ARTETERAPIA COMO RECURSO DE REGULAÇÃO EMOCIONAL PARA CRIANÇAS

INSTITUTO FREEDOM

ARTETERAPIA COMO RECURSO DE REGULAÇÃO EMOCIONAL PARA CRIANÇAS

MARIA A L ALVARENGA

Resumo

O período que compreende a infância e as experiências e relacionamentos que se formam desta fase são determinantes para o desenvolvimento socioemocional saudável de um indivíduo. Neste contexto intervenções terapêuticas focadas na regulação emocional através da arteterapia vem se mostrado eficazes a medida que a arte por si só muitas vezes permite liberação da tensão e a criança, por não possuir repertório vivencial o suficiente, encontra canal de expressão por meio da arte, de modo a conseguir representar sua subjetividade ao dar vazão às fantasias.
A pandemia do COVID19 que colocou o mundo em isolamento social representou momento muito traumático para as crianças em idade escolar durante os anos de 2020 e 2021 já que não puderam frequentar a escola na modalidade presencial. Os encontros semanais online através da plataforma CISCO WEBEX permitiram a integração social e o acolhimento emocional durante esta experiência difícil, garantindo uma infância com mais qualidade.
Este artigo procura demonstrar por meio de pesquisa qualitativa, como a arteterapia pode contribuir enquanto tratamento complementar ao psicológico à população infantil com dificuldades socioemocionais, que estejam em tratamento psiquiátricos ou até mesmo passando por experiências problemáticas, como foi o caso da experiência coletiva da pandemia do COVID19. Para isso, foram desenvolvidas oficinas criativas focadas no objetivo de oferecer intermediação para que essa população desenvolva estratégias saudáveis de regulação emocional e as abordagens adotadas tinham como base no acolhimento, troca afetiva, validação, reconhecimento e nomeação das emoções, atenção plena, fala compassiva, fortalecimento da identidade e oferecer experiências positivas através de jogos e brincadeiras. Com o objetivo de demonstrar a eficácia dessas estratégias, foram escolhidas duas oficinas que apresentaram resultados satisfatórios ao facilitar a livre associação de ideias e contribuir para esse diálogo com a subjetividade dos participantes, além de promover a integração social e a diversão, como no caso do jogo “O Cadáver Esquisito”, o qual permite que o trabalho seja em grupo e o resultado sempre diverte ao apresentar características fantásticas. O poema do “Eu Sou” permitiu um contato aprofundado com a subjetividade dos participantes ao estimular a reflexão sobre si mesmo, fortalecendo a autoestima e estimulando o autoconhecimento. Deste modo, podemos dizer que a arteterapia se mostrou uma importante ferramenta terapêutica na promoção de bem-estar como complementar ao tratamento psicológico e psiquiátrico da saúde mental à população infantil.

Palavras-chave: : regulação emocional. arteterapia. criança.validação. acolhimento. auto-estima. identidade.

Abstract

The period of childhood and the experiences and relationships developed at this range of time are crucial for the development of social emotionals skills. In this respect therapeutic intervention focused on emotional regulation hava been shown efficient since it is possible to perceive that art by itself allow emotional tension release and the child for do not carry enough life experience find a way to express themselves more freely in order to perform their internal world through fantasys.
The COVID19 pandemic places world in social isolation and have challenged kids in schooling age during 2020 and 2021 whereas have not been possible to attend school on-site live. So, attend in group meeting virtually through CISCO WEBEX platform allowed social integration and garanteed emotional support while this hard time.
This paper intend to attest through qualitative research how arttherapy can offer satisfied results as complementary treatment to the children with sócio-emotional issues facing psychological and psychiatric care treatment or experiencing traumatic events such as the pandemic of COVID19.
Was designed creative workshops focused on develop healthy strategys to emotional regulation which the basis was founded on emotional support, nurturing, validation, mindfulness, compassionate approach, spot and name emotions as well as recognise and validate, empower individuality and promote positive experiences through games and play.
Aimming to show the result of workshops and it’s efficience two activites was chosen that have been shown enough results to facilitate the free association ideas and contribute to dig internal world of participants. In addition to promote social integration and fun, such as the game “exquisite corpse” that allowed the work in group and the outcome was entertaining by it’s fantastic aspects. In case of the workshop entitled “I Am” the work allowed a deep self connection to the subjectivity of participants by encourage the self aware building up the self steem.
Therefore, it is possible to state that arttherapy is an importante resource to promote well being as complement to the psychological and psychiatrist treatment care for children.

Keywords: emotional regulation- artherapy-children- childhood-validation- emotional support- self aware- identity

Introdução

A partir das primeiras contribuições de Freud sobre a constituição psíquica de um indivíduo podemos observar que o período que corresponde a infância é determinante no tocante ao desenvolvimento saudável de um indivíduo. Deste modo, podemos entender que as primeiras experiências e os vínculos que se formam nesta fase afetam profundamente seu desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional.

Um estudo publicado pelo The lancet Psychiatry afirma que passar por experiências traumáticas durante a infância pode alterar a estrutura cerebral, apresentando um córtex insular menor, além de contribuir para o risco do desenvolvimento da depressão grave na idade adulta e a ínsula é justamente a parte do cérebro responsável em regular as emoções.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, acessou dados de 176 245 adolescentes de 12 a 17 anos e de 180 459 adultos com 18 a 25 anos no período entre 2005 e 2014 constatou que a taxa de suicídio nessa faixa etária subiu 37%. Além disso, pesquisadores da Universidade de Birmingham relacionam casos de insônia na infância com o aparecimento de transtornos psiquiátricos na adolescência, além da insônia contribuir para o baixo desempenho estudantil.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o número expressivo de novos casos de crianças e adolescentes que sofrem com o mal da depressão. O índice mundial de crianças na faixa etária entre 6 e 12 anos, diagnosticadas com a doença, passou de 4,5% para 8% na última década, o que representa um crescimento de 43,7%. Ocorre que são muitos os fatores estressores que contribuem para isso, como a violência nas grandes cidades, o ritmo de vida acelerado, pais cada vez menos presentes e o aumento das responsabilidades, são exemplos de somente alguns deles. A verdade é que se não ocorre uma intervenção terapêutica o quanto antes a problemática tende a crescer, uma vez que a depressão e ansiedade afetam a vida acadêmica e social do indivíduo gerando o efeito “bola de neve” e até mesmo culminar em situações mais graves como o suicídio. Talvez isso explique o aumento de 10% no Brasil, em pesquisa publicada em 2019. Ocorre que nesta fase a criança e o adolescente não consegue explicar muito bem o que ocorre com ele pois não dispõe de linguagem adequada ou de autoconhecimento suficiente para simbolizar seu mundo interno e é neste ponto que a arteterapia pode se mostrar eficaz para ajudar o indivíduo na expressão de sua problemática e o ajude a liberar de forma espontânea, o que acontece com ele.

