CLARICE LISPECTOR

Instituto Federal da Paraíba (IFPB) – Campus Guarabira

Técnico em Contabilidade

CLARICE LISPECTOR

débora letícia de paiva silva

franceleyde ferreira delfino

iris barbosa monteiro

maria milizia heline de figueiredo pereira

Docente:
Erivan Lopes Tomé Júnior

Introdução

Clarice Lispector foi uma escritora e jornalista brasileira, que através da originalidade de suas obras foi considerada um dos grandes nomes da terceira fase do modernismo brasileiro. Seus romances tinham posse de uma linguagem alternativa que divergia dos modelos narrativos tradicionais do século XX. Clarisse e sua família tinham origem judaica, e, por causas da guerra que estava ocorrendo na Europa, foram obrigados a fugirem do seu país de origem para se refugiarem no Brasil. Ela era poliglota, sabendo falar português, francês, hebraico, inglês e iídiche. Em vida recebeu diversos prêmios, dentre eles o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal e o Prêmio Graça Aranha.

vida e carreira

No dia 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, uma aldeia da Ucrânia (pertencente a Rússia), durante viagem de emigração da família em direção à América, Haia Lispector, irmã de duas outras meninas: Leia (9 anos) e Tania (5 anos), terceira filha do comerciante Pinkouss e de Mania Lispector – os pais, judeus, que moraram em Savran, onde nasceu a primeira filha, e em Teplik, onde tiveram a segunda, decidem emigrar três anos após a Revolução Bolchevique de 1917, desanimados com sucessivas guerras internas e constante perseguição antissemita, gerando fome e miséria. Na viagem enfrentam assaltos e epidemias. A mãe, acometida por paralisia progressiva, requer cuidados especiais e maior atenção da família. Durante o trajeto, a caçula dos Lispector ouve os sons de diversos idiomas: iídiche e russo, línguas faladas pelos pais, além daquelas dos países por onde passam.

A família Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé). Recife, década de 1920.
A família Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé). Recife, década de 1920.GOTLÍB

Em fevereiro de 1922, de passagem por Bucareste, na Romênia, seu pai consegue um passaporte, emitido pelo consulado da Rússia, no qual são incluídas sua mãe e as irmãs. Da Romênia, os Lispector partem para a Alemanha, e ao chegar lá vão em direção ao Brasil.

A família chega a Maceió em março e são recebidos por Zina, irmã de Mania, e seu marido e primo, José Rabin, comerciante próspero da cidade que viabilizou o ingresso da família de Clarice no Brasil através de uma “carta de chamada”. Aqui mudaram seus nomes, exceção de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss se tornou Pedro, Mania mudou para Marieta, Leia se transformou em Elisa, e Haia – que significa vida, ou clara –, em Clarice.

Pedro Lispector passa a trabalhar com Rabin, como mascate, vendendo mercadorias que o concunhado financiava, e, mais tarde, na fábrica de sabão que o parente criaria contando com a técnica que o pai de Clarice aprendera durante sua viagem de exílio.

Em 1925, a família muda-se de Alagoas para Pernambuco, pois Pedro não estava satisfeito com os resultados dos negócios em Maceió. Com a mudança, o pai de Clarice trabalha, outra vez como mascate, vendendo roupas. A doença de Marieta se agrava, o que faz com que Elisa acumule as funções de cuidar da casa, das irmãs e da mãe, paralítica.

O casarão onde Clarice morou, na praça Maciel Pinheiro, em Recife.
O casarão onde Clarice morou, na praça Maciel Pinheiro, em Recife.GOTLÍB

Aos 7 anos, Clarice Lispector aprende a ler. A família vive de maneira modesta, as meninas almoçando às vezes suco de laranja aguado e um pedaço de pão. Mais tarde, contudo, a autora se recordaria da infância como um período bom, em que roubava flores e pitangas e tomava banhos de mar em Olinda. E até, em certo Carnaval, ganharia uma fantasia de rosa, episódios que contara, respectivamente, em “Cem anos de perdão”, “Banhos de mar” e “Restos do carnaval”, textos publicados na coluna que manteve, aos sábados, a partir de 1967, no Jornal do Brasil.

