ANÁLISE DA EFICÁCIA DAS VACINAS CONTRA O HPV

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

ANÁLISE DA EFICÁCIA DAS VACINAS CONTRA O HPV

FELIPE QUAGGIO HOMEN DE GOES

guilherme patrocinio de freitas

Julia Casagrande Collett

Letícia da Rocha Teixeira

Louise de Paula Sousa

Victor Henrique Ribeiro Silva

Introdução

O Papilomavírus Humanos são vírus da família Papillomaviridae. O vírus infecta células epiteliais podendo causar lesões na pele ou mucosas como a verruga comum e a verruga genital ou condiloma, popularmente conhecida como “crista de galo”. Estas podem ser precursoras de câncer, como o câncer do colo de útero, garganta ou ânus. 

Dos 150 tipos de vírus, 40 podem infectar o trato genital e existem 12 que são considerados de alto risco, ou seja, podem provocar câncer em colo do útero, vulva, vagina, pênis, ânus ou orofaringe, os demais causam apenas verrugas. As verrugas são proliferações benignas que ocorrem nas camadas mais superficiais da pele ou mucosa, resultantes do crescimento anormal das células da epiderme

Segundo Instituto Nacional de Câncer (INCA), o vírus HPV tem papel indispensável no desenvolvimento da displasia das células cervicais e na sua modificação celular cancerosa. O HPV está presente em 99% dos casos de câncer do colo de útero.

 Além da infecção pelo papilomavírus humano, existem outros co-fatores que também colaboram para o desenvolvimento do câncer de colo de útero, tais como multiplicidade de parceiros, co-infecção pelo HIV, idade prematura de início da vida sexual e o tabagismo. (INCA 2003).

Feridas HPV
Feridas HPVInstituto Nacional de Câncer – INCA (2019) Vacinação (2019)

Características do Vírus

O vírus tem aproximadamente 55nm de diâmetro e é formado por um capsídeo de simetria icosaédrico de 72 capsômeros, além de ser um vírus não envelopado. O genoma do HPV é constituído de um DNA de dupla hélice circular de aproximadamente 800 pares de bases e a análise da sequência dos nucleotídeos é a base do método de classificação dos vários subtipos virais.

Microscopia eletrônica HPV
Microscopia eletrônica HPVWikipédia Commons

Seção transversal estrutura viral
Seção transversal estrutura viralDepositphotos

Ciclo biológico  

O ciclo replicativo do HPV se inicia pela interação do vírus com proteoglicanos de sulfato de heparina presente nas células escamosas, permitindo uma alteração na estrutura do capsídeo, que promove a transferência deste a um receptor secundário nos queratinócitos basais, que é necessário para que o vírus entre à célula e possa transferir seu genoma para o núcleo celular. Uma vez dentro da célula, esses vírions são transportados ao núcleo por vias endossomais, nas quais ocorre o seu desnudamento e sua classificação, por meio da célula. O complexo DNA-protéico presente anteriormente no vírion, L2, está relacionado ao direcionamento do genoma viral ao núcleo, de forma que o genoma entre de maneira correta no compartimento; e a outra proteína presente anteriormente ao desnudamento no vírion, L1, é retida no endossoma e sofre degradação lisossomal.

 Dá-se início então ao processo de maturação e acidificação do endossomo para desagregar o capsídeo e expor parcialmente as proteínas L2, responsáveis por recrutar complexos de proteínas celulares. Além disso, L2 se dissocia da proteína L1 e forma o complexo L2/DNA, o qual se dirige ao complexo de golgi, onde permanecerá até o início da mitose e a quebra do envelope nuclear da célula para que consiga adentrar ao núcleo. No núcleo, o DNA viral é mantido como material genético livre ou epissomo extracromossômico. Nesse período, a expressão de genes oncogênicos é controlada pela amplificação substancial do DNA viral. Ao entrar em mitose novamente, a célula infectada produz uma célula diferenciada que se move para a camada superior do epitélio, onde o vírus se replicará. Nesse estágio, há a produção de grandes quantidades de DNA viral e também das proteínas E6 e E7 que provocam proliferação celular acelerada, prolongamento do ciclo celular e prevenção da apoptose. As proteínas L1 e L2 são produzidas somente em células mais superiores do epitélio, onde ocorrerá a montagem do vírus, para a formação de novas partículas virais que serão liberadas na superfície do epitélio.