 A arte tende a ser esse canal, essa voz, e além disso, a arte tende a acalmar contribuindo para a saúde emocional. No artigo Art Therapy Helps Abused Children, Tamara Herl, uma arteterapeuta residente em Kansas, Estados Unidos, diz que o grande valor da arteterapia para crianças que foram negligenciadas ou abusadas é de contribuir para canalizar a dor em imagens, de modo a simbolizar e canalizar emoções, é sobretudo uma maneira de serem ouvidas, sem que para isso precisem dizer nada.

A arteterapeuta Cathy Malchiodi, Ph.D. nos apresenta um importante estudo que comprova a eficácia da arteterapia em diferentes condições vivenciais. 39 participantes utilizaram argila, colagem ou caneta de hidrocor e no final foram convidados a compartilharem a experiência com o grupo e utilizaram transposição de linguagem, escrevendo a experiência. Os pesquisadores que acompanhavam o processo mediram os níveis de cortisol (hormônio do estresse) dos participantes antes e depois da atividade, constatando uma significativa redução após a atividade. Concluindo, portanto que houve redução do estresse após a prática arteterapêutica.

Outro estudo de 2007, os pacientes com câncer em processo de quimioterapia participaram uma vez por semana de atividades com aquarela, após quatro sessões de arteterapia sentiram mudanças significativas para melhor no alívio da depressão.

Em 2001 Shirley Riley publicou um artigo na revista de medicina da Faculdade do O este dos Estados Unidos, mostrando que a arteterapia faz um sucesso enorme com jovens pois apresenta uma metodologia não ameaçadora, o que fortalece o vínculo entre terapeuta e paciente.

Um estudo de 2015 publicado na Arte e Psicoterapia mostra que uma pessoa com transtorno de personalidade tratada com arteterapia pode melhorar em 5 aspectos como a percepção sensorial, a integração pessoal, a regulação das emoções e dos impulsos, nas mudanças de comportamento e na compreensão. Pacientes experienciam a arteterapia como uma maneira mais direta de acesso às emoções em comparação com as terapias pela fala.

  O presente artigo tem como objetivo demonstrar a eficácia da arteterapia como coadjuvante ao tratamento psicológico e/ou psiquiátrico à população infantil que sofre de transtorno psiquiátricos e dificuldades socioemocionais, bem como que estejam passando por eventos traumáticos, como a pandemia da COVID19, que acometeu a população mundial no ano de 2020, 2021. Além disso, apontar como é possível por meio da arte fortalecer a autoestima, fortalecer a identidade, desenvolver o autocontrole, melhorar a integração social, estimular aspectos cognitivos e afetivos, oferecer experiências positivas e sobretudo, divertir.

MÉTODO

O projeto de pesquisa consistiu em fortalecer emocionalmente crianças da faixa etária dos 8 aos 12 anos de idade semanalmente durante 6 meses na modalidade online, utilizando a plataforma Cisco Webex que fora concedida gratuitamente para a ONG em decorrência da pandemia do coronavírus que acometeu a humanidade no ano de 2020. Durante este período as crianças estavam estudando o ensino tradicional também na modalidade online. As crianças faziam parte da ONG Espaço Ser, responsável por oferecer apoio gratuito a crianças e jovens com dificuldade na saúde mental e tendências suicidas configurando-se assim em uma pesquisa de caráter qualitativo.

    A análise se apoiou em minha experiência como Analista Junguiana e também em pesquisas de autores desenvolvimentistas como Winnicot e Fordham entre outros citados acima.

    Para Vanessa Coutinho (2013), é preciso gostar de crianças para se trabalhar com elas e considerar a criança como ser em plenitude, além de compreender que certos acontecimentos que para os adultos sejam banais para uma criança podem ser considerados razão de profunda angústia e ansiedade. É de suma importância ainda estar atento aos processos não-verbais da interação, muito embora este processo seja dificultado pelo meio tecnológico, foi possível realizar a observação através de expressões faciais e por meio da voz. Uma vez que a relação terapêutica com crianças a relação transferencial é marcante, tive de realizar um diálogo entre a minha criança e os participantes do grupo.

       Desde o princípio foram definidas estratégias de regulação emocional após uma profunda pesquisa nas terapias já existentes como a comportamental dialética. Esses recursos foram acolhimento, troca afetiva, escuta ativa e compassiva, a promoção da atenção plena, a integração social, a acumulação de experiências positivas através de jogos e brincadeiras e na construção de um setting terapêutico que não estimula a competição e a estética como elementos, bem como e mais importante, a validação e reconhecimento das emoções.

    Para Ciornai (CIORNAI,2004,pág 203) a expressão artística por si já permite descarga de tensão e a representação de conteúdos subjetivos e atenta para a importância de organizar sentimentos que normalmente estariam ocultos. 

   É importante destacar que parte do método da Psicologia Analítica desenvolvida por Jung consiste em observar o comportamento das imagens arquetípicas e o método da Associação Livre, análise dos sonhos, imaginação ativa e a amplificação facilita este processo. O tratamento se passa através da fala e em certo momento a a imaginação começa a funcionar por si só, como uma fantasia organizada, tomando a forma de um sonho acordado estabelecendo um diálogo entre ego e a imaginação. 

   Outro recurso utilizado nas oficinas foi a utilização das metáforas para facilitar a mudança de perspectiva ao empregar linguagem figurada novas respostas surgem provocando mudança de comportamento.  

 Os encontros terapêuticos aconteciam dentro do modelo proposto por Alessandrini (1996, p.39-43)

1) Sensibilização – momento onde se estabelece uma relação diferenciada com o mundo. Maior percepção de si mesmo e do mundo à sua volta. Podem ser feitos exercícios lúdicos, corporais, respiração, meditação, leitura de textos, contos, visualizações, etc.

2) Expressão Livre – expressar de forma livre a experiência vivida, onde sensações, sentimentos e pensamentos são expressos pelas técnicas e materiais artísticos como argila, pintura, desenho, colagem, sucatas, música etc. Momento onde o sentimento pode eclodir como imagem e tomar forma.

3) Elaboração da Expressão – momento de se fazer um distanciamento reflexivo, onde é possível elaborar dando mais contornos, linhas e cores nas formas e figuras surgidas na etapa anterior.

4) Transposição de Linguagem – momento mais diretivo e estruturado onde pode-se observar que as formas estão repletas de significados significantes. Sugere-se nessa etapa escrever sobre o processo, mas, também é possível fazer uma transposição para um outro material para ampliar os significados.

5) Avaliação – é quando a distância reflexiva se completa oferecendo ao indivíduo a oportunidade de crescimento interno de ampliação de consciência.

