AS CONTRIBUIÇÕES DA ABORDAGEM GESTALTICA E O PAPEL DO PSICÓLOGO NO CONTEXTO ESCOLAR ATUAL

Grupo Rhema Educação

AS CONTRIBUIÇÕES DA ABORDAGEM GESTALTICA E O PAPEL DO PSICÓLOGO NO CONTEXTO ESCOLAR ATUAL

Leticia RODRIGUES Sanches

Resumo

Este trabalho visa apresentar de forma sucinta a prática do psicólogo no ambiente escolar na atualidade, que modifica – se ao longo da historia, voltando – se para um olhar relacional, com pressuposto do ser humano em construção histórica e social, baseando – se em pesquisas bibliográficas e apresentar a abordagem gestáltica com suas principais teorias, dentre elas a concepção de campo holístico – relacional, a teoria do ciclo do contato, abrangendo o fenômeno da aprendizagem, avaliando juntamente a criança e a escola na ótica gestáltica com intuito de compreender e intervir no processo de aprendizagem a fim de proporcionar o desenvolvimento íntegro da criança.

Palavras-chave: Psicologia escolar; Instituição escolar; Atuação do psicólogo Abordagem gestáltica; Aprendizagem.

Abstract

This paper presents briefly the psychologist’s practice at school today, which changes – along the history , back – to a relational look , with assumption of the human being in historical and social construction , based – on research bibliographical and present gestalt approach with its main theories , among them the design of holistic field – relational theory of the contact cycle , spanning the learning phenomenon , evaluating together the child and the school in optical gestalt seeks to understand and intervene in the learning process in order to provide the integrate development of the child .

Palavras-chave:

Introdução

O objetivo deste trabalho é apresentar a atuação do psicólogo no ambiente escolar atual, mostrando que seu campo de abrangência na educação esta cada vez maior, deixando de ser apenas uma intervenção psicopedagógica, mas também em sua dimensão psicossocial.

Todavia, é fato de que a maioria das escolas tanto públicas quanto privadas, não inclui ainda o psicólogo em suas equipes e que possuem no seu quadro docente professores despreparados para acolher um trabalho que saia do “rotineiro”, ficando sem direcionamento para desenvolver as atividades previstas em seu planejamento em sala de aula.

A presença do psicólogo na escola pode contribuir bastante para o melhor desempenho dos alunos, pois o mesmo poderá detectar as dificuldades de aprendizagem e/ou comportamento podendo ser encaminhados para atendimento psicoterapêutico especializado fora do ambiente escolar.

Uma grande tarefa que o psicólogo pode e deve desenvolver nas instituições educacionais é participar da formação dos educadores, com o intuito de contribuir para que eles estejam cada vez mais fortalecidos e instrumentalizados para uma atuação de qualidade junto aos alunos, entre si e com o corpo de funcionários das escolas, papel esse difícil de encontrar, uma vez que nem toda a instituição escolar prevê o psicólogo em seu corpo de funcionários, e quanto prevê, o mesmo fica fechado apenas nas dificuldades da criança com a aprendizagem, deixando de lado todo o contexto que permeia essa criança.

Porém, através dessa demanda, visando ampliar o olhar para além do ambiente escolar discutiremos a contribuição da gestalt em suas teorias base (organísmica, de campo e psicologia da gestalt), a concepção de campo holístico relacional, a teoria do ciclo do contato e as contribuições da gestaltpedagogia na aprendizagem para o desenvolvimento da criança, a fim de compreender as demandas do universo escolar dos dias atuais.

Desenvolvimento

A psicologia escolar ainda nos dias de hoje é considerada como uma área secundaria da Psicologia, vista como simples, não necessitando de muito preparo e experiência profissional. Dentro das escolas ainda é pouco valorizado ao ponto de ser considerado dispensável. Ela agiria de forma preventiva, com o objetivo de “antecipar –se a”, “evitar”, “livrar- se” e ou “impedir que algo aconteça”, no que se referem a problemas de comportamentos, dificuldades de aprendizagens e/ou fracassos.

