CONTRIBUIÇÃO DO FISIOTERAPEUTA PARA O SUJEITO EM FORMAÇÃO DA SUA PERSONALIDADE E NA REABILITAÇÃO DO SUJEITO COM TRANSTORNO MENTAL COMO SERES BIOPSICOSSOCIAIS

UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

Enfermagem

CONTRIBUIÇÃO DO FISIOTERAPEUTA PARA O SUJEITO EM FORMAÇÃO DA SUA PERSONALIDADE E NA REABILITAÇÃO DO SUJEITO COM TRANSTORNO MENTAL COMO SERES BIOPSICOSSOCIAIS

GABRIEL ISSA - 20201102194

Influências na formação da personalidade e o ser humano como sujeito biopsicossocial. 

  • A personalidade de cada indivíduo representa uma combinação regular de fatores genéticos e de experiências de vida. A personalidade completamente desenvolvida e elaborada, é um ideal inatingível. O fato de não ser atingível não é uma razão a se opor a um ideal, pois os ideais são apenas os indicadores do caminho e não as metas visadas. o desenvolvimento da personalidade não obedece a nenhum desejo, a nenhuma ordem, a nenhuma consideração, mas somente à necessidade; ela precisa ser motivada pela coação de acontecimentos internos e/ou externos. Para sintetizar, a personalidade é determinada por muitos fatores que interagem, incluindo forças genéticas, culturais, de classe social, de família além da forma do sujeito assimilar e dar sentido às experiências vividas e às relações interpessoais por ele estabelecidas.

    A hereditariedade nos proporciona talentos que uma cultura ou mundo externo pode ou não recompensar e cultivar. É possível enxergar a interação dessas diversas forças genéticas e ambientais em qualquer aspecto significativo da personalidade. 

    O ser humano é um ser biopsicossocial. Isso significa que existem influências biológicas, psicológicas e sociais para a formação do indivíduo. E isso ocorre desde seu primeiro contato com o mundo externo, ainda na barriga de sua mãe. Piaget descreve sobre esquemas que são representações mentais ou ações que organizam o conhecimento. A aprendizagem em dança organiza estes dois tipos de esquema – representação mental e ação - para aperfeiçoar o conhecimento. A assimilação ocorre quando o indivíduo assimila uma nova informação aos seus esquemas existentes. A acomodação é o ajuste destes esquemas a uma nova informação. Aprender um novo movimento é um processo de assimilação, porém, aprender a ajustar seu equilíbrio corporal para poder executá-lo é um processo de acomodação. De suas pesquisas, Piaget elabora algumas categorias para compreender o processo de desenvolvimento humano, sendo a equilibração uma categoria fundamental. Todo organismo vivo precisa viver em equilíbrio com o meio ambiente, caso contrário não sobrevive. Este ambiente possibilita situações novas, desafiadoras e conflitantes ao indivíduo causando-lhe desequilíbrios, que são necessários para o avanço do seu desenvolvimento.

    Na contemporaneidade, pode-se observar que as concepções e ações em saúde buscam superar o modelo biomédico, mecanicista e centrado na doença, também denominado paradigma curativista ou biomédico (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Mendes (1996) coloca que uma sociedade, por meio da produção social, poderá produzir tanto a saúde como a doença. A compreensão sobre saúde passa de uma condição de dependência de técnicas, especializações e compreensão mecanicista dos mecanismos do corpo humano, para um estado em constante construção, sendo produzida coletivamente, nas relações sociais e subjetivas. 

    Segundo Belloch e Olabarria (1993), os princípios do paradigma biopsicossocial são:
    1. O corpo humano é um organismo biológico, psicológico e social, ou seja, recebe informações, organiza, armazena, gera, atribui significados e os transmite, os quais produzem, por sua vez, maneiras de se comportar;

    2. Saúde e doença são condições que estão em equilíbrio dinâmico; estão codeterminadas por variáveis biológicas, psicológicas e sociais, todas em constante interação;

    3. O estudo, diagnóstico, prevenção e tratamento de várias doenças devem considerar as contribuições especiais e diferenciadas dos três conjuntos de variáveis citadas;

    4. A etiologia dos estados de doença é sempre multifatorial. Devem-se considerar os vários níveis etiopatogênicos e que todos eles requerem uma investigação adequada;

    5. A melhor maneira de cuidar de pessoas que estão doentes se dá por ações integradas, realizadas por uma equipe de saúde, que deve ser composta por profissionais especializados em cada uma das três áreas;

    6. Saúde não é patrimônio ou responsabilidade exclusiva de um grupo ou especialidade profissional. A investigação e o tratamento não podem permanecer exclusivamente nas especialidades médicas.


