ELEIÇÕES E AS FAKE NEWS

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

ELEIÇÕES E AS FAKE NEWS

GLAUCO NOGUEIRA SANTOS

Orientador:
Pablo Victor Fontes Santos

Resumo

Numa Era Digital, diversos países lidam com os múltiplos impactos dos meios de comunicação, sobretudo a partir do advento da Fake News, no âmbito social-político. Nesse sentido, este trabalho se propõe a investigar e problematizar o papel e o impacto das fake news quanto a forma e o conteúdo que podem ou não moldar, o pensamento dos diversos públicos referente a situações sócio-políticas, especificamente em cenários eleitorais. Portanto, o artigo realiza uma análise comparativa entre as eleições de 2016 nos Estados Unidos, que elegeram Donald Trump para presidente da república estadunidense e o cenário eleitoral brasileiro do ano de 2018, a partir da figura política do candidato Jair Bolsonaro. Tem-se como problema de pesquisa a seguinte questão: De que modo, as Fakes News que influenciaram o eleitorado estunidense nas eleições de 2016 pode contribuir para vítótia ou não do candidato Jair Bolsanaro na eleição para presidente do Brasil em 2018? Metodologicamente, o artigo está amparado a luz da teoria crítica em combinação com alguns estudos teóricos midiáticos na área da Tecnologia da Informação e da Comunicação. O artigo faz uso da análise de conteúdo do discurso das notícias divulgadas pela plataforma do candidato do Jair Bolsonaro via facebook vis-a-vis ao candidato Donald Trump durante o processo eleitoral para a presidencia em 2018. 

Palavras-chave: Fake News. Donald Trump. Jair Bolsonaro. Teoria Crítica. Análise de Conteúdo de Discurso.

Abstract

On a digital age, several countries deal with multiple impacts upon the means of communication, mainly with the advance of the Fake News usage, on a social political scope. In this sence, this work propound to investigate and criticise the role and impact of Fake News regarding form and content that can or cannot shape thinking of various groups relative to social political situations, specially in electoral scenarios. Therefore, the work itself, realizes a comparative analysis between the 2016 US elections, that elected Donald Trump as United States’s president and on the other hand, the 2018 brazilian electoral scenario, that elected jair Bolsonaro. The reasearch problem is based on the question: How the Fake News usage, that influenced US electorate on 2016 elections contributed or not in the victory of the candidate Jair Bolsonaro on 2018 Brazilian elections? Methodologically, this work is supported by Critical Theory in combination with some Mediatic Theoretical Studies  in the area of Information and Communication Technology. The work also use Speech Content Analysis on the speeches contained in news publicized by the political platform of Jair Bolsonaro on Facebook vis-a-vis Donald Trump during the electoral process for presidency on 2018.

Keywords: Fake News. Donald Trump. Jair Bolsonaro. Critical Theory. Speech Content Analysis

Introdução

Numa Era Digital, diversos países lidam com os múltiplos impactos dos meios de comunicação, sobretudo a partir do advento da fake news, no âmbito social-político. As fake news, são: “[…] notícias que não possuem base factual, mas são apresentadas como fatos” (ALLCOTT e GENTZKOW, 2017, p. 5, tradução nossa). Nesse sentido, este trabalho monográfico se propõe a investigar e problematizar o papel e o impacto das fake news quanto à forma e o conteúdo que podem ou não moldar, o pensamento dos diversos públicos referente a situações sócio-políticas, especificamente em cenários eleitorais. Portanto, a monografia realiza uma análise comparativa entre as eleições de 2016 nos Estados Unidos, que elegeram Donald Trump para presidente da república estadunidense e o cenário eleitoral brasileiro do ano de 2018, a partir da figura política do candidato Jair Bolsonaro. Pretende-se analisar o período anterior a um mês do dia da eleição, tanto para o processo eleitoral do agora presidente estadunidense, em outubro de 2016, quanto para o processo eleitoral brasileiro, que na data desse projeto ainda está por vir, ou seja, setembro de 2018.