Em 1930, matricula-se no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro, além do básico, estuda hebraico e iídiche no local e lá termina o terceiro ano do curso primário. Assiste a uma peça no teatro Santa Isabel e, inspirada, escreve “Pobre menina rica”, obra em três atos, cujos originais acaba perdendo.

Em 21 de setembro de 1930, aos 41 anos, morre sua mãe. Depois da perda, Clarice Lispector, que, como as irmãs inventa uma música, com parte mais suave e outra mais violenta.

Em 15 de dezembro, ainda em 1930, seu pai dá o primeiro passo no sentido de adotar a nacionalidade brasileira.

Clarice, no jardim Derby, veste luto pela morte da mãe. Recife, 1930.
Clarice, no jardim Derby, veste luto pela morte da mãe. Recife, 1930.GOTLÍB

Clarice envia em 1931, sem sucesso, vários contos para a seção “O ‘Diário’ das Crianças” do Diário de Pernambuco, e a razão para os escritos não serem publicados é uma só, conforme afirmará mais tarde: suas histórias não falavam de “fatos”, mas de “sensações”.

Aprovada no exame de admissão, com sua irmã Tania e sua prima Bertha Lispector, ingressa no tradicional Ginásio Pernambucano em 1932.

Começa a frequentar a livraria Imperatriz, e entre suas leituras pode ser encontrada Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que pedira emprestado a Reveca, sua colega de escola e filha de Jacó — não sem antes ter de insistir muito para obter a obra, episódio que será narrado no conto “Felicidade clandestina”.

Vai a Maceió, em trem da Central Western Brazilian Railroad – CWBR, com o pai, e, no ano seguinte, mudam-se para uma casa própria.

No ano de 1935 viaja para o Rio com o pai e a irmã Tania, a bordo do vapor inglês Highland Monarch, na terceira classe (Elisa, compromissada com o trabalho, iria depois). Depois de breve período pouco mais de uma semana em que alugaram um quarto na residência, no Flamengo, de Nathan e Frida Malamud, casal de judeus russos que lhes fora recomendado, os Lispectors se mudam para uma casa antiga, perto do campo de São Cristóvão. Em seguida, ocupam parte da casa de número 341 da rua Mariz e Barros, na Tijuca. Frequenta o quarto ano do curso ginasial no colégio Sílvio Leite, na rua de sua casa, número 258, mesma escola em que se inscrevem as irmãs. Lê romances cor-de-rosa, de M. Delly (pseudônimo dos irmãos Petitjean de la Rosière, Frédéric-Henri e Jeanne-Marie) e Henri Ardel.

Termina o ginasial – 1936 –, então composto de cinco anos (primeiro ciclo do curso secundário). Nesse período, passa a ler livros selecionados segundo os títulos, numa biblioteca de aluguel do seu bairro entre eles, O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Inspirada pela obra, escreve um conto cuja história não acaba nunca e que mais tarde ela destruiria.

Em 1936, objetivando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, começa o curso complementar (dois últimos anos do secundário) ministrado pela própria instituição. No ano seguinte, passaria para o complementar do colégio Andrews, que ficava na praia de Botafogo, 308.

Paralelamente aos estudos, dá aulas particulares de matemática e português, aprende datilografia e frequenta a Cultura Inglesa.

Foto de formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936.
Foto de formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936.GOTLÍB

1939: Começa o curso superior na Faculdade Nacional de Direito. Trabalha como secretária, sucessivamente em um escritório de advocacia e em um laboratório, além de fazer traduções de textos científicos para revistas. A audiência de solicitação de justificativa de idade da futura escritora, documento necessário para a obtenção da desejada cidadania brasileira, ocorre em 6 de outubro.

