”, então, quem vai dizer o que é falso? 

 D’Ancona (2018, p.86) faz coro aos adversários intelectuais dos pós-modernos, ao aludir que essa visão de mundo relativista, seria uma releitura esdrúxula das ideias do sofista pré-socrático,  Protágoras ( 490 a.C – 421 a.C), que sustentou nos idos do século V a.C,  que: ” O homem é a medida de todas as coisas”, cada coisa portanto seria vista de uma forma diferente, pois nenhum homem é igual ao outro em suas percepções. Portanto,  Protágoras no nascer da filosofia ocidental, já havia colocado o homem como protagonista ao observar, sentir e receber o mundo. Nietzsche no século XIX foi muito além, insistindo que a natureza humana era absolutamente hostil à noção de verdade,- perguntou Nietzsche (2012, p.15), na primeira parte de Além do Bem e do Mal: “Certo, queremos a verdade: mas por que não, de preferência, a inverdade? Ou a
incerteza? Ou mesmo a insciência?”

Mutatis mutandis: a relativização e/ ou subversão  da verdade como um ideal a ser alcançado pela humanidade é tão antiga quanto a própria filosofia.

O ineditismo proposto pelos pós-modernos jaz no escamoteamento da verdade em nome do constructo social, tal empreendimento  relativista, encontrou eco junto à uma narrativa de pluralidade e inclusão, fazendo uso de um discurso revisionista e crítico dos ideais iluministas, que tinha como base a racionalidade. Acerca da pós-modernidade em seus intentos, diz Lyotard (2009 p.127):


 Aos olhos revolucionários, a pós-modernidade é reformista.
Aos olhos iluministas ela é uma freguesa contumaz, ou seja, mais uma rebelião anárquica da irracionalidade. Aos olhos verdadeiramente modernos, ela é apenas modernizadora. Porém, aos seus próprios olhos, a pós-modernidade é antitotalitária, isto é, democraticamente fragmentada, e serve- para afiar a nossa inteligência para o que é heterogêneo, marginal, marginalizado, cotidiano, a fim de que a razão histórica ali enxergue novos objetos-de-estudo. Perde-se a grandiosidade, ganha-se a tolerância. Em lugar do dever histórico do Homem, tem-se a integração plena do cidadão em comunidades.



Todavia, nos compete balizar que o pensamento desses autores, encontra lastro, na “teoria crítica”, postulada pelos integrantes da Escola de Frankfurt, radicados nos EUA- neste concernente: Theodor Adorno e Max Horkheimer. Como explicita  Adorno e Horkheimer apup Lyotard (2009 p.22):


Se a teoria “tradicional” está sempre ameaçada de
ser incorporada à programação do todo social como um simples instrumento de otimização das performances deste último, é que seu desejo de uma verdade unitária e totalizante presta-se à prática unitária e totalizante dos gerentes do sistema. A teoria “crítica”, por se apoiar sobre um dualismo de princípio e desconfiar das sínteses e das reconciliações, deve estar em condições de escapar a este destino.





Jean Baudrilard (1991, p.8) em Simulacros e Simulações, já antevia o esboço da pós-verdade num suposto espaço virtual, naquilo que ele chamou de “hiper-realidade”A hiper-realidade é uma realidade construída e artificial, ainda que com o completo conhecimento dos que nela participam... 




 Já não tem de ser racional, pois já não se compara com
nenhuma instância, ideal ou negativa. É apenas operacional. Na verdade, já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera.



Ainda Em Simulacros e Simulações, Jean Baudrilard (1991 p. 79-80) prevê que a tecnologia das comunicações subverteria as noções dos usuários,  herdadas do real:


Vivemos em um mundo onde há cada vez mais informação e cada vez menos significado. […] Apesar dos esforços de reinjetar mensagem e conteúdo, o significado está perdido e é devorado mais rápido do que pode ser reinjetado. […] Em todos os lugares, a socialização é medida pela exposição às mensagens midiáticas. Quem quer que seja exposto por tempo insuficiente à mídia é dessocializado ou quase associal […] quando achamos que a informação produz significado, ocorre o contrário.



Mutatis Mutantis, Baudrillard, previu a respeito da mídia social se tornar ao mesmo tempo uma medida de pertencimento, como fonte de desinformação- o que conhecemos hoje em dia popularmente, como fake news, potencializada com o ingrediente da pós- verdade.


