ANÁLISE DO SISTEMA ECONÔMICO DA CHINA

UNIVERSIDADE PAULISTA

ANÁLISE DO SISTEMA ECONÔMICO DA CHINA

Vitor Aliçon

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo fazer uma breve análise do sistema econômico chinês, levando em consideração três principais pontos, sendo eles: O emprego dos fatores de produção; O sistema produtivo; A regulação do sistema.

Em resumo, como se dá o uso da terra, trabalho (mão de obra), capital e da tecnologia dentro deste sistema econômico, quais são as bases de sua economia, bem como a importância de cada um, e a situação atual destes fatores atualmente. Também uma análise da estruturação e funcionamento deste sistema, e suas características, que fazem deste um sistema tão particular hoje. E, dentro deste funcionamento, como se dá a sua regulação, mediante as questões econômicas, políticas e sociais, quem são as entidades responsáveis, e quais são os principais pontos desta regulação para que funcione.

Viso também entender quais os motivos e/ou causas que levaram o país a tomar a decisão de migrar para este modelo e qual o seu objetivo. Após esse levantamento, formular uma síntese a respeito deste sistema, que, com base no material levantado neste trabalho, explane a opinião do autor e também o que este veio a agregar em conhecimento.

Palavras-chave: China. Sistema Econômico. Fatores de Produção.

Introdução

A reestruturação económica é um dos elementos mais importantes da política de reforma e abertura da China. Nos primeiros 30 anos da República Popular da China, o governo aplicou o sistema de economia planificada, em que a produção industrial, a produção agrícola, bem como, o armazenamento e venda de mercadorias eram controladas pelo planeamento estatal. A variedade, quantidade e preços em todas as esferas da economia eram todas fixadas por si. Todavia, apesar de ter contribuido para um desenvolvimento planeado, orientado e estável da economia da China, também enfraqueceu a sua vitalidade e limitou o seu crescimento. As reformas económicas começaram nas áreas rurais em 1978, e foram alargadas à cidade em 1984. Em 1992, depois de cerca de 10 anos de reforma com o intuito claro de estabelecer uma economia socialista de mercado, o governo definiu os seguintes princípios fundamentais para a restruturação da economia: incentivo ao desenvolvimento de elementos económicos diversificados, mantendo a predominância do sector público; criação de um moderno sistema empresarial para que se pudesse ir de encontro às exigências da economia de mercado; unificação e abertura do sistema de mercado em toda a China, ligando os mercados doméstico e internacional e promovendo a optimização de recursos; a transformação da gestão económica governamental, com vista a estabelecer um sistema de macro-controle completo e encorajando o enriquecimento de algumas áreas em primeiro lugar, de forma a darem o apoio necessário para que outras pudessem prosperar também e, ainda, a formulação de um sistema de segurança social adequado à China tanto para os residentes urbanos como para os rurais, de forma a promover o desenvolvimento económico global e a assegurar a estabilidade social. Em 1997, o governo sublinhou a importância do sector não-público para a economia nacional da China, dado que a rentabilidade era incentivada pelos factores essenciais de produção capital e tecnologia, por forma a realizar novos progressos nas reformas económicas.

O sistema socialista de economia de mercado tomou agora forma, e o papel desempenhado pelo mercado foi melhorado na esfera de afetação de recursos. Ao mesmo tempo, o sistema de macro-controle continua a ser aperfeiçoado. Neste modelo o sector público desempenha o papel principal a par dos setores não-públicos tais como empresas privadas e individuais para alcançar o desenvolvimento comum. De acordo com o plano, a China prevê ter uma economia socialista de mercado relativamente completa em 2010 e que a sua fase de maturação seja alcançada em 2020.

Desenvolvimento

O sISTEMA PRODUTIVO

Para que haja um entendimento mais completo de como se dá o funcionamento do atual sistema produtivo da China, é preciso entender o seu surgimento dentro da história recente do pais. A China é hoje um pais que possui todo seu sistema econômico controlado pelo sistema politico. Tal sistema é chamado de “socialismo de mercado”. Esta econômia é uma das que mais cresceu e hoje é um dos principais pólos da econômia mundial, vamos então a um breve resumo do surgimento deste sistema.

