FAKE NEWS

CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DE SANTA CATARINA

FAKE NEWS

marina p. pederneiras fiuza limaCENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO DE SANTA CATARINA

Orientador(a):
Henrique otte

Resumo

O objetivo geral do presente trabalho foi entender como as fake news impactam no posicionamento político dos indivíduos. A partir de abordagem qualitativa, que aliou revisão bibliográfica a estudo exploratório de reportagens divulgadas em mídias eletrônicas nacionais e internacionais foram conceituadas as fake news e formação do posicionamento político. Observou-se que o impacto das fake news no posicionamento político dos indivíduos potencializa-se principalmente nas redes sociais, onde as notícias extraídas dos meios de comunicação são repercutidas através de curtidas e compartilhamentos. A propagação de fake news tem o potencial de aumentar a polarização de opiniões políticas, pelo fortalecimento da certeza de se estar “certo” e ao mesmo tempo do “lado certo”. Impactam assim também na exclusão de opiniões divergentes nos círculos de convívio digital e formação das chamadas bolhas informacionais. Assim conclui-se que as fake news impactam no posicionamento político dos indivíduos, diminuindo o diálogo e a pluralidade de opiniões.

Palavras-chave: Fake news. Mídia Eletrônica. Jornalismo

Introdução

Na história recente, três situações que se passaram em países diferentes se relacionam de forma direta quando analisadas sob a luz da comunicação: eleições americanas de 2016, Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e o referendo de saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit.

Em uma primeira análise, a relação obvia aponta para o fato das três situações serem de caráter político, que apesar da distância se assemelham pelo exercício da democracia em sua forma plena, com cidadãos ou seus representantes eleitos exercendo seu direito de escolha. Porém, uma análise mais aprofundada trará elementos importantes, característicos da contemporaneidade.

A eleição americana de 2016, que definiu Donald Trump como atual presidente dos Estados Unidos, foi marcada pela grande quantidade de notícias falsas ou distorcidas na internet e redes sociais. O volume de informações sem referencia foi tão grande, que mais de um ano depois ainda se investiga o assunto, com a suspeita de participação da Rússia e da utilização de dados da rede social Facebook para ampliar o alcance das notícias e influenciar a decisão dos eleitores.

No Reino Unido, uma verdadeira disputa dos dois lados, a favor e contra a saída do país da União Europeia, foi fartamente alimentada por noticias falsas, o que para especialistas foi decisivo na efetivação do Brexit no referendo popular.

Já no Brasil, o conjunto de acontecimentos conhecidos como Operação Lava Jato foi fartamente noticiado pela mídia impressa e televisiva, além do rádio e internet, e uma guerra de versões esteve presente desde então, permeando o Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Diariamente muitas versões do mesmo fato eram noticiadas, com grande incidência de erros jornalísticos e estatísticos, além de foco excessivo em determinados assuntos e quase desconhecimento de outros de igual relevância.

Em comum, as três situações acima apresentam as fake news como combustível principal. Tendo como característica a inverdade, ou a distorção dos fatos, as fake news já fazem parte do dia a dia nas redes sociais e na mídia e geral, a tal ponto que já existem agencias especializadas em fact check, a confirmação da veracidade de notícias (ZARZALEJOS, 2017). Assim, o tema do presente trabalho é a influência das fake news no posicionamento político dos indivíduos.

Dessa forma, o objetivo geral do presente trabalho é analisar como as fake news impactam no posicionamento político dos indivíduos. Os objetivos específicos são: conceituar as fake news e conceituar a formação do posicionamento político.

Justifica-se o interesse pelo tema pela sua relevância social, considerando-se que parte das fake news é produzida e disseminada por grupos específicos que buscam atender a seus interesses. Além disso, a área de comunicação social e mídias eletrônicas exige uma formação que permita a produção, tratamento e disseminação das informações dentro de padrões éticos.