Tem-se como problema de pesquisa a seguinte questão: De que modo, as fake news que influenciaram o eleitorado estunidense nas eleições de 2016 pode contribuir para vitoria ou não do candidato Jair Bolsanaro na eleição para presidente do Brasil em 2018? Metodologicamente, o artigo está amparado numa combinação de estilo teórico entre as áreas das Relações Internacionais, Ciência Política (Comportamento Eleitoral e Representação) e os estudos da Comunicação Social, principalmente, a luz da teoria crítica vis-à-vis aos estudos teóricos na área da Tecnologia da Informação e da Comunicação. Nesse sentido, cabe destacar que a monografia será composta por três capítulos. Para o capítulo I, separa-se o estudo das eleições, representação e mídia. No capítulo II têm-se redes sociais, opinião pública e fake news; e por fim no capítulo III, reserva-se espaço para análise de conteúdo de discurso em perspectiva comparada. A monografia faz uso da análise de conteúdo do discurso das notícias divulgadas pela plataforma do candidato do Jair Bolsonaro via Facebook vis-à-vis ao candidato Donald Trump durante o processo eleitoral para a presidência em 2018.

Para fins desse projeto, não cabe esmiuçar o debate que ronda o conceito de verdade e sua importância para os indivíduos humanos. Cabe aqui, trazer que existem diferentes pensamentos sobre a temática e que a princípio, exemplificar-lhe-ei o pensamento de Al-Rodhan. “Veritas, ou verdade, e os fatos são cruciais para humanidade e indispensáveis para tomada de decisão efetiva e finalmente, para o progresso humano” (AL-RODHAN, 2017). Apesar dessa máxima, registros de notícias com conteúdo enganoso são datadas, tão longe quanto o século VI, informação apontada numa reportagem da filial brasileira do El País, escrita por Robert Darnton (2017), usando como exemplo um livro escrito por Procópio, um historiador do império Bizantino, para afetar negativamente a reputação do imperador Justiniano. Logo, parte-se da premissa de que notícias falsas circulam desde os primórdios da comunicação humana. Porém, com o avanço e a popularização das tecnologias de comunicação e da internet, o espalhar dessas notícias enganosas tem um alcance maior. Através dos estudos de Philip Howard (2006), é possível observar já no ano de 2006, preocupação no que se refere à possibilidade de manipulação da opinião pública e disseminação de informações políticas enganadoras (apud BESSI e FERRARA, 2016). Bessi e Ferrara (2016), complementam que essas preocupações foram provadas como verdadeiras através dos estudos de Ratkiewicz et al. (2011a; 2011b), Metaxas e Mustafaraj (2012), El-Khalili (2013), Ferrara (2015), Woolley e Howard (2016), e Shorey e Howard (2016); e que pontuam que, partindo dos estudos de Aral e Walker (2010), é preocupante que as mídias sociais, como twitter e Facebook, se mostraram efetivas em influenciar indivíduos, tanto com notícias, quanto com fake news, que por sua vez, podem espalhar narrativas que podem fomentar um discurso político, tanto enaltecendo, quanto desgastando a credibilidade da imagem de candidatos (as) a cargos políticos, espalhando inverdades sobre ideologias e sobre lutas de minorias sociais.

O interessante de se estudar o papel das mídias sociais em propagar notícias falsas é que de acordo com Adamic e Glance (2005), a análise de Ratkiewicz et al. (2011), pontua que juntamente com o crescente uso de redes sociais, aumentou também “[…] a utilização dessas plataformas para discutir situações de interesse público, uma vez que oferecem oportunidades sem precedentes de aumento da participação e acesso à informação entre o público conectado à internet” (Adamic et Glance, 2005, apud Ratkiewicz et al., 2011, tradução nossa, p. 297). Os questionamentos que surgem é se as mídias sociais são um terreno fértil para a publicação e disseminação de inverdades; se o processo de globalização tem a capacidade de potencializar a transferência de conteúdo, seja este, verdade ou não; se o advento da tecnologia que possibilitou o surgimento de social bots; ou todos esses fatores em conjunto, auxiliaram na proliferação das fake news. Todavia, notório é que as mesmas têm “uma estrutura dramaticamente diferente do que as tecnologias midiáticas anteriores” (ALLCOTT e GENTZKOW, p. 211, 2017). Assim, o conteúdo falso pode ser passado adiante, sem “[…] filtragem de terceiros, checagem de fatos ou julgamento editorial.” (ALLCOTT e GENTZKOW, p. 211, 2017). Allcott e Gentzkow (2017) concluem apresentando que: “um só usuário sem histórico ou reputação, pode, em alguns casos, alcançar tantos leitores quanto Fox News, CNN ou o New York Times”.