O processo de replicação do HPV demora de 2 a 3 semanas, por estar associado à migração das células epiteliais da membrana basal até a camada superficial. A liberação de novas partículas no epitélio propicia a infecção de outras células, e associado a isso, células já infectadas passam a produzir clones neoplásicos que podem evoluir a um câncer invasivo, e a integração do DNA viral ao DNA do hospedeiro.

Entrada do vírus nas células basais do epitélio
Entrada do vírus nas células basais do epitélioWiki Virologia básica

Replicação viral
Replicação viralAdaptado de https://www.slideshare.net/adilatrubat/aula-2-micro-viroses

Classificação do vírus

Historicamente, os HPVs são agrupados de acordo com o seu tropismo tecidual por determinados tipos de epitélio e com a localização onde foram inicialmente isolados. Com base nessas características, destacam-se três grupos de HPV: cutâneos, mucosos e associados a EV (tabela 1). Os HPVs mucosos são subdivididos em: de baixo e de alto risco, dependendo de seu potencial oncogênico.

Já foram isolados mais de 100 tipos diferentes de HPV que infectam a espécie humana. Dos tipos identificados, 24 foram relacionados com lesões orais.

O HPV é classificado em genótipos, o que permitiu a identificação de cerca de 130 tipos do vírus pelo sequenciamento genético, sendo que destes, aproximadamente 40 estão associados à infecção da mucosa genital. De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (Internacional Agency for Research on Cancer), aproximadamente quinze tipos de HPV são capazes de causar câncer, classificados como HPVs de alto risco. Os tipos oncogênicos 16 e 18 são os mais comuns, contudo ainda se destacam 14 os tipos 6, 11, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, e 59.

Classificação dos tipos de vírus HPV
Classificação dos tipos de vírus HPVAdaptado de Villers, 2004

Sobre a classificação taxonômica, há duas subfamílias e aproximadamente 53 gêneros e 150 espécies.

Epidemiologia

O HPV tem sido apontado como o responsável por, pelo menos, 99% dos cânceres cervicais em todo o mundo. O câncer de colo do útero é o 3º tumor maligno mais frequente na população feminina e a 4ª causa de morte de mulheres por câncer no Brasil.

Os últimos dados da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês) mostram que aproximadamente 570 mil novos casos de câncer do colo do útero foram diagnosticados ao redor do mundo em 2018.

Projeções da IARC mostram que a menos que medidas preventivas sejam tomadas e implementadas prontamente, o surto de câncer do colo do útero vai elevar o número de mortes para 460 mil por ano em 2040, um aumento de 50% em relação a 2018. Esse aumento também será maior, proporcionalmente, nos países de baixa e média rendas.

Prevalência de tipos de vírus de HPV nos tipos de câncer de colo de útero
Prevalência de tipos de vírus de HPV nos tipos de câncer de colo de úteroMuñoz et. al, 2004

Tipos de câncer por HPV
Tipos de câncer por HPVWHO, 1999

Transmissão

Este vírus é transmitido pelo contato sexual ou íntimo, sendo possível também o contágio por meio de roupa contaminada ou assento sanitário. A transmissão se dá também materno fetal, e gestacional, durante o parto.

Sintomatologia

Na maioria das vezes não causa sintomas, mas a mulher pode sentir leve prurido, dor na relação sexual, ou corrimento vaginal. Nos casos mais avançados, pode evoluir para sangramento intermitente ou após a relação sexual, secreção vaginal anormal e dor abdominal associada a queixas urinárias ou intestinais. As verrugas são sinais de contaminação por HPV, podendo ser de alto risco (cancerígenas) ou não.

