ESQUIZOFRENIA:  O DELÍRIO COMO POSSIBILIDADE DE RESSIGNIFICAÇÃO

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO

ESQUIZOFRENIA O DELÍRIO COMO POSSIBILIDADE DE RESSIGNIFICAÇÃO

aNNA BEATRIZ VILAÇA FREIRE DE VASCONÇELOS

ELINE MACHADO GOMES

MARIA GABRIELA DE MELO CORREIA

MATEUS PEREIRA DO NASCIMENTO

NATHÁLIA DECA BRAZIL LINS

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Introdução

Com este trabalho, pretendemos promover uma reflexão a respeito da importância do delírio na esquizofrenia e sua relação com o dizer esquizofrênico. Tivemos como motivação uma curiosidade compartilhada pelo grupo sobre as psicoses, em especial a esquizofrenia, por ser um tema de alta complexidade e cercado por muitos tabus e estigmas, mas que se faz necessário o entendimento para nós como futuros profissionais da psicologia e também como sujeitos inseridos num mundo pluralizado.

Partimos de pesquisas em produções literárias de Sigmund Freud, que foi um importante teórico que desenvolveu pensamentos sobre o inconsciente, a partir das neuroses e psicoses. Com isso, procuramos compreender a estrutura psíquica da psicose e adentrar no mundo da linguagem da esquizofrenia, tomando como base os escritos do psicanalista Jacques Lacan que aprimorou os conceitos de Freud e se apropriou e adaptou conceitos da linguística saussuriana a fim de concretizar sua teoria. Além disso, abordaremos brevemente, em contraposição à teoria psicanalítica, a forma como a psicologia analítica, desenvolvida por Carl Jung, compreende a esquizofrenia.

 Diante disso, vamos explorar o sentido do funcionamento do delírio, tal como sua relação com o significante, tendo em vista que é a partir dela que o delírio pode ou não se apresentar. Iniciaremos esse trabalho contextualizando e conceituando a esquizofrenia. Posteriormente, explicaremos a mesma pelas duas abordagens supracitadas; adiante, esclarecemos a questão do delírio e seu poder de cura e ressignificação. Finalizando o trabalho, explicitamos as formas de tratamento da esquizofrenia.

Em suma, o objetivo da presente produção é comprovar a possibilidade da metáfora delirante surgir como uma forma de apaziguamento da angústia que o portador de esquizofrenia apresenta e de como a mesma é a oportunidade do sujeito mudar sua posição perante o quadro clínico e conseguir ressignificá-lo.

introdução a esquizofreniA

Contexto histórico da esquizofrenia

Originalmente, a esquizofrenia era chamada de demência precoce. A denominação foi dada no início do século XIX pelo psiquiatra alemão Emil Kraeplin, já que a esquizofrenia muitas vezes causa uma grande incapacidade no indivíduo. Primeiramente, a até então demência precoce foi distinguida da demência nos idosos, o que hoje chamamos de Alzheimer. Em seguida, foi diferenciada da doença maníaco-depressiva, já que a demência precoce (esquizofrenia) foi observada como mais persistente, enquanto a doença maníaco-depressiva foi observada como algo mais eventual. No início do século XX, a demência precoce foi rebatizada pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuer com o nome de esquizofrenia. Bleuer era diretor da clínica de Rheinan, em Zurique, tinha Carl Jung como seu assistente, e apresentou o termo pela primeira vez em sua monografia "Demência precoce ou o grupo das esquizofrenias”. O termo esquizofrenia significa uma mente fragmentada, ou seja, uma fragmentação das diferentes funções psíquicas, que é um dos principais sintomas da doença. Por muito tempo, os pacientes diagnosticados com esquizofrenia eram internados nos chamados manicômios, onde eram submetidos a tratamentos desumanos e torturantes, como isolamento, lobotomia, terapia de eletrochoque, etc. Com a luta antimanicomial, que no Brasil teve início no final da década de 70, durante o período da redemocratização do país, os tratamentos aos esquizofrênicos e as pessoas que sofrem de outras doenças mentais vêm evoluindo, e assim, se tornando mais humanos.

O que é A ESQUIZOFRENIA

A esquizofrenia é a maior e a mais complexa de todas as psicoses. Essa doença psiquiátrica causa alterações no funcionamento da mente, distúrbio dos pensamentos e emoções, alterações comportamentais, etc. Os sintomas geralmente aparecem entre os 15 e os 35 anos, inicio da fase adulta e fim da adolescência. Segundo a neurociência, a esquizofrenia pode muitas vezes ser resultante de um desequilíbrio hormonal no cérebro, especialmente pelos altos níveis de dopamina. Os sintomas são divididos em positivos e negativos. Os sintomas positivos são mais ligados aos delírios e alucinações, e geralmente se acentuam mais durante os surtos psicóticos. Entre eles, estão as alucinações, os delírios, a desordem do pensamento, as alterações motoras, entre outros. Já os sintomas negativos são mais ligados a fase crônica da doença, e podem ser exemplificados com o embotamento afetivo, a alogia, a anedonia, entre outros.