Desenvolvimento

Para possibilitar o estudo exploratório das reportagens de circulação nas mídias eletrônicas torna-se necessário o aprofundamento teórico sobre o tema. Esse aprofundamento será baseado em revisão bibliográfica sobre as fake news e sobre a formação do pensamento político.

2.1 Fake News

A comunicação humana possui elementos que permitem que o entendimento se efetive, a partir da interação entre os indivíduos. A teoria da comunicação distingue em emissor, receptor, canal, código e mensagem esses elementos principais, estudando como se dá esse processo (figura 1).

Figura 1- elementos da comunicação

foto1
foto1silva et al. 2000.

O emissor é quem transmite a mensagem, de forma individual ou coletiva, enquanto o receptor ou ouvinte é que a recebe. A mensagem é o conteúdo da comunicação, o que se quer informar ou ser informado. O canal é o meio de transmissão da mensagem e o código são o conjunto de signos inteligíveis para o emissor e receptor (CAMARGO, 2012).

Essa teoria da comunicação aplica-se a diferentes contextos e permite entender aspectos como os ruídos que podem ser gerados durante o processo e que podem prejudicar o entendimento da mensagem. Outro aspecto importante, está relacionado a propagação da mensagem, a partir de estratégias de disseminação cada vez mais sofisticadas.

Nesse contexto, na atualidade, observa-se um fenômeno na comunicação que tem merecido a atenção de diversos estudiosos e tornou-se jargão muito utilizado em discussões teóricas sobre o jornalismo e mídias eletrônicas no mundo todo: as fake news (LLORENTE, 2017).

Caracterizada por uma série de distorções que vão desde a omissão de dados a fatos inverídicos, as fake news alimentam-se da pouca criticidade dos receptores, que propagam falsas notícias sem refletir sobre a sua veracidade. Esse fenômeno sempre existiu na comunicação, mas com o advento das redes sociais passou a ser cada vez mais potencializado.

Entre as diversas categorias de fake news destacam-se a sátira, a falsa conexão, o conteúdo enganoso, o falso contexto, o conteúdo impostor, o conteúdo manipulado e o conteúdo fabricado (BERCKEMEYER, 2017).

As sátiras, ou paródias, são distorções da noticia original com o objetivo de divertimento, normalmente percebidas pela maioria dos receptores como algo inverídico (ZARZALEJOS, 2017). No Brasil o site Sensacionalista cumpre esse papel, com brincadeiras envolvendo os principais fatos do cotidiano publicados pela mídia tradicional.

A falsa conexão normalmente busca aumentar o tráfego de usuários em determinado site ou página de rede social (BERCKEMEYER, 2017). Utiliza-se uma manchete de forte apelo, normalmente com algum tema de grande repercussão no momento, mas ao clicar o usuário é direcionado para notícia que não aborda o assunto, ou que o aborda sobre outro aspecto. Essas manchetes ainda são usadas para direcionar o receptor para site com spams, como aconteceu com uma

mensagem espalhada pelo whatsapp que prometia brindes de uma famosa rede de perfumes, mas que capturava dados sigilosos dos celulares.

O conteúdo enganoso é uma mentira em seu teor, mas que é contada de forma a ter credibilidade e difamar pessoas, instituições ou outros conteúdos sociais (BERCKEMEYER, 2017). É muito usada na política, em vésperas de eleições, para a persuasão de eleitores indecisos, já que não permite a retratação em tempo hábil.

O falso contexto utiliza-se de uma notícia verdadeira, mas compartilhada em outro contexto (ZARZALEJOS, 2017). É muito comum no caso de utilização de fotos que não estão relacionadas a determinada notícia, mas são utilizadas para embasá-la aumentando o poder de convencimento.

O conteúdo impostor é construído a partir de nome conhecido ou marca, mas com informações irreais (BERCKEMEYER, 2017). São exemplos as notícias que contam com a opinião de especialistas ou pessoas famosas, aumentando o poder de convencimento, mas que são irreais.