Maria Helena Novaes defende a importância da formação adequada do psicólogo escolar e sua responsabilidade profissional, afirmando que “ dado o caráter, sobretudo preventivo da atuação do psicólogo escolar, essa orientação (psicológica) merece tanto ou mais cuidado do que qualquer outra, pois tem como meta principal o ajustamento do individuo.” (Psicologia Escolar. Petrópolis. Vozes Ed. 1980 pg. 24).

Entre linhas a visão da psicologia escolar há uma vinculação com a área da saúde mental, onde os problemas são equacionados em termo de saúde X doença, em que a escola se retraduz como problemas de aprendizagem e adaptação. O que parece estar oculto nessa perspectiva é a ideia de que a escola como instituição é entendida como adequada, onde se apresenta cumprindo seus objetivos ideais e planejamentos previstos, permanecendo inquestionáveis e obsoletos os currículos, os programas, as técnicas de ensino/aprendizagem empregadas, bem como a adequação da relação professor/aluno estabelecida. Logo então, esta é uma visão conservadora, uma vez que, os problemas surgidos ficam centrados no aluno, ou seja, a responsabilidade do insucesso e do fracasso recai sobre o educando.

O papel do psicólogo escolar até então seria aquele que tem a função de tratar este “aluno – problema” e devolve – ló a sala de aula “bem ajustado”.

Outro fator importante a se atentar para o papel do psicólogo escolar atual é a de que o professor ao entregar o seu aluno considerado “problema” nas mãos desse profissional tido como mais habilitado que ele para lidar com essa situação, se exime da responsabilidade para com este aluno. Passando então a considera – lo como um problema que não é seu, devendo ser solucionado fora da sala de aula, o que na realidade, entretanto, as crianças que apresentam dificuldades, mesmo quando atendidas por outros profissionais continua sendo problema do professor e da turma como tal.

Dada a responsabilidade de se interpretar a perspectiva de prevenção como uma questão meramente adaptativa, vamos analisar na abordagem Gestáltica o papel do psicólogo escolar

2.1. Abordagem Gestáltica 

Gestalt é totalidade, configuração, plenitude. O conceito de totalidade envolve a relação entre o todo e suas partes, cujas interconexões harmoniosas e coerentes formam uma unidade significativa. A Gestalt-Terapia originou-se com Fritz Perls (1893- 1970) que fundou uma abordagem reunindo pressupostos teóricos e filosóficos que representam um modo específico de observar o desenvolvimento humano na sua relação com o meio. A Psicologia da Gestalt, a Teoria Organísmica e a do Campo, aliadas aos pressupostos filosóficos do Humanismo, Existencialismo e Fenomenologia, permitem uma análise do processo de crescimento e das relações do indivíduo com o mundo na construção de si.

Já unidade dialética organismo-ambiente aponta a influência recíproca entre os fenômenos internos e externos. A abordagem gestáltica não dá preferência ao indivíduo, muito menos ao meio ambiente, mas aos eventos que surgem na fronteira, no encontro entre as necessidades dele e os objetos do meio que irão causar a sua satisfação. O indivíduo, no aqui e agora, age visando a sua completude, cujo movimento mostra – se em sucessivos ciclos de abertura e fechamento de gestalten, de necessidades e ajustamentos criativos, que permitem o seu desenvolvimento integral em direção a sua auto – realização.

A Psicologia da Gestalt foi iniciada por Max Wertheimer juntamente com Wolfgang Köhler e Kurt Koffka. Seus primeiros estudos direcionaram-se, sobretudo, às áreas da percepção, aprendizagem e solução de problemas, enfatizando a existência de leis da organização da experiência individual.

Nesta perspectiva, o individuo, por meio de sua percepção, atribui um significado existencial ao ambiente observado, reestruturando seu campo perceptual a partir do princípio figura-fundo, cuja diferenciação retrata o processo pelo qual o indivíduo hierarquiza suas necessidades, sinalizando o que é emergente e preferencial, entendendo-se a vida como uma sucessão contínua de satisfação das necessidades emergentes.

A noção do aqui e agora, natural do princípio da contemporaneidade da Psicologia da Gestalt, refere- se não só a um conceito têmporo – espacial, mas também, a um filosófico. A situação presente, na visão gestáltica, encerra tudo o que é necessário para o indivíduo compreender e experienciar a realidade como um todo. É no aqui e agora que está a energia transformadora que permite a ele reestruturar e fortalecer seu campo perceptivo-existencial, constituindo “um processo totalizador que colhe no imediato todas as possibilidades do agir humano” (Ribeiro, 1994, p.22).