Existem algumas possíveis explicações do porquê as pessoas se sentem compelidas a acreditar e compartilhar notícias falsas, e uma delas passa pelo entendimento de que vivemos numa era da pós-verdade, definida pelo dicionário da Oxford (2016) como uma situação onde fatos e verdades são menos relevantes para a construção da opinião pública do que situações e informações que apelem ao emocional e/ou crenças pessoais. Essa explicação ajuda a entender um cenário que, nos Estados Unidos, fez com que existisse um grande número de publicações com informações falsas com conteúdo favorável ao, na época, candidato à presidência e atualmente presidente de facto, Donald J. Trump e que dado a propagação do mesmo tipo de notícias aqui no Brasil focando em outros presidenciáveis, podem ou não, causar impactos nas eleições de 2018. E é a possibilidade de relação causal entre esses dois cenários, no Brasil e nos Estados Unidos, que se pretende analisar neste trabalho. Importante salientar que quanto ao conceito de pós-verdade, existem autores que não concordam com sua utilização, pois parte do princípio de que existe uma verdade absoluta. Nas palavras de Hannah Arendt:

A verdade de facto, pelo contrário, é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado. É política por natureza. (ARENDT, 1967, tradução de Manuel Alberto)

representação, eleições e mídia

Qual a importância de eleições no regime democrático? as vezes, perguntas como essa podem ser interpretadas como desenxabidas num primeiro momento, entretanto, se mostra importante refletir com certa regularidade sobre suas implicações no cotidiano, seja a curto, médio ou longo prazo, visando, acima de tudo, a participação plena no processo político, e para além disso, essa pergunta permitirá a realização de uma ponderação pertinente ao core desta monografia, afinal, somente ao entender quais as particularidades de ambos os regimes dos Estados Unidos e do Brasil, poder-se-á fazer uma comparação justa, para analisar a fundo se as fake news influenciaram nas eleições presidenciais. Partindo dessa premissa, se mostra pertinente apresentar a visão de Mancini e Swanson (1996, pg.01) em que as “Eleições são períodos críticos nas democracias. Elas selecionam decisores políticos, moldam políticas, distribuem poder, providenciam locais para debate e expressões sociais sobre descontentamento, problemas nacionais e diretrizes, pautas internacionais e atividades”. Por tal razão, se faz de suma importância, investigar processos e situações que podem mitigar o caráter de igualdade e justiça do sistema eleitoral e é nesse contexto em que se nota com maior clareza o objeto de estudo: as fake news. A questão primordial se materializa ao se indagar que caso atores no Sistema Político eleitoral recorressem à utilização de notícias falsas, os mesmos ganhariam vantagens em relação àqueles que não utilizaram do meio referido?