A China é um país milenar, que foi governado por várias dinastias. No início do século XX surgiu um movimento nacionalista, não a favor da dinastia Manchu. Sob a liderança de Sun Yat essa revolução atingiu várias cidades do país, e pôs fim ao império e instaurou a república, em 1912. Foi então organizado o partido nacional chinês, sob a liderança de Sun Yat-Sem.

Apesar da proclamação da república, o poder permaneceu fragmentado e o país continuou sofrendo com o caos político, econômico e social. Pequim controlava apenas uma parte do país e mantinha laços com as potências estrangeiras.

Nessa época surgiu uma iniciante industrialização, que com a ajuda de capitais estrangeiros se aproveitava de mão de obra barata e abundante. Com a invasão do Japão e a guerra civil esse processo de industrialização foi interrompido. Na primeira guerra mundial, o Japão, com a ajuda de potências estrangeiras, ocupava a região nordeste do território chinês.

As forças revolucionárias ganharam forças e além de receberem influência da revolução russa, essas ideias juntaram-se ao sentimento nacionalista e anticolonial, que fez, em 1921, surgir o partido comunista chinês. Tendo como um de seus fundadores Mao Tse-Tung.

Em 1925, Sun Yat-Sem morreu, e o partido nacional chinês passou a ser controlado por Chiang Kai-Schek. Depois de uma breve convivência pacífica, em 1927, iniciou uma guerra civil entre comunista e nacionalista. Depois de ocorrer a unificação do país, em 1928, Chiang Kai-Shet passou a liderar o governo nacional da China com mão de ferro. Em 1934, os japoneses, depois da invasão da Manchúria, implantaram Manchwero, um país formalmente independente. Pu Yi era o imperador desse império Manchu. Na verdade, ele era apenas um imperador fantoche, pois o poder estava, realmente, nas mãos dos japoneses, que se beneficiavam de uma das regiões mais ricas em minérios e combustíveis fósseis de toda a China.

Em 1937, os japoneses declararam guerra total contra a China, e chegaram a ocupar dois terços do território chinês. As cidades mais importantes estavam sobre o controle do Japão. Nesse curto período de tempo os comunistas e os nacionalistas empenharam-se em derrotar os invasores japoneses. Assim, após a rendição do Japão na segunda guerra mundial, as guerras civis voltaram a se agravar severamente. Em outubro de 1949, depois de 22 anos de guerra, os comunistas do espirito de libertação popular saíram vitoriosos, liderados por Mao Tse-Tung. Foi então proclamada a República Popular da China, a China comunista. Os nacionalistas se refugiaram na ilha formosa, e fundaram a República da China Nacionalista, também conhecida como Taiwan.

A China passou a seguir o modelo político-econômico da ex-União Soviética. Politicamente implantou-se um regime político centralizado, sob o controle do partido comunista chinês, cujo líder máximo era o secretário geral Mao Tse-Tung. O estado passou a controlar fábricas e recursos naturais. No entanto, é importante lembrar que a revolução chinesa foi essencialmente camponesa, visto que, na época, operários equivaliam a apenas 0,6% da população. Assim, após a revolução, a China iniciou seu processo de industrialização.

Inicialmente, a China seguiu o modelo soviético, e passou a planejar a economia. Em 1957, Mao lançou um plano conhecido como “O grande salto a frente”, que se estendeu até 1961. Em plano visava implantar um parque industrial diversificado e amplo. Para isso, a China priorizou investimento na indústria de base bélica, e em outras de infraestrutura que ajudasse a sustentar o processo de industrialização. Mas o grande “Grande salto a frente” mostrou ser um fracasso.

Ao tentar seguir o modelo da União Soviética, a China acabou também sofrendo dos mesmos problemas: Baixa produtividade, baixa qualidade, concentração de capitais no setor armamentista e burocratização.

O que também ajudou na crise econômica foi a revolução cultural maoísta, que consistia em um esforço de transformação ideológica contra o revisionismo soviético, uma perseguição dos contrarrevolucionários, além do isolamento econômico em relação ao exterior.