O papilomavírus humano pode ficar instalado no corpo por muito tempo sem se manifestar, entrando em ação em determinadas situações como a imunodepressão fisiológica como ocorre na gravidez e em situação patogênica como no HIV.

No homem, pode haver o surgimento de verrugas no pênis, escroto, ânus, boca ou garganta, no entanto, os sintomas são raros e, por isso muitos homens não sabem que se encontram infectados com o vírus.

Os sinais do câncer de ânus são alterações nos hábitos intestinais ou presença de sangue nas fezes, ou mesmo dor na região anal, coceira, ardor, secreção incomum, feridas na região anal e incontinência fecal (dificuldade para controlar a evacuação). E o sinal do câncer da orofaringe é uma ferida que não cicatriza na região.

Exame preventivo

A detecção precoce do câncer é uma estratégia para encontrar um tumor numa fase inicial e, assim, possibilitar maior chance de tratamento.

A detecção pode ser feita por meio da investigação com exames clínicos, laboratoriais ou radiológicos, de pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença, ou com o uso de exames periódicos em pessoas sem sinais ou sintomas. Existe uma fase pré- clínica (sem sintomas) do câncer do colo de útero, em que a detecção de lesões precursoras pode ser feita através do exame preventivo, Papanicolau. Quando diagnosticado na fase inicial, as chances de cura do câncer cervical são altas.

O Papanicolau é a principal estratégia para detectar lesões precursoras e fazer o diagnóstico precoce da doença. Sua realização periódica permite reduzir a ocorrência e a mortalidade pela doença. O exame é indicado para toda mulher que tem ou já teve vida sexual e que estão entre 25 e 64 anos de idade.

Diagnóstico

Diagnóstico clínico

1. Exame pélvico e história clínica: exame da vagina, colo do útero, útero, ovário e reto através de avaliação com espéculo, Papanicolau, toque vaginal e toque retal..

2. Colposcopia – exame que permite visualizar a vagina e o colo de útero com um aparelho chamado colposcópio, capaz de detectar lesões anormais nessas regiões.

3. Biópsia – se células anormais são detectadas no exame preventivo (Papanicolau), é necessário realizar uma biópsia, com a retirada de pequena amostra de tecido para análise no microscópio.

Diagnóstico laboratorial:

O HPV não cresce em meio de cultura convencional e os métodos diagnósticos sorológicos apresentam precisão limitada. Faz-se o diagnóstico da infecção do HPV por meio da histopatologia das lesões ou da detecção do DNA viral nas células infectadas. As técnicas de hibridização e a reação de polimerização em cadeia (PCR – polimerase chain reaction) são métodos utilizados para a detecção do HPV. Dentre elas, destacam-se:

1) Southern blot, que tem alta especificidade e sensibilidade. Possibilita estimar a quantidade de DNA na lesão. Apresenta limitações em relação à grande diversidade de tipos de HPV, pois não é capaz de detectar o DNA de sequências virais desconhecidas.

 2) Dot blot e reverse blot são técnicas trabalhosas, que apresentam sensibilidade similar e boa acurácia.

 3) Hibridização in situ: utiliza sondas radiomarcadas e permite a localização topográfica do DNA viral nas células e tecidos. Embora a sensibilidade desta técnica seja limitada, é o melhor método para avaliar a distribuição do HPV nas lesões e possibilita a localização viral com outros marcadores.

Tratamento

 Na presença de qualquer sinal ou sintoma de infecção pelo HPV, recomenda-se procurar um profissional de saúde para o diagnóstico correto e indicação do tratamento adequado. Levando em consideração que não há tratamento específico para eliminar o vírus, o tratamento das verrugas genitais deve ser individualizado, dependendo da extensão, quantidade e localização das lesões. Podem ser usados laser, eletrocauterização, ácidos e medicamentos que melhoram o sistema de defesa do organismo.