Em 25 de maio de 1939, sai no semanário Pan, dirigido pelo escritor Tasso da Silveira, o conto “Triunfo”. A narrativa traz temas que serão recorrentes na ficção de Clarice: as dificuldades do relacionamento amoroso, relatadas a partir das sensações de uma mulher que, abandonada pelo marido, em sua solidão descobre a força interior. Pelo que se tem registro, é a primeira vez que um texto ficcional de Clarice Lispector ganha lugar na imprensa, apesar de a autora haver dito, em reiteradas ocasiões, que um outro conto, escrito “aos 14 ou 15 anos”, ainda sob a influência de O lobo da estepe, saíra na Vamos Lêr!, revista que pertencia ao grupo A Noite e era editada por Raymundo Magalhães Júnior. É possível que a autora se tivesse confundido com outro conto, este sim, publicado na revista de Magalhães Júnior, em 10 de outubro – “Eu e Jimmy”, centrado ainda na complexidade das relações afetivas. Nesse mesmo ano, escreveria vários outros contos.

Clarice em Nápoles. Década de 1940.
Clarice em Nápoles. Década de 1940.GOTLÍB

A produção ficcional se dá, em grande parte, após a morte de Pedro Lispector, a 26 de agosto quando ele contava 55 anos de idade, em decorrência de uma cirurgia de vesícula malsucedida. As três irmãs passam a morar juntas, na residência de Tania que se casara em 1938, com William Kaufmann –, situada à rua Silveira Martins, 76, casa 11, no bairro do Catete.

Clarice busca empregar-se no Departamento de Imprensa e Propaganda DIP, órgão do governo Getúlio Vargas criado em dezembro do ano anterior, ganhando o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Começava aí uma carreira paralela: o jornalismo.

Na redação, convive com o mineiro Lúcio Cardoso, por quem desenvolve grande amizade e posteriormente em uma paixão não correspondida, pois o escritor era homossexual.

Clarice com oficiais da Força Expedicionária Brasileira em Nápoles. Década de 1940.
Clarice com oficiais da Força Expedicionária Brasileira em Nápoles. Década de 1940.GOTLÍB

No ano de 1942, passa férias de janeiro na fazenda Vila Rica, em Avelar, no Rio de Janeiro, de onde escreve para Maury Gurgel Valente colega da faculdade com quem começara a namorar e para Lúcio Cardoso.

Ganha, em 2 de março, seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal A Noite, cujo quadro integrava desde fevereiro; o salário mensal anotado, de 600 mil réis, passaria a 800 cruzeiros no ano seguinte (em novembro de 42, reforma monetária instituiu o cruzeiro como nova moeda; mil réis passaram a valer 1 cruzeiro).

Encaminha, em 2 de março, três meses após completar os necessários 21 anos, pedido de naturalização.

Tomou cursos de antropologia brasileira e psicologia, ambos na Casa do Estudante do Brasil, ao mesmo tempo em que frequentava a faculdade de direito, escreveu seu primeiro romance, elaborado de março a novembro, tendo sido concluído em mês de isolamento numa pensão da rua Marquês de Abrantes, no Botafogo. O título, Perto do coração selvagem, seria sugerido por Lúcio Cardoso, que dissera que, se todas as anotações esparsas acumuladas no que já se constituía o “método Clarice Lispector” – falavam do mesmo assunto, então o romance estava escrito, bastando reuni-las, e foi o que a mesma fez.

Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem (Rio de Janeiro: A Noite, 1943).
Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem (Rio de Janeiro: A Noite, 1943).GOTLÍB

Após mais de dez meses de espera, em 1943, obtêm, em 12 de janeiro de 1943, a naturalização, assinada pelo presidente Getúlio Vargas e por Alexandre Marcondes Filho, então ministro do Trabalho e da Justiça. No dia 23 de janeiro em cerimônia civil, casa-se com Maury, cônsul de terceira classe desde concurso prestado em 28 de agosto de 1940. O casal mora temporariamente na casa dos sogros de Clarice, Mozart e Maria José Gurgel Valente, mudando-se em seguida para outra residência. Em 3 de maio, ganha carteira profissional do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, registrada como redatora da empresa A Noite.