Após o rompimento entre União Soviética e China, houve a aproximação dos EUA, que foi iniciada com a viagem do presidente norte americano, Richard Nixon, a China em 1972. Foi nessa época que a República Popular da China entrou para a Organização das Nações Unidas (ONU).

Com a morte de Mao Tse-Tung, em 1976, um novo líder entra no poder, Deng Xiaoping. Os donos deixaram os conceitos de Mao de lado, e iniciou-se um processo de abertura da economia chinesa.

A China depois de passar décadas em estado de “sono profundo”, resolveu acordar. Sob o comando de Deng Xiaoping, iniciou, a partir de 1978, uma reforma na economia, paralelamente a abertura chinesa a economia do exterior.

Os chineses no poder queriam fazer reformas econômicas para o regime chinês e também justificar, ideologicamente, a simbiose da economia de mercado com a economia de planificação sob o controle do estado. Era uma tentativa de perpetuar a hegemonia do partido comunista chinês.

Num país em que 70% da população são camponeses, as reformas começaram, é claro, na agricultura. Cada família poderia cultivar o que desejasse, embora as terras continuariam a pertencer ao estado. Depois de entregar uma parte do que produzisse ao estado, poderia vender no mercado o que restasse. As restrições impostas impediram relações capitalistas de produção, e os preços pagos aos agricultores foram elevados, incentivando os camponeses. Ao mesmo tempo os consumidores passaram a receber subsídios para adquirir produtos agrícolas. E o resultado foi um notável crescimento na produção agrícola chinesa.

Com a reforma na agricultura, disseminou-se a iniciativa privada e o trabalho assalariado no campo, aumentando a renda dos agricultores. Houve também uma expansão do mercado interno.

A partir de 1982, após o XII Congresso Nacional do partido comunista chinês, iniciou-se a abertura do setor industrial. As indústrias do estado tiveram que se enquadrar a realidade e foram incentivadas a adequar-se aos novos tempos, melhorando a qualidade de seus produtos e abaixando os preços. O governo também permitiu o surgimento de pequenas empresas e autorizou a constituição de empresas, atraindo o capital estrangeiro.

A grande revolução, porém, veio com a criação de zonas especiais em várias províncias litorâneas. As primeiras foram implantadas em Shezen, Zhuhai e Xiamen. Essas zonas econômicas tinham como objetivo atrair investimentos de empresas estrangeiras, que trariam além de capital, tecnologia e experiência de gestão empresarial. Numa tentativa de ampliar suas exportações, a China concedeu quase total liberdade ao capital estrangeiro nessas zonas econômicas, espécies de enclaves capitalistas dentro da China.

Em resultado disso tudo, a economia da China cresceu uma taxa média de 9% ao ano nas décadas de 80 e 90. E a província de Guangdong, localizada próxima a Hong Kong, a mais dinâmica do país, crescia em uma média de 12,5% ao ano desde 1979. No período foi a taxa mais alta do mundo.

Zonas Industriais da ChinaZonas Industriais da ChinaO autor (2017)

Mas apesar de ter ocorrido esse “milagre chinês”, nem tudo é perfeito. É preciso também falar da outra face do “milagre chinês”. Além da libertação econômica, um fator fundamental que está atraindo capitais para a china, é o baixo custo de mão-de-obra muito disciplinada e trabalhadora. O Salário mínimo na china é de 25 dólares por uma jornada de trabalho de 12 horas diárias. Na província de Fuyian o salário médio de um operário é 65 dólares, em media por mês, cerca de trinta e cinco avos do salário médio nas fábricas japonesas.

Uma outra face desse “milagre” é o agravamento das desigualdades sociais e regionais, que tem provocado as migrações internas. A cidade de Shenzen, por exemplo, cresceu de 100 mil habitantes em 1979, para mais de três milhões em 1999. Todos queriam ir para as zonas econômicas especiais e as cidades livres de melhores salários.

Assim, com base em uma abertura econômica e baixos salários, o mundo foi invadido por produtos chineses. Em 1980, período de inicio das reformas econômicas, a China ficou em 25º no ranking de exportadores, exportando 18 bilhões de dólares. Em 1997, porém o país exportou 183 bilhões de dólares, tornando-se o 10º maior exportador do mundo.