 Os delírios e alucinações, citados anteriormente como sintomas positivos da esquizofrenia, são frequentemente relatados em conjunto, porém, não são sinônimos. Os delírios são crenças que o indivíduo esquizofrênico tem, uma certeza de algo mesmo que não haja nenhuma evidência para aquilo. Por exemplo, o delírio persecutório, onde o indivíduo acredita que uma pessoa ou um grupo de pessoas estão perseguindo-o para prejudicá-lo; o delírio de grandeza, onde a pessoa acredita ser muito rica, muito famosa, ter poderes sobrenaturais, etc.; entre outros. Já as alucinações estão ligadas às sensopercepções, ou seja, coisas que não estão lá mas o indivíduo acredita que são reais, já que ele não consegue diferenciar o interno do exterior e real. Por exemplo, ouvir vozes (alucinações auditivas), ver imagens/pessoas (alucinações visuais), etc.

OS SUBTIPOS DA ESQUIZOFRENIA

 Devido aos diversos sintomas da esquizofrenia, ela foi dividida em subtipos para facilitar os estudos e a compreensão sobre o tema. Ei-los:

1. Esquizofrenia paranoide: caracterizada principalmente pelos delírios e pelas alucinações.

2. Esquizofrenia simples: caracterizado principalmente pelo afastamento da realidade e das pessoas.

3. Esquizofrenia catatônica: caracterizada principalmente pela regressão motora.

4. Esquizofrenia indiferenciada: não se encaixa nos outros subtipos, pois apresenta sintomas de mais de um deles, sem predominância.

5. Esquizofrenia residual: estágio crônico onde os sintomas negativos são predominantes.

6. Esquizofrenia hebefrênica: caracterizada principalmente pela dificuldade na organização dos pensamentos. Este é o subtipo que mais prejudica o discurso do indivíduo.

7. Depressão pós-esquizofrenia: episódio depressivo que ocorre após um surto esquizofrênico.

8. Outras esquizofrenias: quadros que não se encaixam nos relatados na literatura.

 

  BASES TEÓRICAS 

Neste capitulo veremos como a psicanálise desenvolveu suas teorias sobre a linguagem e as psicoses, mais especificamente sobre a esquizofrenia. Começou com as ideias de Freud sobre as psicoses no estudo de caso de Schreber, e depois com Lacan que faz um retorno a Freud aprimorando a teoria do seu mestre com os estudos da linguista saussuriana, fazendo um estudo mais detalhado e profundo dentro da psicanalise; assim, ele foi fazendo sua base teórica.  

EXPLICAÇÃO PELA PSICANÁLISE

A teoria de Freud explica o narcisismo como uma atitude que decorre da separação da libido do mundo exterior e de sua direção para o ego. Contudo, a psicose se torna um tipo de narcisismo em grande medida, onde o ego é visto como um objeto e superinvestido libidinalmente. A esquizofrenia tem essa retirada do desejo sexual do mundo exterior, podendo levar a duas possibilidades: megalomania ou uma hipocondria. Para Freud, todos os casos por ele estudados tinham como plano de fundo uma defesa contra o desejo homossexual que se desenvolveu em razão de algum tipo de frustração. O caso de Schreber era visto diante de suas tentativas não serem alcançadas, ou seja, a de ter um filho, e assim, continuar com a linhagem dos Schreber. Portanto, não é o desejo homossexual em sua própria significância que é o gerador do delírio, mas sim uma falta de capacidade para sublimá-lo socialmente. Na vida cotidiana, as pessoas sempre isolam seus desejos sexuais, mas não adoecem, ou seja, não há formação delirante. Isso acontece porque o desejo sexual é retirado e logo é reinvestido em outros objetos. Na psicose, as libidos retiradas de objetos externos não são reinvestidas imediatamente, mas, em vez disso, retornam a pontos específicos onde as libidos se desenvolveram e as reparam, levando a sintomas de megalomania e hipocondria.

Freud apontou que na esquizofrenia e na paranoia têm pontos de olhar diferentes. Na esquizofrenia, a regressão da libido sofre um narcisismo, resultando em megalomania, mas se estende ainda mais e retorna ao autoerotismo infantil no mais "completo abandono do amor objetal". A depressão se manifesta com o retorno ao autoerotismo, que será o ponto fixo da esquizofrenia e, na paranoia, o ponto fixo é o narcisismo. Porém, mesmo em estado de paranoia, o desejo sexual pode retornar ao primeiro estágio de desenvolvimento, causando as manifestações da esquizofrenia. Ele escreveu que, quando a pessoa com esquizofrenia retirava seus desejos sexuais das pessoas e coisas, elas não os substituíam por outras pessoas na fantasia, como pacientes histéricos e obsessivo-compulsivos. Sem o intermediário da fantasia, o desejo sexual retorna diretamente ao corpo.

Na esquizofrenia, a libido afasta-se do externo e focaliza no ego, isso é um traço característico, e as alucinações serão uma tentativa de reconstrução, ”fazer um curativo” que será aprofundado mais no próximo tópico, devolvendo essa energia sexual ao seu objeto. Podemos afirmar que, segundo Freud, embora as alucinações sejam vivenciadas pelos sujeitos de forma invasiva, é uma forma possível de estabilizar o quadro clínico, não tão proeminente quanto à sensação de fragmentação e humilhação.

