ESTUDO REFERENTE À POSSIBILIDADE DO USO DO CÂNHAMO COMO MATERIAL SUSTENTÁVEL PARA O DESENVOLVIMENTO DE ABRIGOS PARA REFUGIADOS SÍRIOS

FACULDADE DA SERRA GAÚCHA

ESTUDO REFERENTE À POSSIBILIDADE DO USO DO CÂNHAMO COMO MATERIAL SUSTENTÁVEL PARA O DESENVOLVIMENTO DE ABRIGOS PARA REFUGIADOS SÍRIOS

Paulo Cesar Marin Frizzo

Resumo

Com o aumento massivo do deslocamento global, os fundos monetários para a construção de abrigos humanitários estão em déficit. Dessa maneira, o presenta trabalho trouxe a questão dos refugiados sírios à tona. Responsáveis pela maior parte desse deslocamento, mostrou-se relevante o estudo relativo ao desenvolvimento de abrigos que pudessem fornecer a proteção necessária, sem impactar negativamente o meio ambiente. A partir disso, também seria possível diminuir os custos através do cultivo do próprio material. No caso do trabalho, o cânhamo. Baseado nas teorias de design como ergonomia, MDFA, ecodesign e seleção de materiais, foi possível perceber que o cânhamo tem qualidades necessárias para esse fim. Com o resultado do caso estudado, em que foram construídas casas de material tradicional e cânhamo, a fibra vegetal confirmou a teoria abordada e revelou ser uma alternativa viável para um desenvolvimento sustentável, oferecendo benefícios sociais, econômicos e ambientais

Palavras-chave: Design, abrigos, hemp, cânhamo, refugiados

 Justificativa

DESLOCAMENTO GLOBAL

A ACNUR – Agência da ONU para Refugiados (2016) – publicou recentemente em seu site que o deslocamento global atingiu níveis nunca antes vistos. A migração forçada de mais de 65 milhões de pessoas até o final de 2015 representa um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Desse total, 40,8 milhões são refugiados devido a conflitos e guerras em seu país natal. Esse número, comparado ao total da população mundial, significa que, a cada 113 pessoas, uma é refugiada.

A ACNUR também lançou uma campanha chamada Ninguém Fica de Fora (2016), visando combater o déficit dos fundos para a construção e manutenção de abrigos. Com o crescente número de refugiados, a ajuda humanitária não consegue manter o ritmo e, dessa forma, caso não haja uma maior contribuição dos setores privados, milhões de pessoas podem ficar sem esse direito humano incontestável. 

O desenvolvimento de abrigos humanitários é um processo logístico enorme e, devido à alta demanda emergencial atual, as entidades precisam tomar decisões duras, sem que haja um maior empenho em desenvolver soluções duradouras e sustentáveis. Muito disso se deve ao fato das matérias primas usadas na construção dos abrigos terem custos altos de produção e transporte, além de utilizarem materiais não disponíveis nos locais, resultando em habitações muitas vezes inadequadas e que oferecem perigo à vida humana. As consequências dessa inadequação fazem com que a qualidade de vida dessas populações seja extremamente afetada. Dessa forma, é muito importante desenvolver soluções que possibilitem acolher os refugiados, de modo que nenhum seja deixado de fora e que os danos físicos e psicológicos sejam diminuídos o máximo possível.

Abrigos para vítimas de catástrofes

Existem diversos tipos de abrigos em uso ao redor do mundo atualmente. Cada tipo de catástrofe exige um projeto que cumpra seus requisitos necessários, o que implica principalmente na qualidade de vida do usuário. Para o desenvolvimento do presente trabalho, foram selecionados três abrigos de eficiência comprovada e que foram produzidos em larga escala, visando atender diferentes parcelas de população global. Ao longo do estudo em questão, os modelos de abrigos serão analisados conforme as premissas de design trazidas no referencial teórico. Tais modelos são:

  • Better Shelter:

A empresa sueca Ikea é especializada no mercado de móveis domésticos de baixo custo. Porém, no ano de 2015, em colaboração com a ACNUR, colocou em prática a iniciativa Better Shelter, que tem como objetivo o desenvolvimento de alternativas inovadoras para abrigos de proteção à refugiados.

O produto, testado e melhorado por 40 famílias de refugiados no Iraque e Etiópia, tem como principais premissas a facilidade na montagem, podendo ser montado no próprio local e sem a necessidade de ferramentas. De acordo com a Ikea Foundation (2016), o abrigo vem equipado com painéis solares e lâmpadas, com uma vida útil estimada em três anos. Com sua eficiência comprovada, a ACNUR fez um pedido de dez mil unidades à Ikea.

Better Shelter da IkeaBetter Shelter da IkeaIkea Foundation (2016)

De acordo com as informações dispostas no site da Ikea Foundation (2016), cada abrigo é entregue em duas caixas achatadas, pesando 80 quilos. São necessárias quatro pessoas para montá-lo entre 4 e 8 horas e não requer nenhuma ferramenta. Todas peças podem ser montadas à mão. O kit do abrigo inclui um painel solar que carrega luz LED durante o dia com 4 horas de autonomia, além de um carregador USB para celular. São projetados para abrigar 5 pessoas em uma área de 17,5 m². Cada abrigo consiste em 68 partes, além de manuais. Também são adaptáveis à modularidade, podendo ser montados em diferentes disposições, adicionando e removendo paredes e a manutenção pode ser feita sem ter que desmontar a estrutura toda. Com uma expectativa de durabilidade de três anos, o abrigo consiste em três partes: base em metal, teto com ventilação e painel solar e paredes com portas e janelas. A armação é feita de aço galvanizado, que resiste à neve, chuvas e ventos fortes. As paredes e teto são feitos de poliolefina com proteção UV, podendo ser reciclados. 

  • Paper Loghouses

Desenvolvidas pelo arquiteto japonês Shigeru Ban. Conforme Thierry Kazazian (2003), essas casas, originalmente designadas para as vítimas do terremoto de Kobe, foram escolhidas pela ONU para serem enviadas aos refugiados na Turquia e África. Ainda de acordo com Kazazian (2003), Shigeru Ban inspirou-se na antiga tradição japonesa de paredes de papel shoji, cuja principal qualidade é a leveza, a efemeridade.

Shigeru Ban e as paper log houses.Shigeru Ban e as paper log houses.Pelo autor.

Kazazian (2003) também aponta as seguintes qualidades das casas de Shigeru Ban:

  • Construídas apenas com o uso de tubos de papelão, peças de madeira e telhas; Baixo custo de fabricação;  
  • Requer poucos dias para a construção; 
  • Facilmente desmontáveis e recicláveis;

Mais especificamente, de acordo com a Shigeru Ban Architects (2016), a fundação é constituída por caixas de cervejas doadas, preenchidas com sacos de areia. As paredes são feitas de tubos de papelão de 106mm por 4mm e o teto é estilo tenda. A área de espaçamento entre uma casa e outra é de 1,8 metros e seu isolamento é feito através de fitas de esponja à prova d’água, colocada entre os tubos de papelão. Para uma unidade de 52 m², o custo gira em torno de US$ 2000. Fáceis de desmontar, os materiais que as compõem podem ser facilmente descartados ou reciclados.

  • T-Shelters

Desenvolvidos para abrigar refugiados sírios em Azraq, Jordânia, foram construídas 13,500 unidades para abrigar cerca de 67 mil pessoas. Basicamente, são estruturas de aço interligadas, projetadas para fornecer privacidade e proteção às famílias contra condições climáticas adversas, como ventos fortes, poeira e chuva. Requer uma equipe de 4 pessoas para montagem, abrigando uma família de até 4 integrantes. Sua durabilidade é estimada entre dois a quatro anos.

As estruturas de aço que compõem o abrigo são compostas por IBR (inverted box ribs) revestidas por alumínio. Espumas entre as IBRs são colocadas para isolamento, para suportar as condições climáticas do deserto. O kit, composto pelas estruturas, revestimentos e isolamentos, são transportados até o local para montagem. Após a montagem da estrutura, um piso de concreto é despejado, com possibilidade de adição de uma entrada lateral para maior privacidade.

De acordo com a ACNUR (2016), os kits são compostos por mais de 1000 peças diferentes, entre chapas e parafusos, com o custo estimado de US$ 3442 por unidade de 26m². 

T-Shelters em Azraq.T-Shelters em Azraq.ACNUR (2016)

CÂNHAMO: UMA ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL

Conforme o Conselho Norte Americano de Cânhamo Industrial – NAIHC (2016), a planta do cânhamo é cultivada com o objetivo da extração das fibras e da farinha e óleo das sementes. Ela é uma variedade de cannabis e, devido à semelhança das folhas, é frequentemente confundida com a maconha. Embora ambas sejam espécies de cannabis, a quantidade de tetraidrocanabinol, o THC, é ínfima. Portanto, de acordo com a NAIHC (2016), o cânhamo não pode ser usado como substância psicoativa. Além de serem da mesma família, a etimologia da palavra “cânhamo” é um acrônimo da palavra “maconha”, ou seja, é composta pelas mesmas letras, porém reorganizadas em uma diferente ordem.

Ainda com base nas informações dispostas nos sites da NAIHC (2016) e DPI&F – Departamento de Indústrias Primárias e Pesca – (2016), há dados que comprovam que o cânhamo tem sido cultivado há pelo menos doze mil anos e, em acordo geral, foi uma das primeiras plantas a ter sido domesticada. Conforme Schultes (1970), é uma das mais antigas fibras têxteis que se tem conhecimento, tendo sido encontrados traços de roupas que datam de mais de seis mil anos atrás. Tem-se como fato que a agricultura do cânhamo foi originada na Ásia ocidental e Egito e, subsequentemente introduzida na Europa por volta de 2000 a.C, onde tornou-se generalizada em 500 a.C. Ainda de acordo com Schultes (1970), tal cultura foi trazida à América do Sul, mais precisamente Chile, em 1545 e na América do Norte em 1606. A agricultura do cânhamo floresceu, com base em Ehrensing (1998), nos estados do Kentucky, Missouri e Illinois, devido à alta demanda de linhas e lonas. Conforme dados históricos, embasados pela NAIHC (2016), George Washington e Thomas Jefferson, fundadores dos Estados Unidos da América, eram agricultores de cânhamo, enquanto Benjamin Franklin era dono de um moinho que produzia papel com sua fibra. A Declaração de Independência (1776) foi, inclusive, redigida em papel da fibra de cânhamo.