A Teoria Organísmica de Kurt Goldstein, em contraposição às idéias segregativas vigentes no estudo do ser, concebe o organismo como uma unidade, um todo unificado e significativo. O seu princípio básico exprime que o todo é diferente da soma das partes e que uma alteração em qualquer parte acarreta mudança no todo estrutural do indivíduo, que segundo Goldstein (1995) funciona em busca de seu equilíbrio organísmico via satisfação das necessidades, permitindo-lhe a busca organizada e sadia de seu desenvolvimento. Kurt Lewin é o fundador da Teoria do Campo, que abrange um conjunto de conceitos por meio dos quais se pode representar a realidade psicológica do indivíduo. Para Lewin (1965,1973), o campo é definido como a totalidade dos fatos coexistentes em processo de mútua interdependência. Ele descreve a estrutura da personalidade por intermédio de esquemas espaciais, em que o indivíduo constitui um campo delimitado e inserido no ambiente, com o qual mantém constante interação, configurando uma relação parte-todo. Assim, forma-se uma realidade inserida em outra mais ampla, com a qual se encontra em inter e intra – relação, formando o chamado Campo Holístico Relacional. Ribeiro (1997) propõe um modelo de Campo Holístico Relacional como forma de se observar e compreender o indivíduo por meio da sua expressão em seu espaço vital. Esse modelo possibilita uma visão macro e microsistêmica dos diversos campos que compõem a realidade existencial do indivíduo (geobiológico, psicoemocional, sócio – ambiental e sacro- transcendental), em que “nada que ocorra em um campo é neutro para outro e para o todo holístico relacional” (Antony & Ribeiro, 2004, p.130).

A interação fluida entre os diversos campos promove a ampliação da visão do ser sobre si, o outro e o ambiente, o que o situa em seu tempo e espaço e permite que se realize como ser no mundo.


2.2. 
O CICLO DO CONTATO

O humano é um ser de relação que se coloca em contato com a sua própria natureza, com a do outro e do meio. Contato é o processo que permite a relação acontecer; a experiência humana se dá entre as vivências do indivíduo, o outro significativo e o mundo. Nem toda a interação, contudo, é contato, visto esse só ocorrer diante do novo e da diferença.

Segundo os pressupostos gestálticos, as dimensões do ser estão predispostas ao contato e todos os seus sentidos são canais entre o indivíduo e o mundo externo.

A diferença vivida entre si e o outro permite o encontro; a relação de aproximação e separação possibilita organizar sua fronteira e delimitar-se, preservando a própria identidade. A fronteira de contato é o espaço limítrofe subjetivo onde os eventos psicológicos acontecem.

De acordo com Ribeiro (1997), o contato real implica em que a pessoa sinta sua singularidade, identificando- se como diferente do outro e percebendo-se única no universo; no aqui e agora experiencie o tempo e o espaço em relação a si mesma, perceba – se inteira, com consciência de sua própria realidade e da do outro, o que proporciona a awareness (significa a consciência da própria consciência, a consciência emocional do ato Perceptivo). O Ciclo do Contato proposto por Ribeiro (1997, Figura 1), representado por Bloqueios, fornece uma visão das várias possibilidades de contato alcançadas pelo indivíduo; completa-se um ciclo seguindo os passos, que mostram formas de relacionamento com o meio: fluidez/fixação, sensação/dessensibilização, consciência/ deflexão, mobilização/introjeção, ação/projeção, interação/proflexão, contato final/retroflexão, satisfação/ egotismo e retirada/confluência.

O Ciclo do ContatoO Ciclo do ContatoGestalt – Terapia O Ciclo do Contato

Ainda segundo Ribeiro (1997), o ciclo fecha uma gestalt e pode ser arquitetado como um modelo para se identificar a psicopatologia, realizar o psicodiagnóstico e, ao mesmo tempo, apontar o prognóstico, visando o processo de mudança e de cura, seja de um indivíduo, de um grupo ou de uma organização mais ampla.