EXPLICAÇÃO PELA TEORIA LACANIANA

Considerando, portanto, a visão e reflexão lacaniana para explicar tal realidade e situação existencial no indivíduo, Lacan parte da elaboração do conceito de foraclusão para explicar a psicose humana. Um sentido primeiro consiste em perceber que acontece uma abolição de um direito que não foi exercido num prazo legalmente determinado. Contudo, Lacan utiliza da metáfora o Nome-do-Pai para mostrar que há uma perda da possibilidade edípica e com isso, a perda da simbolização juntamente com o fracasso do sujeito.

 Vale salientar que outra característica centrada em Lacan, consiste no processo de estruturação da linguagem em que a figura lendária da entrada no Édipo leva a neurose. Mas, para haver um fracasso na figura paterna é considerado o entendimento em que a linguagem, sim, merece toda atenção por se desdobrar em três tempos essenciais como a questão da alienação onde a criança está totalmente entregue à sedução da Mãe. No segundo ponto, a imagem do Pai é vista como o que estraga a relação mãe e filho porque limita a ação da mãe. E, assim, se expressa a imagem do em Nome-do-Pai que impõe uma ordem, a ordem da linguagem e a ordem simbólica. Num terceiro momento, a criança percebe-se castrada como sua mãe e, por isso lhe vem o desejo. Mas, no entanto, o Pai continua sendo o interditor da Mãe em seu gozo desmedido.

O Nome-do-Pai é responsável pela organização da cadeia de significantes a partir da articulação entre S1 e S2. No entanto, na psicose, devido a não incidência do Nome-do-Pai e a não instituição da lei fálica no simbólico, a relação do sujeito com o S1 se diferencia do que se vê na neurose. Se tratando de esquizofrenia não há S1 e, com isso, não há organização da cadeia a partir de uma matriz simbólica.

 Lacan traz em sua teoria após suas experiências na clínica, o nó borromeano, que é uma tríade de onde o psicanalista faz uma ligação entre os anéis do Real, Imaginário e o Simbólico, onde o real é aquilo que não tem sentido. O imaginário é o campo do sentido e o simbólico onde fica a linguagem, que seria o campo do duplo sentido. Vemos que no esquizofrênico como acontece a foraclusão da metáfora paterna, a pessoa não consegue atingir o campo organizado do simbólico e, assim ele fica de encontro com o real, em forma de não pertencente a uma linguagem própria, alienando-se no sujeito.

 Diante dessa realidade, ocorre a psicose pelo fracasso da metáfora paterna. Assim acontece no comprometimento na assunção de um sujeito faltoso, castrado e limitado, um sujeito de pura linguagem. Assim se entende que não é efetivamente de castração que trata a psicose. Para Lacan, a castração diz respeito ao fato de que “o gozo seja recusado para que possa ser atingido na escala invertida da lei a todo aquele que fala”. Então, Lacan separa definitivamente da castração o Édipo da interdição. (BRITO, 2012, p.71).

 O que se pode afirmar também é que o psicótico é alienado no Outro devido a ausência do Nome-do-Pai, e é a partir da relação com o Outro que se constitui o Eu. Por outro lado, na paranoia registra-se a força do imaginário, sobressaindo-se a alienação do Eu, que culmina na exacerbação do sentido. Mas, é na esquizofrenia que ocorre a dissolução do imaginário, envolvendo o corpo e o Eu voltando à questão do estádio do espelho.

 Não se pode olvidar, que as alucinações auditivas e/ou psicomotoras são próprias do automatismo mental. O automatismo mental é um fenômeno primordial que constitui a fundação onde se pode construir uma variedade de delírios secundários, assim como as percepções sensoriais alteradas. Logo, o delírio não aparece de início, apenas como adicional e só mais tarde que eles se iniciarão.

 Contudo, o sujeito psicótico termina sendo dominado pelas influências do Outro. E a eclosão da psicose poderá constituir um delírio e, a partir daí, pode ocorrer a passagem da esquizofrenia para a paranoia. A esquizofrenia é do registro do real e a paranoia é do registro do imaginário.

O CONTRAPONTO DA PSICOLOGIA ANALÍTICA   

O psiquiatra Carl G Jung que fez residência no Hospital Burghölzli na Suíça, com o Dr. Eugen Bleuler. Bleuler, foi quem fez a troca da concepção de demência precoce para o de esquizofrenia, Jung desenvolveu um estudo fundamental trabalhando com o Dr. Bleur nesse hospital, pois foi a partir daí que ele chegou ao pensamento da existência de mitologemas (elemento mínimo reconhecível de um complexo de material mítico, que é continuamente revisto, reformulado e reorganizado, mas que na essência permanece, de fato, a mesma história primordial) através da análise dos delírios de seus enfermos. Esses mitologemas mostraram uma esperada ancestralidade igual para as manifestações positivas da esquizofrenia. No pensamento junguiano há uma reflexão se a enfermidade é originada por situações orgânicas ou psicológicas. Entretanto ele afirma que existem fatores chaves que podem desencadear assim como, choques emocionais abruptos, fortes decepções, situações de carga emocional pesada, mudança de vidas etc. Jung, então, preferiu considerar as diversas provas de uma primeira lacuna na função psíquica, ocorrida na infância do enfermo, assim necessário na psicogênese das enfermidades psíquicas, como Freud afirmava. No pensamento de Jung, os delírios esquizofrênicos não têm causa por conta de uma limitação total da atenção ou da consciência, entretanto são dependentes de uma carga emocional muito forte, que a presença por si só não apresenta um sinal esquizofrênico. Este complexo pareceria ao de uma neurose, porém, com uma força sem uma estrutura, com um domínio maior, que remeteria por exageros e acréscimos fantásticos. Assim então, poucos casos de desequilíbrios mentais são por problemas naturais, Jung pensou que as toxinas e deformações físicas seriam produzidas em segundo plano por um forte complexo afetivo.