Ernest Small e David Marcus (2002) afirmam que, até o início do século 19, o cânhamo era líder na produção de cordéis e, na metade do mesmo século, era descrito, em conjunto com o linho, como o rei das plantas produtoras de fibra – o padrão por qual todas fibras são submetidas, implementado por Boyce (1900). Apesar disso, a Lei do Imposto sobre a Maconha (1938), praticamente encerrou a agricultura da planta nos EUA e culminou também na proibição do cultivo no Canadá, através da Opium and Narcoticts Act. Porém, de acordo com Small e Marcus (2002), em 1998 o governo canadense cedeu à pressão e foi convencido da discrepância entre cânhamo e maconha, principalmente no que tange a fibra e óleo da semente. Os dois autores determinam dois fatos importantes para essa acontecimento:

• A crescente publicidade dos avanços em relação ao cultivo do cânhamo na Europa ocidental;

• Grupos agrícolas empreendedores convenceram-se do potencial da fibra do cânhamo e obtiveram licença para plantio experimental;

Conforme uma publicação na revista Popular Mechanics (1938), o cânhamo foi caracterizado como uma indústria bilionária, capaz de produzir mais de 25 mil produtos, que variam de dinamite a papel celofane. As figuras abaixo, baseadas em Kairus (2000) e Small e Marcus (2002), tem como objetivo esclarecer a variedade do uso da planta evidenciada pela Popular Mechanics:

Produtos que podem ser originados a partir do cânhamoProdutos que podem ser originados a partir do cânhamoKairos (2000)

Praticamente todas as partes da planta podem ser utilizadas, porém o cultivo do cânhamo industrial tem como principal objetivo a extração das fibras do caule. Após a remoção do material fibroso, resta o interior do tronco, conhecido como cerne lenhoso. Assemelhando-se a pequenas lascas de madeira, o cerne lenhoso difere-se desta principalmente em relação à extrema leveza e absorção, conforme Eires (2008). A figura abaixo representa tais segmentos da planta.

Fibras e cerne lenhoso, respectivamente.  Fibras e cerne lenhoso, respectivamente. Hemp Architecture

As fibras que resultam desse processo são utilizadas principalmente para a fabricação de papel, produtos têxteis e materiais de isolamento. Através do esmagamento das sementes, extraídas do fruto da flor, tem-se o óleo do cânhamo, que pode ser usado para diversos fins: material de construção, bioplástico, biodiesel, tintas, vernizes, lubrificantes, produtos cosméticos e até mesmo alimentícios, conforme Kairus (2000). 

A relação histórica entre o cânhamo, o Brasil e o Rio Grande do Sul 

Foi através dos mares que o navegador Pedro Alvarez Cabral e sua expedição descobriram o Brasil em 1500. As velas e cordas utilizadas em seus navios eram feitas principalmente da fibra do cânhamo, que Portugal por muitos anos cultivou. De acordo com o pesquisador Maximiliano Menz (2005), após gastar fortunas com o material, a coroa portuguesa optou pelo investimento na agricultura do cânhamo, visando a diminuição da importação para economizar moedas de ouro, a partir do século XVII. Após a criação de três feitorias para a produção da fibra no continente europeu, coube ao capitão-general Gomes Freire a implantação do cultivo no Brasil.

Ainda com base em Menz (2005), a primeira tentativa ocorreu na ilha de Florianópolis, em 1747, porém o cultivo não vingou. Vinte anos depois, Antônio Alvares da Cunha, então vice-Rei do Brasil, em conjunto com o governo do Rio Grande do Sul, incentivou o plantio de cannabis e obteve sucesso considerável. Tais resultados culminaram com a fundação da Real Feitoria do Linho-cânhamo do Rincão do Canguçu que, por sua vez, foi transferida para onde hoje se encontra a cidade de São Leopoldo. Tais eventos foram importantes tanto por questões de economia portuguesa quanto para evitar que a Espanha ocupasse o sul do Brasil, que até então ameaçava Portugal.

De acordo com Renata Finkler (2010), baseado também em Menz (2005), a iniciativa portuguesa da agricultura canábica em terras gaúchas durou 41 anos. O cânhamo enviado à coroa de Portugal nunca supriu o investimento original. Várias causas justificaram tal fracasso, dentre elas: erros de administração, solo inadequado e fragilidade política, consequência da guerra com a Espanha. Sendo assim, em 25 de julho de 1824, a feitoria foi desativada e a terra recebeu os primeiros imigrantes alemães, culminando na fundação da cidade de São Leopoldo. Finkler (2010) critica os contornos racistas que levaram o passado da região a ser negado por muito tempo. Tendo em vista que o cultivo do cânhamo era feito por escravos negros, aliado à crescente repressão à cannabis, o reduto alemão transformou o assunto em tabu.

Cânhamo com dois meses de cultivo, Portugal.Cânhamo com dois meses de cultivo, Portugal.Graça (1945, pg 8)

O cânhamo hoje  

De acordo com os dados disponíveis no site Factfish (2016), um grande compilador de informação geral, os maiores produtores de cânhamo atualmente estão localizados no continente asiático. No ano de 2013, a China e a Coréia do Norte produziram mais do que outros grandes da agricultura canábica juntos, como Holanda, Chile, Romênia e Itália. Os números podem ser conferidos nos gráficos abaixo, extraídos do Factfish (2016):

Produção anual de cânhamoProdução anual de cânhamoFactfish (2016)

Recentemente, a revista Globo Rural (2016) publicou uma matéria sobre os planos da China de aumentar ainda mais sua participação no agronegócio do cânhamo. A segunda maior economia do mundo, segundo o FMI (2016), pretende substituir parte das plantações de algodão pelo cânhamo industrial. Para isso, contará com a ajuda da multinacional Sediña, do CEO brasileiro Fábio Bastos. A empresa, presente em 18 países, foi responsável pelo faturamento de aproximadamente US$ 2 milhões em 2015, através do comércio de produtos como o papel seda. A perspectiva para 2016 é elevar o faturamento para US$ 5 milhões.

Apesar do uso da maconha recreacional ser proibido na China, o CHRC – Centro Chinês de Pesquisa do Cânhamo (2016), órgão responsável pelas pesquisas acerca de suas propriedades industriais, aponta alguns dados relevantes sobre a superioridade do cânhamo em relação ao algodão. Dentre eles:

  • O material recolhido em 1,3 milhões de hectares de cânhamo equivale à mesma quantidade colhida em 5 milhões de hectares do algodão;
  • Enquanto o algodão exige muito do solo, o cânhamo o desintoxica através da remoção de substâncias químicas e o abastece com nitrogênio e oxigênio;
  • Muitas vezes o cultivo do cânhamo não requer nenhum tipo de fertilizante, enquanto a cultura do algodão é responsável por 25% dos pesticidas que contaminam solo e rios;
  • A quantidade de água que o plantio do cânhamo requer equivale a um terço do necessário para o algodão;
  • Dependendo da forma como é processado, o tecido de cânhamo chega a ser oito vezes mais resistente que o de algodão;
  • A absorção de umidade, proteção contra raios UV e propriedades antibacterianas são algumas das qualidades do tecido à base de cânhamo;

Ainda assim, baseado nas informações contidas na matéria do Globo Rural, o mercado internacional cota a tonelada do cânhamo entre US$ 5 mil e US$ 10 mil, enquanto a do algodão gira em torno de US$ 100. Obviamente, isso se deve ao fato de que o cultivo do cânhamo é ilegal em alguns países, principalmente os Estados Unidos.

O jornal americano The New York Times (2015) também publicou uma matéria em relação ao uso do cânhamo industrial, porém na área da construção. A reportagem aborda a iniciativa do analista de sistemas James Savage de tentar encontrar um material alternativo aos tradicionais da construção civil. Após o furacão Katrina (2005), responsável por inundar a cidade de Nova Orleans e tornar inabitáveis inúmeras residências devido ao mofo, e o Terremoto no Haiti (2010), que vitimou milhares de pessoas esmagadas nos escombros de suas próprias moradias, James fundou a Green Built. Essa empresa foca na construção através do uso de tijolos feitos à base de cânhamo: o hempcrete.

Casa construída com hempcreteCasa construída com hempcreteAmerican Lime Technology

Desastres  

 A quarta edição do GAR – Relatório de Avaliação Global sobre a Redução de Riscos de Desastres (2015), documento cuja finalidade é compreender e analisar os riscos de desastres globais do presente e do futuro, aponta que quase 100 milhões de pessoas, de uma maneira ou de outra, foram afetadas por catástrofes naturais no ano passado. Destas, 22,7 mil morreram.
De acordo com o documento, os países mais afetados foram a China, os Estados Unidos, Índia, Filipinas e Indonésia. Apesar disso, os números são menores que os registrados na década anterior e muito disso se deve ao programo de medidas de prevenção. 

O Manual de Planejamento em Defesa Civil (2007, p.2), define o conceito de desastre como “resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ambientais e consequentes prejuízos econômicos e sociais”. Além disso, também fornece uma classificação de três tipos diferentes de eventos:

  • Desastres naturais: resultado de fenômenos e desequilíbrio da natureza, com três origens diferentes: 
    • Sideral: produzidos através do impacto de meteoritos na Terra; 
    • Geodinâmica terrestre externa: relativo a fenômenos meteorológicos. Exemplo: secas, vendavais, geadas, ondas de frio e calor, inundações, entre outros; 
    • Geodinâmica terrestre interna: relativo a fenômenos tectônicos. Ex: terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas; 
  • Desastres humanos: produtos da ação ou omissão humana, portanto o homem atua como agente ou autor. São divididos em origens: 
    • Tecnológica: consequências indesejáveis do crescimento urbano, sem o desenvolvimento compatível de infraestrutura e seus serviços essenciais. Exemplo: acidentes com meios de transportes e produtos perigosos resultando em incêndios e explosões.
    • Social: consequência do relacionamento do homem com ecossistemas urbanos e do desequilíbrio nos inter-relacionamentos econômicos, políticos e culturais. Exemplo: guerras, fome, desemprego, violência, entre outros;
    • Biológica: consequência do subdesenvolvimento dos agentes promotores da saúde pública. Exemplo: AIDS, dengue, ebola, entre outros;
  • Desastres mistos: são considerados como a soma de eventos naturais com a atividade humana. Devido a seus aspectos globalizantes, tendem a alterar profundamente grandes extensões do meio ambiente. Exemplo: efeito estufa, desertificação, salinização do solo e redução da camada de ozônio.

O PERFIL Dos refugiados sírios

De acordo com o relatório Tendências Globais, a Síria é responsável por 4,9 milhões de refugiados ao redor do mundo. A UNHCR também apresentou um estudo feito durante o mês de janeiro de 2016 que revelou o perfil, as motivações e as necessidades dos refugiados Sírios que migraram para a Grécia. Os gráficos abaixo, retirados do estudo, foram traduzidos pelo autor, com o objetivo de delimitar o público-alvo e as suas necessidades para o trabalho em questão.

Informação sócio-demográficaInformação sócio-demográficaUNHCR (2016)

Conforme o gráfico acima, a maioria dos refugiados é do sexo masculino (49%), porém uma enorme parcela é composta por crianças (19%) também. É importante salientar também a quantidade de mulheres grávidas (2%) e lactantes (1%), além dos deficientes físicos (5%) e mentais (2). Esses perfis são os que mais requerem cuidados.

OcupaçãoOcupaçãoUNHCR (2016)

Ao analisar o gráfico de ocupações acima, é importante notar que a parcela de refugiados que não tinham nenhuma atividade profissional é pequena (19%). A maioria possuía empregos até ser forçada a migrar. Dessa maneira, pode-se concluir que a maioria dos refugiados é composta por pessoas capacitadas e que poderiam atuar na construção dos próprios abrigos.