O modelo biopsicossocial pressupõe ações integradas e interdisciplinares. Porém, necessita de amadurecimento em função da formação dos profissionais de saúde, dos modelos de gestão, de financiamento e funcionamento do sistema de saúde como um todo (SEBASTIANI; MAIA, 2005).

Os desafios contemporâneos da cultura e a posição do homem na sociedade.

  • Ao nascerem, os indivíduos iniciam seu processo de formação, mesmo que inconsciente. A sociedade está disposta a apresenta-lhes diversos conceitos e inculcar inúmeros paradigmas. As interações sociais são as principais construtoras neste processo formativo, imprimindo e reproduzindo ideologias, sobre o sexualidade, o papel da mulher, a situação do negro, as "verdades religiosas", entre outros estigmas. O sujeito vai agregando à sua personalidade e ao seu carácter as mais diversas concepções, e estas por sua vez se desenrolam a partir das interações traçadas entre os personagens sociais, através dos contatos que estabelecem uns com os outros nos bairros, na cidade em que habita, nos grupos, nos encontros religiosos, enfim nos momentos de socialização.  A cultura moderna é caracterizada principalmente por racionalidade, desenvolvimento tecnológico, relações de poder, formas de comunicação, agilidade e precisão. O computador passou de uma mera máquina de escrever sofisticada e tornou-se a principal fonte de informação para as pessoas, independentemente da idade. Deste modo, se compreende o quanto o desenvolvimento tecnológico através do processo de globalização tem contribuído com a mutação da sociedade. Estamos gerando uma civilização híbrida. A modernidade como sendo o pressuposto do multiculturalismo e coloca o homem como um ser em construção onde constrói e reconstrói o conhecimento e seus saberes oriundos da educação e tecnologia.

    As influências/causas do surgimento ou reforço dos transtornos mentais na contemporaneidade.

  • As doenças de ordem psíquica, durante um longo período da história, eram tidas como uma anormalidade, alienação e até mesmo “aberração”, não sendo vistas e nem tratadas como patologias, mas como algo inerente a determinados seres humanos. Com o crescimento das cidades, os “loucos” que não eram confinados e viviam perambulando pelas ruas, começam a “incomodar” a população. Passaram, então a interná-los em hospitais, porém, longe dos demais pacientes, pois, de acordo com Bastos (2007) eram confinados aos porões e sofriam maus tratos constantes. Deste modo, o objetivo principal não era o tratamento destes sujeitos, mas sim sua exclusão e isolamento social. Posteriormente, surgem locais específicos para estes sujeitos, chamados de hospitais psiquiátricos, os quais também são denominados de asilos, manicômios e hospícios. Convém ressaltar, que até a década de 80, no Brasil, os hospitais psiquiátricos eram os principais lugares para tratamento das pessoas com problemas mentais. Contudo, segundo Oliveira (2007) a partir deste momento, inicia-se um movimento chamado de Reforma Psiquiátrica, o qual teve como objetivo a criação de uma nova política de tratamento em saúde mental, através da desinstitucionalização da loucura. Em outras palavras, almejava-se, entre outras ações, a criação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

    Na contemporaneidade, o ritmo e estilo de vida predominantes levam a população a vivenciar situações cada vez mais estressantes e difíceis. Cobranças por produtividade, trânsito intenso, excesso de atividades, balbúrdia; podem levar as pessoas à busca de soluções para contornar a ansiedade decorrente destas vivências. Uma das opções adotadas refere-se ao uso de substâncias psicoativas, às vezes para dormir melhor ou até mesmo ter um maior rendimento nas atividades cotidianas. Os medicamentos psicotrópicos têm como principal objetivo o tratamento de pessoas em sofrimento psíquico, contudo, são prescritos e utilizados para as mais diversas situações. Estudos evidenciam que, entre os mais consumidos pela população adulta encontram-se os da classe dos ansiolíticos, sendo que, o motivo envolve vários fatores, entre os quais, cita-se o estresse, a depressão, a ansiedade, a insônia, problemas sociais, entre outros. Especialistas ressaltam a facilidade em adquirir este tipo de medicação, mesmo sendo controlados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), como também, apontam a falta de orientação médica sobre os cuidados necessários durante o tratamento. 