A china tem atualmente um parque industrial muito diversificado. Entretanto, tem apresentado um crescimento bem desigual territorialmente, e também setorialmente. As zonas especiais e as cidades abertas crescem muito mais rapidamente, e as empresas privadas e mistas crescem muito mais que os outros.

Um dilema chinês é como manter uma irrestrita economia, fortemente controlada pelo Estado e, ao mesmo tempo, um regime fechado politicamente. Essa questão só com o tempo poderá ser resolvida.

Usando como base a observação de tal história recente da China, podemos afirmar que o sucesso chinês, quanto ao seu sistema produtivo, aparece inicialmente, na bem-sucedida transição para uma economia de mercado. O processo de “dual track”, nome dado à forma como os chineses introduziram as forças de mercado sem abandonar o planejamento, a liberalização da agricultura, o estímulo às empresas rurais e as reformas dos sistemas empresarial e financeiro, ilustra a capacidade das lideranças chinesas em conduzir o processo. A transição conduziu-se de modo que a introdução das forças de mercado fosse acompanhada de medidas visando à correção das eventuais falhas de mercado. A construção de capacidade empresarial foi essencial. O governo optou por reformar gradualmente as empresas estatais, ampliando a autonomia, mas reforçando a capacidade de supervisão, uma reforma feita em etapas muito bem definidas.

O sucesso da intervenção também se refletiu na condução da política econômica. Em contraste com outras experiências de transição, a inflação foi mantida sob controle, medida que teve efeitos positivos sobre as taxas de poupança e de investimento (NAUGHTON, 2007). A política de comércio exterior foi bem conduzida, com a manutenção de uma taxa de câmbio desvalorizada que favoreceu as exportações. Por sua vez, a criação das zonas econômicas especiais (ZEEs) permitiu o acesso a recursos e à tecnologia estrangeiros. Ambas as políticas ajudaram a China a driblar os constrangimentos do balanço de pagamentos, ao mesmo tempo em que promoviam o crescimento da demanda e do PIB.

O desempenho foi também favorecido pelas condições de infraestrutura, indicativo da aptidão do Estado em prover bens públicos essenciais. A China destaca-se por possuir alguns dos maiores portos do mundo e pela capacidade de movimentar contêineres a baixos custos. O país também possui uma extensa malha ferroviária, que vem sendo expandida e foi fortemente estimulada recentemente. A rede de transportes e as facilidades de logística contribuem para a redução dos custos e para reforçar a posição da China como elo estratégico para a otimização das cadeias produtivas internacionais. Outro requisito é a capacidade educacional e técnica. Há indicadores que colocam a China à frente de outros países emergentes, diferença que é muito pronunciada nas províncias mais avançadas. Além disso, há um grande número de laboratórios, centenas de milhares de cientistas e engenheiros são formados anualmente e centenas de milhares de estudantes saem para estudar no exterior. Como conseqüência, a mão de obra é abundante também em setores que exigem certa qualificação, ampliando a atratividade da China para investimentos em setores mais elaborados.

2.2 O EMPREGO DOS FATORES DE PRODUÇÃO

É a luz desses requisitos e fundamentos que se deve destacar o papel dos fatores de produção. Não há como descrever o milagre chinês sem enfatizar a mão de obra barata e de certa qualidade. A grande proporção da população rural, alta para o nível de renda per capita, propicia um exército quase inesgotável de mão de obra que tende a impedir que os salários subam significativamente, pelo menos nos tipos de trabalho menos qualificados (NOLAN, 2004).

À abundância de mão de obra adicionam-se as altas taxas de investimento, respaldadas por altas taxas de poupança das famílias, investimentos das empresas estatais e grande atração de capital estrangeiro. Em um país com oferta abundante de mão de obra, a mobilização de capital torna-se essencial para a velocidade do crescimento e para o êxito do processo de catch up. Deve-se destacar que a China tem investido mais de 40% do PIB, taxa elevada mesmo quando comparada àquelas verificadas nos outros milagres econômicos.