Educação e religiãoEducação e religiãoUNHCR (2016)

É importante salientar, ao analisar o gráfico 4, que os refugiados, em sua maioria, tem um certo nível de estudos cujo foram abruptamente interrompidos (27%) diante a situação social encontrada na Síria. É de suma importância que essas pessoas obtenham a oportunidade de continuar o aprendizado no país em que se destinam, por questões de qualidade de vida. Mais uma vez, ao análisar o gráfico 4, é possível concluir que os refugiados tem capacidades, além de taxa de conhecimento.

Deslocamento internoDeslocamento internoUNHCR (2016)

O deslocamento interno refere-se à migração interna, ou seja, já havia ocorrido uma relocação dentro da própria Síria antes de saírem do país. O gráfico abaixo representa a maneira como os refugiados financiaram esse deslocamento e também com quem o realizaram.

Grupos e financiamentoGrupos e financiamentoUNHCR (2016)

Grupo de viagemGrupo de viagemUNHCR (2016)

O gráfico acima representa a composição dos grupos de refugiados. Muitos são forçados a deixar para trás entes queridos, o que acaba por comprometer a qualidade de vida das pessoas. É importante levar em consideração que mais da metade planejam uma maneira de fazer com que os que ficaram possam ser deslocados para o mesmo local.

Assistência recebidaAssistência recebidaUNHCR (2016)

No gráfico acima é possível analisar a assistência recebida pelos refugiados no país de destino, no caso a Grécia. Destacado em laranja estão os abrigos, que mais da metade teve acesso. Deve ser levado em conta que, conforme o conflito perdura na Síria, cada vez mais o número de refugiados irá aumentar, portanto, segue importantíssimo que a questão do desenvolvimento de alternativas sejam elaboradas para conseguir comportar esse crescente deslocamento populacional.

Conclusão do capítulo 

 Ao analisar as notícias e históricos levantados no primeiro capítulo, pode-se concluir que o cânhamo tem uma longa relação com diversas culturas ao redor do mundo, inclusive no sul do Brasil. Apesar de sua versatilidade de aplicação em diferentes setores da indústria, a forma como a sociedade ocidental marginalizou essa planta, devido ao racismo e parentesco com a cannabis psicoativa, fez com que a cultura do cânhamo por muito tempo fosse esquecida.

 Conforme o impacto da industrialização agressiva torna-se cada vez mais visível e impossível de ser ignorado, muitos países estão gradativamente voltando a adotar essa prática milenar de agricultura. Esperançosamente, a fibra e óleo das sementes do cânhamo, assim como as propriedades da cannabis medicinal, serão cada vez mais disponibilizadas às nações globais, de modo que a qualidade de vida das pessoas seja positivamente impactada, evoluindo em conjunto com o planeta Terra, sem comprometer o futuro da humanidade.

Em relação ao deslocamento populacional derivado dos conflitos sociais na Síria e em diversos outros países, pode-se concluir que a ação de deixar tudo para trás e fugir para longe de casa é um problema que afeta diretamente o psicológico das pessoas. Esse fenômeno deve ser encarado como um problema de todos, pois a segurança de um abrigo é uma das necessidades básicas do ser humano e, conforme as recentes campanhas lançadas por entidades humanitárias, é necessário atrair maiores olhares sob esse problema, mesmo que quem desenvolva a solução não esteja sendo diretamente atingido.

Estudar novas alternativas para abrigar os refugiados, através de materiais que possibilitem uma redução nos custos de produção, energia e transporte, além de um aumento na durabilidade e no fornecimento de matéria-prima sustentável e renovável, pode ser a solução para tempos em que o dinheiro é escasso e a situação requer extrema urgência.

 REFERENCIAL TEÓRICO

Design 

O design é uma área de conhecimento projetual que tange as fases de idealização, fabricação, consumo e descarte de um produto, não sendo necessariamente físico. Algumas características notáveis desse campo incluem a multidisciplinaridade e o poder de especificar e aprofundar algo que antes era amplo e abrangente. Hesket (2008, pg.9) interpreta o design como “uma das características básicas do ser humano e um elemento determinante da qualidade de vida das pessoas”. O site do ICSID – Conselho Internacional, o define como:

“Uma atividade criativa cuja finalidade é estabelecer as qualidades multifacetadas de objetos, processos, serviços e seus sistemas, compreendendo todo seu ciclo de vida. Portanto, design é o fator central da humanização inovadora de tecnologias e o fator crucial para o intercâmbio econômico e cultural”

De acordo com Burdek (2006), a origem do design como conhecemos hoje, deu-se início no século XVII, aliado à Revolução Industrial. Ao separar a manufatura do planejamento, foi também delimitada a diferença para com as atividades do artesão: enquanto o artesanato projetava e produzia, o designer esquematiza para que a produção fosse feita por outros, conforme Cardoso (2005). Este novo cenário impactou a sociedade de modo que, o que antes era apenas para os mais abastados financeiramente, agora estava acessível a todos, ainda que o lado do consumidor não fosse levado em consideração, como viria a ser posteriormente.

A Bauhaus, escola de artes fundada em 1919 por Walter Gropius, trouxe um novo significado à lógica industrial. Através da união de arte e criação utilitária, foi incorporado à produção em massa o raciocínio humanista e o design estratégico. De acordo com Ezio Manzini (2002), o design estratégico visa atingir mudanças abrangentes e resultados em larga escala.

Design de produto  

Essa extensão do trabalho do designer é “a atividade que promove mudanças no produto”. Diferente do artesanato, que não oferece um padrão, o design de produto visa à satisfação das necessidades do usuário, de modo que possa ser produzido em larga escala. Baxter (2000) oferece categorias de produtos industriais: uso individual, uso por determinados grupos e produtos de uso indireto. Tal configuração é exemplificada na tabela abaixo:

Caracterização de produtos.Caracterização de produtos.Pelo autor, baseado em Baxter (2000)

Filho (2006, p. 27) encara o design de produto como a “concepção, a elaboração, o desenvolvimento do projeto e a fabricação do produto.” O autor (2006) também complementa que os produtos podem ser agrupados em quatro grandes grupos:

  • Produtos de uso: basicamente utilizados pela população em geral, como carros, roupas, telefones e joias;
  • Máquinas e equipamentos em geral: disponibilizam uma interface, sobretudo operacional, como ferramentas e instrumentos;
  • Produtos que compõem ambientes: configuram, por exemplo, postos de trabalho;
  • Artigos de lar: bens de consumo domésticos, como mesas, camas e sofás;

CORES

De acordo com Guimarães (2000, p.12) a cor é “uma informação visual, causada por um estímulo físico, percebida pelos olhos e decodificada pelo cérebro”. Farina (1982) propõe que a cor exerce uma tripla ação sobre o receptor da comunicação visual: a de impressionar, expressar e construir. No design, a cor é utilizada para “chamar a atenção, agrupar, indicar significados e realçar a estética” (Lidwell, 2010, p.48). Diversos fatores, como sociais e culturais, são responsáveis pela forma como a cor é interpretada pela pessoa. 

Dessa maneira, Farina, Perez e Bastos (2006) argumentam que as cores podem transmitir sensações positivas ou negativas. Através dos estudos desses autores, aliados à classificação de Fraser e Banks (2007), foi elaborada a tabela abaixo, que tem como objetivo representar os diversos significados que as cores podem emitir.

Significado das coresSignificado das coresPelo autor, baseado em Farina et. al (2011), Fraser e Banks (2007)

ANÁLISE DAS CORES DOS ABRIGOS

Com base nas teorias de psicologia de cores e nos abrigos selecionados para a realização do estudo, foi desenvolvida uma análise em relação as cores presentes nas estruturas e as sensações transmitidas por elas. A figura abaixo representa tal análise:

Análise das cores dos abrigosAnálise das cores dos abrigosPelo autor.

Ao analisar as cores dispostas na estrutura dos abrigos, pode-se concluir que o abrigo Better Shelter, desenvolvido pela Ikea, e o T-Shelter são muito semelhantes nesse quesito. Ambos apresentam cores que dão um aspecto industrial enquanto as Paper Log Houses remetem à natureza. Baseado na teoria utilizada e nas informações trazidas anteriormente, 

Todos abrigos selecionados possuem cores sóbrias e nos dois primeiros a cor branca é predominante. Essa predominância gera um contraste com o local onde é instalada, pois o branco emite a sensação de uma estrutura mais tecnológica, enquanto a Paper Log House mantém uma qualidade natural em comparação com os outros dois abrigos.

Dessa maneira, com base nas informações dispostas no capítulo Justificativa, a utilização de materiais com tons mais naturais pode atuar como fator psicológico favorável à qualidade de vida dos refugiados pois tons contrastantes causam sentimentos que diferem do ambiente em que o abrigo está inserido.

Semiótica 

De acordo com Santaella (1983, p.2) a semiótica é a “ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido”. A autora também complementa que

Seu campo de indagação é tão vasto que chega a cobrir o que chamamos de vida, visto que, desde a descoberta da estrutura química do código genético, nos anos 50, aquilo que chamamos de vida não é senão uma espécie de linguagem, isto é, a própria noção de vida depende da existência de informação no sistema biológico (Santaella, 2007, p.13).

Lobach (2001) diz que a função simbólica é o resultado de três fatores do uso de um determinado objeto: espiritual, psíquico e social. Noth (1995, p.19) define a semiótica como “a ciência dos signos e dos processos significativos na natureza e na cultura”. Para Santaella (2005), o signo representa o elemento faltante do objeto para sua completa interpretação. Charles Peirce (1972) diz que os signos são originados através de três partes distintas: representâmen (a maneira como algo está sendo representado), o objeto (aquilo que é atribuído ao signo) e o interpretante (o intérprete atribui significado com base no efeito que o signo causa). Tal tríade é exemplificada na figura abaixo.

Tríade semióticaTríade semióticaPelo autor, com base em Pierce (1972)

Ergonomia 

 A associação inglesa Ergonomics Society define ergonomia como o estudo do “relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento, ambiente e, particularmente, a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas que surgem desse relacionamento”. A Associação Brasileira de Ergonomia – ABERGO – (2016) a especifica como a ciência responsável pela interação das pessoas com a tecnologia, com o objetivo de desenvolver constantes melhorias em relação aos aspectos de segurança, bem-estar e eficácia nas realizações cotidianas. Itiro Iida (2005) defende que o termo “trabalho”, quando relacionado à ergonomia, tem caráter amplo, abrangendo as situações que envolvem o homem e as atividades produtivas.