Carteira de estudante do 5º ano da Faculdade Nacional de Direito.
Carteira de estudante do 5º ano da Faculdade Nacional de Direito.GOTLÍB

No final do ano, termina, com o marido, o curso de direito. Em 7 de dezembro, Maury Gurgel Valente é designado agente de ligação entre o Ministério das Relações Exteriores e as autoridades estrangeiras, residentes ou em trânsito, em Belém do Pará.

Antes de mais uma vez fazer as malas e depois de duas tentativas fracassadas de edição junto à Amerique Edite e à José Olympio, Clarice Lispector consegue publicar Perto do coração selvagem.

Datiloscrito do conto “A fuga”, publicado postumamente no livro A bela e a fera (1979), com emendas manuscritas de Clarice.
Datiloscrito do conto “A fuga”, publicado postumamente no livro A bela e a fera (1979), com emendas manuscritas de Clarice.GOTLÍB

Lúcio Cardoso em 1946.
Lúcio Cardoso em 1946.GOTLÍB

Em sua carteira profissional de jornalista, datada de 11 de janeiro do ano de 1944, adota o nome de casada: Clarice Gurgel Valente. No dia 19 de janeiro de 1944, muda-se para Belém com o marido, enviado como vice-cônsul para suas novas funções. Lá permanecem por seis meses.

Toma conhecimento em Belém dos ecos da recepção a seu primeiro romance. Um mês após a publicação de Perto do coração selvagem, a imprensa especializada começava a se manifestar a respeito do livro.

Após uma curta temporada do casal no Rio de Janeiro, no dia 5 de julho Maury foi designado para servir como vice-cônsul em Nápoles. Às 6h do dia 19, um avião da Panair levantou voo dando início à viagem Rio-Nápoles e a um longo período quase 16 anos longe do Brasil.

Clarice recebe notícia de que, entre críticas e elogios, ganhara o prêmio Graça Aranha com Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943, premiação que agradece por meio de telegrama, de 18 de outubro, do cônsul Narbal Costa à Secretaria de Estado.

Intensifica os contatos com os amigos do Brasil em 1945, que lhe enviam livros e notícias, trabalha em hospital americano, dando assistência a brasileiros feridos na guerra e, em agosto, recebe ofícios assinados por médicos da Força Expedicionária Brasileira que agradecem o serviço prestado.

Publicação do conto “O jantar”, ilustrado por Santa Rosa, no suplemento literário Letras e Artes, do jornal carioca A Manhã, em 13.10.1946.
Publicação do conto “O jantar”, ilustrado por Santa Rosa, no suplemento literário Letras e Artes, do jornal carioca A Manhã, em 13.10.1946.GOTLÍB

Enquanto posa para Giorgio De Chirico, no estúdio romano do pintor, ouve a notícia do final da guerra e estranha a reação de todos, por não manifestarem euforia.

Viaja pela Itália vai a Florença, Veneza e de novo a Roma e também visita Córdoba, na Espanha.

1948 foi marcado pela notícia de que a escritora estaria à espera de seu primeiro filho, Pedro, que nasce em 10 de setembro.

Clarice e o filho Pedro com 1 mês e 11 dias. Berna, 10.9.1948.
Clarice e o filho Pedro com 1 mês e 11 dias. Berna, 10.9.1948.GOTLÍB

Em 1949, Clarice Lispector, enfim, concretizaria seu almejado retorno ao Brasil apesar de desconhecer quanto duraria a permanência. Na viagem rumo ao Rio, a escritora aproveita uma parada em Recife para visitar tios e primos e rever lugares de sua infância.

Quando a convivência com a cidade já se encontrava restabelecida, chega novamente a hora de partir: Maury integraria a delegação brasileira na Conferência Geral de Comércios e Tarifas em Torquay, na Inglaterra, permanência que duraria apenas seis meses.

O dia 24 de março de 1951 marca mais um regresso de Clarice Lispector ao Brasil. Profissionalmente, dedica-se aos contos, recebendo convite para publicar uma seleta de seis deles na coleção Cadernos de cultura, editada pelo Ministério da Educação e Saúde e dirigida por Simeão Leal.