Enfim, outros elementos contribuem para os resultados alcançados. Por enquanto, vale destacar a influência da estrutura etária, dado que algo como 70% da população encontrava-se na faixa etária de 15 a 64 anos e, portanto, em idade ativa (AMARAL, 2005). Outro ponto é o crescimento do mercado interno, que em certos setores responde por grande parte do acréscimo da demanda mundial. Esse resultado dá ao governo grande capacidade de negociar com o capital estrangeiro e de exigir condições para a sua entrada, incluindo a transferência de tecnologia. Além disso, o mercado interno representa uma base de expansão para as empresas chinesas, que obtêm os ganhos de escala que elevam a capacidade para competir no exterior.

Os baixos salários somam-se aos baixos encargos trabalhistas, as longas horas de trabalho e a grande flexibilidade do mercado de trabalho, reforçando as vantagens comparativas advindas do fator trabalho. Mas também é valido destacar que, o crescente setor de serviços da China criou um maior número de empregos como resultado da reestruturação econômica, disse o Departamento Nacional de Estatísticas (DNE). Em 2016, o setor de serviços empregou 43,5% da mão de obra chinesa, número superior aos 36,1% de 2012, indica um relatório publicado no site do DNE. As empresas privadas são a principal fonte de empregos novos, disse o DNE. No entanto, a proporção de empregos gerados por empresas estatais registrou uma queda anual de 5,4% até o terceiro trimestre do ano passado. Na criação de empregos, as empresas pequenas superaram o desempenho das médias e grandes, enquanto o sul avantajou o norte, indica o relatório. Durante o período 2012-2016, cada ponto percentual da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) significa 1,72 milhão de novos empregos não agrícolas na China, acrescenta. A China criou 13,1 milhões de empregos novos para moradores urbanos no ano passado. A taxa de desemprego registrada em cidades chinesas situou-se em uma porcentagem de 4.02% de desemprego no país, em Janeiro deste ano, segundo o site Tranding Economics, que somada as baixas rendas colocam certa preocupação com a desvalorização da mão de obra interna.

Outro aspecto a destacar-se, quanto a tecnologia e industrias, é que graças aos baixos custos e ao amplo mercado, a China configura-se como localização obrigatória das decisões produtivas das grandes empresas multinacionais. Muitas empresas transferem para a China etapas produtivas menos complexas e intensivas em trabalho, aproveitando os baixos custos, de modo que em muitos setores o crescimento das exportações foi acompanhado de baixo valor agregado. Há, no entanto, exemplos que apontam para outra direção, o que é favorecido por políticas voltadas a estimular a produção de componentes e a adicionar valor no próprio país. Além disso, há evidências de que a pressão para baixar os custos tem feito que empresas multinacionais terceirizem mesmo etapas mais complexas, dependentes de mão de obra com maior qualificação, como desenho, engenharia e Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), o que tem proporcionado à China ganhos em termos de absorção de tecnologia e especialização em setores avançados (NAUGHTON, 2007, p. 371; GEREFFI, 2009). Não se podem negligenciar os impactos da transferência de tecnologia e de técnicas de gestão, efetivados, em muitos casos, por meio de práticas de joint ventures entre empresas estrangeiras e firmas locais, graças aos fortes incentivos governamentais a investimentos na produção de tecnologia. Podemos ver também, alpem de um forte incentivo, um forte poder de barganha da China, que devido a atratividade de seu mercado interno, negocia situações de implementação de centros de pesquisas e desenvolvimento tecnológico dentro do país, como nos conta Oded Shenkar, em seu livro: O século da China (Pág. 21). Esses investimentos, por vezes, ocorrem com várias empresas detentoras de grande valor tecnologico de um mesmo ramo, como é o caso do setor automotivo, propiciando a China o aprendizado e criação de tecnologias internas com o objetivo futuro de ultrapassar o alcance de mercado das marcas detentoras originais de tal poder tecnologico.