Conforme Voordt e Wegen (2005), citado por Paschoarelli e Silva (2013, p. 63), “para se ter qualidade funcional, um edifício requer boa acessibilidade, flexibilidade, ter um arranjo eficiente e compreensível e espaço físico adequado para promover a segurança, saúde e bem estar do usuário”. Dessa forma, caso projetado incorretamente, o ambiente físico inflige em consequências negativas na qualidade de vida do homem. Villarouco (2003) e Iida (2005) defendem a existência de três domínios ergonômicos:

  • Físico e operacional: envolve questões da anatomia humana, antropometria, fisiologia e biomecânica. Através disso, fornece informações acerca das necessidades ambientais para que o objetivo do projeto seja cumprido com sucesso;
  • Cognitivo e perceptivo: a maneira como os aspectos mentais são afetados, como memória, raciocínio e estresse; 
  • Organizacional: determina a qualidade das relações interpessoais do ambiente através de sistemas sociais e tecnológicos, como políticas e processos; 

Tilley em seu livro As Medidas do Homem e da Mulher: Fatores Humanos em Design (2005) aborda variáveis fisiológicas que influenciam a qualidade de vida das pessoas, relacionando-se inerentemente com o desenvolvimento das atividades básicas. Iida (2005, p.39) diz que “a precisão com que essas variáveis podem ser descritas e medidas está relacionada com a clareza com que se estabelecem os objetivos do projeto”. Dessa maneira, os fatores ergonômicos relevantes de uma cadeira serão diferentes dos encontrados no projeto de um ambiente, por exemplo.

Conforme Tilley (2005), algumas das variáveis podem ser conferidas abaixo:

  • Ruídos: definidos como sons indesejáveis, os ruídos podem levar à perda de audição, se forem muito altos. Medidos em decibéis, são considerados desagradáveis acima de 60 db. O ser humano, quando submetido a ruídos agressivos por muito tempo, apresentam níveis de fatiga, irritabilidade e fatiga acima do normal;
  • Temperatura: a faixa de temperatura que possibilita a sobrevivência do ser humano não é muito flexível. Caso esteja muito elevada, pode causar efeitos que vão desde a fadiga até a desidratação e destruição de tecidos. Se muito abaixo, atrapalham o funcionamento dos membros até a hipotermia. A segurança do ser humano em relação à temperatura depende de seu contato com o ar, a água e os sólidos. A condição ideal do ambiente para a pessoa é de 36,5 graus Celsius.  
  • Contato com produtos químicos: dependendo de certas variáveis, os materiais tóxicos impactam as células vivas sob intensidades diferentes. Apesar da saúde do usuário também ser uma variável, é sabido que o contato prolongado, a inalação e ingestão de agentes químicos é extremamente prejudicial ao ser humano.  
  • Iluminação: os níveis de luz em um ambiente são importantes para que não forcem o corpo humano mais do que sua capacidade normal. A exposição prolongada a níveis muito acima ou abaixo são responsáveis por danos aos olhos.  
  • Cores: em conjunto com a semiótica, a psicologia das cores é capaz de alterar o comportamento humano. Caso os usuários sejam submetidos a um ambiente vermelho, por exemplo, suas reações serão diferentes das ocorridas em uma sala verde. 

Design e arquitetura humanitária 

De acordo com Barbosa (2008, pg. 23) “o caráter humanitário implícito em trabalhos que visam salvar vidas não se restringe aos médicos, mas abrange aos arquitetos”. Tal afirmação é corroborada pela organização Architecture for Humanity (2006), fundada em 1999 pelos arquitetos/designers Cameron Sinclair e Kate Stohr. Conforme a organização, essa concepção humanitária tem por objetivo executar projetos de caráter social para determinados grupos de refugiados, seja por catástrofes naturais, como furacões e terremotos, a políticas, como guerras. Os princípios dessa associação baseiam-se no desenvolvimento de abrigos e equipamentos que possam auxiliar essas parcelas da população. Edificações portáteis, mesmo que não sejam para habitação e sim para atendimento médico, fazem parte da sua proposta, pois, conforme Barbosa (2008, pg. 23), “aproximam a ajuda das pessoas que não tem condições de se deslocarem para onde o serviço está”. A Architecture for Humanity (2006) também reconhece o trabalho dos arquitetos e designers nessa área não como uma responsabilidade, mas sim como uma oportunidade de, através de seus conhecimentos, fazer parte destas situações.

Abrigos 

Uma das necessidades básicas do ser humano é o refúgio de uma moradia. O Dicionário da Lingua Portuguesa (2016) define abrigo como tudo que se refere à proteção dos homens, materiais e animais contra intempéries alheias. Esse conceito está enraizado na História e nas religiões mais antigas. Conforme Davis (1980), o relato da Arca de Noé evidencia bem esse elemento. A arca, projetada para a catástrofe do dilúvio, tinha como objetivo garantir a sobrevivência da espécie humana e dos demais animais terrestres.

De acordo com Brillembourg, Klumpner e Coulombel (2011), as populações que tiveram suas moradias destruídas, danificadas ou deslocadas devido a uma tragédia, buscarão cumprir essa carência de uma forma ou de outra. Bedoya (2004, p. 145), ao citar Bachelard, diz que o abrigo é “um lugar onde se molda a psique e se mantém constância com o mundo. A casa adquire neste processo um significado de um microcosmo no qual se estabelece o núcleo das relações espaciais. É o primeiro universo do ser humano”. Davis (1980, p. 158) complementa que a finalidade “é prestar proteção a uma família vulnerável. O abrigo tem que ser considerado como um processo, não como um objeto”.

Abrigos de transição 

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (2011) define os abrigos de transição como aqueles que são feitos para situações pós-catástrofes, compostos por materiais que podem ser reutilizados e realocados para ambientes permanentes. O objetivo principal de sua construção é o de facilitar a transição das pessoas afetadas para posteriores abrigos ou ambientes mais estáveis.

Esquema da evolução de habitação de diferentes tipologias de abrigos Esquema da evolução de habitação de diferentes tipologias de abrigos Sphere Project (2004)

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho – IRFC – (2011) define os abrigos de transição como aqueles que são feitos para situações pós-catástrofes, compostos por materiais que podem ser reutilizados e realocados para ambientes permanentes. O objetivo principal de sua construção é o de facilitar a transição das pessoas afetadas para posteriores abrigos ou ambientes mais estáveis. 

Design de abrigos

O livro Transitional Shelters: Eight Designs (2011), da IRFC, trás uma compilação de análises estruturais de abrigos de transição construídos em quantidades significativas, com o objetivo de apoiar e incentivar novos projetos de design. Além disso, ele dispõe um checklist dos principais elementos que compõe tais refúgios. Essa lista é composta dos seguintes passos:

  • Briefing: como cada contexto é diferente, o projeto de abrigo deve responder as necessidades, cultura local e capacidade dos afetados. Assim como os demais designs, o que funciona em um ambiente pode não ser adequado a outro. Entretanto, uma qualidade fundamental dos abrigos é a possibilidade de reutilizar os materiais utilizados e também de realocá-los; 
  • Manutenção: o tempo que o abrigo será utilizado também é levado em consideração. Manuais para a sua construção e kits de ferramentas devem ser disponibilizados, de modo que possibilite um prazo maior de apoio ao usuário; 
  • Riscos e segurança: os abrigos de transição não devem comprometer a segurança do usuário em situações de perigo, como terremotos, doenças e tempestades. A imagem abaixo resume algumas ações de mitigação que reduzem riscos através da escolhe de locais e construções adequadas: 

Ações de mitigação.Ações de mitigação.Adaptado por Santos (2013) de Architecture for Humanity (2006).

  • Versatilidade na construção: ao projetar abrigos, é necessária a interação com aspectos logísticos, de transporte, armazenamento e aquisição de materiais, pois é importante que a construção não atrase e, dessa forma, invalide o projeto. 
  • Tempo de vida: os abrigos devem durar o período inteiro de transição, ou seja, desde a emergência até a reconstrução. O briefing do design deve especificar, em meses, o tempo que está destinado a durar, dadas as devidas circustâncias. A fácil manutenção, assim como a escolha dos materiais deve ser feita adequadamente para que possibilite a sua realocação posterior. 
  • Tamanho e forma: de acordo com o Sphere Project (2004), uma área de 18m² é tida como o básico para abrigar uma família de cinco pessoas. Mesmo assim, nem todas as circunstâncias possibilitam esse tamanho. Um exemplo disso é o caso do terremoto no Haiti, em que a área urbana disponível era extremamente limitada. A adoção dessas medidas faria com que as famílias tivessem que se mudar para longe de suas terras. Dessa forma, foi acordado que o espaço mínimo para os abrigos urbanos seria de 14m². 
  • Adequação cultural: como muitos países são compostos por diferentes etnias, é importante que os abrigos possibilitem o devido respeito às tradições de cada cultura, fornecendo a apropriada privacidade às famílias. O briefing do projeto deve fornecer flexibilidade no design, de modo que se considerem as atividades do cotidiano, como cozinhar e higienizar o local, assim como garantir a segurança dos usuários; 
  • Conforto térmico e ventilação: os projetos de design de abrigos devem fornecer proteção contra os extremos climáticos da região atingida ou também possibilitar a adequação e atualização do espaço, através de kits ou até mesmo a própria estrutura; 
  • Meio ambiente: a construção em grande escala de abrigos requer uma elevada quantidade de materiais e, dessa forma, não deve causar impactos negativos nas áreas em que serão colocados. Exemplo: caso os abrigos forem construídos em madeira e, com base na área padrão de 18m², o projeto exigirá 2500m³ do insumo. Se essa madeira for retirada da própria região, pode causar um desequilíbrio ambiental. Portanto, alternativas como importação e uso de materiais diferentes devem ser levadas em consideração;
  • Terras e meios de subsistência: em relação às propriedades em que são construídos, os abrigos são frequentemente utilizados como solução provisória até que as condições da região sejam normalizadas. Dessa forma, podem acabar sendo construídos em terrenos fora da lei. Em alguns casos, faz-se necessário o firmamento de acordos com as autoridades responsáveis para um período mínimo de uso. Em relação aos meios de subsistência, a construção dos abrigos torna-se inútil caso as pessoas não tenham acesso à agua potável, por exemplo. 
  • Custo: o dinheiro acessível por abrigo familiar também varia conforme a situação e é muitas vezes fator determinante no design. Como resultado, existem variações significativas nos custos de abrigos entre as soluções. 

Riscos de qualidade x custoRiscos de qualidade x custoIFRC (2011), traduzido por Santos (2013)

ANÁLISE DOS ABRIGOS COM BASE NA LISTA APRESENTADA PELO LIVRO TRANSITIONAL SHELTERS

Com o objetivo de identificar como os abrigos selecionados relacionam-se com a lista de elementos apresentados anteriormente, o autor buscou realizar um checklist para analisar quais estruturas possuem mais qualidades de desempenho de função. As informações necessárias para tais análises estão dispostas no primeiro capítulo. Os principais itens que condizem com a finalidade do trabalho foram aplicados e cada abrigo recebeu uma nota conforme suas especificações.

Better ShelterBetter ShelterPelo autor

Ao analisar o Better Shelter, é possível concluir que o abrigo fornecido pela Ikea atende as especificações da IRFC em relação ao desenvolvimento de abrigos. Ao fornecer painéis solares, o abrigo, além de proteger, trás tecnologia, possibilitando que os usuários tenham acesso à luz de noite. Com o carregador USB, os refugiados podem entrar em contato com seus familiares de uma maneira mais fácil. Os materiais utilizados podem ser reciclados, porém ainda faz-se necessário transportá-los de outros locais.