 Os tratamentos atualmente utilizados contra o HPV incluem o uso de imunomoduladores para potencializar a resposta imune e, a remoção das verrugas, quando presentes, não havendo terapêutica eficaz para eliminar o vírus após infecção. Foram desenvolvidas duas vacinas contra o HPV, a Gardasil® tetravalente contra os tipos 6, 11, 16 e 18 e, a Cervarix™, bivalente contra os tipos 16 e 18. Ambas as vacinas são profiláticas contra os tipos mais comuns, produzidas à partir de vírus-like particules (VLP) para produzir uma resposta humoral. Entretanto, as vacinas são destinadas para apenas alguns tipos deste vírus e para uma faixa etária específica de mulheres.

 O médico pode recomendar o uso de alguns remédios para eliminar as lesões causadas pelo HPV e fortalecer o sistema imunológico, como por exemplo: Podofilox, Ácido tricloroacético ou dicloroacético de 80 a 90%, Imiquimode 5%, Resina de podofilina 10 a 25%, Retinóides (compostos de vitamina A que ajudam na regeneração da pele). Estes tratamentos são utilizados, principalmente, no tratamento do HPV genital e para complementar o tratamento deve-se ter uma boa higiene íntima e usar camisinha em todo contato íntimo, verificando atentamente se o preservativo cobriu as lesões. Também é importante que o parceiro seja avaliado por um médico para verificar se já foi contaminado e então iniciar o tratamento.

A vacina

Devido à importância do Papilomavírus Humano, em 2014, a vacinação contra o HPV foi incorporada ao Programa Nacional de Imunização (PNI) do Brasil, com a aplicação da vacina quadrivalente, que confere imunidade contra os tipos virais 6 e 11 (responsáveis por 90% das verrugas genitais) e 16 e 18 (responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo uterino e outros tipos de cânceres). Inúmeros resultados de ensaios clínicos demonstram que as vacinas são seguras e eficazes na prevenção da infecção pelo HPV 16 e 18. Sendo assim, o Ministério da Saúde anunciou, em junho de 2017, a ampliação da cobertura vacinal para adolescentes do sexo masculino de 11 a 15 anos incompletos, bem como para homens e mulheres transplantados, pacientes oncológicos em tratamento quimio ou radioterápico e crianças e jovens de 9 a 26 anos vivendo com HIV-Aids. A vacina é distribuída gratuitamente pelo SUS.

As vacinas contra o HPV são altamente eficazes na prevenção da infecção com os tipos de HPV que atingem quando administradas antes da exposição inicial ao vírus.

A Food and Drug Administration (FDA) aprovou três vacinas que previnem a infecção por tipos de HPV causadores de doenças: Gardasil®, Gardasil® 9 e Cervarix®. Todas as três vacinas previnem a infecção pelo HPV dos tipos 16 e 18, dois HPVs de alto risco que causam cerca de 70% dos cânceres do colo do útero e uma porcentagem ainda maior de alguns dos outros cânceres causados pelo HPV. O Gardasil também previne a infecção com os tipos 6 e 11 do HPV, que causam 90% das verrugas genitais. O Gardasil 9 previne a infecção com os mesmos quatro tipos de HPV, mais cinco tipos de cânceres adicionais (31, 33, 45, 52 e 58). A partir de maio de 2017, o Gardasil 9 é a única vacina contra o HPV disponível para uso nos Estados Unidos. Cervarix e Gardasil ainda são usados em outros países.

GARDASIL® contém VLPs L1, que são proteínas semelhantes aos vírus do tipo selvagem. Como as partículas semelhantes a vírus não contêm DNA viral, não podem infectar as células ou se reproduzirem. Nos estudos pré-clínicos, a indução de anticorpos antipapilomavírus com vacinas com VLPs L1 resultou na proteção contra a infecção. Os tipos 6, 11, 16 e 18 do papilomavírus humano foram selecionados para GARDASIL® porque causam mais de 70% dos casos de câncer do colo do útero e 90% das verrugas genitais. GARDASIL® proporciona alguma proteção contra os tipos de HPV 31, 33, 52, 56, 58 e 59. Esses tipos causam aproximadamente 12% dos casos de câncer do colo do útero.