Com essa observação e reflexão fez com que o Jung chegasse a conclusão de um inconsciente coletivo. O “Símbolos da transformação” livro escrito por Jung e de importância para com sua ruptura e distanciamento com Freud, pois foi nesse livro em que Jung encontrou suas primeiras discordâncias com seu mestre sobre então a teoria da libido, onde ele conseguiu enxergar que a libido não se restringia apenas as energias sexuais e sim uma energia muito mais ampla e profunda. Nesse livro, Jung descreve os delírios e alucinações de um de seus pacientes: “O doente vê no sol um membro ereto. Quando balança a cabeça para um e outro lado, o pênis solar também oscila numa e noutra direção, e daí se origina o vento” (p. 89. §151). Na hora Jung não entendeu essa alucinação do seu paciente. Depois de muito tempo, ele estava estudando textos da liturgia de Mitra que foram traduzidos, e observou atentamente que o delírio de seu paciente era extremamente parecidos com os textos. Isso fez com que ele formulasse o conceito de arquétipos, assim então o explicando como uma “predisposição funcional para produzir ideias iguais ou parecidas”. O paciente não tinha conhecimento sobre o idioma grego e na época que ele falou, o texto ainda não tinha sido traduzido. O que nos faz atentar que seu paciente não tinha conhecimento dessa liturgia e quando expressou seu delírio descrevendo algo que já tinha conhecimento ou que se tratava de um algo relacionado a criptomnésia (memória oculta, memória inconsciente ou a memória ancestral) . Esse caso teve uma grande atenção de Jung, entretanto, somente após varias observações e estudos de casos dessas mitologemas em contos de fadas, mitos, delírios, fantasias e até mesmo nos sonhos que Jung conclui a sua teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo.

 

O Delírio

O QUE É O DELÍRIO 

Neste capítulo, falaremos sobre o delírio, sua relação com a esquizofrenia e seu poder de cura. Antes de tudo, a palavra “delírio” deriva do latim e significa estar fora do lugar, de modo geral, o delírio é uma ideia ou um pensamento que não corresponde à realidade. Para a psiquiatria, o delírio é uma convicção, uma crença errônea e ilusória que, apesar de haver evidências concretas de que não é algo verdadeiro, ainda é mantida por um paciente. Então, quando o indivíduo está delirando, ele aparenta estar falando coisas que não tem absolutamente nenhum sentido. Há vários tipos de delírio, sendo os mais comuns os persecutórios, os relacionados ao pensamento e os de referência. Por exemplo, uma pessoa acredita que está sendo espionada e perseguida por uma instituição; que outras pessoas conseguem ler sua mente e divulgar seus pensamentos; que tudo ao seu redor é destinada a ela, exemplo: uma notícia, uma letra de música e até mesmo duas pessoas conversando entre si.

O delírio na esquizofrenia

É importante deixar claro que o delírio não é exclusivo da estrutura psicótica, ele também pode estar presente na estrutura neurótica, visto que Freud deixa claro que quando sonhamos, deliramos. Entretanto, esse trabalho tem foco no delírio psicótico, pois ele possui uma função muito relevante, já que pode ser considerado uma tentativa de explicação e de cura para o sujeito. Antes de abordarmos o delírio propriamente dito, é interessante explicar o porquê dele ocorrer, por isso precisamos esclarecer que um indivíduo pode apresentar uma das três estruturas clínicas: neurose, psicose ou perversão. Neste trabalho, focaremos na psicose, mas estabeleceremos comparações com a neurose.

A literatura de Lacan nos mostra que o indivíduo não tem poder de escolha em relação a tais estruturas, ou seja, a estrutura clínica do indivíduo não depende da vontade consciente do mesmo, já que, o que determinará tal formação é a linguagem e como o indivíduo assimilará os desdobramentos da mesma. Outro ponto muito importante sobre as estruturas clínicas, é que elas estão estreitamente relacionadas ao significante que Lacan chama de Nome-do-Pai, que já foi abordado anteriormente.