Nesse ano, Clarice sofreria uma grande perda: Bluma descobria um câncer e morreria em pouco tempo. A escritora acompanhou a amiga separada de Samuel Wainer desde a volta ao Brasil, três anos antes até seus últimos dias.

Em junho de 1952, descobre-se grávida, mas então já sabe que também o segundo filho nasceria no estrangeiro, uma vez que o estágio de Maury na Secretaria de Estado estava prestes a terminar para dar início à sua mais longa permanência no exterior: sete anos, interrompidos apenas por algumas viagens rápidas ao Brasil.

Da esquerda para direita: Tania, Clarice e Elisa. Rio de Janeiro, set. 1952.
Da esquerda para direita: Tania, Clarice e Elisa. Rio de Janeiro, set. 1952.GOTLÍB

Nasce, a 10 de fevereiro de 1953, seu segundo filho, Paulo, em Washington.

Clarice e o filho Paulo com 5 meses de idade. Jul. 1953.
Clarice e o filho Paulo com 5 meses de idade. Jul. 1953.GOTLÍB

Dezembro também traz uma novidade importante: Perto do coração selvagem seria traduzido para o francês – pela primeira vez uma obra sua aparecia em outro idioma.

A tradução de Perto do coração selvagem preocupa a autora, que recebera uma prova — cuja forma Erico Verissimo reconhecera como de um estágio definitivo do processo editorial. Em carta às irmãs, listaria muitos erros da versão feita por Denise-Teresa Moutonnier, como traduzir “porcaria” por “excrementos” ou dizer “a criada preta” onde Clarice Lispector pusera somente “criada”. Escreve ao editor, queixando-se, mas Pierre de Lescure responderia que enviara várias cartas e inclusive o texto num estágio anterior: nada disso chegara às mãos da escritora, como ela diria em nova missiva. Clarice, então, decide esquecer que o livro fora traduzido, já que não havia o que fazer a respeito. Em julho, viaja para o Brasil com os meninos, ficando até setembro.

No regresso do Brasil, recebe a Plon Prés du coeur sauvage. Envia em dezembro um exemplar a Elisa, não lendo na íntegra da tradução de seu primeiro livro.

Capa da edição francesa do romance Perto do coração selvagem, publicado com o título de Près du coeur sauvage (Paris, Plon, 1954).
Capa da edição francesa do romance Perto do coração selvagem, publicado com o título de Près du coeur sauvage (Paris, Plon, 1954).GOTLÍB

Separa-se do marido em 1959 depois de agravamento da crise conjugal, e, em junho, regressa ao Brasil, com os dois filhos. Ficam durante um mês na casa da irmã Tania, mudando-se, em 8 de julho, para o Leme; o novo endereço da família seria rua General Ribeiro da Costa, 2, apto. 301. Maury Gurgel Valente ainda tentaria, em carta de 28 de julho, enviada de Washington, uma reconciliação que, contudo, não acontece. Inicia-se o longo processo de separação conjugal.

Clarice e Maury em Veneza. Década de 1940.
Clarice e Maury em Veneza. Década de 1940.GOTLÍB

Viaja em julho para a Polônia, com os filhos, em visita ao ex-marido, que ainda nutre esperança de reconciliação, o que não acontece.

Durante a viagem, recebe convite para ir até a União Soviética e assim entrar em contato com suas origens – no entanto a escritora recusa a oferta, afirmando que de lá saíra no colo, recém-nascida, e não poria os pés naquele chão.

Recebe, em 19 de setembro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome por A maçã no escuro, considerado o melhor livro de 1961 segundo comissão julgadora composta por Osmar Pimentel, Mário Donato, José Geraldo Vieira, Maria de Lourdes Teixeira, Rolmes Barbosa, Edgar Braga, Edoardo Rizzarri, Sérgio Milliet e Cassiano Ricardo. O prêmio de 20 cruzeiros é entregue por Jânio Quadros, no salão literário de Carmen Barbosa, em São Paulo.