A Criança

A infância, período que compreende dos 5 aos 12 anos de idade, ganhou o seu próprio estatuto e direitos somente no século XX, de forma a reconhecer a sua importância no estágio de desenvolvimento humano de maneira diferenciada do adulto. As experiências vividas na infância são, portanto, determinantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional, afetivo, social, física e mental. Mas nem sempre foi assim, na Idade Média, tão logo a criança adquiria certa independência já lhe era exigida responsabilidades do mundo dos adultos, sendo possível observar obras de arte que retratam as crianças com roupas de adultos como nos mostra a obra de arte de Renoir Rosa e Azul, do ano de 1881. Nesta época, não era possível identificar o “sentimento infantil”.

Foi a partir do século 18, com as reformas religiosas e o surgimento do Iluminismo, que o papel social da criança, foi reconhecido como um indivíduo de características particulares, diferenciado do adulto. No século 19 Freud contribuiu para a o estudo da mente humana ao enfatizar a infância como sendo importante para o desenvolvimento psicossexual do indivíduo. Freud destacaria a existência da sexualidade em crianças e apontou os cinco primeiros anos como determinantes para o desenvolvimento da personalidade. Em 1959, a ONU (Organização das Nações Unidas) aprovou a “Declaração Universal dos Direitos da Criança”, que inclui direitos como igualdade, escolaridade gratuita e alimentação. E foi entre o século 19 e 20 que subdividiu-se a infância em fases e o conceito de adolescência apareceu, assim como a puberdade, ou segunda infância.

O ideal de infância no século atual revela uma imagem de criança, feliz, brincando, saudável, integrada em uma família cuidadosa, e que possui potencial máximo de desenvolvimento tanto físico como de inteligência. É preciso prepará-la para a vida adulta, pois a mesma é entendida como incompleta. Em lugar ao trabalho infantil a criança passou a utilizar cartilhas e livros cada vez mais cedo, por volta dos 3 anos de idade e cada vez mais lhes são exigidas responsabilidades de adultos. A criança do nosso século passou a ser percebida como um “investimento para o futuro”, uma vez que o foco é econômico e a expectativa é que tenha sucesso financeiro. Podemos chamar essa criança de “criança escolar”. A criança passa então a ser entendida como o indivíduo central de uma família.

Freud e a psicanálise

Antes de tudo é preciso destacar a diferença de infantil e infância para a psicanálise, uma vez que infância é um marco no tempo equanto infantil é atemporal e remete-se a um recalque no inconsciente, uma pulsão. Por sua vez é possível um adulto tomar a infância em um trabalho de análise, uma vez que este conteúdo se faz presente no inconsciente. Não somente cenas e lembranças presentes no discurso dos pacientes de Freud eram contempladas, mas as que eram esquecidas. De todo modo, é possível dizer que o infantil ocupa um lugar de destaque nas teorias freudianas. Ao mesmo tempo que a técnica da associação livre se consolidou como recurso terapêutico importante para a psicanálise, o infantil ocupou um lugar de destaque uma vez que era possível através da fala fazer uma reconstituição das experiências presente na psique de maneira a ajudar na elaboração dos sintomas do indivíduo, valorizando a vida psíquica do sujeito em análise. Desta forma é possível afirmar que Freud atribui às experiências infantis um lugar de importância, uma vez que estão presentes não somente como memórias, mas como sensações, cheiros, sons, falas, gestos grafadas no psiquismo de um indivíduo.

O conteúdo infantil recalcado muito interessava a Freud, ao passo que podemos compreender que existe uma criança presente na psique a ser resgatada, não somente as memórias lembradas, mas as esquecidas. Freud estabelece que as experiências infantis são de suma importância para a constituição psíquica de um indivíduo e é com essa afirmação que Freud sustenta a teoria da pulsão. Em 1919 Freud chocou a sociedade da época ao desenvolver a teoria do desenvolvimento psicossexual infantil e apontar que os cinco primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da personalidade.

Em síntese, é possível dizer que Freud destaca que no processo de subjetivação existe presente no adulto modos primitivos de desenvolvimento. Em sua hipótese sobre o desenvolvimento pulsional o adulto sempre carregará na sua psique o infantil que primariamente o constituiu de maneira a retornar o prazer primordial. Além disso, Freud estruturou a psique em partes denominadas ego, superego e ID o que possibilitou Melanie Klein, Jung e muitos outros teóricos, a desenvolverem suas próprias teorias baseadas nesta estrutura.

Melanie Klein

Contribuiu para a psicanálise desenvolvendo a teoria das relações objetais da qual aborda a relação da criança com os cuidadores de forma a introjetar aspectos positivos e negativos com relação a eles, devendo predominar o positivo para um desenvolvimento satisfatório. Melanie valorizava a observação clínica e escreve “Contribuições à Análise Infantil”, apresentando à Sociedade de Psicanálise de Budapeste”. Klein concluiu que sofrimentos importantes mesmo quando não verbalizados podem se manifestar em ansiedade e que o inconsciente revelava fantasias primitivas que se expressavam de forma instintiva na forma de brincadeira espontânea.

 A psicanalista desenvolveu um modelo de trabalho que favorecia a liberdade para que essas fantasias ou brincadeiras pudessem ser exploradas. Klein fora surpreendida com os resultados desse experimento e a compreensão da ansiedade foi o foco da sua atenção e mesmo sem formação acadêmica elaborou a teoria de introjeção e projeção. Para ela o bebê não possui um self construído, um ego e apresenta estrutura primitiva deste, sentindo ansiedade de forma a se defender por meio de projeções e introjeções formando um teatro subjetivo onde os significados emocionais são experienciados. Este conceito é muito importante para o estudo de símbolos e desenvolvimento cognitivo. A autora afirma que existem dois sentimentos básicos no bebê: O amor e o ódio.

 A teoria se consolida com a teoria das posições em que existe a ansiedade, a defesa, relações com o objeto e impulsos. Podemos dizer assim que a análise de Klein não procura por conteúdo reprimidos e sim de equacionar as ansiedades depressivas com as ansiedades persecutórias. Ao identificar nos jogos e nas brincadeiras um caminho simbólico ao teatro interior do sujeito desenvolveu um método de linguagem transferencial.

Jung e a Criança Interior

"Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo, e que solicita, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa"

Carl Gustav Jung (1875-1961)

Mesmo antes de comprovações científicas Jung sustentava que uma criança não nascia uma tábula rasa pronta para ser moldada pelo ambiente, muito embora o mesmo venha a influenciar, no entanto é preciso também considerar a carga genética e psíquica do mesmo. Apropriou-se da teoria do inconsciente de Freud, indo mais além ao elaborar a teoria do inconsciente coletivo, uma camada até mais profunda do inconsciente comum a toda humanidade aproximando e considerando o passado ancestral da experiência humana. Esse inconsciente seria então orquestrado por estruturas energéticas, a que Jung denominou arquétipos. Jung observou um padrão da experiência humana de comportamento e identificou presente da psique humana a presença da criança arquetípica e quando essa criança se manifesta como criança divina pode muito contribuir para a experiência individual e coletiva do ser humano pois se manifesta como criatividade, curiosidade, espontaneidade e alegria de viver tornando a vida satisfatória. Quando a criança interior é ferida existe a manifestação de sintomas e sofrimentos psíquicos. Uma das formas de reconexão e resgate da criança interior é sem dúvida alguma através das brincadeiras, artes e jogos.