    Segundo informações obtidas no Relatório do Departamento Internacional de Controle de Narcóticos, da Organização das Nações Unidas (ONU), apesar do grande número de pessoas em sofrimento psíquico, o uso de medicamentos controlados e específicos para estas patologias, vem crescendo consideravelmente, sua utilização “já supera a heroína, o ecstasy e a cocaína somados”. Entre os consumidores de maior porte destes psicofármacos estão Estados Unidos, Argentina e Brasil, necessariamente nesta ordem. 

    Wiggers (2004 apud BRIGIDO, 2008) relata que a prescrição e venda de substâncias psicotrópicas no Brasil são regulamentadas pela portaria 344/98, a qual determina a notificação de uma receita para que a dispensação do mesmo seja autorizada. Para tanto, o receituário é mantido nas instituições, visando fiscalização de controle, além de poder ser utilizado como uma fonte de informação preciosa sobre a prática atual de prescrição/dispensação de medicamentos psicotrópicos. Apesar desta situação, a aquisição de receituários controlados não é algo de difícil acesso, uma vez que, faz parte da conduta médica a prescrição cada vez maior destas substâncias, frente queixas diversas, não somente para pacientes com sofrimento psíquico. Segundo dados obtidos junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA, 2007), entre os psicofármacos mais consumidos no Brasil, encontram-se os ansiolíticos, antidepressivos e emagrecedores. Este órgão evidenciou que, dentre os princípios ativos com maior consumo no país, no período de 2007 à 2010, encontram-se o clonazepam (Rivotril), bromazepan (Lexotan) e alprazolan (Frontal). No ano de 2010, segundo informações obtidas junto às farmácias cadastradas, A ANVISA constatou que foram dispensadas 10,5 milhões de caixas de clonazepam, o que indica uma quantidade elevada do uso deste medicamento.

    A sociedade atual apresenta características diferenciadas e estas trazem implicações variadas sobre os sujeitos. O ritmo de vida acelerado, as cobranças por produtividade, a necessidade de demonstrar felicidade e bem-estar a todo custo, o imediatismo que permeia as relações, a rapidez de acesso às informações, o desenvolvimento cientifico; enfim, este conjunto de fatores pode levar os sujeitos à busca por soluções rápidas e práticas aos problemas decorrentes desta realidade.

    A contribuição do fisioterapeuta na reabilitação do sujeito com transtorno mental.

    • A participação de profissionais de embasamento corporal, como o fisioterapeuta, tem se tornado cada vez mais necessária nas equipes de saúde mental, devido à busca por terapêuticas capazes de minimizar as alterações corporais apresentadas pelos portadores de transtornos mentais. A presença de alterações corporais podem acontecer em decorrência do próprio transtorno mental ou pela ação prolongada de medicamentos psicotrópicos, que interferem significativamente na realização de atividades cotidianas e nas relações interpessoais. Os trabalhos de intervenção corporal no campo da saúde mental têm como foco principal o retorno à realidade do corpo, tão distanciada, para o portador de transtorno mental. A atuação do fisioterapeuta na equipe de saúde mental é necessária, tanto em serviços ambulatoriais e hospitalares quanto em hospitais dia, centros de convivência e de atenção psicossocial e, ainda, cooperativas de trabalho, fazendo da fisioterapia uma somatória terapêutica na Psiquiatria.

      Sessões de fisioterapia, incluindo exercícios da terapia de bioenergética, realizadas com portadores de sofrimento psíquico e dependência química em internação psiquiátrica, produziram mudanças favoráveis aos aspectos emocionais e à expressividade verbal. Houve melhora, também, nos sintomas de despersonalização, dores musculares, comprometimentos respiratórios e na sensação de angústia. Estas atividades é mostrar a contribuição da fisioterapia na minimização do comprometimento corporal proveniente de diversos tratamentos psiquiátricos, e na reabilitação psicossocial de portadores de transtornos mentais.

      As atividades corporais foram estruturadas basicamente em seis momentos, quais sejam: interiorização, aquecimento, toque terapêutico, trabalho de imagem corporal, expressão corporal e relaxamento.
      1. Interiorização: auxiliar o indivíduo a restabelecer o contato consigo, conduzir os participantes ao hábito de perceber e sentir seu corpo.