O conteúdo manipulado parte de notícia verdadeira, alterada para enganar o receptor. Nesse sentido são comuns as omissões de dados relevantes para destacar apenas determinado lado, de forma parcial.

As fake news baseadas em conteúdo fabricado, são encomendadas por pessoas ou instituições com o objetivo de espalhar boatos, e normalmente estão ligadas a estratégias maiores de difamação (BERCKEMEYER, 2017). Busca-se assim reduzir o valor das ações de uma empresa, o potencial de elegibilidade de um candidato ou a ofensa a um amigo do trabalho em linha de sucessão para o mesmo cargo desejado por exemplo.

O aumento exponencial das fake news tem provocado na área de comunicação um movimento no sentido de promover um jornalismo mais fidedigno e imparcial, considerando a queda dos níveis de confiança da população em relação as noticias divulgadas. Entre as ações, já existem empresas trabalhando exclusivamente com o fact-checking, a verificação de noticias (ZARZALEJOS, 2017).

A agência Lupa, por exemplo, realiza a verificação minuciosa de notícias veiculadas na mídia, buscando validar os dados apresentados ou explicitar as estratégias de fake news elencadas acima. Para isso utiliza oito indicadores exemplificados na figura 2 e que são distribuídos ao longo de toda a noticia, facilitando a avaliação do leitor.

Figura 2- Indicadores utilizados pela agencia Lupa para o Fact-Checking

figura2
figura2Agencia Lupa, 2018.

Uma das faces mais perversas da disseminação das fake news é observada no campo da política, e explora principalmente os mecanismos de formação do pensamento político dos indivíduos.

2.2 Formação do posicionamento político e as fake news

Os indivíduos estão inseridos em uma sociedade que possui diversos aspectos a serem considerados, ou caminhos que podem ser seguidos. Esses aspectos e caminhos são alvo de disputas veladas ou explicitas em um movimento de negociação ou sobreposição contínuo (BORBA, 2005). Essa realidade pode ser chamada de posicionamento, opinião ou mesmo entendida como o lado em que determinado cidadão se declara.

Times de futebol, religião, questão do aborto, pena de morte, casamento entre gays, porte de arma e paz no Oriente Médio são algumas das questões que chamam os indivíduos a se posicionarem e defenderem seus pontos de vista. Na defesa desses pontos de vista entram em cena todo o repertório que cada sujeito construiu em sua vida, e inicia-se um processo de disputa ideológica que está em constante mudança.

Considerando que as pessoas mudam de opinião sobre muitas coisas o tempo todo, torna-se claro que o posicionamento é altamente volátil e influenciável por diversos fatores ligados a experiência do indivíduo (ANSARA, 2008). Alguns elementos, no entanto, são mais difíceis de ser alterar e podem ser cristalizados em posições radicais, chegando a ser irracionais do ponto de vista lógico.

Assim explicam-se, em parte, os posicionamentos fundamentalistas que geram mortes e destruição em todo o mundo, através de violência e guerras. Esses posicionamentos nascem nas diversas esferas onde o indivíduo circula, principalmente a família, escola, igreja e mídia e acessam a todo o indivíduo em seu contato com a sociedade, de forma cotidiana (BORBA, 2005). Para o presente trabalho interessa entender melhor como se constrói o posicionamento político, expresso no Brasil, de forma ampla em direita e esquerda.

As ideologias de direita e esquerda foram cunhadas na França, no século XVIII, no início da revolução francesa, pela separação entre os pobres e as camadas mais ricas (DOMINGUES, 2017). Assim, a ideologia de esquerda está ligada ao interesse da população mais pobre e de suas necessidades, enquanto a direita busca manter o status quo de poder da elite. De forma resumida a esquerda lutaria belo bem coletivo, enquanto a direita pelo bem individual. Entre as ideologias existe ainda a chamada de centro, que defende ao mesmo tempo o capitalismo e os direitos sociais. Resumidamente essas ideologias e suas implicações econômicas e sociais podem ser observadas na figura 3.