Para Jung (apud.Bufarah Tommasi,2005), a criatividade é uma função psíquica, natural da mente humana. Diferentes técnicas forma desenvolvidas por ele de modo a se propor organizar a vida interna de seus pacientes, favorecer o autoconhecimento e seu lugar no mundo.

Regulação Emocional e a Teoria do apego

As emoções desempenham papel fundamental nas relações sociais, assim como a maneira como cada indivíduo lida consigo mesmo. Após toda história desempenhando papel inferior à razão parece que enfim as emoções estão alcançando destaque no que tange a importância que atribuímos e o interesse pelo assunto tem crescido nos últimos anos. A verdade é que se emocionar é inerente ao ser humano, no entanto como sentimos, a intensidade das emoções e como reagimos a elas difere de uma pessoa para outra. A dificuldade de resposta a uma determinada emoção tem levado muita gente à terapia e sem dúvida diferentes tipos de psicoterapia são possíveis assim como as estratégias terapêuticas.

Além da busca por prazer e eliminação da dor, a existência do ser humano deve acima de tudo possuir sentido. Uma experiência cheia de emoções pode dar brilho e satisfação momentânea, no entanto, pode apresentar dificuldade quando não sabemos experienciar insatisfações. O ser humano é convidado a reagir diante de determinados estímulos como forma de processamento do organismo para se adaptar ao ambiente externo e assim garantir a sobrevivência da espécie na história evolutiva do homem. Sendo assim, diante de determinadas situações o organismo processa automaticamente de forma a alertar para situações problemáticas provocando reações químicas e neurais no organismo.

Então, as emoções encobrem um sistema de significados desenvolvidos a partir das experiências ao longo da vida. Acontecimentos que racionalmente não oferecem risco algum podem desencadear stress no corpo de forma a alterar a química biológica e alertar para o perigo, gerando medo e ansiedade. Como por exemplo, falar em público não oferece risco algum à sobrevivência da espécie, no entanto experiências vivenciadas de forma negativa pode desencadear emoções ruins toda vez que o gatilho for ativado. Entretanto, podemos dizer que as emoções são processos determinados biologicamente, mas que adquirem novos significados a partir do momento que experienciamos o ambiente de forma negativa ou positiva. Portanto, regulação emocional é o processo que se propõe influenciar a forma como essas emoções serão apresentadas e quando e como serão experienciadas.

A habilidade de regular as emoções é uma competência importante para a qualidade de vida pois desempenha papel fundamental na atividade social, satisfação conjugal, bem como o sucesso na vida acadêmica e profissional.

A capacidade de regulação emocional depende de muitos fatores como vínculos e experiências iniciais de vida, assim como visão de mundo construída ao longo da vida, sistema de significados pessoais, cultura, temperamento, etc.

A palavra regulação sugere harmonia e equilíbrio e na psicoterapia está relacionada a estratégias para se trabalhar indivíduos que estão sub-regulados ou sobreregulados por possuírem pouco contato com suas emoções. As relações disfuncionais mais comuns com a regulação das emoções são a desativação e a hiperativação. Na desativação o indivíduo é patologicamente autossuficiente e desconsidera as relações sociais como forma de apoio. Na hiperativação o indivíduo valoriza exageradamente o outro e busca se reassegurar constantemente no ambiente. Indivíduos com sistema de apego saudável lida de forma mais funcional com as emoções. Além dessas estratégias, existem outras estratégias que podemos considerar como desadaptativas frente ao enfretamento das emoções como supressão das emoções, ruminação, evitação, uso de substância, comportamento impulsivo, tendências suicidas, distorções no processamento das informações provenientes do ambiente, etc.

Muito embora as emoções sejam inerentes a à existência humana, as experiências vividas por cada indivíduo formam significados únicos ao longo da vida criando esquemas emocionais. Uma vez formado, o esquema atribui significado à realidade operando como emoção básica e criando respostas automáticas e inconsciente, alterando fisiologicamente a química do corpo, ativando tendências comportamentais e determinadas cognições toda vez que é percebido algo com significado similar ao que já foi vivenciado. Podemos então dizer que os esquemas emocionais são experiências corporificadas.

A teoria do apego proposta por Bowlby e Ainsworth (apud. BALDISSEROTTO, MENDES, MELO. REGULAÇÃO EMOCIONAL NA PRÁTICA TERAPÊUTICA) é referência importante tanto para a psicologia do desenvolvimento como para as terapias focadas nas emoções e atenta para o fato que existe inato no homem a monotropia, ou seja, a capacidade de se ligar a uma determinada pessoa de maneira especial, podemos chamar essa pessoa de figura cuidadora ou de apego, pessoa de suma relevância para a criança, presente em sua convivência. Essa pessoa teria então maior capacidade de lidar com os problemas e adversidades. No desenvolvimento saudável a criança manifesta comportamentos a fim de chamar a atenção da figura de apego sempre que se sente em perigo. Assim, o sistema de apego apresenta respostas emocionais como medo e ansiedade e quando a figura de apego se faz presente o medo e a ansiedade dá lugar a emoções positivas como segurança e proteção. Sendo assim, a figura de apego desempenha destaque no papel de ajudar a criança a desenvolver estratégias saudáveis de se auto-regular uma vez que a criança não possui essa capacidade inerente. Por consequência, o reconhecimento, as experiências compartilhadas, as brincadeiras, a troca emocional, o contato, a validação e outras manifestações positivas relacionais fazem a criança criar um sistema de regulação saudável e funcional.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

8.1 O jogo do cadáver esquisito

O jogo cadáver esquisito é uma técnica surrealista que consiste em uma criação coletiva de uma história ou arte visual de forma a construir uma narrativa que resulta em um mundo com características fantásticas. Foi trabalhado a imaginação, a criatividade, a interação social, a diversão, o humor, o lazer e a aproximação do grupo de forma virtual contribuindo para a afetividade entre os participantes, além de entreter. Segundo Breton, a prática do Cadavre Exquis “era um meio infalível de liberar plenamente a atividade metafórica do espírito” (apud Theophilo.2013).