2.3. A Abordagem Gestáltica e o Fenômeno Aprendizagem 

No que se fazer referência a ao processo de aprendizagem, os gestaltistas (Marx & Hillix, 1963/1973) separaram quatro indicadores comportamentais: a transição da incapacidade para o domínio do problema, o desempenho rápido e desembaraçado pela compreensão correta, a boa retenção e o imediatismo com que a solução pode ser transferida para outras situações semelhantes.

Na obra de Wertheimer (Schultz & Schultz, 1992) aproveita os princípios gestaltistas da aprendizagem ao pensamento criativo em seres humanos, garantindo que o pensamento se processa em termos de todos e que as resoluções só são possíveis por meio da apreensão dessa totalidade. Nesse sentido, no que diz respeito à prática docente, “não somente o aprendiz considera a situação como um todo, mas o professor deve lhe apresentar a situação como um todo” (p.314).

Nesse processo, os aspectos motivacionais e emocionais do indivíduo apontarão as figuras para as quais se direcionarão a atenção, a percepção e a memória relevantes à aprendizagem e desenvolvimento intelectual. Dessa forma, perante da totalidade que compreende o ambiente social, físico e psicológico do contexto escolar – tido como uma unidade total de significações -, é o mundo interior da pessoa, sua percepção e o significado existencial do ambiente que determinarão a figura e o fundo no fenômeno. Em outras palavras, nada mais é que, o aluno de acordo com as suas necessidades e interesses singulares (sua subjetividade), identificará e direcionará sua percepção para aspectos específicos do que lhe é oferecido pela escola.

Logo que o processo de ensino e aprendizagem se inicia nas possibilidades e necessidades dos alunos, podendo verificar que, na visão gestáltica, o processo de aprendizagem inclui uma desenho de elementos (figura-fundo) que constitui o objeto de conhecimento, em que a figura aprendida será integrada à totalidade do indivíduo, interferindo na sua configuração e a modificando. Dessa maneira, a aprendizagem provoca mudança porque reconfigura e reorganiza; e a mudança gera aprendizagem porque abre um novo ciclo de onde surgem novas figuras em busca de significado.

Uma aprendizagem significativa fecha a gestalt, dá sentido à experiência e se organiza harmonicamente o indivíduo em sua totalidade funcional; ela, seja montada por disciplinas escolares ou originárias da vida cotidiana, promove a awareness por meio da integração dos sistemas cognitivo, sensório e motor, cuja figura objeto de conhecimento passa a fazer parte da totalidade indivíduo, retornando ao fundo e criando condições para novas figuras.

Goldstein (1995) afirma que, neste processo, o material consciente que não é necessário em determinada situação retorna ao fundo inconsciente de onde emerge quando se torna apropriado em nova situação. Sendo assim, verifica-se que os conteúdos aprendidos em ocasiões anteriores tendem a surgir em uma nova solução de problemas, tornando-se figura a partir da mobilização do fundo repleto de experiências já vividas e assimiladas. A aprendizagem refere-se então nesse caso, à conquista de respostas por meio da introvisão (insight) resultante de uma súbita alteração no campo perceptual, enquanto a solução de problemas consiste na combinação de elementos já existentes.

Uma gestalt aberta, todavia, caracteriza uma energia não totalmente descarregada, que necessita fluir, porem, não flui, ficando presa em pontos específicos da história do indivíduo. A figura que não volta totalmente ao fundo passa a concorrer com as atuais, fazendo com que ele não consiga vivenciar plenamente o aqui e agora, uma vez que, essa situação faz com que o individuo invista mais energia no controle das possibilidades do que numa ação presente. O fenômeno do não – aprender sugere o não fechamento de uma gestalt em formação, a não elaboração de uma situação que permanece inacabada, fixada, incompleta.

Podemos identificar tal movimento em um aluno que ao vivenciar sérios problemas no contexto familiar ou social, orienta sua atenção para o campo sensorial e emocional, apresentando dificuldade em atender, no plano cognitivo e as demandas escolares.