Freud, em suas obras, explicita que tanto na neurose quanto na psicose o sujeito, ao se deparar com situações ou desejos que não consegue suportar, tenta fugir da realidade, o que as difere então, é o mecanismo utilizado. Na neurose, o indivíduo entende e reconhece a existência da realidade, mas ignora e a reprime por meio de um mecanismo de defesa do Ego denominado recalque, que basicamente é responsável por deslocar materiais conscientes para o inconsciente. Porém, há um fracasso desse mecanismo e todo e qualquer material que foi recalcado, que foi deslocado para o inconsciente, insiste em reaparecer para o sujeito, de forma que ele tenha consciência. Mas não reaparece de qualquer forma, aparece simbolicamente, por meio das fantasias. As fantasias são criações da imaginação que de certo modo, têm o intuito de satisfazer o indivíduo, já que não é possível realizar tais desejos na realidade. Elas funcionam então, como mediadoras do encontro do indivíduo com o real (Lacan), com o desconhecido, o obscuro. Isso tudo acontece devido ao significante Nome-do-Pai e seu devido significado - de castração simbólica, de frustração - ter sido apresentado ao neurótico, o que possibilitou uma organização em relação aos significantes e consequentemente, o assujeitamento e o entendimento de que ele é um sujeito de desejos e de faltas.

 Na estrutura neurótica, têm-se o recalque e a fantasia, na estrutura psicótica têm-se então o mecanismo de defesa do Ego denominado foraclusão ou forclusão e o delírio. Na psicose, mais precisamente na esquizofrenia, ao contrário do que ocorre na neurose, o significante do Nome-do-Pai não é incluído, é foracluído, eis aí o que impossibilita o estabelecimento da estrutura neurótica, estabelecendo-se então, uma estrutura psicótica. A psicose, é marcada por uma dispersão, uma desorganização dos significantes, visto que, não é possível haver o encadeamento de significantes, uma vez que o Nome-do-Pai que é o responsável pela possibilidade de correspondência foi foracluído. Diferente do neurótico, que habita a linguagem, o psicótico, nesse caso o esquizofrênico, é habitado pela mesma (Quinet, 2009). Em relação à realidade, o psicótico não a compreende e por isso, a repudia. Ele acaba criando uma paralela, de um jeito que faça sentido para ele, é aí que ele constrói uma realidade delirante como uma tentativa de barrar a chuva de significantes que lhe invadem. O sintoma aparece então como uma metáfora delirante, como o delírio, que é uma tentativa de reconstituição de uma realidade e de pacificação do indivíduo em relação aos inúmeros elementos tangíveis que apoderam o mesmo, ou seja, uma tentativa de aliviar o sujeito perante a desordem de significantes em que ele se encontra na linguagem. Os delírios na esquizofrenia são mais associados ao corpo, já que o mesmo é invadido pelo o real. Isso pode ser explicado pelo psicótico ser alienado em relação ao Outro, por ele não ter conseguido sair da primeira fase do que Lacan chama de Estádio do Espelho, uma fase em que não há reconhecimento do Eu e em consequência, tanto do seu próprio corpo, quanto da linguagem. Então, é comum que uma pessoa com esquizofrenia delire e pense que está desaparecendo, que está se despedaçando. Além disso, quando entende-se a relação linguagem-metáfora delirante deve-se pontuar que, apesar do falar esquizofrênico ser variável entre os portadores, observa-se a mesma força organizadora, a fim de que eles consigam ser estruturados pela linguagem, pelo simbólico (Lacan, 1956-1957).

O delírio na esquizofrenia como possibilidade de ressignificação

O caso Schreber, analisado por Freud através dos escritos do paciente, em que o mesmo tem um pensamento ligado ao desejo homossexual que resulta em distorções mentais a respeito do corpo, é um clássico quando fala-se em psicoses. Isso se dá pela quebra, possibilitada pelo caso, da visão apenas psicopatológica do transtorno e por apresentar agora o delírio atrelado a um desejo rejeitado (Freud 1911), ou seja, o sujeito saindo de uma posição de objeto passivo e assumindo a de ativo, na defesa contra um desejo e na estabilização do quadro. Temos como exemplo o relato de caso presente no texto: O sujeito psicótico e a função do delírio, de Raquel Briggs e Dóris Rinaldi. Roberto, protagonista da trama e portador do espectro esquizofrênico, passou por situações delicadas e não claras relacionadas à criminalidade que quase resultou em sua morte, assim, não sendo visto pela sociedade com bons olhos. O delírio para ele apresentou-se, como no caso Schreber, pelo rumo ativo que o sujeito adquire através da crença de que ele era responsável pelas chuvas, denominando-se de “Santo Roberto”; Ou seja, nesse momento há o investimento libidinal em si mesmo, pelo qual se torna necessária a construção de um laço - não recíproco - entre o sujeito e o grande Outro, a fim de confirmar e assegurar a sua existência, a permanência da sua verdade, como Paul Schreber se identificando como “mulher de Deus”. Em relação a conexão do eu com o Outro, o sujeito psicótico vai precisar estabelecer essa relação para caucionar essa saída da passividade a fim de se tornar ativo, ou o mais próximo disso; Contudo, ao mesmo tempo em que o delírio surge como uma tentativa de aproximação a uma lei, mesmo que essa não seja partilhada socialmente, o mesmo provoca uma enorme separação entre o considerado patológico e o normal - gerando assim, um preconceito em torno tanto da doença quanto do portador da mesma.