No artigo o El origen deportivo del Estado, Ortega y Gasset (apud Theophilo.2013) sustentou que as atividades lúdicas foram fundamentais para o desenvolvimento e manutenção da civilização, mesmo que o mesmo não apresente objetivos práticos e imediatos de modo que transcendia a vida mundana. Esse artigo representava uma crítica ao Homo Economicus vigente do século XX, uma vez que representava ameaça à potência sentimental, imaginativa e criadora da juventude. O Homo Ludens proposto por Johan Huizinga em 1930 (apud.Theophilo.2013) em um ensaio, adquiriu importância no surrealismo pois a atividades lúdicas, divertidas e prazerosas apresentavam até mesmo caráter subversivo na época, à medida que ia na contramão da sociedade que valorizava o tecnicismo, e o imediatismo vigente pois valorizavam as atividades contemplativas. Para Huizinga (apud Theophilo.2013) o direito, o conhecimento, a poesia ou a filosofia, instituições importantes para o processo civilizatório teriam uma origem lúdica e apresentavam fim em si mesmo. Sendo assim, o jogo fazia parte da condição e natureza humana. No tocante à linguagem Huizinga (apud Theophilo.2013) propõe que toda expressão continha uma metáfora e que toda metáfora era a possibilidade de criação de um novo mundo, mais poético.

 Os surrealistas acreditavam que a sociedade industrial presente no início do século XX estava fatalmente contribuindo para uma sociedade que aniquilaria o potencial humano de criação, tanto do ponto de vista individual como no coletivo. A princípio os jogos de linguagem eram mais explorados e ao passo que as atividades iam tomando forma começaram a praticar atividades plásticas. O primeiro manifesto surrealista publicado em 1924, escrito por Breton dava ênfase à escrita automática que consiste em uma técnica desenvolvida de modo a misturar as duas realidades, tanto do sonho como da vigília libertando o homem dos preceitos morais visto que a técnica consiste no relaxamento do superego em que não deixamos o certo e errado bloquear a criatividade e a fluidez do pensamento. O cenário da época era entre-guerras, predomínio do utilitarismo, do tecnicismo, cenário que destruía todo potencial humano de criação, fantasia e liberdade, valores que contribuem para o bem-estar. Para Breton (apud Theophilo.2013), o homem do século XX era um homem prático, à medida que a imaginação e o sonhar eram soterrados pelo zeitgeist, ou espírito do tempo, a pretexto do progresso da civilização eliminava a quimera e toda e qualquer superstição ao passo que era preciso levar em conta os estudos de Freud que passou a estudar os sonhos e a levar aos intelectuais da época o interesse pelo assunto.

Portanto, para Breton (apud Theophilo.2013)o jogo é sempre experienciado sem objetivos práticos, de forma desinteressada para ser desfrutado somente por distração contribuindo para libertar o homem do ideal burguês de felicidade. Breton e seus amigos na década de 20 criaram e adaptavam jogos infantis associando palavras e imagens a fim de explorar novas possibilidades e o jogo do cadáver esquisito era um deles. Muito embora o ideal de distração proposto, todos esses jogos eram jogados por intelectuais que buscavam na base psicanalítica sustentação para suas práticas. A realidade profunda do homem nada teria então a ver com o mundo das coisas já feitas, com o mundo que ele vivia, para isso era preciso recorrer ao fantástico, ao imaginário.

Foi Michael Fordham (1994) o principal estudioso junguiano do desenvolvimento infantil e ele aponta que ao brincar a criança goza da sensação de onipotência em especial quando se trata de um brincar criativo, imaginativo, com materiais primários como água, areia, argila, desenho, pintura e poesia. Ao brincar que surgem símbolos importantes ao processo terapêutico e o jogo oferece essa possibilidade.

8.2 A oficina

O jogo do cadáver esquisito constitui na construção coletiva de histórias ou atividades plásticas, como estávamos através da internet, preferi uma construção de uma história coletiva.

Como era verão, o cenário da narrativa escolhido foi a praia e ofereci elementos fantásticos de modo a permitir a liberdade de fantasia, a associação livre de ideias trabalha melhor quando não existem regras, na forma de devaneio e relaxada, oferecer elementos fantásticos contribui para esse relaxamento e transmitindo que tudo é possível. Comecei a narrativa desta forma:

“Estrelas do mar

-Era uma vez um escritor que morava em uma tranquila praia, junto de uma colônia de pescadores. Todas as manhãs ele caminhava à beira-mar para se inspirar e à tarde ficava em casa escrevendo. Certo dia, caminhando na praia, viu um vulto que parecia dançar. Ao chegar...”

E então as crianças continuaram:

“ – Ao chegar na praia com a lanterna, não tinha nada, estava escuro, ele voltou para casa pensando que estava doido. Depois daquela noite acordou, se trocou e foi para praia ver se o vulto ainda estava lá. Olhou para praia e viu um tubarão dançante e percebeu que o vulto era na verdade este turbarão. Então decidiu entrar no mar e depois sair pois estava quase se afogando. Foi para a colônia dos pescadores contar para as pessoas, mas não acreditaram nele. Um dia pegou uma câmera e começou a filmar, porém o tubarão não saiu na gravação. Ele ia anotando tudo o que acontecia que seria usado em seu livro e decidiu chamar os amigos para capturar o tubarão, porém o tubarão nunca mais voltou a aparecer e eu fui dado como louco”

Durante a oficina foi possível perceber maior interação entre os participantes do grupo e se divertiram muito entre eles, a atenção plena também foi observada, pois todos os participantes estavam bastante envolvidos na história. Foi possível perceber através da associação livre de ideias elementos condizentes ao complexo de Cassandra, que a frustração de se dizer a verdade e ser considerado falso, que pode ser trabalhado em oficinas posteriores. Pegar a câmera e filmar o tubarão dançante foi um modo que o protagonista da história enfrentou a situação ao não acreditarem nele.

  Como estavam em isolamento social devido à crise do COVID19, fornecer esse deslocamento de cenário através ao contar histórias é um recurso importante a medida que o cérebro não sabe diferenciar o que é imaginação e realidade. Mesmo em isolamento social foi possível enriquecer a experiência infantil através da contação de histórias. Foi possível explorar como lidam com as situações problemáticas, deslocamento de cenário, atenção plena, diversão, integração social, humor, entre outras coisas trabalhadas na oficina. É de conhecimento que acumular experiências positivas é importante para a regulação emocional e a atividade, entre outras coisas, contribuiu muito para diminuir essa suscetibilidade emocional ao passo que a troca relacional entre os participantes aconteceu de forma positiva. Segundo Vygovstky (2012, Imaginação e Criatividade na Infância): “Todas as formas da imaginação criativa, diz ele, incluem em si elementos afetivos. Isto significa que toda a construção da fantasia, inversamente, influencia os nossos sentimentos e, no caso de esta construção, por si só, não corresponder à realidade, todos os sentimentos por ela desencadeados são reais, vividos verdadeiramente e integrados pelo homem que os sente. Imaginemos uma situação simples de ilusão.”. Sendo assim, contar e ouvir histórias é um recurso importante para o diálogo com o mundo interno e todos deram asas à imaginação.