Desta mesma forma, dificuldades no contato dentro do contexto escolar tendem a representar figuras que concorrem com os conteúdos trabalhados em sala de aula. Assim como as partes influenciam o todo, esse conteúdo não aprendido tende a influenciar o indivíduo em seu funcionamento, podendo vir a interferir na sua relação com o objeto de conhecimento, com o meio ou mesmo as pessoas envolvidas no contexto.

A forma do aluno se relacionar com o não saber pode se manifestar, então, por meio de uma renuncia de contato, medo de errar, vergonha de se expor, dentre outras relações que apontam uma incompletude.

Nota – se, entretanto, que tais decorrências representam uma forma de auto – regulação e de ajustamento criativo do indivíduo às situações que se apresentam, mesmo que os mecanismos impliquem bloqueios do contato, visto que ele cria e experimenta seu próprio poder e limites enquanto busca como totalidade.

Na aprendizagem, ele se apresenta como agente de conhecimento na medida em que se mostra ativo no seu processo de reestruturação e re – significação do campo perceptual. A percepção do fenômeno aprendizagem como ciclo saudável e fluido de formação e fechamento de gestalten, torna – se o foco e objetivo das estratégias educacionais e psicopedagógicas no contexto escolar.


2.4. Preconceitos do Cotidiano Escolar de acordo com o Ciclo do Contato

Outra forma importante se refere à maneira como é concebida a queixa escolar, levando aos referidos preconceitos do cotidiano escolar, que focalizam o fracasso escolar como consequência de questões relacionadas à saúde, classe econômica, estrutura familiar e contexto social do aluno. Os preconceitos caracterizam uma visão pré – determinista e tendenciosa que impede a observação do fenômeno tal como é.

A Fenomenologia, sendo uma das filosofias de base da Gestalt – terapia, compõe um método de contemplação do fenômeno por meio da abertura à experiência para a apreensão do mundo tal qual se apresenta, valorizando a relação calcada no aqui e agora.

Uma análise generalista e uma escuta e/ou olhar tendenciosos acabam por inferir um fenômeno ao invés de observar o fenômeno. O desejo de recusar o fenômeno e atribuir causas padronizadas e previsíveis à dificuldade escolar apontam uma postura acomodativa que visa, muitas vezes, mascarar um outro problema existente, seja ele de ordem pedagógica, didática, psicológica ou de adaptação ao contexto.

Algumas instituições estruturam-se buscando trabalhar com um sujeito ideal, não estando preparadas para lidar com o real: “Diante da criança real, ela se coloca como vítima… de uma clientela inadequada…” (Collares & Moyses, 1996, p.181). Averigua – se, nesse momento, um processo em que o corpo escolar coloca em evidência a figura da dificuldade e do problema diante do fundo.

De acordo com Machado (2000), esse aluno real, entretanto, “incomoda” porque aponta os aspectos necessários de mudança, sinalizando, sintomaticamente, um conflito de ambiguidades existentes no contexto escolar. Conforme apresenta Weiss (1997):

“Triste é a escola que não acompanha o mundo de hoje, ignorando aquilo que seu aluno vivencia fora dela. Transforma aquele que inteligentemente a questiona e que saudavelmente se recusa a buscar um conhecimento parado no tempo num ‘portador de problema de aprendizagem’.” (p.18)

Considerando tal situação sob a perspectiva gestáltica, enquanto a criança cursa seu ciclo pelos mecanismos de consciência, mobilização e ação, a unidade escolar assume um mecanismo de deflexão, ou seja, um processo por meio do qual evita o contato, realizando-o de maneira vaga e geral (Ribeiro, 1997). Como fator de cura institucional, há a consciência, por meio da qual a escola dará conta da realidade de maneira clara e reflexiva, se atentando para os episódios e os percebendo em relacionamento recíproco com as pessoas e coisas.

Como o corpo docente constitui e caracteriza a instituição, faz – se necessário um processo coletivo de conscientização, apresentando as realidades e permitindo a descoberta das capacidades docentes para lidar com as diferenças.

Outro mecanismo que pode caracterizar um bloqueio de contato escolar é o da projeção, processo onde a instituição atribui aos outros a responsabilidade pelos seus fracassos, sinalizando a dificuldade de se ver como responsável.

