FAKE NEWS E SUA INFLUÊNCIA NO CONTEXTO DEMOCRÁTICO AMERICANO

UNIVERSIDADE VILA VELHA

FAKE NEWS E SUA INFLUÊNCIA NO CONTEXTO DEMOCRÁTICO AMERICANO

JULIO CÉSAR BARBOSA

Resumo

O presente artigo busca, através de revisão bibliográfica e análise do cenário internacional, compreender o que são Fake News, seu uso por atores internacionais para fins políticos, como na eleição Americana de 2016 e também no referendo de saída do Reino Unido da União Europeia. Buscaremos esclarecer também o funcionamento da Internet Research Agency e sua participação na criação de notícias falsas como estratégia de manipulação internacional.

Palavras-chave: Fake News, Rússia, Eleições Americanas, Brexit, Internet Research Agency.

Abstract

This article searches through bibliographic review and analysis of the international scenario to understand what Fake News is, its use by international actors for political purposes as in the American election of 2016 and also in the referendum of the United Kingdom of the European Union. We will also seek to clarify the functioning of the Internet Research Agency and its participation in the factoring of false news as an international manipulation strategy.

Keywords: Fake News, Russia, American Elections, Brexit, Internet Research Agency.

Introdução

As notícias falsas ou Fake News no inglês, ganham cada vez mais atenção do público devido a maior atenção dada ao termo nos meios tradicionais de comunicação que incluem jornais e revistas impressas.

A maior atenção recebida pelo tema advém das transformações das comunicações, onde é possível observar um maior uso de dispositivos moveis como celulares e afins como ferramenta de informação, declínio da credibilidade da mídia tradicional e mudança no perfil de busca por informações, as redes sociais serviram para a criação de um onde uma comunidade onde o usuário deixa de ser expectador na busca de informação e pode se tornar um criador de conteúdo para seu círculo social online, apesar de reconhecer que qualquer usuário pode replicar conteúdo falso, seja intencionalmente ou não, focaremos nossa pesquisa nas instituições que criam o falso conteúdo para as redes sociais. Como já dissemos anteriormente, vamos dar maior atenção as instituições que promovem a criação e propagação das notícias falsas, no caso americano essa instituição é chamada Internet Research Agency (IRA), temos como objetivo no decorrer do artigo questões como como conceituar o que são Fake News, sua importância como fator influenciador nas eleições Americanas, quais são atores que engendraram as Fake News no contexto da Americano e quais os interesses que movem tais atores a usar dessa ferramenta como ferramenta de política internacional.

Conceito de fake news

A palavra pós-verdade ganhou muita atenção em 2016 quando foi eleita a palavra do ano pela Oxford Dictionary (OXFORD,2016), que a definiu como o que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. As Fakes News são notícias falsas que usam do conceito da pós-verdade para ganhar forma e audiência.

O cenário político e ideológico polarizado é um catalizador desse fenômeno, pois o diferente não é aberto ao diálogo e sim a enfrentamento. Apesar das plataformas digitais teoricamente promoverem maior interação com seus usuários é também a mesma plataforma que permite que o usuário consiga se distanciar de debates e o colocando em um ambiente de positivação de suas próprias opiniões, assim, foi possível a criação de bolhas de informação. Essas bolhas formam uma espécie de reducionismo de opiniões conflitantes envolvendo o usuário num mundo próprio com ideias semelhantes a suas. De acordo com Gihana Proba, o fenômeno da bolha é um mecanismo digital de filtro onde baseando no comportamento nas redes sociais o usuário tende a receber mais conteúdo semelhante aos seus interesses pessoais, o que contribui pouco para novas experiências e descobertas (FAVA, 2013). Essa limitação não é criada pela aleatoriedade, se sustenta primeiramente na ação individual do usuário que tem o poder de bloquear fontes de informação que contradizem sua opinião e ampliar as fontes favoráveis e em segundo lugar pelo próprio contexto das redes sociais, onde a informação privada, como preferências pessoais e outras características são coletadas quando aceitamos usar serviços online, principalmente de redes sociais que fazem do marketing seu produto principal, e então esses dados são comercializadas fim de obter campanhas publicitarias mais direcionadas aos indivíduos que dela fazem parte, tudo isso se traduz em um prisma mercadológico que visa maior obtenção de dados e preferencias do usuários para obter maior assertividade publicitária (SILVA, 2017), logo é aceitável que esse isolacionismo seja um fator que ajude a catalisar o sentimento de polarização, pois os usuários, independentemente de sua visão política recebem mais conteúdo de sua mesma visão e por isso as redes sociais podem ser uma das causas para essa polarização política, todavia não nos focaremos nas causas da polarização política visto que esses estudos permeiam desde a psicologia até a geografia; portanto ficaria muito extenso explicar todos.