8.3 Poesia do Eu sou

Foi trabalhada a autoestima, o fortalecimento da identidade, o autoconhecimento, a criatividade e a autoconfiança na medida que adquirem confiança com a desenvoltura textual como consequência de todos esses estímulos.

Do ponto de vista de fortalecimento da identidade é preciso primeiramente compreender que identidade do ponto de vista psicossocial é um processo de ajustar o mundo subjetivo com o mundo exterior, ou seja um modo considerado saudável de se localizar no mundo. Para Erikson (apud. Noack,2007), a identidade é tanto psíquica como social possuindo, contudo, um lado psíco-histórico. A crise de identidade contribui e faz parte do próprio desenvolvimento da pessoa. No entanto se a crise se prolongar pode comprometer as fases seguintes da vida do indivíduo. Portanto, fortalecer a identidade da criança por meio de interações sociais e práticas criativas é de fundamental importância e valor. É preciso proporcionar possibilidades de vivenciar situações que possam comunicar desejos, vontades, preferências e desgostos de modo a facilitar o processo de construção de sua história pessoal e biografia. Sendo assim, para JUNG ( apud.Fordham,1994) a criança precisa deixar projetada no mundo uma grande parte de sua psique e adaptar-se o mínimo necessário às normas coletivas dentro da qual possa desenvolver seu universo pessoal.

Para Jung (apud.Fordham,1994), o objetivo do desenvolvimento infantil é atingir a maturidade, para tanto, o ego precisa estar fortalecido a poder adquirir maior controle do mundo interior e exterior. O autor reforça que a criança precisa deixar projetada no mundo uma grande parte da sua psique e adaptar-se ao mínimo necessário de normas coletivas dentro da qual possa desenvolver o seu universo pessoal. Dessa maneira, os problemas infantis estariam assim relacionados ao amadurecimento do ego.

Por si só a linguagem artística já colabora com o fortalecimento da individualidade e a singularidade pois cada criança tem a possibilidade de desenvolver a linguagem própria que reflete esse diálogo de sua subjetividade como a expressão de seu mundo ao redor.

Vygovystki (2012, Imaginação e Criatividade na Infância) afirma que a criação literária e verbal é a mais característica do período escolar, justamente o período trabalhado com as crianças e que nesta fase o gosto pelo ato de desenhar começa a enfraquecer. O autor também sustenta que é preciso orientar a criança a escrever o que conhece bem e sobre o que pensou profundamente. Desta forma a poesia Eu Sou permite a criança pensar sobre si mesmo através de um estímulo versado que conversa diretamente com o inconsciente. Descrever a si mesmo é também uma forma de se ver a partir de outro ângulo.

Vygovskti (2012, Imaginação e Criatividade na Infância) atribui como característica da criação literária infantil o fato de existir a experiência autobiográfica de seus interesses e vida pessoal em suas criações. Parece haver uma marca subjetiva, uma escrita subjetiva presente no discurso infantil. Ele também explica que o sentido da criação literária para crianças não se justifica no surgimento de um futuro escritor, mas sim de permitir o desenvolvimento da imaginação, aprofundar, ampliar e purificar a vida emocional imprimindo uma fantasia direcionada que se firmará para o resto de suas vidas. De todo modo, estimular a criação literária permite sobretudo a possibilidade de desenvolver a dominação da linguagem humana, a ferramenta mais complexa de transmissão do mundo interior do pensamento humano.

O gênero lírico surgiu na Grécia Antiga e passou a ser explorado textualmente na Idade Média, em que adquiriu caráter e sofisticação. Possui como traço fundamental a manifestação da subjetividade, dessa forma trazer a possibilidade de explorar a criação literária para crianças como recurso terapêutico pode apresentar resultados interessantes e satisfatórios.

Winnicot (1975) reforça que se quisermos alcançar resultados na busca do (eu) certas condições são importantes e estão sobretudo relacionadas à criatividade. É no brincar que a criança pode ser criativa e utilizar sua personalidade total, integrada e é sendo criativo que o indivíduo descobre o eu(self). Entretanto, é preciso gerar condições de relaxamento e proporcionar possibilidades para que ocorra associações livres de forma a comunicar uma sucessão de ideias, pensamentos, impulsos e sensações de forma a propiciar a oportunidade de se obter uma experiência criativa eficaz.

8.4 A oficina

 Através da escrita criativa trabalhar a identidade dos participantes. Mostrei poesias em powerpoint de poetas famosos como Clarice Lispector e Fernando Pessoa as quais o tema principal era narrar de forma poética sobre eles mesmos, dessa forma pude oferecer além de inspiração, repertório poético presente na literatura brasileira. Criei um modelo em power point como sugestão de criação e assim direcionar a confiança e estimular a imaginação e pedi para que fizessem rimas com “eu sou”. Como transposição de linguagem pedi um título para a poesia.

Modelo sugerido

Eu sou________________________(mas)__________________________

Eu imagino que __________________________________________

Eu ouço_________________________________________________

Eu vejo________________________(e)__________________________

Eu quero__________________________(também)_______________________

Eu sou___________________________________________________

Eu compreendo que________________________________________

Eu sonho com_____________________(e)________________________

EU tento ser______________________________(porém)________________

Eu toco__________________________________________________

Eu espero________________________________________________

Eu sinto_______________________(e assim que)___________________________

Eu sou___________________________________________________

Rafael, 11 anos.

“Eu sou curioso como um gato

Eu imagino que consigo voar

Eu ouço apenas o mar

Eu vejo tudo, principalmente o que consigo imaginar

Eu quero que o mundo seja melhor

Eu sonho com coisas fantásticas

Eu tento ser legal, porém às vezes faço brincadeiras

Eu toco bateria e me sinto com mais alegria

Eu espero que a pandemia acabe

Eu sinto que todos os problemas do mundo vão acabar.

Eu sou aquele que o mundo irá ajudar”

Rafael já no primeiro parágrafo atribui qualidade a si mesmo, definindo-se como curioso e utilizando da metáfora para reforçar sua intenção de se definir. É possível perceber sua habilidade para escrita e se mostra muito imaginativo e sonhador. Apresenta características de pessoa que se preocupa com causas sociais e seu interesse em contribuir para um mundo melhor. No poema manifesta também seu gosto por música e seus interesses pessoais.

Letícia, 8 anos

“Eu sou filha do sol e da lua

Quando chega a noite eu fico toda feliz

Mostrando meu brilho eu sou alegre

Mas quando amanhece meu brilho não aparece

Só aparece o do meu pai que satisfaz minha mãe

Também aparece, mas de vez em quando adormece.