A Food and Drug Administration (FDA) também aprovou no dia 10 de dezembro de 2014 nos EUA, a vacina Gardasil 9 (Human Papilomavírus 9-valente Vaccine, recombinante) para a prevenção de doenças causadas por nove tipos de Papilomavírus Humano (HPV). A vacina foi aprovada para uso de mulheres com idade entre 9 e 26 anos, e homens com idades entre 9 e 15. Além das vacinas já existentes e previamente aprovadas pela FDA, a vacina nonavalente fornece uma proteção mais ampla na prevenção das infecções cervicais, vulvar, vaginal e câncer anal causadas por HPV tipos 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58, e para a prevenção de verrugas genitais provocadas pelos tipos de HPV 6 ou 11, resultando em um potencial de 90% de prevenção.

O Cervarix é uma vacina L1 VLP que inclui os tipos 16 e 18 do HPV, os dois principais sorotipos envolvidos no câncer cervical. A vacina foi aprovada pela FDA em outubro de 2009 para uso em meninas e mulheres com idades entre 10 anos e 25 anos.

Ambas as vacinas, Gardasil e Cervarix, requerem três doses para completar o regime de vacinação. Assim, essas vacinas podem não ser ideais para áreas com poucos recursos e em países em desenvolvimento. Cervarix deve custar cerca de US $ 100 por dose e o Gardasil custa US $ 120 por dose nos EUA.

Composição das vacinas

● Cervarix:

Bula Cervarix
Bula CervarixCervarix® Vacina HPV 16/18 Modelo de texto de bula – Profissional de Saúde

● GARDASIL®

Bula Gardasil®
Bula Gardasil®Bula laboratório MSD

● GARDASIL® 9

Bula Gardasil® 9
Bula Gardasil® 9Bula Gardasil ® 9, European Medicines Agency Science Medicine Health

Disponibilidade das vacinas no Brasil

A vacina oferecida pelo SUS é a quadrivalente (Gardasil).

Apesar de ainda não estar disponível para ser aplicada, a Anvisa aprovou em 2007 a vacina nonavalente.

A eficácia das vacinas

De acordo com o Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi feito um estudo clínico randomizado nos EUA : cerca de 14.000 mulheres em idades de 16 e 26 anos com resultados negativos para os tipos de HPV da vacina, receberam no início do estudo Gardasil ou Gardasil 9.

A Gardasil 9 determinou 97% de eficácia na prevenção de câncer de colo do útero, da vulva e cânceres vaginais causados pelos cinco tipos adicionais de HPV (31, 33, 45, 52, e 58). Além disso, o Gardasil 9 é tão eficaz como Gardasil (quadrivalente) para a prevenção de doenças causadas pelos quatro tipos de HPV compartilhados (6, 11, 16 e 18) com base em respostas de anticorpos semelhantes em participantes de estudos clínicos. Devido à baixa incidência de câncer anal causada pelo HPV após os cinco tipos de vírus adicionais, a prevenção do câncer anal é baseado no demonstrado de Gardasil eficácia de 78% por cento e dados adicionais sobre anticorpos em homens e mulheres que receberam Gardasil 9.

A eficácia de Gardasil 9 em mulheres e homens com idades entre 9 a 15 anos foi determinado em estudos que medem as respostas de anticorpos para a vacina em cerca de 1.200 homens e 2.800 mulheres nesta faixa etária. As respostas de anticorpo foram semelhantes aos de mulheres com 16 até 26 anos de idade. Com base nestes resultados, a vacina deverá ter semelhante eficácia quando utilizado neste grupo etário mais jovem.