5. A PÓS-VERDADE NA COMPOSIÇÃO BRASILEIRA

No capítulo 6 da obra seminal de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, no tópico último do capítulo supracitado, ” O desencanto da realidade”, o autor aborda a questão da verdade mitigada em detrimento de fatores emotivos na composição da formação do brasileiro, Holanda (1995 p.162 ):

Tornando possível a criação de um mundo fora
do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu
contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade.

Poder-se-ia aludir que segundo Sérgio Buarque de Holanda a nossa composição sociológica como povo, carrega em seu gênese uma tendência à fuga da realidade cotidiana, e em contrapartida uma aproximação de verdades mais edulcoradas, romanescas, lacrimosas no linguajar de Buarque. Quiçá nessa observação resida o busílis de uma tendência à aceitação de “verdades construídas”, portanto mais palatáveis. 

Buarque (1995 p. 163), explana acerca dos homens de ideias daqueles idos e como eram poucos afeitos à realidade dos fatos:



Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas, os nossos homens de idéias eram, em geral, puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus sonhos e imaginações. Tudo assim conspirava para a fabricação de nossa personalidade no contato de coisas mesquinhas e desprezíveis. Ainda quando se punham a legiferar ou a cuidar de organização e coisas práticas, os nossos homens de idéias eram, em geral,

puros homens de palavras e livros; não saíam de si mesmos, de seus

sonhos e imaginações. Tudo assim conspirava para a fabricação de

uma realidade artificiosa e livresca, onde nossa vida verdadeira morria

asfixiada. Comparsas desatentos do mundo que habitávamos, quisemos recriar outro mundo mais dócil aos nossos desejos ou devaneios. Era o modo de não nos rebaixarmos, de não sacrificarmos

nossa personalidade no contato de coisas mesquinhas e desprezíveis.

Como Plotino de Alexandria, que tinha vergonha do próprio corpo, acabaríamos, assim, por esquecer os fatos prosaicos que fazem

a verdadeira trama da existência diária, para nos dedicarmos a motivos mais nobilitantes…

Mais adiante em Raízes do Brasil ao rememorar os idos do reinado de D. Pedro II, e do golpe positivista republicano no país, Buarque (1995 p. 164), diz que os positivistas eram misteres em recriar a realidade conforme seus gostos e arbítrios. Todavia o positivismo a qual tivemos nossa república alicerçada, com parte do lema de Auguste Comte estampada em nossa flâmula nacional, tem como ponto nevrálgico a racionalidade, o que por si só é algo conflitante para o entendimento da composição social nacional e a pós-verdade, que em suma mitiga a racionalidade.

   

Buarque (1995 p. 160),  dirime a celeuma, no trecho seguinte:

Mas os positivistas foram apenas os exemplares mais característicos de uma raça humana que prosperou consideravelmente em

nosso país, logo que este começou a ter consciência de si. De todas

as formas de evasão da realidade, a crença mágica no poder das idéias

pareceu-nos a mais dignificante em nossa difícil adolescência política

e social. Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo e acabado de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições

da vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições lhe

imporiam. 




Fomos  forjados em estrangeirismos sem que a identidade nacional fosse respeitada  e portanto esses estrangeirismos à luz de Buarque ao serem inseridos poderiam sofrer alterações, que não foram consideradas e, portanto não obter o resultado esperado.

Fato é que mediante o exposto, resta claro, que como povo num prisma sociológico, tendemos a preferir verdades mais palatáveis à dura realidade, tornando assim o nosso país  como o que mais acredita em  Fake News no globo, como apontou pesquisa publicada por Basile (2018): “Os brasileiros são os que mais acreditam em notícias falsas, as fake news, aponta pesquisa do instituto Ipsos em 27 países. Segundo o estudo, 62% dos brasileiros acreditam em uma notícia que, na verdade, era boato”. 

Diante de tal constatação o antídoto para essa condição pode residir nas agências de checagem de fatos, ferramentas que mostram-se vitais para os usuários da rede na atualidade. Sobre as agências de checagem de fatos é que discorreremos a seguir.

6. CHECAGEM DE FATOS NO BRASIL



Segundo matéria de Golçalves (2018), embora existam no Brasil mais de uma dezena de sites que propõem- se a checagem de fatos, apenas três agências são certificadas pelo IFCN (The International Fact-Checking Network): Lupa, Truco e Aos Fatos.