Já quanto ao fator terra, que é tão amplo quanto rico, destacamos seu território. O território chinês apresenta valiosas reservas minerais dos mais diversos tipos, como carvão mineral, manganês, urânio, zinco e tungstênio. Além disso, a produção de produtos primários, usados na produção, também é acentuada, o que garante o bom funcionamento das indústrias estrangeiras que se instalam no país. Além disso a agricultura é um dos pontos mais fortes do país, destacada como uma das maiores produtoras mundiais de alimentos, com aproximadamente 510 milhões de suínos e 460 milhões de toneladas de grãos. A China é o maior produtor mundial de milho e arroz, e possui uma agricultura muito bem mecanizada, o que impulsiona ainda mais os excelentes resultados de produtividade.

2.3 A REGULAÇÃO DO SISTEMA

A questão a destacar-se é a capacidade de preservar a autonomia na condução da política de desenvolvimento. A China vem conseguindo adotar uma estratégia em que a introdução das forças de mercado, a promoção do comércio e a atração de capital estrangeiro vêm sendo combinados com a capacidade de moldar certas variáveis na direção da promoção do que se considera o interesse nacional. Apesar de a entrada na OMC ter implicado concessões e o abandono de certos instrumentos, outras formas de intervenção foram introduzidas ou reforçadas. A atuação de estrangeiros no comércio exterior e no doméstico foi liberalizada, e o governo abriu mão tanto de práticas voltadas a favorecer fornecedores locais, como da exigência de quotas de exportações para firmas estrangeiras. Mas o governo continua a conceder incentivos à transferência de tecnologia, enquanto argumentos como a presença de “setores sensíveis” e de “segurança nacional” são utilizados para regular a entrada do capital estrangeiro e para perseguir objetivos de política industrial (CUNHA & ACIOLY, 2009).

Além disso, existe uma concentração de fatores que estruturam a regulação do sistema econômico chinês como um todo, e podemos descreve-los da seguinte maneira.

Em primeiro lugar, está o processo de liberalização do sistema de formação de preços, que tem início no setor rural, em 1979. Esses preços, que até então, à semelhança dos demais, eram fixados pelo Governo Central, passaram a abrigar um sistema duplo. O Governo Central fixava a cota de produção que cada comunidade (Township and Village Enterprise) deveria entregar a um preço predeterminado. O restante da produção poderia ser negociado livremente no mercado. A partir daí os preços foram sendo liberalizados gradativamente, como será visto na próxima seção. Essa alteração provocou uma grande elevação na produtividade rural, com reflexos sobre a renda e o emprego.

Em segundo lugar, está a liberalização do comércio exterior, uma das primeiras e mais importantes medidas tomadas após 1978. Até então, o comércio exterior era inteiramente planejado pela autoridade central. Além disso, as exportações eram realizadas integralmente por empresas públicas. Como resultado, tanto exportações quanto importações cresciam lentamente. Inicialmente, os controles sobre as importações foram substituídos por elevadas tarifas aduaneiras, reduzidas posteriormente. O sistema de planejamento de importações foi também substituído por barreiras não tarifárias tradicionais, a partir do início da década de 1980. Essas barreiras também foram paulatinamente desmontadas ao longo dos anos. A partir do final da década de 1990, as medidas de liberalização do comércio exterior chinês foram aceleradas com vistas ao seu ingresso na Organização Mundial do Comércio, efetivada em dezembro de 2001.

Em terceiro lugar, a criação de Zonas Econômicas Especiais. A proximidade com Hong Kong inspirou a criação de quatro Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), em 1980, em Shenzhen, Zhuhai, Shantou e Xiamen, todas localizadas no litoral sul. Nessas ZEEs, passaram a ser concedidos diversos incentivos, permitindo a criação de clusters, com spillovers positivos. A criação das primeiras ZEEs nessa região permitiu o deslocamento da produção industrial de Hong Kong, sobretudo em setores mais intensivos em mão de obra, cujo crescimento esbarrava em limites físicos, para a República Popular da China, ao mesmo tempo em que HK migrava sua produção para produtos superiores na escala tecnológica. Os bons resultados obtidos nessas áreas levaram o governo chinês a criar, em 1984, outras 14 ZEEs semelhantes, ao longo do litoral. As áreas disponíveis para investimentos estrangeiros expandiram-se rapidamente, atingindo todo o litoral, no final da década de 1980, e alcançando o interior do país na década seguinte.