Eixo socioeconômico das ideologias políticas
Eixo socioeconômico das ideologias políticasDomingues (2017).

A mídia tem a capacidade de influenciar os indivíduos de forma a mudar seus posicionamentos, através de estratégias já descritas por Chomsky. Entre essas estratégias destacam-se a distração, a criação de problemas, a gradualidade, a infantilização do público, o foco no emocional, e o reforço a auto culpabilidade (GELEDÉS, 2010).

Aplicáveis ao campo político, essa capacidade de influenciar da mídia ajuda a explicar situações curiosas, como pessoas em situação de extrema pobreza que são contra governos considerados populistas e seus programas sociais. Da mesma forma, indivíduos pertencentes a classes abastadas criticam a desigualdade social e afirmam o rompimento com sua classe de origem.

O fenômeno das fake news tem o poder de potencializar as posições políticas radicais, pois se alimenta dos conceitos arraigados dos indivíduos e da necessidade de defendê-los (MALINI, 2013). Uma pessoa com determinada posição política se identifica com notícias que corroborem o seu ponto de vista, reduzindo a sua capacidade de filtrar a veracidade de tais informações e aumentando o risco de compartilhamento e rápida disseminação (MEDEIROS, 2013).

Existe ainda outro fenômeno das redes sociais tem aumentado ainda mais o potencial de propagação das fake news, que são as chamadas bolhas (PREGO, 2017). Considerando que os amigos das redes sociais compartilham dos mesmos interesses e posicionamentos, as notícias compartilhadas dentro desses grupos são as que reforçam os valores vigentes em um processo de autoafirmação que exclui a possibilidade do contraditório e da reflexão de outros pontos de vista, que quando surgem são rapidamente anulados. As disputas ideológicas se dão assim, no campo das curtidas e compartilhamentos.

3 METODOLOGIA


A metodologia adotada no trabalho se dará através de abordagem qualitativa. Para Silva,

A pesquisa qualitativa considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa (SILVA, 2005p. 21).

Será realizada pesquisa com objetivo exploratório. A pesquisa exploratória busca reunir conhecimentos, incorporando novas descobertas sobre determinado assunto (BEUREN, 2003).

Quanto aos procedimentos, o trabalho se utilizará de pesquisa bibliográfica, a partir da comparação entre diversas notícias de cunho político sobre determinado evento, publicadas em veículos de notícias on line nacional e internacional. Para Gil (1991) a pesquisa bibliográfica permite ampla cobertura do tema a ser estudado.

Serão selecionados alguns acontecimentos contemporâneos de relevância no cenário político brasileiro e verificada como se dão as coberturas em cada veículo, buscando-se assim verificar as características das fake news nessas notícias, a partir do tratamento dado aos fatos em cada veículo. Considerando que as notícias são disseminadas em sua maioria através das redes sociais, o foco serão os portais de notícia eletrônicos.

As análises foram realizadas de acordo com as teorias propostas pelos autores que tratam das fake news (BERCKEMEYER, 2018; LLORENTE, 2018; PREGO, 2018; ZARZALEJOS, 2018), assim como dos autores que tratam da formação de posicionamento político (MALINI, 2013; ANSARA, 2008).

4 ANÁLISE DE DADOS


4.1 Casos recentes de fake news na política

Entre os casos de fake news de grande repercussão na política nacional e internacional, destaca-se o Brexit, a eleição americana que elegeu Donald Trump, a eleição brasileira de 2014, e o impeachment de Dilma Rousseff. Em todas as situações as análises mostram a forte influencia das redes sociais e das noticias falsas no desfecho dos eventos.

Nas eleições de 2008 e 2012, Barack Obama já se beneficiou com o poder das redes sociais para potencializar sua campanha, principalmente com o apoio dos  jovens nativos digitais e seu engajamento. Nessa época as redes sociais ainda não haviam atingido o seu potencial atual e as fake news ainda não eram um tema tão presente.