T-ShelterT-ShelterPelo autor

Em comparação com o abrigo fornecido pela Ikea, o T-Shelter é composto por muito mais peças, além de ter um custo bem mais elevado. Os materiais utilizados, assim como a versatilidade de construção são menores que o primeiro modelo, porém o T-Shelter cumpre o objetivo de fornecer conforto, privacidade e proteção às famílias de refugiados. Esse modelo, dentre os outros três, é o que tem o maior custo de produção.

Paper Log HousePaper Log HousePelo autor

A mais barata das alternativas analisadas, a Paper Log House é a que melhor utiliza materiais e processos eco-friendly. Não fornece a mesma tecnologia dos outros abrigos, porém ainda consegue cumprir a necessidade do usuário. Por não ter um tamanho propriamente especificado, pode ser que requeira maior número de mão-de-obra pra montá-lo. Assim como os modelos anteriores, também pode ser expandido caso seja necessário. 

Ao comparar os modelos, pode-se concluir que todos oferecem a proteção e conforto necessário para as famílias refugiadas, porém, com a crise nos fundos de desenvolvimento de abrigos apresentada no primeiro capítulo, a melhor alternativa para o atual momento são as Paper Log Houses, devido ao uso de materiais reutilizados e doados, além do baixo custo de produção. 

DFMA: Design para fabricação e MONTAGEM

Para Boothroyd, Dewhurst e Knight (1994) o design para fabricação tem como principal objetivo o desenvolvimento de produtos de fácil manufatura, atendendo os requisitos projetuais e diminuindo os custos de produção. Já o design para montagem, também de acordo com os autores, atua na simplificação da junção dos elementos que compõem o produto final, analisando a forma, material e função dos mesmos. Ambas estratégias são compostas por diversas regras e princípios e devem ser preferencialmente aplicadas em conjunto na medida do possível, com o objetivo de desenvolver um produto funcional e simples.

Dessa forma, pode-se concluir que os benefícios dessas duas abordagens diante do produto final tangem aspectos referentes à qualidade, simplificação dos processos de montagem, diminuição do número de peças além da padronização e modularização do produto, implicando diretamente na redução dos custos de produção e no incentivo do trabalho entre equipes multidisciplinares.

Os autores também compilam uma série de elementos-base para a aplicação do DFMA em projetos de produto. Os seguintes princípios são:

  • Projetar para o menor número possível de componentes;
  • Projetar componentes multifuncionais;
  • Padronização de processos e componentes;
  • Aplicação de abordagens modulares;
  • Montagem empilhada/uni-direcional;
  • Alinhamento e inserção de componentes de forma facilitada;
  • Eliminação de parafusos, porcas, roldanas
  • Eliminação de ajustes;
  • Padronização de materiais e acabamentos;
  • Se possível, considerar possibilidades de automação;
  • Promoção do trabalho em equipe;

ANÁLISE DOS ABRIGOS ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS DO DFMA

A próxima análise a ser realizada é a comparação dos abrigos selecionados em relação aos princípios do design para fabricação e montagem. Com o objetivo de redução de custos e simplificação dos processos envolvidos, o DFMA é uma alternativa cujo os benefícios são muito importantes para o desenvolvimento de soluções de habitações de transição. Como realizado anteriormente, cada abrigo foi submetido aos princípios dispostos e, caso haja a possibilidade da implementação do DFMA, o abrigo recebe uma nota se ocorre ou não no quesito.

Paper Log House DFMAPaper Log House DFMAPelo autor, baseado em Boothroyd et al (1994)

As casas de papelão desenvolvidas por Shigeru Ban atendem a quase todos elementos do DFMA, menos automação, por questões óbvias. A forma simples de montagem possibilita um número pequeno de componentes diferentes, fazendo com que o abrigo possa ser construído de forma rápida e em configurações diferentes, dependendo da necessidade.

T-Shelter DFMAT-Shelter DFMAPelo autor, baseado em Boothroyd et al (1994)

Devido ao alto número de peças para a montagem o T-Shelter acaba não atendendo aos quesitos em relação aos componentes necessários. Essa gama de peças reflete no preço do abrigo, que é o mais custoso dos três selecionados. Em comparação à Paper Log House, o Better Shelter também fica em desvantagem, recebendo uma avaliação semelhante ao modelo T-Shelter, pois ambos fazem uso de um número maior de peças pequenas, enquanto o abrigo de papelão não requer o emprego desses componentes. 

Better Shelter DFMABetter Shelter DFMAPelo autor, baseado em Boothroyd et al (1994)

ECODESIGN 

O ecodesign tem como objetivo principal a redução do impacto ambiental das fases de produção de produtos, mantendo e ampliando suas qualidades à percepção do consumidor, tornando-se muito importante ao desenvolvimento sustentável. De acordo com Fiksel (1995, não paginado) o design ecológico pode ser definido como “um conjunto de práticas de projeto usadas na criação de produtos e processos ecoeficientes, ou até mesmo um sistema de projetar onde o desempenho respeita o meio ambiente, a saúde e segurança em todo o ciclo de vida do produto e do processo”.

Diversos autores, como Manzini e Vezzoli (2008), citam que o ecodesign deve estar presente em todos os processos do projeto para que se torne válido. Conforme a tabela abaixo, baseada em Gersakis (1997), a estratégia do design ecológico é evidenciada levando em consideração cada fase do processo produtivo:

Etapas do ciclo de vida do produtoEtapas do ciclo de vida do produtoGersakis et al (1997, apud ÁGUAS, 2009, p.327)

Análise das etapas do ciclo de vida dos abrigos

Com base no quadro anterior de Gersakis (1997), foi realizada uma análise do ciclo de vida dos abrigos selecionados para o estudo. Os itens representados em cada fase do produto foram comparados com as habitações para, dessa forma, descobrir quais alternativas escolhidas preenchem tais requisitos. Assim, será possível concluir qual abordagem deve ser levada a diante para o resto do trabalho.

Etapas do ciclo de vida dos abrigosEtapas do ciclo de vida dos abrigosPelo autor, com base em Gersakis (1997)

Ao analisar a tabela acima, é possível perceber que o grande diferencial nos ciclos de vida dos abrigos selecionados dá-se no processo de extração de matérias primas. A utilização de materiais reaproveitados e disponíveis no local é a maior virtude dasPaper Log Housesem relação as outras alternativas. Além disso, a logística de produção e distribuição também é maior. Por fim, as casas de papelão também oferecem uma eliminação segura, uma vez que seu uso não seja mais necessário.

 Nenhum dos abrigos faz uso de materiais nocivos à saúde ou ao planeta, porém as alternativas da Ikea eT-Shelterrequerem operações logísticas maiores para a construção dos abrigos. Portanto, pode-se concluir que uma abordagem que utiliza materiais com maior resiliência e reaproveitados, é a alternativa que melhor responde aos preceitos de um processo de produção limpa e ciclo de vidaeco-friendly.

DESIGN PARA A SUSTENTABILIDADE 

Ezio Manzini (2008) define a sustentabilidade como a não interferência da atividade humana nos ciclos naturais do nosso sistema, baseado na capacidade do planeta de recuperar-se diante ações negativas, simultaneamente sem empobrecer seu capital natural, e assim, transmiti-lo a gerações futuras. O autor adiciona a essas duas premissas um princípio ético: as pessoas, do presente e do futuro, têm direito ao mesmo espaço ambiental, incluindo nisso seus recursos naturais. Trocando por outras palavras, tem-se o desenvolvimento sustentável como aquele que gera progresso para as gerações de hoje, sem comprometer as do amanhã.

O desenvolvimento sustentável pretende alcançar uma situação ideal de justiça social, para a humanidade, na qual o desenvolvimento sócio econômico, em bases equitativas, estaria em harmonia com os sistemas de suporte da vida na Terra. Em tal situação, ocorreria certa melhoria na qualidade vida das populações, cujas necessidades (e alguns dos desejos) da presente geração estariam satisfeitas sem prejuízos para as gerações futuras. (CORDANI, 1995, p.14)

Seleção de materiais

No design, a seleção de materiais influencia desde o começo até o fim do projeto. Conforme Ashby (2002) e Manzini (2008), cabe ao designer a busca pelo aperfeiçoamento de suas técnicas, assim como o equilíbrio sustentável e a exploração de novas alternativas e tecnologias. Para Lesko (2012), o resultado do produto final está ligado à produção e também aos materiais e demais processos empregados. Essa afirmação é corroborada por Ashby e Johnson (2011, p. 105) quando citam que “as ligações mais diretas entre material e forma surgem das forças que esses materiais podem suportar”.

A mudança processa-se tão depressa que a resistência provém hoje da sociedade, dos nossos hábitos e das nossas estruturas fabris excessivamente repetitivas. A matéria ultrapassa razão. Quem o podia prever? Que inversão de posições! Assim, os teóricos e os ensaístas têm de nos ajudar a prescindir daquilo a que estamos habituados e a entrar no mundo moderno (limitados que estamos pelo atraso relativo das nossas mentalidades). (…) A nossa imaginação merece ver-se libertada dos seus próprios estereótipos, de modo que a materialidade possa ganhar asas. (MANZINI, 1993, p. 11)

Através disso, Manzini propõe a compreensão da situação atual das pessoas e do meio-ambiente e incentiva a mudança de pensamento para que as sociedades continuem a progredir, sem que isso prossiga afetando negativamente o planeta. Para Bragança (2012), uma maneira de reduzir impactos ambientais é priorizar materiais com baixos níveis de energia incorporada, de simples desmontagem, facilitando sua separação e reutilização. O termo energia incorporada é definida por Mateus (2012) como aquela necessária para a fabricação de um produto, abrangendo desde a extração do insumo até operações logísticas, manutenção e descarte. Devido a isso, Kim e Rigdon (1998) incentivam a substituição de materiais convencionais por aqueles biológicos, diminuindo assim a energia gasta.

No projeto de produto, Lima (2006, p. 13) afirma que “a escolha definitiva de um ou mais materiais é formalmente estabelecida na etapa de detalhamento sendo, em geral, reflexo de uma sequência de levantamentos, estudos e avaliações que vêm ocorrendo desde o início da atividade projetual”. O autor também reforça que a necessidade de atender os requisitos projetuais sempre estará presente e o designer precisa tirar o máximo proveito das qualidades do material a ser utilizado, sem que isso comprometa sua integridade em relação aos seus pontos negativos. Lima, em seu livro Introdução aos Materiais e Processos para Designers (2006), define algumas características essenciais para a definição do material a ser utilizado no projeto. As mais pertinentes ao projeto estão abaixo:

  • Resistência à tração: de acordo com Lima (2006, p.8), “é avaliada pela ação de forças coaxais opostas, que partem da estrutura do material para seu exterior tendendo a esticá-lo”. O autor também relata que a maioria dos materiais em forma de fibras tendem a ter desempenho aumentado quanto submetidos à tração longitudinal.
  • Resistência à compressão: resultado de forças opostas que tendem a “amassar” o material. Os metais, de acordo com o autor, são os que melhor respondem a esse quesito.
  • Resistência à flexão: é o resultado da tensão máxima de dobramento que um determinado material suporta. O autor relata que, enquanto o vidro é pouco resistente à flexão, a resina de poliéster reforçada com a fibra do material apresenta elevado nível neste sentido.
  • Condutividade térmica: indica se o material é ou não um bom condutor de calor. O autor afirma que os metais são excelentes condutores tanto de calor como de frio, enquanto os plásticos, madeira e cerâmica, não.
  • Densidade: Lima afirma que esta é uma propriedade importante para a economia do projeto. A densidade, de acordo com Lima, é a massa por unidade do volume material. Quanto mais leve o material, menos são os custos de transporte e consumo de matéria-prima.