Quarto, a existência de um grande contingente de mão de obra rural com produtividade muito baixa possibilitou seu deslocamento para as cidades, mantendo baixos os salários, mesmo com crescimento elevado da demanda por trabalho. Entre 1978 e 2006, o número de trabalhadores nas áreas urbanas saltou de 95 milhões para 283 milhões. Ao mesmo tempo, os salários reais médios experimentaram um crescimento anual médio de 11%, muito próximo ao do PIB real. Considerando que, certamente, houve nesse período um forte aumento da produtividade, o custo unitário de trabalho se reduziu.

Em quinto lugar, a ausência de proteção à propriedade intelectual. As EMNs são obrigadas a conviver com um sistema que não garante plenamente a proteção da propriedade intelectual. Para ingressar na China, até recentemente, as EMNs necessitavam de um sócio local que costumam se apropriar ilegalmente do conhecimento transferido do exterior para produzir por conta própria, em outra empresa (doméstica), produtos análogos por preços inferiores.

Sexto, o gigantesco tamanho da população da China favoreceu a existência de medidas econômicas de maior escala na das indústrias, com fortes impactos sobre o custo de produção. Alguns exemplos são ilustrativos do tamanho do mercado e da escala de produção. A China é atualmente o maior produtor mundial de televisores, com uma produção anual de aproximadamente 83 milhões de unidades. A produção anual de aço bruto é de cerca de 420 milhões de toneladas, enquanto a do Brasil é de 31 milhões. A China produz atualmente cerca de 1,3 milhão de caminhões por ano, dez vezes a produção brasileira. Enquanto o Brasil produz cerca de 40 milhões de toneladas de cimento por ano, a produção anual da China atinge aproximadamente 1,2 bilhão de toneladas.

Sétimo, o crescimento dos Investimentos Diretos Externos (IDEs). Entre 1981 e 2007, o ingresso de IDE pulou de US$ 265 milhões para US$ 138 bilhões. Inicialmente, as empresas multinacionais dirigiram-se quase que exclusivamente às ZEEs – onde receberam diversos incentivos fiscais, terrenos e edificações, além de poderem contar com o benefício de infraestrutura de energia e transporte e da localização ao lado de fornecedores e de outras indústrias semelhantes, bem como de centros de pesquisa, incubadoras de empresas e laboratórios de ponta. Essa localização privilegiada facilitou o surgimento de transbordamentos tecnológicos (spillovers) e teve papel relevante no desenvolvimento tecnológico chinês e na alteração da pauta de exportações ao longo dos últimos 20 anos.

Em oitavo lugar, políticas de incentivo à inovação e à transferência e geração de ciência e tecnologia estão intimamente ligadas aos incentivos a investidores estrangeiros. Durante vários anos, a permissão ou o incentivo a empresas estrangeiras esteve condicionado a compromissos no sentido de realização de transferência de tecnologia ou de abertura de centros de P&D no país. Após o ingresso na OMC, esses compromissos deixaram de ser legais. O agrupamento das indústrias, com spillovers, especialmente das mais intensivas em conhecimento, teve papel relevante no desenvolvimento tecnológico chinês e na alteração da pauta de exportações.

Conclusão

Em síntese podemos destacar que embora seu modelo de controle político sobre o mercado possa não ser o melhor a ser adotado por todo o mundo, mas que, dentro das condições históricas e atuais, este tem sido muito funcional para a China, o que a transformou na segunda maior potência econômica dos nossos dias. Muito favorecida por sua questão geográfica, de tamanho e população imensos, a China aproveitou e continua a se aproveitar destes fatores para escalar, cada vez, mais em direção ao topo da economia global, e não deve parar tão cedo.

Foi possível também identificar outros pontos fortes da China atual, como uma forte fonte de matérias primas, e, principalmente, devido as suas políticas extremamente beneficiadoras de atração e criação de material tecnológico.

Em suma, toda essa convergência de fatora citada durante o presente trabalho, implicou, no quase inacreditável crescimento da China no mercado mundial, mantendo uma base política de sistema planificado. Nos resta questionar se estas bases permanecerão diante da busca cada vez maior por uma China líder econômica mundial.

feito

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