De acordo com o artigo “ Vacinas contra rotavírus e papilomavírus humano (HPV)” de Alexandre C. Linhares e Luisa Lina Villa, foram publicados os resultados de duas vacinas profiláticas compostas de VLP de HPV, seja contendo dois tipos (16 e 18), seja da vacina quadrivalente (6, 11, 16, 18). Ambas vacinas demonstraram ser seguras, bem toleradas pelas voluntárias jovens. Ainda mais importante, as respostas imunes disparadas por ambas foram muito elevadas, tendo-se observado títulos de anticorpos mais de uma centena de vezes superiores àqueles observados em mulheres da mesma faixa etária naturalmente expostas aos diferentes HPV em estudo. Finalmente, nos dois ensaios clínicos publicados, as vacinas apresentaram elevada eficácia, tendo controlado entre 90 e 100% das infecções pelos tipos de HPV incluídos nas vacinas, além de prevenir entre 95 e 100% das lesões causadas por esses vírus. A Tabela 2 resume os resultados obtidos nesses estudos de forma comparativa.

Estudo clínico vacina HPV
Estudo clínico vacina HPVLinhares, et. al, 2006

Um outro estudo realizado na Escócia em 2009 analisou a eficácia da vacina bivalente contra o papilomavírus (tipos 16 e 18) e possibilidade de proteção cruzada dessa vacina. O intuito do estudo era comparar a prevalência do DNA do HPV em mulheres vacinadas e não vacinadas para obter informação do impacto da vacina bivalente. Amostras de resíduos foram coletadas, seguidos da triagem cervical de mulheres na faixa de 20-21 anos para a coleta de dados.

Incidência infecção em indivíduos vacinados e não vacinados
Incidência infecção em indivíduos vacinados e não vacinadosOs autores (2019) Weiss, Rosenthal e Zimet (2011)

Após a análise dos dados obtidos foi possível concluir que a incidência do vírus era consideravelmente menor nas mulheres que tomaram a vacina (todas as 3 doses) quando comparada com as mulheres que não foram vacinadas, evidenciando a eficácia da vacina.

A durabilidade da vacina

Durabilidade vacina
Durabilidade vacinaCohen (2019)

De forma ampla, um dos pontos que asseguram a eficácia de vacinas é sua durabilidade. A imunidade induzida por estas diminui com o tempo e a perda de proteção difere em cada doença. Modelos matemáticos, baseados em casos de surtos, bem como níveis de anticorpos e sua decadência, projetam quanto tempo dura a imunidade em pessoas que receberam um regime vacinal completo.

O motivo de uma vacina perder sua funcionalidade enquanto as outras mantém por quase uma vida, ressalta o mistério mais amplo de como tornar as vacinas mais duráveis. Mas as pistas estão vindo de uma vacina incomum contra o HPV. Preocupados que uma vacina HPV atenuada ou inativada possa ainda conter componentes virais que podem causar câncer, pesquisadores geneticamente projetaram outro vírus para fabricar cópias de uma inofensiva proteína de superfície do HPV que se auto-monta no que é chamado de vírus parecido com vírus (VLP).

Testes mostraram que quase todos os vacinados com essa VLP não infecciosa desenvolvem altos níveis de anticorpos neutralizantes do HPV. Esses níveis diminuem moderadamente após dois anos, mas permanecem estáveis por pelo menos uma década.

As VLPs desafiam a noção amplamente difundida de que a durabilidade depende principalmente das células B de memória que despertam e se expandem quando ocorre uma infecção. Pesquisadores observam que a vacina contra o HPV leva a níveis sanguíneos consistentes de anticorpos neutralizantes por anos a fio.

Afirma-se que as VLPs desencadeiam a produção de um conjunto diferente de células B chamadas células plasmáticas de vida longa (LLPCs), que residem na medula óssea e continuamente produzem anticorpos específicos para diferentes antígenos estranhos.