Clarice no lançamento de A maçã no escuro. Rio de Janeiro, 1961.
Clarice no lançamento de A maçã no escuro. Rio de Janeiro, 1961.GOTLÍB

Atendendo a uma proposta feita pela José Álvaro Editor, publica, em 1967, seu primeiro livro para crianças, O mistério do coelho pensante, que escrevera para Paulo nos EUA (a tradução do original em inglês ficou ao seu próprio encargo).

Capa da primeira edição do livro infantil O mistério do coelho pensante (Rio de Janeiro: José Álvaro, 1967).
Capa da primeira edição do livro infantil O mistério do coelho pensante (Rio de Janeiro: José Álvaro, 1967).GOTLÍB

A partir de 7 de dezembro, passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro, que selecionava obras a serem editadas por esse órgão do Ministério de Educação e Cultura.

Clarice e o filho Paulo no apartamento do Leme. Década de 1960.
Clarice e o filho Paulo no apartamento do Leme. Década de 1960.GOTLÍB

Seu filho Paulo parte para os Estados Unidos, em 25 de janeiro de 1969, onde fica um ano em programa de intercâmbio cultural. Pedro, em tratamento psiquiátrico, seria internado durante um mês, em junho. Lança pela editora Sabiá — que publicara a terceira edição de Perto do coração selvagem — Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres. O romance ganha o prêmio Golfinho de Ouro, do Museu da Imagem e do Som. Em 14 de agosto, é aposentada pelo Instituto Nacional de Previdência Social INPS.

Clarice em passeata contra a ditadura militar. À sua direira, Carlos Scliar; à sua esquerda, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 22.6.1968.
Clarice em passeata contra a ditadura militar. À sua direira, Carlos Scliar; à sua esquerda, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 22.6.1968.GOTLÍB

Em 7 de abril de 1976, na cerimônia de casamento de seu filho Paulo com Liana Kauffmann, no Rio de Janeiro, fica sabendo, por uma tia, que sua mãe mantinha um diário e escrevia poemas.

No mesmo mês, viaja com Olga a Buenos Aires, onde participa da Segunda Exposición Feria Internacional del Autor al Lector. Na Argentina, é muito homenageada, autografa livros seus traduzidos para o espanhol acabando por se sentir “como uma estrela de cinema”.

Óleo sobre tela de Clarice, sem título.
Óleo sobre tela de Clarice, sem título.GOTLÍB

Na volta da viagem, ainda em abril, recebe um prêmio pelo conjunto de sua obra, oferecido pela Fundação Cultural do Distrito Federal, no valor de 70 mil cruzeiros, entregue no Palácio do Buriti, em Brasília.

É transferida, em 15 de julho, da rádio Roquette-Pinto, no Instituto de Comunicação, para a Divisão de Apoio Administrativo, junto ao Departamento Cultural da Secretaria de Estado de Educação e Cultura, sempre no posto de assistente de administração. O Museu da Imagem e do Som do Rio a recebe para um depoimento, gravado em 20 de outubro. O encontro é conduzido pelo casal de escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS.

Trabalha na redação de A hora da estrela, contando com a ajuda de Olga Borelli, que reúne os fragmentos esparsos e datilografa os originais da novela. Simultaneamente, toma notas para novo romance, “Um sopro de vida”, e dois contos: “A bela e a fera ou a ferida grande demais” e “Um dia a menos”.

Capa da primeira edição da novela A hora da estrela (Rio de Janeiro: José Olympio, 1977).
Capa da primeira edição da novela A hora da estrela (Rio de Janeiro: José Olympio, 1977).GOTLÍB

No início do segundo semestre, visita Recife e fica hospedada no hotel São Domingos, na mesma praça Maciel Pinheiro em que vivera revendo, pois, o casarão onde morou e outros lugares que marcaram sua infância, além de visitar parentes, como a tia Mina e os primos.

Ao regressar de uma visita que fizera a Mafalda Verissimo em Porto Alegre, lhe escreve um bilhete, datado de 7 de novembro, em que diz que tentaria seguir seu conselho de não tomar tantos tranquilizantes, com os quais combatia as constantes insônias. A amiga tinha razão em preocupar-se: a escritora fora internada justamente devido aos remédios, e Mafalda a visitara no hospital. Na Fatos e Fotos Gente de 6 de dezembro, sai entrevista que fez com a artista Elke Maravilha, iniciando assim seu vínculo de trabalho com a publicação – do mesmo grupo da Manchete –, o qual se estenderia até outubro do ano seguinte.