As instituições credenciadas devem estabelecer compromissos com apartidarismo e
equidade, transparência das fontes, de financiamento, de organização e de método. Além de primar por  correções francas e amplas. 

A Lupa é a primeira agência de fact-checking do país, e desde novembro de
2015; e, sua equipe acompanha o noticiário de política, economia, cidade, cultura, educação, saúde e relações internacionais para corrigir informações imprecisas e divulgar dados corretos. Esses dados são vendidos a outros veículos de imprensa. Recentemente, com o advento do processo eleitoral de 2018, a agência Lupa lançou o Lupe um assistente virtual- chatbot, desenvolvido para o Facebook, o sistema visa responder dúvidas dos eleitores através do Facebook Messenger, dando agilidade à disseminação de artigos checados. A agência Lupa classifica as notícias verificadas com as seguintes etiquetas: verdadeiro- quando o conteúdo está comprovadamente correto; verdadeiro, mas- a informação está correta, mas o leitor merece mais explicações; ainda é cedo para dizer– a informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é; exagerado-  a informação está no caminho correto, mas houve exagero; contraditório- a informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte; subestimado – os dados são mais graves do que a informação; insustentável- não há dados públicos que comprovem a informação; falso– a informação está comprovadamente incorreta; de olho– etiqueta de monitoramento. 

A agência Aos Fatos surgiu em 2015 é mantida por uma equipe de profissionais
multidisciplinares e multitarefas, além de uma rede de freelancers. O processo de venda de checagens e reportagens obedece aos trâmites comerciais que garantem independência à agência. A distribuição do conteúdo fica a cargo do parceiro de Aos Fatos, que compra a exclusividade da publicação. Os conteúdos são publicados no UOL, Buzzfedd, Pulso 55 e Voltdata, além de disponibilizar um serviço de checagem sob demanda – a Aos Fatos Lab. Diferentemente da Lupa, que tem um fundo de investimento, a Aos Fatos é mantida por apoiadores e campanhas de crowdfunding,
além das vendas dos conteúdos produzidos. 

A agência Truco é o projeto de fact-checking da Agência Pública e existe desde
2014. No início, a ideia era checar falas de políticos, mas a partir de fevereiro de 2017 ampliou seu leque e passou a verificar afirmações de quaisquer personalidades públicas ou divulgadas na internet, sempre que for encontrada uma frase relevante e que paute o debate na sociedade. O objetivo é aprimorar o discurso público e a democracia, tornando as autoridades mais responsáveis por suas declarações. Após passar por uma auditoria independente concluída em 28 de março de 2017, tornou-se um dos signatários verificados do código de princípios da IFCN. A equipe de checagem é formada por jornalistas da Agência Pública, com colaboração de outros integrantes da equipe. O financiamento é da Agência Pública – e parte das doações também vêm de crowdfunding. 

Com o advento do processo eleitoral que se avizinha, uma força tarefa de  jornalistas do G1, O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, GloboNews e TV Globo, lançaram em julho de 2018, a ferramenta de checagem de fatos- Fato ou Fake-, ferramenta esta destinada a elucidar a checagem de noticiosos no concernente a priori ao pleito, mas não limitando-se apenas a este período. A equipe do Fato ou Fake tem realizado a checagem de discursos de políticos, também conta um “bot” (robô) no Facebook e no Twitter que responde o que é falso ou verdadeiro, caso o assunto já tenha sido verificado pelos jornalistas da Globo. Além disso, por meio de um número de WhatsApp, usuários cadastrados podem ver os links das checagens realizadas. O mote do serviço oferecido pelo Fato ou Fake, é o de que: “a dúvida leva à verdade”. Um dos vídeos de divulgação resume o espírito do projeto (G1-2018):


O bom jornalismo nasce da dúvida. Se aconteceu, é fato. Se é mentira, é fake. Só que hoje em dia é muito difícil separar o fato do fake. Saber se é inventado ou se aconteceu mesmo. É para isso que serve o jornalismo. Para conferir pra você. Se você tem dúvida, a gente confere. Se você não sabe se é verdade, a gente checa a fonte. Um bom jornalista não publica nada sem duvidar antes. Se não confere não é jornalismo. E conferindo a gente descobre o que de fato é fato e o que de fato é fake. Porque a dúvida leva à verdade. E a gente só trabalha com ela. Jornalismo é isso. A gente duvida. A gente confere. A gente informa. FATO OU FAKE. É jornalismo para o fake não virar news.