Na esteira do sucesso da vacina contra o HPV, as VLPs tornaram-se uma estratégia de vacina bastante eficaz. Uma vacina contra hepatite E no mercado da China usa VLPs, e vacinas experimentais contra gripe, norovírus, chikungunya, encefalite, malária e VLP estão em desenvolvimento.

No entanto, ninguém sabe precisamente como as VLPs estimulam o sistema imunológico a produzir LLPCs. Cientistas relataram que proteínas densas e altamente repetitivas na superfície dos vírus desencadeiam as respostas de anticorpos mais fortes. Uma VLP é justamente essa estrutura. Teoricamente, isso permite que os antígenos virais “se liguem” a muitos receptores na superfície das células B. Isso, por sua vez, desencadeia uma cascata de sinais nas células do sistema imunológico que levam a anticorpos fortes e duráveis.

Discussão

Nos ensaios que levaram à aprovação da Gardasil e da Cervarix, essas vacinas forneceram quase 100% de proteção contra infecções cervicais persistentes com os tipos 16 e 18 do HPV e as alterações das células cervicais que essas infecções persistentes podem causar. O Gardasil 9 é tão eficaz como o Gardasil para a prevenção de doenças causadas pelos quatro tipos de HPV partilhados (6, 11, 16 e 18), com base em respostas de anticorpos semelhantes em participantes em estudos clínicos. Os ensaios que levaram à aprovação do Gardasil 9 mostraram que ele é quase 100% eficaz na prevenção de doenças cervicais, vulvares e vaginais causadas pelos cinco tipos adicionais de HPV (31, 33, 45, 52 e 58) que ele atinge. Em um documento de posicionamento de 2017, a Organização Mundial de Saúde afirmou que as vacinas contra o HPV tem eficácia equivalente . A vacina Cervarix foi encontrada para fornecer proteção parcial contra alguns tipos adicionais de HPV não incluídos na vacina que podem causar câncer, um fenômeno chamado proteção cruzada.

Em declaração divulgada em 4 de fevereiro, Dia Mundial do Câncer, a IARC endossou a posição da Organização Mundial da Saúde e confirmou que a vacinação contra o papiloma vírus humano (HPV) é segura, eficaz e primordial no controle do câncer do colo do útero.

Conclusão

A respeito das vacinas profiláticas contra o HPV, dadas as dificuldades na implementação de programas de rastreamento, que, além das questões técnicas e políticas, esbarram em questões socioculturais e comportamentais, consideramos que uma vacina de alta eficácia contra HPV poderia ter, em médio e longo prazos, um impacto real e mais expressivo nas taxas de câncer do colo do útero (e de lesões pré-malignas), as quais, no Brasil, continuam estabilizadas em valores muito elevados. Por ser uma infecção frequentemente de transmissão sexual, as vacinas profiláticas devem ser administradas em idade anterior ao primeiro coito. Isso implicaria em vacinar crianças/adolescentes de ambos os sexos. Também é razoável considerar a vacinação de mulheres grávidas, mas esses estudos ainda não foram iniciados. Entretanto, a faixa etária ideal para vacinação depende de uma série de fatores, incluindo o tempo de proteção (longevidade da resposta imune). De qualquer maneira, é razoável supor que, à implementação progressiva da vacinação contra HPV, poderá ser observada alteração na periodicidade do exame de Papanicolaou. A expectativa para as próximas décadas, no entanto, é que a prevenção do câncer do colo do útero continue sendo baseada no rastreamento periódico da população através do teste de Papanicolaou, isoladamente ou em conjunto com testes de detecção molecular de HPV, o agente etiológico desses tumores. Em conclusão, vacinas efetivas e seguras contra HPV poderiam ser importantes instrumentos de prevenção de câncer do colo do útero em todo o mundo, particularmente nos países em desenvolvimento. A expectativa é que em 10 a 20 anos possa ocorrer redução das taxas de incidência das lesões precursoras desse câncer e, paulatinamente, a redução do câncer.

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