A Fatos e Fotos de 2 de janeiro de 1977 traz uma entrevista que Clarice Lispector realizara com Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal, então em visita ao Brasil. A partir do mês seguinte, também publicaria crônicas semanais no jornal Última Hora — em que reaproveitaria muito do que saíra no JB.

Comparece, em 1° de fevereiro, aos estúdios da TV Cultura (canal 2), em São Paulo, onde é entrevistada pelo jornalista Júlio Lerner para o programa Panorama Especial, esse se tornaria o único registro audiovisual da autora que nele se mostra reservada, imprevisível e aparentemente pouco à vontade.

Ainda em fevereiro, escreve um livro para crianças, que seria publicado no ano seguinte, sob o título Quase de verdade. Adaptando lendas brasileiras, por encomenda da fábrica de brinquedos Estrela, produz outras 12 histórias infantis, para um calendário de 1978, intitulado Como nasceram as estrelas.

Parte, ao lado de Olga Borelli, em viagem de passeio para a Europa. Prevendo ficar um mês na França, regressam depois de uma semana, no dia 24 de junho, com Clarice angustiada e aflita. Publica A hora da estrela, em volume editado pela José Olympio, que ganha introdução – “O grito do silêncio” – assinada pelo crítico Eduardo Portella.

Após 27 entrevistas, publica, em 17 de outubro, sua última colaboração para a Fatos e Fotos Gente. Sofre com uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida, sendo internada na Casa de Saúde São Sebastião, no Catete. Em 28 de outubro, é submetida a cirurgia, na qual se detecta a causa do problema: um adenocarcinoma de ovário, irreversível. O câncer deixava a Clarice Lispector poucos meses de vida. No dia 17 de novembro, é transferida para o Hospital da Lagoa onde, apesar de ser público, lhe garantem um quarto individual. Todo o tratamento aplicado era de cunho paliativo: nem quimio nem radioterapia serviriam a Clarice com a doença tão avançada doença, aliás, que não se revelou à paciente. Os amigos e a família se encarregaram de fazer companhia: Olga, Siléa, Elisa e Tania revezavam-se para que ela não ficasse só; Nélida e Rosa Cass a visitavam.

Último bilhete de Clarice escrito no hospital da Lagoa. Rio de Janeiro, 7.12.1977.
Último bilhete de Clarice escrito no hospital da Lagoa. Rio de Janeiro, 7.12.1977.GOTLÍB

No mesmo mês, a Ática lança uma nova edição de A legião estrangeira, reunindo apenas os contos mais longos incluídos na versão de 1964. O volume conta com prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna, intitulado “Clarice: a epifania da escrita”.

Morre no dia 9 de dezembro, véspera de seu aniversário, às 10h30. É uma sexta-feira e, em observância às leis judaicas quanto ao shabat, não pode ser sepultada. O enterro, no Cemitério Comunal Israelita, no bairro carioca do Caju, acontece, então, no dia 11, domingo.

Em 28 de dezembro, às 20h30, a TV Cultura leva ao ar a entrevista de Clarice Lispector, atendendo solicitação da escritora, que, no final daquele encontro, pedira ao entrevistador que o programa só fosse transmitido postumamente.

Em 1995 é lançado o curta-metragem “Ruído de passos”, inspirado no conto homônimo de A via-crúcis do corpo, com roteiro e direção de Denise Gonçalves, tendo Renée Gumiel no papel principal (dona Cândida Raposo) e Sylvie Laila como sua filha.

Nádia Battella Gotlib publica Clarice – Uma vida que se conta (Ática), em que se alternam a leitura de dados biográficos e a de textos da escritora, numa versão reduzida do trabalho defendido como tese de livre-docência na Universidade de São Paulo – USP em 1993.