Na eleição à presidência de 2016, quando Donald Trump e Hilary Clinton polarizaram a disputa, a utilização das redes e principalmente das fake news era constante. O volume de noticias falsas ou distorcidas foi visivelmente maior do lado de Donald Trump, que desqualificou a competência da adversária na esfera politica e pessoal.

Desde agosto de 2016, antes que os debates presidenciais avançassem durante a campanha norte-americana, até a véspera da jornada eleitoral, as plataformas de verificação atualmente em uso – chamadas de fact-checking – contabilizaram até 217 falsidades nos discursos e intervenções dos candidatos, 79% delas atribuídas a Donald Trump e 21%, a Hilary Clinton (ZARZALEJOS, 2017, p. 11).

Esses episódios ainda estão em investigação, considerando a possibilidade de interferência da Rússia, através de ações coordenadas nas redes para influenciar o resultado nas eleições e favorecer Trump.

Em 2014, outra eleição, no Brasil, movimentou as redes sociais polarizou a disputa entre direita e esquerda como nunca visto. A candidata à reeleição Dilma Roussef e o candidato Aécio Neves foram alvo de uma série de notícias, muitas delas duvidosas, que se espalharam nas redes de forma constante. Um desses exemplos ocorreu na véspera da eleição, quando a revista Veja antecipou o lançamento da edição semanal com uma capa de grande impacto, sendo acusada de parcialidade para influenciar a decisão dos eleitores

Em 2016, outro assunto que movimentou o noticiário mundial, e esteve relacionado às fake news em seu desfecho foi o referendo que decidiu pela saída da Inglaterra da União europeia, conhecido como o Brexit. Na ocasião, a grande quantidade de notícias falsas sobre as implicações da saída foi fator relevante para muitos cidadãos, sendo seu resultado controverso até hoje.

No mesmo ano, a mídia e as redes sociais foram sacudidas com uma avalanche de notícias sobre as denuncias de corrupção que levaram ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff. As chamadas pedaladas fiscais se confundiram com as denuncias da operação Lava Jato e a cobertura midiática mostrou-se parcial em diversos momentos. Na ocasião, os que eram a favor e os que se mostravam contra alimentavam a propagação de fake news nas redes sociais e o radicalismo tomou conta do posicionamento.

Mais recentemente, em 2018, o Facebook, maior rede social do mundo com mais de um bilhão de usuários, foi acusada de ceder dados dos clientes para empresas de marketing, informação confirmada oficialmente pelo presidente Mark Zukemnerg:

A empresa britânica Cambridge Analytica usou testes de personalidade e curtidas para coletar dados de usuários do Facebook em 2014. Essas informações revelaram o perfil psicológico completo de 87 milhões de pessoas que estão na rede social, e que passaram a receber propaganda eleitoral altamente personalizada (UOL, 2018, s/p).

A partir dos elementos abordados até aqui no presente trabalho, torna-se possível o avanço, analisando com profundidade uma situação específica onde as fake news foram decisivas no posicionamento político.

4.2 Cobertura do julgamento de Lula no caso do tríplex do Guarujá

Segundo Bergamasco (et al., 2018), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a pessoa mais citada em notícias falsas de cunho político que circulam pela rede social Facebook na atualidade. Ao lado de personalidades com o Juiz Sérgio Moro e o atual presidente Michel Temer, também no topo da lista de notícias falsas. A figura 4 mostra com mais detalhes o levantamento. Lula torna-se assim um caso relevante para se analisar a cobertura dada pela mídia.

Figura 4 – análise de fake news com viés político publicadas em página do Facebook

figura 4
figura 4: adaptado de Bergamasco (et al., 2018).

Recentemente preso, acusado de receber favores financeiros de empreiteiras em troca de influência política, incluindo a reforma de um sítio em Atibaia e um apartamento tríplex na cidade do Guarujá, ambos em São Paulo, Lula recebeu cobertura ostensiva pela mídia nacional e internacional em todos os atos do julgamento.