Diante disso, se faz possível a análise de que no caso de Roberto, o delírio de santidade se opõe ao significante marginalizado atrelado a ele, assim, o mesmo utiliza do delírio como uma forma de pacificação do gozo do Outro. Logo, a discrepância entre a imagem do eu e a imagem do ideal atua como ponto de partida para o desabrochamento da psicose, surgindo o delírio como uma possibilidade de pôr para fora - de cura, não no sentido de assolar mas no de curativo - ademais de ressignificação, ou seja, de uma ligação entre o eu e o ideal.

 

O tratamento no processo de ressignificação

Os medicamentos

Como anteriormente mencionado, a esquizofrenia possui sintomas negativos e positivos. Se tratando dos principais sintomas positivos (delírios e alucinações), os medicamentos, chamados de antipsicóticos têm evoluído bastante, contribuindo com a diminuição de tais sintomas, causando cada vez menos efeitos colaterais. A forma como eles atuam no organismo é bloqueando os receptores de dopamina nos neurônios, produzindo um equilíbrio desse hormônio no cérebro. 

   Dentro dos antipsicóticos, existem os medicamentos de primeira geração, e os de segunda. Os da primeira geração são mais antigos, por não haver seletividade, bloqueiam quase que toda a dopamina, ocasionando em sintomas colaterais semelhantes ao Parkinson, ou seja, a pessoa fica com tremores, dificuldade motora, anda de forma mais lenta, uma medicação muito conhecida desse grupo é o haloperidol. 

   As medicações de segunda geração possuem efeito colateral reduzido, mas ainda assim, requerem atenção, pois podem ocasionar o aumento de peso, ou seja, ao paciente que fizer uso de medicamentos da segunda geração é indicado um acompanhamento nutricional e o estímulo de exercícios físicos, alguns dos medicamentos são a quetiapina, olanzapina e ziprasidona. 

   A terceira opção, e talvez não tão conhecida, são as medicações injetáveis, também conhecidas como medicação de depósito, feitas apenas uma vez ao mês. As mesmas podem ser mais utilizadas por pacientes com baixa adesão, que apresentam empecilhos para tomar a medicação via oral diariamente. 

   Assim como no acompanhamento psicológico, no tratamento psiquiátrico o envolvimento familiar é fundamental, e pode ser um fator decisivo para a adesão do paciente ao tratamento. É preciso que os familiares entendam a doença, os sintomas, e de fato apoiem o sujeito nesse processo. Já existem estudos comprovando que os pacientes com um bom aporte familiar obtêm respostas melhores e a diminuição de crises.

A clínica psicanalítica

Antes de pensar o funcionamento de uma clínica psicanalítica com pessoas esquizofrênicas, é preciso traçar parâmetros do funcionamento da própria clínica, juntamente com limitações naturais que a doença causará no paciente em questão.  

  O termo esquizofrenia (chizo = divisão, cisão; phrenos = mente) nos apresenta a grande questão, a essência do paciente esquizofrênico: a fragmentação, estamos falando de pessoas “despedaçadas”, incapazes de acessar o simbólico, fazendo se manifestar no real, ou seja, permanecem alienados ao imaginário. Esse despedaçamento acontece, por não existir a quebra da relação simbiótica entre mãe e bebê, seja por um impedimento da mãe, ou por falta de um encargo do pai (diga-se, quem execute tal função), que exerceria o papel da norma, da lei. Por não haver essa quebra, não se torna possível que o indivíduo se veja como alguém separado, diferente de sua mãe, não se torna possível a existência de um “eu individualizado”, ele permanece envolvido ao desejo do Outro (nesse caso, a mãe). 

    Compreendendo que houve a foraclusão e como consequência disso não tornando possível concretizar o enodamento com as três instâncias (real, simbólico, imaginário), ocasionando assim, esse despedaçamento, se torna claro que a intervenção dessa clínica vai ocorrer de forma diferente. Partindo do princípio que a angústia é muito presente na clínica psicanalítica, afinal, essa angústia move o sujeito a mudar, evoluir, e este consegue dar sentido a ela, através do simbólico. Se tratando de um indivíduo esquizofrênico, a angústia deve ser evitada, pois, é vivida de forma diferente pelos mesmos, que já se encontram assim, se sentem partidos, de alguma forma incompletos, ou seja, ao invés de ocasionar a angústia, o trabalho vai ser inverso: procurar trabalha-lá e se possível, diminuí-la, até porque, o aumento dela poderia levar ao delírio, ou a mais crises. Outro ponto fundamental é compreender as limitações deste paciente, ou seja, a ele não vai ser possível justamente dar sentido às angústias, nem simbolizar, ou fazer grandes reflexões. Mas, isso não quer dizer, que não possa fazer evoluções a respeito do quadro clínico, pelo contrário, é praticável que o paciente consiga lidar melhor consigo mesmo e com sua condição, entendendo e respeitando seus limites e possíveis gatilhos.