O que faz do fact-checking uma prática relevante na era da pós-verdade
 é a preocupação com a transparência e salvaguarda da democracia, especialistas afirmam que a disseminação de conteúdos falsos- as fake news-, é um dos principais desafios a serem enfrentados hodiernamente, pois essa disseminação prejudica a tomada de decisões e coloca em risco a democracia. O fenômeno da desinformação, inicialmente conhecido como das “fake news”, foi visto recentemente em eleições nos Estados Unidos, no Reino Unido- Brexit-, na França, na Alemanha e no México.

 Os métodos de checagem não divergem diametralmente entre as agências, todas explicam como chegaram à conclusão sobre a veracidade das informações publicadas, destacando as fontes primárias de informações com links e referências que corroboram.

a BANALIDADE DA MENTIRA

A facilidade da comunicação de dias atuais, com rápido poder de propagação das notícias, é um facilitador para que mal-intencionados, criem boatos, que por vezes apenas assassinam reputações, em outras ceifam vidas, é aqui que mora o anacronismo, onde o bárbaro e o tecnológico mesclam-se. É com este enredo, que culminou no linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus. A notícia falsa, propagada via internet, aludia que Fabiane praticava magia negra com crianças, este foi o mote para que vizinhos e passantes ao avistá-la na rua lhe espancassem até a morte, em 5 de maio de 2014, ela tinha 33 anos. A praça pública de hoje, tem sua antessala na internet, é ali que se dá a denuncia, se instaura o inquérito e se decide a pena. O juíz e o carrasco residem muitas vezes na mesma pessoa, tudo o que os racionalistas mais abominavam e combateram. Sobre os delitos quiméricos, Beccaria (2001, p.86), nos diz:

Mas, a superstição e a tirania os perseguem; acusam-nos de crimes impossíveis ou imaginários;ou então são culpados, mas somente de terem sido fieisàs leis da natureza. Não importa! Homens dotados dos mesmos sentidos e sujeitos às mesmas paixões secomprazem em julgá-los criminosos, têm prazer emseus tormentos, dilaceram-nos com solenidade,aplicam-lhes torturas e os entregam ao espetáculode uma multidão fanática que goza lentamente com suas dores.

Em seu Tratado de Tolerância, Voltaire (2015, p.69), ensina, que, devemos tolerar-nos em nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não entendemos, exorta acerca da superstição e suas contradições frente à razão:

A ferrugem de tantas superstições subsistiu ainda algum tempo entre os povos, mesmo depois de a religião ter sido finalmente depurada […] A cada dia a razão penetra na França, tanto nas lojas dos comerciantes como nas mansões dos senhores. Cumpre, pois, cultivar os frutos da razão, tanto mais por ser impossível impedi-los de nascer.Não se pode governar a França, depois dela ter sido esclarecida pelos Pascal, os Nicole, os Arnauld, os Bossuet,os Descartes, os Gassendi, os bayle, os Fontenelle etc.

Passados quatro anos da barbárie, a família de Fabiane ainda tenta se recuperar. Ironicamente, os muitos vídeos postados nas redes por pessoas que filmaram o linchamento ajudaram a identificar os réus, ao todo cinco, que estão presos preventivamente, aguardando recurso.

 

O episódio fomentou a criação do, PL 7544/14, que prevê aumentar em 1/3 a punição quando a incitação a crimes ocorrer através da internet ou por meio de comunicação de massa, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou o referido projeto. A proposta vai agora ao plenário da Casa.

A intenção da proposta original era criar um novo tipo penal para quem incita violência por meio de rede social ou de qualquer veículo de comunicação virtual, mas o relator do projeto entendeu que esse crime já existe. Por isso, optou por um endurecimento da pena. A nova lei, se aprovada, deve alterar o Código Penal. Lei esta, que aprovada, deve ganhar o nome de Fabiane.

Todavia mortes ocasionadas por notícias falsas não é uma exclusividade do Brasil, na pequena cidade de Acatlán, no México, as vítimas foram Ricardo Flores e seu tio Alberto Flores, como narra Martínez (2018): “Boatos sobre sequestros de crianças se espalharam pelo WhatsApp em uma pequena cidade no México. A notícia era falsa, mas uma multidão espancou e queimou vivos dois homens antes de alguém checar sua veracidade”. 