Dessa maneira, para definir o melhor material, Lima (2006) cita 5 aspectos que contribuem para a seleção da melhor matéria prima a ser utilizada. São eles:

  • Funcionamento: referente a todos aspectos de performance propriamente dita. Alguns elementos importantes para esse quesito são: exposição ao tempo, impactos, temperatura de trabalho, vibrações e movimentos.
  • Uso: são as qualidades referentes à relação produto x usuário. Nesse quesito, entram questões como ergonomia (peso, isolamento e manutenção) e estética (aparência, texturas, cor e valor socioeconômico).
  • Fabricação/comercialização: aspectos cruciais para que o material seja uma opção válida incluem: estocagem, montagem, transporte, exposição e tempo de vida.
  • Ecológicos: referem-se à relação produto x ambiente, em todo seu ciclo de vida. Um material ecologicamente positivo é proveniente de reservas renováveis, além da forma de extração, formação de resíduos, permissão de reaproveitamento e reciclagem.
  • Normas e legislações: de acordo com Ferreira (1997), as normas são aquilo que permitem a realização ou avaliação de determinada coisa.
Materiais ecológicos

De acordo com Bica (2009), materiais ecológicos são aqueles que representam menos impacto negativo no meio ambiente. Contudo, o autor alerta que há muitos poréns nessa questão. Um material definido comoeco-friendly,mesmo com seus atributos positivos, pode produzir altas quantidades de CO2 ou demandar elevado consumo energético durante sua produção. Portanto, o autor levanta alguns requisitos para que o material seja, de fato, considerado ecológico:

  • Origem natural: materiais naturais são os melhores em relação à saúde humana;
  • Alta qualidade de isolamento: materiais que possuam boas propriedades de isolamento evitam consumo excessivo de energia (Bica et al., 2009, p.1).
  • Ser durável: quanto mais duradouro um material e mais fácil sua manutenção, maior a economia energética;
  • Não conter químicos nocivos: materiais tóxicos contribuem negativamente para a qualidade do ar;
  • Baixo nível de energia incorporada: como abordado antes, a energia incorporada é o resultado da carga energética necessária para a extração, processamento e transporte do material;
  • Disponibilidade próxima: quanto menor a distância do material, menor a quantidade de gases poluentes transmitidos à atmosfera;
  • Produção a partir de materiais reciclados: tais materiais contribuem para a diminuição de resíduos sólidos, do consumo energético e a preservação de recursos naturais.
Materiais de base biológica

Berge (2009, p.178), conforme citado por Santos (2013, p. 22), define as plantas como“recursos renováveis que podem ser cultivadas e colhidas numa base sustentável, sendo assim uma fonte de matérias-primas”. O uso de materiais com base biológica propicia a diminuição do impacto ambiental, através da redução de energia incorporada, emissões nocivas e na dependência de recursos não renováveis, além de oferecer isolamento tanto sonoro quanto acústico (Drzal et a, 2004). Há também os materiais combinados, derivados de produtos naturais. Fowler (2006) os define como biocompósitos. Segundo Eires (2006), existem materiais compósitos de betões de plantas fibrosas como o linho, trigo, cana-de-açúcar, algodão e cânhamo. Fernandes (2008) classifica as fibras de origem vegetal segundo a secção da planta: de folhas, caule, talo e sementes. A tabela abaixo, adaptada de Borjin (2009), mostra como o cânhamo, dentre diversos materiais fibrosos, apresenta uma vasta gama de aplicações, além de oferecer a produção de óleos através da semente.

Utilização de plantas fibrosas na construção.Utilização de plantas fibrosas na construção.Adaptado de Borjn, 2009, p. 194, apud SANTOS, 2013, p.23

O uso do cânhamo como material para construção

Eires (2010) reconhece que o betão do cânhamo pode ser aplicado desde coberturas a paredes interiores/exteriores, tornando-se possível substituir o tijolo tradicional, oferecendo alto nível de isolamento térmico e acústico. Para o autor (2010), o uso do cânhamo auxilia também na respiração natural da edificação, prevenindo a condensação do ambiente. Eires (2010) credita isso à capacidade de absorção e resistência à água da planta. As propriedades isolantes são resultado do elevado nível de porosidade e sílica da fibra. O material também apresenta alta flexibilidade e adaptação a movimentos, protegendo a estrutura de rachaduras, além de não ser inflamável e nem expelir agentes tóxicos. Em relação aos demais materiais fibrosos, o cânhamo obtém vantagem por ser resistente a fungos, pragas e bactérias. 

Isolamento de rolo e painel em cânhamo respectivamente.Isolamento de rolo e painel em cânhamo respectivamente. Mclaren (2006) e Geiger (2013)

Um exemplo da versatilidade do cânhamo em relação às suas possibilidades de uso é uma bicicleta desenvolvida pela empresa alemão Onyx Composites (2010). O engenheiro Nicolas Meyer, responsável pelo projeto, revela no site da empresa (2016) que o veículo é composto de fibras de cânhamo revestidas em corpos formados por caules de bambu. Meyer (2016) afirma que o produto comprovou ser possível  a utilização de biomateriais para projetar estruturas leves e resistentes à cargas, de forma a diminuir significativamente a emissão de CO2 e a energia incorporada na produção de quadros de bicicleta, em comparação com o alumínio e a fibra de carbono. As propriedades mecânicas da fibra do cânhamo podem ser comparadas as do alumínio. Como pode ser analisado na tabela abaixo, apesar da resistência à tração e a elasticidade dos materiais serem parecidas, a densidade da fibra vegetal é muito menor. Em relação à fibra de carbono, o cânhamo mantem uma densidade menor, porém a resistência à tração e elasticidade deste último material é bem maior. Para que seja possível desenvolver uma bicicleta de fibras de reforço naturais, é necessário, de acordo com Meyer (2016), que as forças de compressão devem ser convertidas em forças de tração que, aliadas à distinta forma da estrutura, produza uma energia muito mais concentrada a partir do peso do usuário. As imagens abaixo representam uma foto da bicicleta e a tabela de comparação do cânhamo com o alumínio e a fibra de carbono, respectivamente.  

Hemp bike e forças atuantes.Hemp bike e forças atuantes.Pelo autor, retirado de Onyx Composites.

Comparação do cânhamo com alumínio e fibra de carbono.Comparação do cânhamo com alumínio e fibra de carbono.Onyx Composites (2016)

A tabela abaixo compila os argumentos utilizados acima sobre a capacidade da fibra do cânhamo ser utilizada de maneira funcional em construções. Ao comparar com os requisitos de Bica (2009) sobre materiais ecológicos, pode-se concluir que o cânhamo atende aos quesitos. Os principais benefícios do material em relação ao consumo de energia e emissões de poluentes, tornam-o menos prejudicial ao meio ambiente, enquanto as propriedades como a baixa densidade e vasta margem de aplicação, fazem com que esse tipo de fibra possa ser aplicado para a construção de edificações leves de maneira variada. A segurança do material contra fogo e umidade aliada à elevada resistência e isolamento, fazem com que o cânhamo seja uma possível alternativa inovadora para uma abordagem sustentável de construção. Os preceitos de Lima (2006) para a seleção de materiais citados anteriormente, também são atendidos pela origem natural da fibra do cânhamo. 

Cânhamo na construção.Cânhamo na construção.Sousa (2013)

OBJETIVOS DA PESQUISA

Objetivo geral

Determinar os principais fatores e elementos para o desenvolvimento de abrigos humanitários.

Objetivos específicos

  • Mapear as necessidades dos atingidos por catástrofes naturais e sociais.
  • Identificar o público-alvo dos projetos de arquitetura humanitária.
  • Reunir os principais objetivos da construção de abrigos de emergência.
  • Utilizar o cânhamo como material alternativo para o projeto de abrigos humanitários.

Perguntas da pesquisa

  • Até que ponto os refugiados sírios podem estar envolvidos na montagem de abrigos de transição.
  • Esse envolvimento dos refugiados sírios pode atuar como fator positivo para a qualidade de vida através da agricultura do cânhamo, visando a construção de seus abrigos humanitários.
  • O cânhamo possui qualidades que propiciem seu uso para a construção de habitações temporárias
  • O cânhamo pode ser utilizado como diferencial redutor de custos para o produção de abrigos para refugiados.
  • De que maneira o cânhamo pode estar envolvido no processo de elaboração de abrigos de emergência.

Metodologia de pesquisa

De acordo com Prates e Barbosa (2003), para definir a metodologia a ser utilizada, deve-se conhecer os meios disponíveis e o objetivo da avaliação. Os autores também explicam as principais diferenças entre os métodos possíveis: a etapa do ciclo de design em que é aplicada (durante o desenvolvimento ou após ter o produto pronto), a técnica de coleta de dados, os tipos de dados coletados (qualitativos ou quantitativos) e o tipo de análise feito (prevenção de problemas ou interpretação de dados obtidos). 

Conforme Preece (1994), a avaliação de etapas de design é dividida em duas classes: as que são feitas durante o desenvolvimento do projeto, conhecidas como formativas e a somativa, que é feita após a conclusão do produto. O autor afirma que a vantagem de realizar uma avaliação formativa é que eventuais problemas podem ser detectados com antecedência. Esse argumento é embasado por Karat (1993), explicando que quanto mais cedo no ciclo de design um problema é identificado e consertado, menor o custo das alterações no produto final. 

Em relação à técnica de coleta de dados, dentre diversas opções, Prates e Barbosa (2003) identificam a coleta de opinião de especialistas quando não houver possibilidade da participação de usuários ou o custo de envolvimento for muito elevado. A opinião de um especialista da área consiste no exame do campo de interação, identificando possíveis problemas e dificuldades que os usuários possam vir a enfrentar. Quanto aos tipos de informações coletadas, Prates e Barbosa (2003) argumentam que os dados podem ser quantitativos (numéricos) ou qualitativos (não-numéricos. Por fim, os autores classificam os tipos de análises em três segmentos diferentes:

  • Análise prediletiva: realizada quando os avaliadores “ao analisarem os dados coletados de especialistas, tentam prever que tipos de problemas os usuários enfrentarão” (Prates e Barbosa, 2003, p. 97).
  • Análise interpretativa: realizada quando os avaliadores “ao analisarem os dados coletados a partir da interação do usuário com o sistema, procuram explicar os fenômenos que ocorreram durante  a interação” (Prates e Barbosa, 2003, p. 97).
  • Análise experimental: referente a dados coletados em ambientes controlados, como laboratórios. Essa análise difere-se da interpretativa pois as variáveis manipuladas são conhecidas.