     Dentro do processamento do esquizofrênico, os acontecimentos se manifestam no campo do real, ocasionando os delírios e alucinações. Quanto aos delírios, o ideal é que o psicólogo procure trazer esse paciente para os fatos reais, se realmente seria possível, por exemplo, que alguém que o ama tanto, planejasse lhe fazer mal. Como já dito antes, não é possível simbolizar, ou mesmo “ir na raiz” de tais concepções, com o intuito de destrinchar as possíveis causas de alguns pensamentos, sendo assim, o trabalho do psicólogo vai ser também o de legitimar esse discurso psicótico, em outras palavras: “eu não vejo o que você diz, mas eu acredito que você está vendo”. Ainda no campo do delírio, uma mudança necessária e recomendada, é de que o paciente não se deite no divã, ao esquizofrênico, é preciso ter o contato visual, dessa forma, possíveis delírios podem ser evitados. 

    Quando nos referimos a esquizofrenia, entendemos suas causas psicológicas/emocionais, mas jamais poderemos descartar o funcionamento biológico dessa doença, por isso, um psicanalista não pode sozinho realizar o trabalho de ressignificação com esse paciente. Por haver a produção excessiva de dopamina, é necessário que aconteça o uso de medicamentos para impedir que os receptores neurais a absorvam, contribuindo assim, para a diminuição desses sintomas positivos, auxiliando a fluidez do tratamento. Portanto, se faz necessária a harmonia entre tratamento psicológico e psiquiátrico para melhores resultados no freamento desta doença, visto que não é possível extingui-la. 

   Um aspecto que se mantém quando se trata de uma pessoa psicótica ou não, é que o envolvimento familiar é necessário dentro de qualquer tratamento terapêutico e também psiquiátrico. O comprometimento da família vai ser fundamental para que todos possam compreender os limites do paciente em questão, a melhor forma de lidar com ele, estimulá-lo e etc. Além disso, apesar de muita evolução sobre esse assunto, de tudo se tornar mais claro, sabemos que ainda existe muito preconceito, falta de conhecimento e ignorância sobre a esquizofrenia e tantas outras doenças psiquiátricas. Vista disso, é preciso que a família se abra ao processo, de inclusive, quebrar preconceitos, e às vezes, a vergonha de falar com naturalidade que possui um parente com esse caso clínico. Além de poder legitimar, assim como o psicólogo os sintomas, em lugar de colocá-lo com pessoa desconectada, “louca”, delirante, melhor é assumir o papel de: “eu não ouço essa voz, mas eu acredito que você ouve”. 

  Levantadas as particularidades de um paciente esquizofrênico, e posto as diversas alterações necessárias dentro da clínica psicanalítica, se torna claro que é possível esse tipo de acompanhamento apresentar resultados positivos, e que a principal variante vai ser o trato do psicólogo, psiquiatra e família em legitimar esse paciente, respeitar suas limitações, estimulá-lo em seu processo e acatar o seu tempo.

A CLÍNICA DA PSICOLOGIA ANALÍTICA 

A clínica analítica tem uma forma mais flexível, natural e até mesmo mais humanista que a psicanálise clássica, onde o cliente fica de frente para o terapeuta e, assim o paciente consegue ter mais confiança e conforto para com o profissional. Neste tipo de terapia, os psicóticos têm uma liberdade maior para se movimentar e se expressar, fazendo com que seus pensamentos saiam de forma mais leve, realizando algumas de suas vontades, como desenhar ou pintar, bem como na arte terapia que vai ser tratada mais à frente. Com isso, o psicólogo junguiano vai buscando uma forma de interpretar suas falas, desenhos e ações por meio de simbologias, ao mesmo tempo, correlacionando com arquétipos que indicam a existência de um inconsciente coletivo. Como foi visto, Jung e seus discípulos perceberam que na esquizofrenia, por ser uma doença incurável e que é muito difícil de regredir, o terapeuta faz com que o paciente possa ter um maior controle e organização psíquica para poder se comunicar e viver com uma maior independência e qualidade de vida. 

ARTETERAPIA

No tópico 3 do presente trabalho, vimos que o delírio é uma tentativa de cura do sujeito esquizofrênico. A arte também pode auxiliar o sujeito no processo de pacificação dos sintomas. Por isso, neste tópico falaremos sobre a arteterapia, que é um recurso que utiliza a expressão artística para fins terapêuticos e para expressão da subjetividade, partindo da noção de que diversas vezes a linguagem artística consegue refletir nossas questões interiores de uma maneira mais eficaz do que verbalmente. Para que se tornasse um campo de atuação, como é hoje em dia, foram necessárias contribuições da psicanálise e da psicologia analítica. Freud não chegou a desenvolver profundamente sobre o assunto ou aplicá-lo em em sua clínica, mas ao analisar obras de arte, como as de Michelangelo, ele observou como elas poderiam expressar manifestações do inconsciente do artista, e eram uma forma de comunicação simbólica que tinham uma função catártica. Para Freud, assim como nos sonhos, o inconsciente também se manifesta nas imagens produzidas pelo indivíduo, sendo uma forma de sublimação das pulsões. Já Jung aplicou de fato a linguagem artística no contexto terapêutico, inclusive em sua clínica, onde ele muitas vezes sugeria que seus pacientes desenhassem e/ou pintassem sobre seus sonhos, sentimentos, conflitos emocionais, etc. Isso porque ele considerava a criatividade artística algo natural e estruturante para a função psíquica. Jung acreditava que o processo de cura estava em dar forma para os conteúdos inconscientes, transformando-os em imagens simbólicas; assim, o homem poderia organizar seu caos interior usando a arte.