De forma a tornar a análise mais coerente será utilizado o recorte que trata do julgamento conhecido como “caso tríplex”. Essa cobertura da mídia será analisada em quatro momentos distintos: suspeitas, denúncia, julgamento e prisão.

4.2.1 Suspeitas

O início do caso tríplex remete a março de 2014, quando se inicia a Operação Lava Jato, com a prisão de 17 pessoas ligadas a Petrobras e empreiteiras.

Em 2015, o interrogatório de dirigentes do Partido dos Trabalhadores, além da autorização do Supremo Tribunal Federal para que se investigassem senadores e deputados por suspeita de corrupção na Petrobras dão a dimensão do que estaria por vir. No mesmo ano, a prisão o empresário Marcelo Odebrecht e sua delação premiada aumentam as especulações sobre o envolvimento de Lula na corrupção da Petrobras.

Ainda em 2015 José Dirceu, integrante do PT é preso dentro da operação Lava Jato, assim como o senador do PT Delcídio do Amaral. Delcídio confessa a participação no esquema de corrupção da Petrobras e afirma que Lula estaria envolvido.

 Em 04 de março de 2016 a Policia Federal realizou operação de busca e apreensão na residência de Lula, além de leva-lo para deporsob condução coercitiva. As informações sobre a acusação envolvendo o tríplex começaram a circular na mídia com ampla cobertura conforme as reportagens da Folha de São Paulo (Figura 5) e El País (Figura 6).

Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016
Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016: Folha de São Paulo, 04 de março de 2016.

Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016
Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016: El País Brasil, 10 de março de 2016.

A cobertura na mídia em relação ao caso toma grande proporção, com longas reportagens na televisão, principalmente na Rede Globo, a opinião de especialistas no rádio sendo favoráveis ou contra o ex-presidente e uma série de especulações em relação ao futuro. A revista Carta Capital (figura 7) chegou a explicitar indícios de manipulação por parte da Rede Globo para culpabilizar Lula, mesmo estando ainda sob investigação.  

Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016
Cobertura da mídia sobre a condução coercitiva de Lula em 2016Carta Capital de 05 de março de 2016.

Destaca-se a abordagem dada pela maioria dos veículos de trabalhar dentro de uma visão de culpa de Lula, utilizando as notícias para corroborar tal visão e não permitindo, em muitos casos o contraditório de forma proporcional. A utilização de imagens e chamadas sem o esperado tom de isenção, como a utilizada em reportagem do El País (figura 6) são exemplos desse expediente.

4.2.2 Denúncia

A denúncia foi feita pelo Ministério Público Federal do Paraná, em 15 de setembro de 2016, com a acusação de que Lula teria recebido o equivalente a R$ 3,7 milhões de propina da empresa OAS para auxiliar na celebração de contratos com a Petrobrás. Esse valor teria sido pago através de um apartamento tríplex no Guarujá. A defesa de Lula alegou a falta de provas consistentes para a acusação.

A análise de reportagens da época mostram chamadas que direcionam o leitor a presumir a culpa de Lula, como ocorre com a notícia publicada no G1 (Figura 8). Quando compartilhadas em redes sociais, tais chamadas levam os usuários a assimilarem a mensagem principal, compartilhando com amigos muitas vezes sem ler o conteúdo completo. O mesmo artifício pode ser observado em reportagem da Reuters (Figura 7).

. Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016
. Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016: G1 de 14 de setembro de 2016.

– Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016
- Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016Reuters de 14 de setembro de 2016.

Mais uma vez, as imagens mostram-se ferramentas extremamente úteis, como a utilizada pela Veja (Figura 10). Na reportagem, a foto que acompanha a chamada leva o leitor a entender que tudo conduz a culpa de Lula. Mesmo sem ler a reportagem, os indivíduos que entram em contato com o conteúdo também são direcionados a perceber o ex-presidente como culpado.

Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016
Cobertura da mídia sobre o indiciamento de Lula no caso Tríplex em 2016Vejade 14 de setembro de 2016

4.2.3 Julgamento

O julgamento foi realizado em Curitiba e em 12 de julho de 2017 o juiz Sergio Moro condenou Lula a 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Após recorrer da decisão em segunda instância, a defesa do ex-presidente sofreu nova derrota com o indeferimento e aumento da pena para 12 anos e um mês de prisão, em 28 de novembro de 2017.

Imediatamente após o indeferimento do recurso contra a decisão em segunda instância, a defesa de Lula recorreu ao Supremo Tribunal Federal solicitando habeas corpus preventivo. Na alegação a defesa argumentava que a prisão antes de esgotadas todas as instâncias possíveis seria ilegal. Em um julgamento que mobilizou o país, o STF, em 04 de abril de 2018, negou o habeas corpus preventivo e abriu caminho para a prisão do ex-presidente.

Mais uma vez a mídia realizou uma cobertura em que a opinião dos veículos estava presente nas chamadas das reportagens, levando o leitor a entendimentos precipitados e sem a oportunidade do contraditório. Dois exemplos são as reportagens da BBC Brasil (Figura 11) e do Estadão (Figura 11). A BBC dá a prisão como certa, mesmo o habeas corpus sendo solicitado preventivamente pela defesa de Lula, ainda sem a indicação de mandato de prisão. Vale lembrar que como o caso estava em segunda instancia, a avaliação do juiz Sergio Moro poderia ser de permitir a nova apelação em 3ª instancia em liberdade, algo rotineiramente ocorrido na justiça brasileira. O Estadão já falava em “sobrevida”, dando como certa a prisão no futuro, mesmo que o STF concedesse habeas corpus preventivo.

– Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex
– Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso TripexBBC Brasil 04/04/2018.

Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex
Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex: ESTADÃO 04/04/2018.

A cobertura em língua estrangeira também promoveu com fotos o direcionamento da opinião dos leitores. O The New York Times (Figura 13) trouxe Lula no centro rodeado por uma multidão, como em um palanque, mostrando o apoio do ex-presidente pela população. Já o The Guardian traz Lula cabisbaixo, aparentando derrota frente a negativa de habeas corpus.

Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex
Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso TripexThe New York Times de 04 de Abril de 2018.

Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex
Cobertura da mídia sobre a negativa de habeas corpus a Lula no caso Tripex: The Guardian de 03 de abril de 2018.

4.2.4 Prisão

Em 5 de abril de 2018 o juiz Sérgio Moro decretou a prisão de Lula, que se apresentou para iniciar o cumprimento da pena em 07 de abril. Como não houveram fotos da prisão, os veículos de mídia improvisaram representações de imagens para a divulgação de suas capas, como as revistas Veja e ISTOÉ, ou ainda não trouxeram a prisão de Lula na capa, como a revista Época (figura 15)

– Cobertura da mídia sobre a prisão de Lula
– Cobertura da mídia sobre a prisão de Lula. Adaptado de Observatório da Imprensa de 12 de abril de 2018

Esse desfecho do caso do Tríplex, que com certeza terá novos momentos de grande repercussão, também é o desfecho de uma cobertura jornalística que alimentou as fake news nas redes sociais. Inteiramente ocorrida no ápice de uma sociedade cada vez mais polarizada politicamente dentro do “nós” e do “eles”, tal cobertura foi combustível para que as posições se endurecessem.

Conforme mostra Bergamasco (et al., 2018) a maioria das fake news em relação ao ex-presidente Lula são contra sua imagem (73%), o que pode ser reflexo da cobertura dada mela maioria dos meios de comunicação claramente com tendência anti-Lula. Utilizando-se das notícias com posicionamento político implícito contrário ao ex-presidente, às postagens propagadas principalmente pelas redes sociais criam uma aparente unanimidade em relação à culpa de Lula desde o começo das divulgações de notícias.