Dessa maneira, será desenvolvida uma pesquisa descritiva que, de acordo com Barros e Lehfeld (2007), é aquela que a análise dos registros e a interpretação dos dados não sofrem interferência do pesquisador, como, por exemplo, pesquisas de mercado e opinião. Conforme Perovano (2014), esse tipo de pesquisa aborda a questão dos estudos de caso em que, após a coleta de dados, é desenvolvida uma análise entre as relações das variáveis com o objetivo de trazer à tona as consequências mediantes o produto em desenvolvimento. O estudo de caso realizado no trabalho tem como objetivo analisar o uso do cânhamo para construção de habitações, comparando-a com uma casa feita através de recursos tradicionais e relacionando os resultados com a teoria trazida ao trabalho.

PESQUISA DE CAMPO

Para o presente trabalho, fez-se importante ver como o cânhamo se relaciona de maneira prática com a teoria apresentada. O caso estudado é um projeto desenvolvido na Grã-Bretanha, em que foi comparado o desempenho do material com os da construção convencional. A Suffolk House Society iniciou o projeto devido à necessidade de trabalhar com soluções inovadoras para construções sustentáveis, após o arquiteto Ralph Carpenter voltar de uma viagem à França, onde se deparou com casas construídas a partir do cânhamo (Harbay, 2005). Com o apoio de entidades como St. Edmundsbury Borough Concil, a produtora de cânhamo Chenevolette Habitat e a HL2, produtora de cal hidráulico, foi financiada a pesquisa Building Research Estabilishment (BRE), com o intuito de avaliar o desempenho dessas habitações.

Localizadas na cidade de Haverhill, Inglaterra, as casas foram construídas pela Suffolk House Society em uma zona social em desenvolvimento. O projeto foi constituído da construção de 18 casas, sendo duas delas feitas utilizando o cânhamo como material principal, tornando-se assim as primeiras edificações na Grã-Bretanha que fizeram uso desse insumo (Yates, 2002). O grande objetivo desse projeto, de acordo com a SHS, foi a identificação das vantagens ambientais dessas casas, através do emprego de materiais ecológicos altamente sustentáveis, além de demonstrar que a construção à base de cânhamo e cal oferece uma alternativa com baixa energia incorporada e estendido ciclo de vida em relação à construção convencional. Aspectos importantes em relação às propriedades dos materiais, como argumentado no capítulo anterior por Lima (2006) e Bica (2009) também foram estudados. Dessa forma, foi possível analisar as qualidades mecânicas, o desempenho acústico e térmico, a permeabilidade e a durabilidade, além da geração de resíduos, impacto ambiental e respectivos custos (Suffolk House Society, 2013).

A construção

Das 18 casas construídas, o foco do estudo foram apenas 4. Duas delas sendo de materiais tradicionais e duas à base de cânhamo. Constituídas por dois andares, a construção convencional possuía paredes externas de tijolos e internas de lã de rocha e blocos de betão enquanto as outras utilizavam estruturas de madeira, cal hidráulica e o cânhamo como material principal (Clarke, 2002). 

O projeto foi iniciado em novembro de 2000, após diversos atrasos devido à condição climática da época. Os resíduos gerados foram avaliados durante a construção, além de ter todo processo monitorado em tempo real, sendo mantido também registros fotográficos. Foi a primeira experiência com cânhamo das equipes responsáveis, não havendo, portanto, referências (Yates, 2002). Sendo assim, o acompanhamento e o registro de imagens, que ficaram a cargo da BRE, se fizeram importantes à medida que o projeto ia avançando (Yates, 2002). É importante mencionar que, devido às más condições climáticas, nem todo o processo pode ser monitorado e fotografado.

Os estudos relativos ao isolamento térmico tiveram a duração de 4 meses, para que pudesse ser feita a verificação da temperatura mantida internamente nas casas. Em relação ao desempenho acústico, foram realizados testes nos quartos, sala de estar e cozinha. Também foram desenvolvidos exames sobre outras propriedades em respeito à resistência mecânica e permeabilidade do betão do cânhamo. Tais testes, de acordo com Yates (2002), foram constituídos a partir da penetração da água nas paredes de cânhamo e cal. Quatro amostras de 20cm foram moldadas para formar um muro de ensaio sendo, em seguida, revestidas por cal e deixadas para secar, durante o período de testes. As amostras foram submetidas a equipamentos de pulverização de água, com o objetivo de simular chuvas e ventos, testando assim a resistência do material em relação à permeabilidade (Yates, 2002).

As fundações das casas foram feitas através do uso do betão do cânhamo, finalizadas por uma camada de tijolos à vista. As estruturas de madeira foram montadas no local e colocadas ajuda de um guindaste e, em seguida, posicionado o esqueleto do telhado (Suffolk House Society, 2013).

Fundação e estrutura das casas de cânhamo.Fundação e estrutura das casas de cânhamo.Pelo autor, com base em Suffolk House Society (2013)

As paredes constituíam do preenchimento do betão de cânhamo nas estruturas montadas, tendo a mistura dos materiais sido feita no próprio local. O cerne lenhoso da planta, a cal hidráulica e água foram utilizados para esse fim (Suffolk House Society, 2013). A cal também forneceu uma proteção para a estrutura de madeira, uma vez que ela impede a degradação da mesma (Yates, 2002). Com as paredes construídas em camadas finalizadas, a próxima etapa constituiu na elaboração de cofragens para que o betão do cânhamo, tendo o processo sido realizado tanto à mão quando por equipamentos próprios para a finalidade. Após a retiragem das cofragens, deu-se início o processo de desenvolvimento do piso, formado pelo concreto da planta revestido por tijoleira, colados por cal e areia, para que o pavimento pudesse respirar (Suffolk House Society, 2013). Com o intuito de aprimorar o isolamento acústico, foi utilizado o betão da planta entre as vigas de madeira.

Preenchimento de cofragens e aspecto final da parede.Preenchimento de cofragens e aspecto final da parede.Pelo autor, baseado em Suffolk House Society (2013)

Piso e isolamento da casa, respectivamente.Piso e isolamento da casa, respectivamente.Pelo autor, retirado de Suffolk House Society.

O término das construções, em dezembro de 2001), fez com que duas casas fossem mantidas inabitadas para controle, uma à base de cânhamo e outra tradicional. Por quatro meses, as casas vazias foram submetidas a testes relativos ao desempenho térmico, acústico, umidade e consumo de energia. A Building Research Estabilishment ficou encarregada da realização de todos os estudos.

AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS

Durante o período de testes, as casas de cânhamo não apresentaram problemas referentes à estrutura e durabilidade. Os estudos demonstraram que o material é capaz de suportar condições climáticas intensas, desde que haja revestimento de cal e areia, segundo a BRE. A armação de madeira é responsável por absorver forças  de esmagamento, de modo que a parede de cânhamo não seja afetada. Em relação ao piso, foi possível afirmar que o teor de areia e o revestimento de cal hidráulica tornam-o mais rígido. Inspeções realizadas após seis meses do término do projeto identificaram pequenas rachaduras em algumas janelas. Yates (2002) credita isso ao assentamento e à secagem, porém não é um problema de difícil solução. Pode-se concluir, no geral, que no quesito de durabilidade e qualidade estrutural, as casas de cânhamo não ficaram atrás dos métodos tradicionais.

Os testes de desempenho mecânico realizados pela BRE foram realizados com amostras não retiradas das construções, com base em Yates (2002). Os resultados obtidos foram considerados satisfatórios, uma vez que, tratando-se de um material leve, não se fazia necessária uma elevada resistência à compressão. A rigidez fornecida pelo revestimento de areia do piso garantiu uma menor deformação em relação às paredes. Após os testes simulados de permeabilidade, foi possível concluir que, após 96 horas, a parede de 20 cm de espessura absorveu apenas de 5 cm. Dessa forma, Yates (2002) afirma que o cânhamo oferece total proteção à penetração de água.

A monitoração dos resíduos gerados indicou que o material escavado para as casas de cânhamo foi 50% menor, o que representa uma considerável diminuição. Os refugos eram basicamente compostos por embalagens e madeira restante dos processos de estruturação. Em relação às casas convencionais, as sobras eram restos de tijolos, caixas e blocos de betão. A quantidade de resíduos das casas de cânhamo geraram 22,1 m³, enquanto as tradicionais, 31,8 m³ (Yates, 2002). Portanto, pode-se concluir que a técnica inovadora fornece uma alternativa mais ecológica, lembrando que os resíduos por serem de origem natural, causam menos impacto ambiental (Suffolk House Society, 2013).

O desempenho acústico foi testado antes da ocupação das casas. As paredes de cânhamo registraram uma diminuição de 6 decibéis em relação as de material tradicional, conforme Eires (2008). Isso quer dizer que foi um desempenho inferior, porém ainda satisfatório, uma vez que o material cumpre os requisitos. O isolamento térmico foi estudado durante quatro meses, revelando que as casas de cânhamo mantinham um ou dois graus acima da construção convencional. Testes termográficos ofereceram uma base para o fluxo térmico, ao captar imagens infravermelho da frente e da traseira das casas, de modo a revelar qualquer perda de temperatura através de paredes e janelas (Yates, 2002). O inverno, época em que foram realizados os testes, abrange as maiores mudanças térmicas entre o ar interior e exterior da habitação. Os moradores foram solicitados a ligarem o aquecimento a 20ºC antes do início dos testes às 20h30min, estendendo-se até às 10h30min (Yates, 2002). 

Vista frontal da habitação tradicional e de cânhamo, respectivamente.Vista frontal da habitação tradicional e de cânhamo, respectivamente.Pelo autor, retirado de Suffolk House Society.

Os resultados apontaram uma perda significativa de calor através das paredes e janelas da casa tradicional em relação às de cânhamo. As imagens termográficas abaixo revelam que as paredes externas da primeira estão a uma temperatura mais elevada, cerca de 4ºC a 6ºC, o que significa que houve maior perda de calor (Yates, 2003). Dessa forma, chega-se a conclusão de que as paredes externas de cânhamo são capazes de reter mais temperatura que as tradicionais (Yates, 2003). Rhydwen (2010) credita isso à inércia térmica, que possibilita a troca de temperatura em períodos mais quentes e frios, agindo como uma reguladora climático, liberando calor gradualmente para o interior da casa. A perda de temperatura das casas convencionais configura em um maior gasto energético para manter o ambiente interior adequado (Yates, 2003). Para comprovar a resistência ao fogo do betão do cânhamo, amostras foram submetidas a quatro horas de temperaturas acima de 1800ºC, não sendo verificada nenhuma degradação material ao longo do perído (Yates, 2002).

Desempenho térmicoDesempenho térmicoYates (2003).

O custo de produção das casas de cânhamo foi de 64.000 euros, enquanto  as tradicionais, 40.000 euros. Porém Busbridge (2009) relata que esse valor pode não ser definitivo, uma vez que não havia experiência nenhuma nesse tipo de construção por parte das equipes responsáveis, ou seja, nenhuma base de apoio. Após a finalização da obra, pode-se concluir que as horas trabalhadas para a construção das casas em cânhamo foi cerca de 60% maior em comparação com a construção de casas tradicionais, embora os custos tenham aumentado apenas 10% devido à economia realizada ao utilizar materiais de construção de baixo custo aplicados na construção em cânhamo. Dessa maneira, é possível prever que, com a prática dos métodos utilizados na construção em cânhamo, é provável que o processo de construção possa ser acelerado, reduzindo custos (Bursbridge, 2009).