 Para alcançar o cerne deste questionamento, parto da limitação à países que aderiram a regimes democráticos, uma vez que a dinâmica do uso de notícias e histórias falsas, se apresenta de maneira distinta em Estados que adotam diferentes estilos de regime, utilizo-me de regimes autoritários como exemplo para ilustrar meu ponto. Posteriormente, se faz necessário entender o quão diferente é o processo político dos países que encabeçam os casos, Estados Unidos e Brasil, ambos repúblicas federativas presidencialistas, e democracias, porém, com visões distintas para como elegem seus representantes. O processo eleitoral brasileiro é explicado no Título IV, Capítulo II, Seção I, artigo 77 da Constituição Federal de 1988, explicitando a eleição do Presidente da República e do Vice-Presidente, in verbis:

§ 1º A eleição do Presidente da República importará a do Vice-Presidente com ele registrado. § 2º Será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos. § 3º Se nenhum candidato alcançar maioria absoluta na primeira votação, far-se-á nova eleição em até vinte dias após a proclamação do resultado, concorrendo os dois candidatos mais votados e considerando-se eleito aquele que obtiver a maioria dos votos válidos. (BRASIL, 1988, on-line)


No processo eleitoral estadunidense, a dinâmica é díspar em comparação ao modelo brasileiro, onde vemos uma adoção ao uso dos colégios eleitorais, em detrimento ao voto direto. De maneira resumida, as eleições nos Estados Unidos, de acordo com o site do governo estadunidense, se realizam da seguinte forma: Antes da eleição propriamente dita, os candidatos para presidente podem passar por dois processos distintos, as primárias e os caucus (que não possui equivalente na língua portuguesa), mas que servem ao mesmo propósito, ou seja, dar poder aos estados para decidir quem entre os integrantes dos partidos, serão os indicados para a eleição geral.

As primárias são realizadas pelo estado e pelos governos locais, sendo que o voto é impresso e secreto (chamado de ‘secret ballot’), distintamente dos caucus, que são encontros privados encabeçados por partidos políticos, onde se formam vários grupos representando o candidato apoiado. Esses grupos por sua vez, tentam convencer os outros a se juntar a seu respectivo grupo, onde ao final, o número de votantes em cada grupo determina quantos delegados cada candidato ganhou. Quando as primárias e os caucus se findam, os partidos políticos fazem uma Convenção Nacional, onde os candidatos vencedores recebem sua nominação e os mesmos anunciam seus respectivos vice-candidatos. Entrando na questão dos Colégios Eleitorais, é importante frisar que as outras eleições nos EUA são diretas, o que acaba por não se aplicar naquela que visa a escolha do presidente e seu vice: “The process of using electors comes from the Constitution. It was a compromise between a popular vote by citizens and a vote in Congress” (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, Voting and Elections, sem data, on-line). Cada estado tem o número de delegados igual ao número de membros presentes no congresso, logo, incluindo os três delegados da capital Washington D.C.’s, possuem a alcunha de delegados 538 pessoas.

De acordo com as informações fornecidas pelo blog da Folha de São Paulo “Para entender direito”, o sistema de votos Norte-americano, pós primarias, caucus e Convenções Nacionais, é regido pela regra “the winner takes all”, onde o candidato leva todos os votos do estado, caso ganhe. As exceções são representadas por Maine e Nebraska, onde os votos são repartidos. Dito isso, para que um candidato ganhe uma eleição nos Estados Unidos, ele precisa da maioria simples dos votos no colégio eleitoral, significando que o mesmo precisa angariar 270 dos 538 votos possíveis.

Mapa de distribuição de Delegados por estado nos EUA
Mapa de distribuição de Delegados por estado nos EUAO autor (2019)

Partindo desta comparação proposta para como se dá o processo eleitoral nos dois países, não se tem como se chegar a uma resposta conclusiva sobre a influencia das fake news, não obstante, é possível inferir a partir das informações expostas, que caso as notícias falsas influenciem o processo político, sobretudo as eleições presidenciais, elas o fariam de maneira distinta nos EUA e no Brasil. Outro questionamento pertinente é pensar que o processo político de ambos os países não funciona como em uma monarquia ou ditadura, ou seja, existem atores que equilibram a balança de poder num Estado. A dinâmica de divisão em Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) existe justamente para mitigar situações de abuso em qualquer uma das esferas. Partindo desta premissa, a questão de surge é justamente se as fake news tem o poder de influenciar esses outros poderes, e caso não, até que ponto seria relevante levantar o questionamento das notícias falsas influenciando no processo político?

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