Em relação as notícias falsas podemos separa-las em algumas categorias de acordo com a finalidade que o ator responsável por criá-las espera obter. Essa classificação se aplica a notícias feitas para cunho humorístico até notícias inteiramente criadas com o intuito de deturpar completamente alguma ideia ou conceito, por vezes até sem nenhuma base real, ou seja inteiramente criada. Na imagem abaixo podemos ver as sete categorias de Fake News compilados pelo site Filipino Blog Watch.

Sete principais tipos de Fake News.
Sete principais tipos de Fake News.Filipino Blog Watch

De acordo com a companhia Statista, no caso das eleições Americanas 81% das Fake News foram provenientes dos Estados Unidos, 4,2% do Reino Unido, 1,6% do Canada e 12,9% do restante dos países. Outra estatística é referente dos principais meio de acesso as notícias falsas e foi auferido que 42% eram provenientes de redes sociais, 30% eram recebidas de forma direta como por exemplo e-mail, 23% são de pesquisas online feitas em sites de indexação de conteúdo como Google e 5% através de outras formas. Ainda foi relatado em pesquisa conduzida por telefone após as eleições de 2016 que 64% dos americanos relataram grande grau de confusão devido as Fake News. Outro dado alarmante é que 16% dos Americanos compartilharam notícias que mais tarde descobriram ser falsas, 14% compartilharam notícias mesmo sabendo que eram falsas e 23% fizeram as duas ações anteriores (Statista,2017). 

 Intenções Russas na eleição Americana

Através do dossiê recém desclassificado pela inteligência Americana (DIRECTOR OF NATIONAL INTELLIGENCE, 2017), alguns pontos são levantados como o longo desejo de Moscou de minar a liderança liberal democrática dos Estados Unidos. A National Security Agency (NSA), Central Intelligence Agency (CIA) e o Federal Burreau of Investigation (FBI) no mesmo relatório concordam que Vladimir Putin e o governo Russo tinham tendências em ajudar o candidato à presidência Donald Trump em ascender ao governo usando de táticas para descreditar candidata Hillary Clinton, maior adversário político de Trump, também é sabido que Putin pode usar as lições tiradas do contexto americano para influenciar outras decisões sistema internacional.

Sobre as razões sobre a preferência sobre Trump em detrimento de Hillary Clinton, uma das mais plausíveis explicações encontradas pela inteligência americana est no fato de Putin publicamente culpar Hillary Clinton desde 2011 por incitar protestos contra seu regime durante a eleição Russa.

With the protesters accusing Putin of having rigged recent elections, the Russian leader pointed an angry finger at Clinton, who had issued a statement sharply critical of the voting results. “She said they were dishonest and unfair,” Putin fumed in public remarks, saying that Clinton gave “a signal” to demonstrators working “with the support of the U.S. State Department” to undermine his power. “We need to safeguard ourselves from this interference in our internal affairs,” Putin declared. (CROWLEY, IOFFE, 2016) 

Outro fator que corrobora para a participação Russa como influenciador das eleições Americanas foram a denúncia publica por parte dos diplomatas Russos em relação ao processo eleitoral dos Estados Unidos. Outro fator importante foi a descoberta de uma campanha da rede social Twitter feita por supostos bloggers Pró Kremlin com a frase #DemocracyRIP, essa campanha foi feita afim de antecipar uma possível vitória da candidata democrata

Por fim, quando constatado a interferência nas eleições, um suposto cracker chamado Guccifer 2.0 declarou ser um ator independente, porém é muito provável que vários atores estejam alegando ser Guccifer 2.0 e interagindo com jornalistas. Outro fator importante foi a descoberta de uma campanha da rede social Twitter feita por supostos bloggers Pró Kremlin com a frase #DemocracyRIP, essa campanha foi feita afim de antecipar uma possível vitória da candidata democrata (DIRECTOR OF NATIONAL INTELLIGENCE, 2017).

Internet Research Agency (IRA)

A Internet Research Agency é uma organização acusada de ser a principal criadora de Fake News Russa, fundada em 2014 por Yevgeny Prigozhin. Prigozhin que é acusado pelo promotor Robert Mueller de ter fundado a IRA, principalmente devido a sua boa relação com a classe dirigente Russa (United States District Court for the District of Columbia. 2018).

Ainda no processo são citados 13 outros nomes que participaram de missões in loco nos Estados Unidos para facilitar as operações do grupo no contexto das eleições americanas além de contextualizar a estrutura e o orçamento da organização:

The ORGANIZATION employed hundreds of individuals for its online operations, ranging from creators of fictitious personas to technical and administrative support. The ORGANIZATION’s annual budget totaled the equivalent of millions of U.S. dollars. The ORGANIZATION sought, in part, to conduct what it called “information warfare against the United States of America” through fictitious U.S. personas on social media platforms and other Internet-based media. (United States District Court for the District of Columbia. 2018)