O fator de cura refere-se ao mecanismo de ação, o processo em que a instituição assume a responsabilidade pelos seus próprios atos, identificando em si as razões de seus problemas e agindo em nome próprio na busca das soluções. Conforme afirma Patto (1999):

“A projeção de características negativas no outro é um mecanismo socialmente poderoso, na medida em que justifica a opressão. Esta atribuição, que não se dá aleatoreamente, mas informada por preconceitos e estereótipos sociais, determina a maneira como o poder será exercido.” (p.218)

Outros mecanismos que compõem o ciclo do contato, sejam eles da ordem do bloqueio ou da cura, permeiam a Instituição Escolar nos contatos que essa estabelece com os diferentes campos, envolvendo o aluno, a família, o corpo docente e as demais instituições governamentais e sociais. Verifica-se, contudo, que quaisquer bloqueios de contato tendem a atuar como divulgadores e cristalizadores das pré-concepções que caracterizam as queixas existentes, ao passo que os processos de fluidez, sensação, consciência, mobilização, ação e interação tendem a atuar como fatores impeditivos da propagação dos preconceitos do cotidiano escolar.

Evidencia – se, assim, a necessidade de uma resignificação das queixas escolares por meio da consciência escolar dos seus próprios processos. A observação cautelosa desse campo holístico relacional permitirá uma intervenção adequada, ao se deixar de focar as partes, passando a descobrir a coerência existente em um grande e integrado todo em construção.

Buscando, dessa forma, sair de uma posição acomodativa de rótulos do fracasso, para uma posição ativa e interventiva no sentido de promover, de forma presente e responsável, a aprendizagem e o desenvolvimento do indivíduo.

CONCLUSÕES

Os estudos realizados mostram que as possibilidades de atuação do psicólogo no contexto escolar são ainda tema de debate e reflexão. Entretanto, há um amplo leque de possibilidades de atuação que vem evoluindo devido às complexas demandas da educação brasileira. Apontando-se a importância do trabalho em equipe e a atuação do psicólogo não só na dimensão psicoeducativa como também na dimensão psicossocial da instituição escolar.

Percebe-se nos dias de hoje que as demandas da sociedade brasileira indicam a existência de um crescente campo de trabalho para o psicólogo nas instituições educacionais. Entretanto, essa ampliação e diversificação das possibilidades de atuação do psicólogo estão na dependência de aberturas da sociedade e da efetivação de políticas públicas voltadas à educação para a sua efetiva implantação em esferas mais amplas. Nesse processo a pressão popular por serviços de saúde de melhor qualidade, numa perspectiva interdisciplinar de trabalhos conjuntos de equipes, em várias áreas da sociedade, inclusive a educacional, deverá desempenhar um papel relevante na efetivação dessas demandas sociais.

Desde sua origem, o indivíduo inicia o seu processo
 de desenvolvimento em busca de sua totalidade. Em seu caminho, passa por diferentes fases que caracterizam  as valências e figuras peculiares construídas pelas interações entre os diferentes campos. Nesse processo, os ajustamentos criativos e as tendências à auto-regulação e auto-realização constituem aliados importantes, que levam o indivíduo às buscas, encontros, abertura e fechamento de gestalten, concomitante ao conhecimento de si, do outro e do mundo. 

O processo de aprender implica, por sua vez, descobrir, mudar, criar, sentir, pensar e realizar, na medida em que o sujeito caminha pelo Ciclo do Contato e lida com o novo, representado pelas formações elementares do pensamento, da linguagem, pelos movimentos e escrita, ações concretas e abstrações lógicas, respeito e responsabilidades sociais, conhecimentos cotidianos e científicos, controle e fluidez das emoções, análise e síntese, enfim, por inúmeros conteúdos e formas que, independente da fase de desenvolvimento em que o indivíduo se encontre, estão em constante reconfiguração, reconstrução. 

A abordagem gestáltica no contexto escolar, mostra uma interface teórico-prática,  contribuindo para a ampliação das concepções que  permeiam os fenômenos aprendizagem e desenvolvimento e para a re-estruturação de campos perceptuais cristalizadores do cotidiano escolar, vinculando-se a uma mudança de postura, de paradigma, para que cada um possa tornar-se um instrumento propulsor do crescimento e desenvolvimento da criança, não só como aluno, mas como ser humano. 




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