Às vezes eu não apareço, por causa do meu irmão, a neblina.

Enfim é minha família”

No primeiro parágrafo foi possível perceber a intenção de tornar o poema o mais poético possível, com o recurso da metáfora, se permitindo a criar livremente. Ela também manifestou que ia sempre dormir tarde o que atrapalhava ela de frequentar a escola, faltando com frequência. Ela dizia que era insônia, mas no poema é possível perceber que gostava de ficar acordada a noite. Sempre manifestava seu interesse especial pela família, mais que nos amigos e cuidava do irmão menor. No poema ela transparece a insatisfação por se sentir coadjuvante ao irmão que atrai toda a atenção da família. Ambos intitularam os poemas com o mesmo título sugerido “Eu Sou” e não quiseram modificar.

Através desta oficina os participantes estavam satisfeitos com o resultado e puderam refletir sobre si mesmos, melhorando a auto estima. Também nessa atividade foi observada a técnica de associação livre de ideias, o recurso da metáfora que é um recurso importante de promoção ao diálogo com o inconsciente. O modelo sugerido serviu de canal para essa sensibilização e relaxamento das defesas contribuindo para imaginação fluir. Através deste modelo foi percebida a presença de reconhecimento e nomeação das emoções, recurso importante para a terapia focada na regulação emocional, a medida que ambos puderam se expressar emocionalmente também.

“Quando chega a noite eu fico toda feliz

Mostrando meu brilho eu sou alegre

Mas quando amanhece meu brilho não aparece”

Ou Rafael:

“Eu toco bateria e me sinto com mais alegria”.

Também presente como estratégia de regulação emocional está a atenção plena ou mindfulness. No modelo de poema sugerido existe o direcionamento para os 5 sentidos como “eu ouço e eu vejo” e sabemos que a técnica grounding é um recurso importante para a técnica de mindfulness pois coloca a pessoa diretamente em contato ao momento presente.

Considerações Finais

A validação, o reconhecimento e a nomeação das emoções, a troca afetiva, as experiências compartilhadas, a atenção plena, a escuta ativa e compassiva assim como as brincadeiras e os jogos são recursos terapêuticos comprovadamente eficazes para regulação emocional e a arteterapia mostrou resultados satisfatórios na promoção de estratégias saudáveis para isso. As oficinas foram desenvolvidas de modo a facilitar esse processo e as respostas se mostraram importantes pois foi possível observar melhoria na qualidade de vida, maior contato consigo mesmo ao passo que as oficinas facilitaram o processo de pensar mais aprofundada sobre si mesmos, o que resultou na elevação da autoestima. Elas se sentiam aceitas e apreciadas em suas manifestações artísticas e ao exporem características pessoais únicas, ao compartilharem suas criações puderam reconhecer sua própria individualidade. As brincadeiras e jogos escolhidos foram canal na promoção de experiências positivas conforme foi observado maior integração entre os participantes e elevação do humor através da diversão. 

A arte como um fim em si mesmo, sem preocupação estética se mostrou eficaz na autoconfiança pois os participantes em nenhum momento se sentiram julgados ou competiram entre si, o que reforça que possuem características próprias e são reconhecidos como seres únicos favorecendo o desenvolvimento da individualidade. Através das oficinas ficou claro que deixar a imaginação livre ao acaso, sem julgar e a sensibilização inicial colabora para melhor livre associação de ideias, técnica psicanalítica importante.

Desse modo é possível afirmar que a arteterapia se mostra eficaz também em situações aflitivas como foi o exemplo do COVID19 que colocou as crianças em isolamento social, não permitindo encontro presencial, somente através da internet. Mesmo assim, encontros arteterapêuticos com o recurso da internet e as oficinas focadas na regulação emocional promoveram experiência positivas, tanto pelas oficinas desenvolvidas como também pela distração das notícias negativas muito recorrentes nesses períodos problemáticos. E sabemos que a acumulação de experiências positivas diminui a fragilidade emocional contribuindo para melhor regulação emocional além de enriquecer a experiência humana. Encontros terapêuticos semanais favorecem a construção de vínculos, o que melhora a sensação de isolamento, sentir-se percebido, ver e ser visto, ouvir e ser ouvido são estratégias relevantes para o acolhimento emocional promovido entre todos os participantes.

Referências

ABRAMSJeremiah (Org.). O reencontro da criança interior. 9. ed. São Paulo: Cultrix, f. 149, 1999. 297 p.

Agência Einstein. Sono ruim na infância resulta em transtornos psiquiátricos na adolescência. UOL. 2020. 1 p. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/08/06/sono-ruim-na-infancia-resulta-em-transtornos-psiquiatricos-na-adolescencia.htm. Acesso em: 28 jan. 2021.

AllessandriniCristina Dias. Oficina Criativa e Psicopedagogia. São Paulo: Casa do Psicológo, 1996.

CalaciaDeborah. Mas afinal, o que é a infância?. naescola.eduqa.me. 2017. Disponível em: http://naescola.eduqa.me/atividades/identidade-e-autonomia/mas-afinal-o-que-e-infancia/. Acesso em: 28 fev. 2021.

CaláciaDeborah . A criança e a agenda lotada. Na escola. 2016. Disponível em: http://naescola.eduqa.me/rotina-pedagogica/a-crianca-e-a-agenda-lotada/. Acesso em: 28 fev. 2021.

CaláciaDeborah. A criança de ontem. naescola.eduqa.me. 2017. Disponível em: http://naescola.eduqa.me/desenvolvimento-infantil/crianca-de-ontem/. Acesso em: 29 mar. 2021.

Casos de depressão na infância crescem 43,7% em 10 anos. Portal do Correio. 2020. 1 p. Disponível em: https://portalcorreio.com.br/casos-de-depressao-na-infancia-crescem-437-em-10-anos/. Acesso em: 1 mar. 2021.

ChagasRayenne. CONTRIBUIÇÕES DE MELANIE KLEIN PARA A PSICOTERAPIA INFANTIL. 2012. 17 slides. Disponível em: https://pt.slideshare.net/RayChagas/contribuies-de-melanie-klein-para-a-psicoterapia-infantil. Acesso em: 1 mar. 2021.

CiornaiSelma. Percursos em arteterapia: arteterapia e educação, arteterapia e saúde. Summus Editorial, v. 1, f. 142, 2004. 283 p.

CIORNAISELMA (Org.). Percursos em arteterapia arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia.. 2. ed. São Paulo: Summus Editorial, v. 1, f. 137, 2003. 273 p.

Curso de Formação em Psicanálise Clínica. O Método da Associação Livre na Psicanálise. psicanalise clínica. 2018. Disponível em: https://www.psicanaliseclinica.com/metodo-da-associacao-livre-em-psicanalise/. Acesso em: 18 mar. 2021.

de Medeiros Lula Zavaroni Dione; de Camargo VianaTeresinha; Monnerat CelesLuiz Augusto. A constituição do infantil na obra de Freud. Estudos de Psicologia da Universidade de Brasília, Brasília, 2007.