De acordo com a entrevista concedida pela Jornalista Lyudmila Savchuk, que trabalhou dentro do Prédio da IRA em St. Petesburg por um período de quase um ano, o funcionamento da agencia era bem simples, era dado para os trolls um tópico de interesse da agencia para que a partir dele fossem criados notícias falsas, a maioria dos trolls são jovens acadêmicos que se encontravam desempregados e cada um desses indivíduos podia assumir a identidade de múltiplas personas, criando uma rede em que uma dezena indivíduos, conseguiriam com facilidade se passar por milhares nas redes sociais, devido a sua grande coesão online foi possível por exemplo que fossem marcados protestos por redes sociais (Trevisan,2017). De acordo com o procurador Robert Mueller no dia 12 de novembro de 2017 foi organizado um protesto com o tema “Trump não é meu presidente” e no mesmo dia foi organizado o protesto com o tema “Mostrar o apoio ao presidente eleito Donald Trump”, apesar desses protestos tivessem acontecido posteriormente a eleição Americana, fica evidente que a agência busca de forma ordenada interferir na política Americana, ainda no processo de acusação ainda são atribuídos a IRA os seguintes fragmentos de propaganda online ainda no momento da disputa presidencial: 

Fragmentos usados pela IRA no seu intuito de influenciar as eleições EUA 2016.
Fragmentos usados pela IRA no seu intuito de influenciar as eleições EUA 2016.United States District Court for the District of Columbia.

Apesar da IRA ser uma agência Estatal de propaganda, é possível encontrar paralelo privado, a importância de conceber que as várias agencias de Fake News sejam elas estatais ou privadas são uma realidade e portanto merecedoras de atenção, através de um relatório feito pela empresa Micro Trend, foi possível entender como o mercado de fake news funciona e até mesmo preços para a obtenção de objetivos que vão desde a criação de uma celebridade virtual, ou mesmo influenciar campanhas políticas. Para esse estudo foram analisadas 30 empresas criadores conteúdo falso e foi auferido que é possível com US$ 2600 mil dólares criar um perfil de 300 mil seguidores ou mesmo para trabalhos mais complexos como influenciar eleições por US$ 40000 mil dólares. (TRENDLABS,2017)

quando mais a informação é propagada mais a chance de a mesma se propagar sozinha e quando essa quantidade aumenta nesse ciclo vicioso mais tende a passar credibilidade mesmo sendo uma Faketrending no contexto das redes sociais, foi possível entender como o mercado de fake news funciona e até mesmo preços para a obtenção de objetivos que vão desde a criação de uma celebridade virtual, ou mesmo influenciar campanhas políticas. Vemos que o prisma mercadológico se aplica nessa questão e por mais que os buscadores de internet e redes sociais tentem minimizar o efeito de sua popularização, outras brechas aparecem e portanto é importante no contexto democrático conscientizar a população sobre o assunto para melhor avaliação das informações que nos são fornecidas.

Impacto na democracia

A democracia em sua origem etimológica é formada pelas palavras demos = povo e kratein = reinar, a junção destas duas palavras pode ser entendida como reinado do povo ou reinado popular, esse poder é emanado do povo e tem como objetivo servir os interesses do povo. (BECKER, REVELOSON, 2011, p. 02). Um ponto salutar para gerência do sistema democrático é a liberdade de imprensa que possibilita grande pluralidade de pensamento e acesso a variadas fontes de informação para que o povo possa assim formar opinião sobre os mais variados temas e por fim tomar decisões em coro. Como é um governo gerido pelo do povo, a confiança em sua instituições e atores é de suma importância para a manutenção do sistema, as Fake News no caso Americano se faz possível dizer com forte grau de convicção que a Internet Research Agency tinha como pilar principal minar a confiança no sistema democrático Americano, Como vimos anteriormente, baseado nos dados fornecidos pelo Promotor Mueller, as ações de ataque continuaram mesmo depois que o então candidato à presidência Donald Trump ascendeu ao poder, essa divisão foi fomentada pela IRA através de protestos contra e a favor do presidente Trump. As ações do IRA manipulam então esse importante pilar da pluralidade de informação, pois presta uma cascata de desserviços em um mesmo momento, além de gerar desinformação e confusão e com isso pode induzir ao povo a tomar uma ação ou formar uma opinião forjada ferindo de forma sutil porém sensível a liberdade dos povos.

Conclusão

Grandes redes sociais se comprometeram a combater as Fake News, porém apesar dos esforços corporativos é sabido que esses filtros de censura podem deixar brechas que serão aproveitadas por atores das mais diversas intenções, há também discussões em alguns países para a criminalização de atores acusados de compartilhar notícias falsas, todavia a sua criminalização pode fortalecer aparatos de censura de governos menos democráticos e se pode se mostrar desproporcional para se obter o efeito desejado. Por outro lado foram criadas entidades de fact checking e também cunhado o conceito de media literacy, que consiste alfabetização digital para diminuir as vulnerabilidades do usuário no processo de obtenção de informação. É necessário criação de mais ações governamentais de forma conjunta com grandes empresas do setor midiático, como Google, Facebook e Twitter, para que se faça dois frontes principais na batalha contra a desinformação, campanhas de educação e conscientização e maior controle por parte das corporações na checagem de dados das informações.

Referências

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