O argumento de Bursbridge (2009) foi comprovado pois, com o término da segunda casa de cânhamo, o tempo levado foi consideravelmente menor, devido ao aprendizado obtido. A Suffolk Housing Society (2013) estima que o custo do metro quadrado da construção em cânhamo tenha sido de 613 euros, enquanto das casas convencionais, 557 euros o m². O quadro abaixo representa uma síntese do desempenho do cânhamo como material de construção para habitações, após o resultado dos testes submetidos.

Desempenho do cânhamo na construção.Desempenho do cânhamo na construção.O autor (2016)

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Durante o período de testes, as casas de cânhamo não apresentaram problemas referentes à estrutura e durabilidade. Os estudos demonstraram que o material é capaz de suportar condições climáticas intensas, desde que haja revestimento de cal e areia, segundo a BRE. A armação de madeira é responsável por absorver forças  de esmagamento, de modo que a parede de cânhamo não seja afetada. Em relação ao piso, foi possível afirmar que o teor de areia e o revestimento de cal hidráulica tornam-o mais rígido. Inspeções realizadas após seis meses do término do projeto identificaram pequenas rachaduras em algumas janelas. Yates (2002) credita isso ao assentamento e à secagem, porém não é um problema de difícil solução. Pode-se concluir, no geral, que no quesito de durabilidade e qualidade estrutural, as casas de cânhamo não ficaram atrás dos métodos tradicionais.

Os testes de desempenho mecânico realizados pela BRE foram realizados com amostras não retiradas das construções, com base em Yates (2002). Os resultados obtidos foram considerados satisfatórios, uma vez que, tratando-se de um material leve, não se fazia necessária uma elevada resistência à compressão. A rigidez fornecida pelo revestimento de areia do piso garantiu uma menor deformação em relação às paredes. Após os testes simulados de permeabilidade, foi possível concluir que, após 96 horas, a parede de 20 cm de espessura absorveu apenas de 5 cm. Dessa forma, Yates (2002) afirma que o cânhamo oferece total proteção à penetração de água.

A monitoração dos resíduos gerados indicou que o material escavado para as casas de cânhamo foi 50% menor, o que representa uma considerável diminuição. Os refugos eram basicamente compostos por embalagens e madeira restante dos processos de estruturação. Em relação às casas convencionais, as sobras eram restos de tijolos, caixas e blocos de betão. A quantidade de resíduos das casas de cânhamo geraram 22,1 m³, enquanto as tradicionais, 31,8 m³ (Yates, 2002). Portanto, pode-se concluir que a técnica inovadora fornece uma alternativa mais ecológica, lembrando que os resíduos por serem de origem natural, causam menos impacto ambiental (Suffolk House Society, 2013).

O desempenho acústico foi testado antes da ocupação das casas. As paredes de cânhamo registraram uma diminuição de 6 decibéis em relação as de material tradicional, conforme Eires (2008). Isso quer dizer que foi um desempenho inferior, porém ainda satisfatório, uma vez que o material cumpre os requisitos. O isolamento térmico foi estudado durante quatro meses, revelando que as casas de cânhamo mantinham um ou dois graus acima da construção convencional. Testes termográficos ofereceram uma base para o fluxo térmico, ao captar imagens infravermelho da frente e da traseira das casas, de modo a revelar qualquer perda de temperatura através de paredes e janelas (Yates, 2002). O inverno, época em que foram realizados os testes, abrange as maiores mudanças térmicas entre o ar interior e exterior da habitação. Os moradores foram solicitados a ligarem o aquecimento a 20ºC antes do início dos testes às 20h30min, estendendo-se até às 10h30min (Yates, 2002). 

Vista frontal da habitação tradicional e de cânhamo, respectivamente.Vista frontal da habitação tradicional e de cânhamo, respectivamente.Pelo autor, retirado de Suffolk House Society.

Os resultados apontaram uma perda significativa de calor através das paredes e janelas da casa tradicional em relação às de cânhamo. As imagens termográficas abaixo revelam que as paredes externas da primeira estão a uma temperatura mais elevada, cerca de 4ºC a 6ºC, o que significa que houve maior perda de calor (Yates, 2003). Dessa forma, chega-se a conclusão de que as paredes externas de cânhamo são capazes de reter mais temperatura que as tradicionais (Yates, 2003). Rhydwen (2010) credita isso à inércia térmica, que possibilita a troca de temperatura em períodos mais quentes e frios, agindo como uma reguladora climático, liberando calor gradualmente para o interior da casa. A perda de temperatura das casas convencionais configura em um maior gasto energético para manter o ambiente interior adequado (Yates, 2003). Para comprovar a resistência ao fogo do betão do cânhamo, amostras foram submetidas a quatro horas de temperaturas acima de 1800ºC, não sendo verificada nenhuma degradação material ao longo do perído (Yates, 2002).

Desempenho térmicoDesempenho térmicoYates (2003).

O custo de produção das casas de cânhamo foi de 64.000 euros, enquanto  as tradicionais, 40.000 euros. Porém Busbridge (2009) relata que esse valor pode não ser definitivo, uma vez que não havia experiência nenhuma nesse tipo de construção por parte das equipes responsáveis, ou seja, nenhuma base de apoio. Após a finalização da obra, pode-se concluir que as horas trabalhadas para a construção das casas em cânhamo foi cerca de 60% maior em comparação com a construção de casas tradicionais, embora os custos tenham aumentado apenas 10% devido à economia realizada ao utilizar materiais de construção de baixo custo aplicados na construção em cânhamo. Dessa maneira, é possível prever que, com a prática dos métodos utilizados na construção em cânhamo, é provável que o processo de construção possa ser acelerado, reduzindo custos (Bursbridge, 2009).

O argumento de Bursbridge (2009) foi comprovado pois, com o término da segunda casa de cânhamo, o tempo levado foi consideravelmente menor, devido ao aprendizado obtido. A Suffolk Housing Society (2013) estima que o custo do metro quadrado da construção em cânhamo tenha sido de 613 euros, enquanto das casas convencionais, 557 euros o m². O quadro abaixo representa uma síntese do desempenho do cânhamo como material de construção para habitações, após o resultado dos testes submetidos.

Desempenho do cânhamo na construção.Desempenho do cânhamo na construção.Santos (2013)

Considerações finais

Com o cenário atual de deslocamento global e a respectiva necessidade de explorar técnicas sustentáveis para evitar o impacto negativo ao meio ambiente, o presente trabalho trouxe à tona a questão dos refugiados sírios. Essas pessoas, devido a conflitos sociais em seu país de origem, veem-se obrigadas a largarem tudo e mudarem de país para se manterem vivos. Como visto, ter um abrigo é um direito primordial de qualquer ser humano porém, com o déficit nos fundos de desenvolvimento dessas estruturas, muitas pessoas correm o risco de ficarem sem essa proteção. Dessa maneira, foi estudada a possibilidade de reutilizar um material, que por muito tempo foi tratado como tabu, cujo resquício de uso remonta há sociedades milenares. O material em questão é o cânhamo, uma variedade de cannabis sem as propriedades psicotrópicas, portanto não podendo ser utilizado como substância recreativa. Este trabalho visou estudar o cânhamo no âmbito industrial, embora seja possível utilizá-lo até mesmo como alimento.

 Ao comparar três distintos abrigos, com características diferentes, foi possível identificar fatores que, juntos, possam impactar positivamente na vida dos refugiados, que necessitam de amparo psicológico também. A partir disso, foi identificado que o uso de cores e materiais que transmitam uma sensação de natureza tem a capacidade de atuar como fator favorável à qualidade de vida, uma vez que fazem com que a transição a um novo lar torne-se mais natural, diminuindo a sensação de segregação. Tendo em vista que, conforme Davis (1980, p. 158), o” abrigo tem que ser considerado como um processo, não como um objeto”, fez-se necessário analisar o completo ciclo de vida das estruturas, de modo a identificar particularidades das alternativas selecionadas que atendam aos requisitos tanto do ecodesign, do design para sustentabilidade, ergonomia e MDFA. Ficou evidente que o abrigo Paper Log House, feito à partir de tubos de papelão, por fazer uso de materiais reutilizados e doados, representa uma alternativa mais barata, com menos peças e, consequentemente, fazendo com que a montagem seja muito mais rápida e fácil. 

Ao analisar o estudo de caso, foi possível concluir que o cânhamo representa uma alternativa que cumpre os requisitos ergonômicos de Tilley (2005) e tem a capacidade de ser utilizado como material estrutural que atenda o checklist disposto pelo livro Transitional Shelters (2011), da IRFC. Em relação ao design para fabricação e montagem, o cânhamo oferece uma rapidez de crescimento de forma muito mais limpa e a construção mais rústica fornece uma simplificação de montagem, podendo ser feita pelos próprios refugiados, uma vez que não requer necessariamente máquinas para a produção de peças à partir da fibra da planta. 

 A extração de matéria prima é um aspecto muito importante tendo em vista o cenário atual. A planta do cânhamo oferece, mais uma vez, uma opção versátil e ecológica. Dessa maneira, uma vez que possa ser cultivado, irá requerer menos processos logísticos também, pois poderá ser feito em proximidade com o local onde estão alocados os refugiados. O material atende, com base na teoria e caso prático, aos requisitos de seleção de materiais por parte de Lima (2006) e Bica (2009), oferecendo propriedades resistentes à umidade, tração e compressão, além de qualidades naturais de isolamento térmico e acústico, o que culmina em uma menor carga de energia incorporada. Ao comparar o cânhamo com demais materiais fibrosos utilizados industrialmente, pode-se perceber que ele fornece mais variedade de uso e mínimo de refugo, além de não precisar de pesticidas e abrindo margem para desenvolvimento de estruturas leves e resistentes. Portanto, pode-se afirmar que o cânhamo realmente é uma alternativa válida que atende a diversos requisitos ergonômicos e sustentáveis, oferecendo proteção aos refugiados, resistência, durabilidade e ciclo de vida extremamente sustentável.

Apesar de não haver pesquisas referentes, a possibilidade de utilizar a mão-de-obra dos próprios refugiados na agricultura, manejo e construção dos abrigos tem tudo que é preciso para um mútuo desenvolvimento entre eles e o país hospedeiro. Essa abordagem pode ajudar a influenciar positivamente o aspecto psicológico dos atingidos, uma vez que, conforme evidenciado no capítulo Justificativa, a ação de deslocamento impacta negativamente essa perspectiva. O perfil dos refugiados revela um certo nível de instrução e estudo para tal, sendo de extrema importância que eles sintam-se parte do ambiente. No quadro abaixo, foram estabelecidos os requisitos projetuais. Back (2008) afirma que esse processo consiste em relacionar os três principais tópicos: necessidades do usuário, requisitos do usuário e os atributos.

Requisitos projetuais.Requisitos projetuais.Pelo autor.

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