No contexto nacional, podemos dar destaque a Nise da Silveira e a Osório César, precursores da arteterapia de base junguiana e psicanalítica, respectivamente, no Brasil. Os dois eram defensores de uma nova abordagem para a esquizofrenia, diferente da que era dada na época com eletrochoque e manicômios. Osório era um psiquiatra que analisava os desenhos, pinturas, esculturas e poesias dos pacientes psicóticos do hospital onde trabalhava, o Hospital Psiquiátrico de Juqueri (que está em processo de desativação a décadas). Esse assunto foi abordado em sua principal obra, "A Expressão Artística nos Alienados". A imagem a seguir é uma das obras, sem título, produzida por uma paciente esquizofrênica, Aurora, que recebia acompanhamento de Osório no Hospital do Juqueri. Em sua análise sobre esta paciente, Osório comenta que a verborragia e criação de neologismo sonoros com alucinações auditivas aparecem em suas telas através das frases e nomes inscritos.

Figura 1 — Sem título , s.d , Aurora
Sem título , s.d , AuroraReprodução fotográfica autoria desconhecida

Nise também foi um nome de grande destaque na arteterapia, e várias obras de seus pacientes estão até hoje exibidas no Museu de Imagens do Inconsciente. Para Nise, a expressão artística no meio terapêutico permitia que o paciente expressasse vivências que o mesmo tinha dificuldades de expressar verbalmente e acabavam em seus inconscientes, em um espaço fora do alcance da elaboração racional, e com o acompanhamento terapêutico se torna possível o entendimento das conexões entre o que foi expresso artisticamente e o que está sendo vivenciado emocionalmente pelo indivíduo. Do ponto de vista junguiano, seguido por Nise, essas imagens poderiam ser também uma expressão de imagens arquetípicas que tem origem no inconsciente. Na imagem a seguir a seguir vemos um exemplo de obra produzida por uma das pacientes de Nise, Maria de Lourdes, onde a psiquiatra identificou um dos maiores exemplos de imagens arquetípicas, os mitos. Para Nise, essa ilustração retrata o mito de Dafne, uma ninfa grega, que por ser frequentemente assediada pelo deus Apolo, pediu para que seu pai, o rei Peneu, a transformasse em uma planta, o loureiro, para que essa perseguição tivesse fim. Segundo Nise, esse mito no inconsciente representa uma dificuldade dessa paciente em se estruturar subjetivamente como mulher, um temor a respeito da sua realização como ser feminino.

Figura 2 — Hidrocor sobre papel, 22,0x29,0 cm, por Maria de Lourdes Simões
Hidrocor sobre papel, 22,0x29,0 cm, por Maria de Lourdes SimõesO Mundo das Imagens - Nise da Silveira

CONCLUSÃO

O principal objetivo deste trabalho foi analisar de que forma o delírio seria uma maneira de amenizar a angústia sofrida pelo paciente portador da esquizofrenia. A partir de teóricos psicanalistas como Freud, que iniciou os estudos acerca das psicoses, e Lacan, o grande freudiano, que aprofundou sua teoria, acrescentou conceitos da linguística e com isso, conseguiu abordar com mais propriedade o tema da esquizofrenia. Além disso, procuramos enfatizar contrapontos entre a psicanálise e a psicologia analítica de Jung, e por meio disso, explorar como funcionam os recursos terapêuticos dentro de cada abordagem frente ao tratamento da esquizofrenia, como a Arteterapia de base Junguiana e de base psicanalítica, que no Brasil teve grandes nomes como Nise da Silveira e Osório César, respectivamente.

Para fortalecer nossa base teórica, realizamos três entrevistas com profissionais que nos trouxeram grandes contribuições sobre o tema. O psiquiatra Moab Acioli, que nos trouxe esclarecimentos sobre o tratamento psiquiátrico com esquizofrênicos; a psicóloga Joana Caldas, que tem como base clínica a psicanálise lacaniana e mestrado pautado na teoria lacaniana, e nos esclareceu sobre a visão de Lacan a respeito da esquizofrenia e a sua clínica; e o psicanalista de base freudiana Éder Galiza, que compartilhou conosco o ponto de vista freudiano sobre a esquizofrenia e a sua clínica.

 Concluímos que, quando falamos de uma pessoa com esquizofrenia, estamos nos referindo a um sujeito com enorme sofrimento psíquico, alguém que se encontra verdadeiramente despedaçado, desconectado, e nós, como futuros psicólogos, precisamos nos preparar para acolher essas pessoas, legitimá-las em sua dor e estarmos dispostos a promover a quebra do preconceito em volta da esquizofrenia e tantas outras formas de psicose, através do esclarecimento acerca do assunto, frente a nossos familiares, amigos, etc. Ao longo deste trabalho, pudemos descobrir formas de atuação onde o trabalho do psicólogo se faz fundamental. Visto que este criará a ponte entre o portador de esquizofrenia e o mundo, o ajudará a lidar consigo mesmo, descobrir seus limites, qualidades, capacidades e contribuir para que esses sujeitos possam viver de forma mais saudável e realizada possível. 

Referências

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