      2. Aquecimento: preparar o corpo para executar os exercícios físicos, ativando as funções do organismo e prevenindo lesões. Desenvolvido através de exercícios cinesioterápicos para coordenação motora, equilíbrio, alongamentos e fortalecimento muscular. Nesta fase também foram realizados exercícios para correção postural, dinâmicas de movimento espontâneo e dinâmicas de integração grupal.

3. Toque terapêutico: minimizar a dificuldade para estabelecer contato físico, promover corpos mais livres de bloqueios e mais preparados para o convívio social. Foram utilizadas técnicas de massagem em duplas, massagem em grupos, automassagem e dinâmicas de contato corporal.


4. Imagem corporal: a imagem corporal de portadores de transtornos mentais reflete um mundo interno marcado pela cisão do psiquismo, acentuada indiferenciação afetiva e intelectual. A imagem corporal foi trabalhada em todas as atividades da oficina, através do movimento, da correção postural, da interação grupal, da expressividade e da interiorização. Contudo, foi uma atividade especialmente realizada através de dinâmicas com espelho.

5. Expressão corporal: permite o despertar do corpo a partir de três níveis: a) ensina a tomar posse do corpo - reconhecê-lo, em suas possibilidades e em suas limitações; b) ensina a exprimir sensações através do movimento; c) ensina e promove o encontro com o outro, facilitando a comunicação verbal e a interação social.

6. Relaxamento: diminuir tensões físicas, despertar sensações de quietude mental e leveza corporal, promover a autovalorização, estimular a serenidade, paz interior, confiança nas outras pessoas e em si mesmo. Permite também reforçar os conteúdos trabalhados durante a sessão. As técnicas utilizadas foram relaxamento de Jacobson e técnica das imagens mentais.

A fisioterapia contribuí para a reabilitação psicossocial dos sujeitos com transtornos mentais, promovendo benefícios físicos e psíquicos. Favorece a interação e a convivência entre os usuários, estimula as relações interpessoais e a expressividade. Os benefícios físicos estiveram relacionados ao alívio de dores, melhora da funcionalidade motora, motivação, disposição física e as atividades diárias passaram a ser realizadas com mais facilidade.

Referências

da SilvaRoberto; AiresMaria. O HOMEM NA CONTEMPORANEIDADE: UM OLHAR SOBRE AS MUDANÇAS DE PARADIGMAS SOCIOCULTURAIS. uece.br. 14 p. Disponível em: http://www.uece.br/eventos/2encontrointernacional/anais/trabalhos_completos/138-28403-07112014-222615.pdf. Acesso em: 5 abr. 2021.

da SilvaSoraya; PedrãoLuiz; MiassoAdriana. O impacto da fisioterapia na reabilitação psicossocial de portadores de transtornos mentais. Scielo. 7 p. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/smad/v8n1/06.pdf. Acesso em: 5 abr. 2021.

FilboIrineu; PonceRosiane; de almeidaSandro. As compreensões do humano para Skinner, Piaget, Vygotski e Wallon: pequena introdução às teorias e suas implicações na escola. Scielo. São Paulo, 2009. 29 p. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psie/n29/n29a03.pdf. Acesso em: 5 abr. 2021.

FreitasDayanne et al. Genética: um fator de influência na formação da personalidade. Scielo. 2012. 8 p. Disponível em: . Acesso em: 5 abr. 2021.

NasarioMarcela; da silvaMilena. O CONSUMO EXCESSIVO DE MEDICAMENTOS PSICOTRÓPICOS NA ATUALIDADE. uniedu.sed.sc.gov.br. 14 p. Disponível em: http://www.uniedu.sed.sc.gov.br/wp-content/uploads/2016/02/Marcela-Nasario.pdf. Acesso em: 5 abr. 2021.

PereiraThaís; BarrosMonalisa; AugustoMaria Cecília. O Cuidado em Saúde: o Paradigma Biopsicossocial e a Subjetividade em Foco. Scielo. Barbacena-MG, 2011. 14 p. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/mental/v9n17/02.pdf. Acesso em: 5 abr. 2021.

Use agora o Mettzer em todos
os seus trabalhos acadêmicos

Economize 40% do seu tempo de produção científica