Effects of Art Therapy on Children.. UKEssays. UK, 2018. 9 p. Disponível em: https://www.ukessays.com/essays/childcare/effects-of-art-therapy-on-children.php?vref=1. Acesso em: 28 fev. 2021.

FordhamMichael. A criança como indivíduo. São Paulo: Pensamento-Cultrix, f. 100, 1994. 199 p. (Psicologia Junguiana).

KvarnstromElisabet. Using Art Therapy to Create Freedom From Depression. Bridges to Recovery. 2017. Disponível em: https://www.bridgestorecovery.com/blog/using-art-therapy-to-create-freedom-from-depression/. Acesso em: 28 fev. 2021.

LeahyRobert L.; TirchDennis; NapolitanoLisa A.. Regulação Emocional em Psicoterapia: Um Guia para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental. Artmed Editora, f. 163, 2013. 326 p.

MalchiodiCathy. Yes, Virginia, There Is Some Art Therapy Research: There is more evidence on art therapy than you think.. PSYCHOLOGY TODAY. 2013. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/arts-and-health/201302/yes-virginia-there-is-some-art-therapy-research. Acesso em: 1 mar. 2021.

Maria Bufarah TommasiSonia. Arte-terapia e loucura: : uma viagem simbólica com pacientes psiquiátricos. Arteterapia Cores da Vida, v. 1, 01 12 2005. Associação Brasil Central de Arteterapia. Disponível em: http://www.brasilcentralarteterapia.org/. Acesso em: 16 mar. 2021.

Milléo Amanda. Suicídios de crianças e adolescentes cresce 10% no Brasil : A dificuldade em apontar os próprios sintomas e em entender que algo está errado faz com que os sinais de depressão e outros distúrbios mentais sejam diferentes entre as crianças e adolescentes. Gazeta do Povo. 2019. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/saude-e-bem-estar/suicidios-crianca-adolescente-cresce-brasil/. Acesso em: 3 fev. 2021.

MouraDr.. Cérebro não diferencia realidade de imaginação: Se estamos imaginando um objeto, uma sequência de neurônios e de padrão de disparos vão criar uma representação. administradores. 2017. Disponível em: https://administradores.com.br/artigos/cerebro-nao-diferencia-realidade-de-imaginacao. Acesso em: 13 mar. 2021.

NepomucenoThiago . A depressão está crescendo entre os adolescentes : Estudo americano destaca que a tristeza profunda vem se espalhando entre os jovens — particularmente nas meninas Leia mais em: https://saude.abril.com.br/familia/a-depressao-esta-crescendo-entre-os-adolescentes/. abril. 2019. 1 p. Disponível em: https://saude.abril.com.br/familia/a-depressao-esta-crescendo-entre-os-adolescentes/. Acesso em: 14 jan. 2021.

NoackJuliane. Reflexões sobre o acesso empírico da teoria de identidade de Erik Erikson. Interação em Psicologia,. Minas Gerais, 2007. 12 p. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/psicologia/article/view/6543#:~:text=Teoricamente%2C%20pergunta%2Dse%20como%20a,investigar%20o%20estado%20de%20identidade.. Acesso em: 12 mar. 2021.

OpelNils et al. Mediation of the influence of childhood maltreatment on depression relapse by cortical structure: a 2-year longitudinal observational study. Alemanha, 2019. Disponível em: https://www.thelancet.com/. Acesso em: 8 mar. 2021.

PazeresNerize. A ARTETERAPIA COMO ALIADA À SUPERAÇÃO DE TRAUMAS EMOCIONAIS EM CRIANÇAS: A Arteterapia como Aliada à Superação de Traumas Emocionais em Crianças. pedagogia ao Pé da Letra. Disponível em: https://pedagogiaaopedaletra.com/a-arteterapia-como-aliada-a-superacao-de-traumas-emocionais-em-criancas/. Acesso em: 1 mar. 2021.

PriszkulnikLéia. A criança sob a ótica da Psicanálise: algumas considerações. Periódicos Eletrônicos em Psicologia. Universidade de São paulo, 2004. Disponível em: A criança sob a ótica da Psicanálise: algumas considerações. Acesso em: 1 mar. 2021.

PurringtonMr. . A Child is not born Tabula Rasa. https://carljungdepthpsychologysite.blog/. 2020. Disponível em: https://carljungdepthpsychologysite.blog/2020/08/25/a-child-is-not-born-tabula-rasa/. Acesso em: 18 mar. 2021.

Ser Criança Hoje. Primeiros 1000 dias. 1 p. Disponível em: https://www.primeiros1000dias.com.br/ser-crianca-hoje-historia. Acesso em: 11 jan. 2021.

TheophiloGabriela . Diversão e subversão nos jogos surrealistas: (França, 1924-1930). http://anima.his.puc-rio.br/. Rio de Janeiro, 2013. 12 p. Disponível em: http://anima.his.puc-rio.br/media/Artigo%202%20-%20GabrielaTheophilo.pdf. Acesso em: 12 mar. 2021.

VanessaCoutinho. Arteterapia com crianças. Rio de Janeiro: wak, f. 125, 2013. 125 p.

VIEIRA MELOWilson; AURÉLIO MENDESMarco; BALDISSEROTTOGabriela. REGULAÇÃO EMOCIONAL NA PRÁTICA TERAPÊUTICA. Propsico. Porto Alegre, 2019. 34 p. Disponível em: https://www.sbponline.org.br/2019/04/propsico-psicologia-clinica-e-da-saude. Acesso em: 12 mar. 2021.

VYGOTSKYL. S. (LEV SEMENOVICH). IMAGINAÇAO E CRIATIVIDADE NA INFANCIA. Tradução João Pedro Fróis. 3. ed. Lisboa: Dinalivros, f. 72, 2012. 144 p. (Ensaio de psicologia). Tradução de: Voobrajenie i Tvorchestvo v Detskom Vozraste. Psikhologicheskii Ocherk.

WinnicottDonald Woods. O brincar e a realidade. Tradução O Bricar e a Realidade.doc. Rio de Janeiro: Imago, f. 128, 1975. 256 p. (O Bricar e a Realidade.doc). Tradução de: O Bricar e a Realidade.doc.

ZagoRosemeire. . Entenda o Real Significado da Criança Interior. Vya Stelar. 2016. Disponível em: https://vyaestelar.com.br/entenda-o-real-significado-da-crianca-interior/. Acesso em: 17 mar. 2021.

Use agora o Mettzer em todos
os seus trabalhos acadêmicos

Economize 40% do seu tempo de produção científica