Tomando como exemplo duas publicações brasileiras de grande circulação na mídia impressa e na internet Cristofoletti(2018) chama de “erosão do mito” a cobertura de veículos como a Revista Veja e Istoé em relação ao ex-presidente Lula. No acompanhamento das capas feito pelo autor, ficam evidentes as estratégias utilizadas para o convencimento da população, e seu poder de persuasão (Figura 16).

Cronologia de capas da Revista Veja sobre Lula
Cronologia de capas da Revista Veja sobre LulaChristofoletti (2018)

Assim, observa-se que as duas ferramentas mais importantes para a influência nas notícias e fake news veiculadas nas redes, são a chamada e a imagem principal. Isso se dá, principalmente pela exibição para os usuários, durante o compartilhamento de publicações, desses dois itens em destaque. Muitas vezes essas notícias são repercutidas com likes e compartilhamentos sem serem lidas, estimulando um entendimento incorreto da notícia. Tal situação enquadra-se no tipo de fake news chamado por BERCKEMEYER (2017) de conteúdo manipulado.

Assim, influenciam aos leitores pela maciça exposição em todos os veículos de mídia e pela sensação de unanimidade que provocam. Aos usuários que têm ideologias diferentes, essa exposição constante leva ao fechamento de diálogo, com o abandono amigos e o bloqueio de seguidores com pensamento divergente, levando a formação de bolhas informativas (PREGO, 2017).

A interrupção do diálogo por consequência leva a uma sensação cada vez maior de se estar certo, aumentando o radicalismo das posições e dando margem ainda maior a veiculação de mais fake news.

Conclusão

Com o objetivo de entender como as fake news impactam no posicionamento político dos indivíduos, o presente trabalho se utilizou de reportagens de circulação nos meios de comunicação digitais para analisar os principais elementos que tornam a propagação de notícias falsas ou distorcidas um fenômeno tão amplo.

Inicialmente observou-se que os grandes veículos de mídia eletrônica não atuam criando notícias falsas de forma explícita, o que seria facilmente descoberto e alvo de ações judiciais. Essa distorção dá-se pelo posicionamento político implícito nas matérias, que narram os fatos a partir de pontos de vista próprios. Conforme visto, as fake news possuem várias classificações e entre elas destaca-se o conteúdo manipulado como estratégia utilizada.

O impacto das fake news no posicionamento político dos indivíduos potencializa-se então principalmente nas redes sociais, onde as notícias extraídas dos meios de comunicação são repercutidas através de curtidas e compartilhamentos. Essa repercussão normalmente ocorre de forma acrítica apenas com a visualização da frase de chamada da reportagem e da foto principal, itens amplamente explorados pelos meios de comunicação.

A propagação de fake news tem o potencial de aumentar a polarização de opiniões políticas, pelo fortalecimento da certeza de se estar “certo” e ao mesmo tempo do “lado certo”. Impactam assim também na exclusão de opiniões divergentes nos círculos de convívio digital e formação das chamadas bolhas informacionais. Assim conclui-se que as fake news impactam no posicionamento político dos indivíduos, diminuindo o diálogo e a pluralidade de opiniões.

Abstract

The general objective of the present work was to understand how the fake news impact on the political positioning of individuals. From a qualitative approach, which combined bibliographical review to an exploratory study of reports published in national and international electronic media, fake news and the formation of political positioning were conceptualized. It was observed that the impact of fake news on the political position of individuals is potentialized mainly in social networks, where the news extracted from the media is passed on through tastings and shares. The spread of fake news has the potential to increase the polarization of political opinions, by strengthening the certainty of being “right” and at the same time the “right side.” They also impact on the exclusion of divergent opinions in the circles of digital conviviality and the formation of so-called information bubbles. Thus, it is concluded that fake news impact on the political positioning of individuals, reducing dialogue and plurality of opinions.

Keywords: Fake news. Electronic Media. Journalism.

Referências

AGENCIA LUPA. uol. Disponível em: <http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/>. Acesso em: 2 jun. 2018.

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