Capa da biografia Clarice: uma vida que se conta (São Paulo: Ática, 1995), de Nádia Batella Gotlib.
Capa da biografia Clarice: uma vida que se conta (São Paulo: Ática, 1995), de Nádia Batella Gotlib.GOTLÍB

Após isso, diversas outras biografias e homenagens são feitas dedicadas a memória, vida e obra da escritora Clarisse Lispector.

(GOTLÍB, com adaptações) 

principais obras

Aqui apresentamos algumas das muitas obras publicadas de Clarice, uma escritora que deixou sua marca na literatura. Veja abaixo:

  • Perto do coração selvagem (1944);
  • O lustre (1946); 
  • A cidade sitiada (1949);
  • A maçã no escuro (1949); 
  • Laços de família (1960);
  • A paixão segundo G. H. (1961);
  • A legião estrangeira (1964);
  • Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969);
  • Felicidade clandestina (1971);
  • Água viva (1973);
  • A hora da estrela (1977);
  • Um sopro de vida (1978);
  • A bela e a fera (1979).

(Marinho, 2019) 

Frases e Reflexões da artista

Clarice por muitos é considerada a “autora das redes sociais” devido às inúmeras frases que são compartilhadas diversas vezes na internet com usuários alegando ser de autoria da escritora. Porém, diferente do que muitos pensam, boa parte do que é compartilhado é alheio às suas criações. 

Abaixo, temos algumas frases e reflexões que, de fato, são produções de Clarice.

  • “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido.  Eu não: quero uma verdade inventada.” – (Clarice Lispector)
  • “Não me lembro mais qual foi nosso começo. Só sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser” – (Clarice Lispector)
  • “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato…
    Ou toca, ou não toca.”
    – (Clarice Lispector)
  • “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” – (Clarice Lispector)
  • “A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre.” – (Clarice Lispector)
  • “Não tenho tempo para nada, ser feliz me consome muito! Os felizes não se preocupam com a vida dos outros..” – (Clarice Lispector)
  • “A felicidade aparece para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam em nossa vida.” – (Clarice Lispector)
  •  “Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois?” – (Clarice Lispector)
  • “Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz.” – (Clarice Lispector)
  • “E todos os dias ficarei tão alegre que incomodarei os outros, o que pouco me importa, já que eu tantas vezes sou incomodada pela alegria superficial e digestiva dos outros.” – (Clarice Lispector)
  • “Gosto de fazer as pessoas felizes, mesmo quando eu estou triste.” – (Clarice Lispector)

(Rádio e Televisão Record S.A, 2019) 

Conclusão

Ademais, conclui-se que diversos fatores contribuíram para Clarisse Lispector tornar-se amante da literatura, dentre estes os conhecimentos sobre várias línguas, as quais ela estudou, e formações nos cursos de antropologia e psicologia. Apaixonada por esse saber a própria diz: “Minha liberdade é escrever”, diante dessa frase percebe-se o quão apaixonada por essa erudição ela foi, sendo ainda, uma das escritoras mais veneradas, se interessando pela ficção logo quando aprendeu a ler e escrever. Desde o início,  surpreendeu todos por colocar o inconsciente nos seus escritos, dois desses são “Laços de família“ e “A Hora da Estrela”, obras que marcaram a carreira de Lispector e que são conhecidas nesses tempos vigentes.

Referências

As Mais Lindas Frases de amor de Clarice Lispector. Pensador, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3f8DWFkh7-8. Acesso em: 5 Out. 2019.

GOTLÍBNádia Battella. Vida. Instituto Moreira Salles | RJ. Disponível em: https://claricelispectorims.com.br/vida/#lightbox[16]/64/. Acesso em: 4 Out. 2019.

MarinhoFernando. Clarice Lispector. 2019. Disponível em: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/clarice-lispector.htm. Acesso em: 5 Out. 2019.

Rádio e Televisão Record S.A. Frases De Clarice Lispector Sobre Felicidade. Cultura Mix. 2019. Disponível em: https://mensagens.culturamix.com/frases/frases-de-clarice-lispector-sobre-felicidade. Acesso em: 7 Out. 2019.

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