As ondas de violência causados em decorrência de notícias falsas, têm alastrado-se pelo mundo, Martínez (2018):


As mortes de Ricardo e Alberto Flores no México não são casos isolados. Boatos e notícias falsas no Facebook e no WhatsApp fomentaram episódios de violência com morte na Índia, em Myanmar e no Sri Lanka, para citar apenas três. Na Índia, como no México, o WhatsApp ressuscitou rumores antigos sobre sequestros, permitindo que se espalhassem mais rápido – e com menos responsabilidade.

considerações finais

Pelo presente posto, summa summarem, resta claro que as notícias falsas sempre permearam os noticiosos no amplo, desde os primórdios, com a diferença que hodiernamente as notícias falsas são disseminadas em larga escala, decorrente do advento da tecnologia via redes sociais. 

Nietzsche (2012 p. 89) disse: “Quanto mais abstrata a verdade que queres ensinar, mais deverás seduzir os sentidos”. Desta máxima tem-se a essência da pós-verdade, na qual estamos imersos, por efeito sociologizante desde as nossas raízes, sob um prisma sociológico como o explicitado por Buarque até dias atuais, perpassando todo um lastro da pós-modernidade por intermédio dos constructos- sociais e seus ideólogos, ideólogos estes largamente incensados em nossa sociedade ocidental, onde em suas lavras no afã de derruir a racionalidade que o iluminismo nos legou, buscaram desconstruir a racionalidade. Como fruto desta fórmula, encabeçamos as pesquisas que apontam que somos o povo mais crédulo do globo, portanto, propensos a acreditar em inverdades, ou meias-verdades. A internet é o veículo ao alcance de um click que propicia a larga disseminação dessas notícias que mesclam a sedução dos sentidos por meio do passional, mitigando desta forma o prisma racional. Todavia este é um fenômeno global, quiçá as nossas raízes nos potencialize para a credulidade nas fake news, todavia é imperativo salientar que a disseminação de notícias falsas é global. 

Em nosso socorro surgem as agências de checagens de fatos, que num trabalho hercúleo, visam trazer luz às informações pouco críveis. Tornaram-se, portanto, uma ferramenta salutar para aqueles que buscam informações em ambiente virtual. É um esteio de sensatez em meio à muitas desinformações, uma ferramenta indispensável para afirmar categoricamente que um fato é realmente verídico.

O ambiente virtual sem nenhum horizonte na qual buscar a verdade dos fatos, ou com usuários que não fazem uso das agências de checagem, ou ainda dos usuários crédulos que abrem mão do bom-senso, e compartilham ao léu toda sorte de conteúdo, é então,  um terreno fértil para que a sanha popular eivada por um cabedal de inverdades reproduzidas à exaustão, enseje barbáries como a que acometeu a dona e casa Fabiane Maria de Jesus, ou ainda em Acatlán, que vitimaram dois homens da mesma família: Ricardo e Alberto Flores e nos demais casos ao derredor do mundo, que se tem conhecimento.

Pelo trabalho posto, é patente que as fake news ganharam uma estatura dantesca com o advento da rede de internet, é como uma Hidra de Lerna, enquanto se desmente um fato, mais outros tantos surgem, e são disseminados. Desta forma, nem o mais otimista cientista social, pesquisador, poder-se-ia aludir que possuí a fórmula para frear o fenômeno. Quiçá no próprio veneno, a rede de internet,  haja um antídoto e essa por meio das checagem de fatos e amadurecimento dos usuários, darão a fórmula que fornecerá os freios e contrapesos para as tão nocivas fake news. 

Abstract

The present article brings to light a problematic of fake news, in a historical and philosophical prism, the false news that gain new clothes in postmodernity, with the advent of relativization of truth, this adjective gained global visibility in 2016 , after being elected a word of the year by the Oxford Dictionary. It was for us in this work, through an exploratory research in the search for history and philosophy in which we specialize an approach to the cultivation of postmodern thinkers, that the condtion that is a rationality in the interpretation of the “truth of the facts” be mitigated in favor of the emotiveness of “palatable truths.” From this beacon, the following was to measure the impact of the internet network, through social advertisements in the propagation of false information about post-truth times; and the impacts generated from this news. Impacts these cover the most diverse cuts of the human race, putting itself in crisis like sciences, a politics, a public safety and etc.

Keywords: Fake news. Post-Truth.Poss-Modernity

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