ANÁLISE COMPREENSIVA DE CASOS CLÍNICOS

FACULDADE SANTA TERESA

ANÁLISE COMPREENSIVA DE CASOS CLÍNICOS

yamille cristina araujo cruz

Orientador: Suky Ramalho

                       ANÁLISE COMPREENSIVA DE CASOS CLÍNICOS


Caso 01. 


Silvia, solteira, 28 anos, buscou terapia, se queixando de mal estar, dores de cabeça intermitentes (enxaqueca), sintomas de ansiedade e tristeza profunda, tendo sido encaminhado pelo seu médico. O círculo familiar de Silvia  incluía seu pai que era uma pessoa dominante deste círculo, sua mãe e seu irmão um ano e meio mais velho  que ela. O seu pai era um comerciante e sempre proporcionou uma situação financeira muito cômoda para  a família. Com relação à mãe, era uma mulher simples, concentrava todo o seu tempo nos assuntos domésticos, ocupando-se o dia todo em limpar e arrumar a casa. A relação mãe e filha era muito pouco amistosa, havia vários anos. Já a relação com seu irmão antes, quando era mais nova o tinha como seu modelo, mas depois, passou a se mostrar distante com relação a ele. 

Insatisfeita consigo mesma e com a família, era pouco amistosa com o pai e se dava muito mal com a mãe, menosprezando-a e lhe atirando críticas severas. Quando questionada sobre a sua infância, Silvia diz que, recorda-se de espancamento e agressões verbais por sua mãe. Menciona que a mãe tinha preferência pelo seu irmão a quem, segundo Silvia, conferia muito carinho e atenção. Lembra-se que a mãe elogiava muito o irmão, por ser organizado e manter o seu quarto limpo e arrumado, ao passo que nada que ela fazia a contentava, apesar de todas as suas tentativas para conseguir agradá-la. Conta que tinha um sonho recorrente no qual a sua mãe a empurrava de uma escada quando ela estava com apenas 8 anos de idade. 

Professora do ensino fundamental, era extremamente dedicada a sua carreira, sendo respeitada pelos seus alunos, pais e superiores. Para ela nada dava mais prazer na vida, do que o seu trabalho, e para isso empenhava-se ao máximo, não tinha limite de horário para trabalhar. Em épocas de finalização de ano letivo, por exemplo,  era comum que dormisse muito pouco ou quase nada, seu foco ficava só voltado para isto. Evitava contatos sociais, alegando que todo o seu tempo era ocupado com a atividades da docência. 

Era demasiadamente organizada, chegava a parecer bastante obsessiva. Se alguém mexesse em no seu armário ou mesa de trabalho, um único detalhe que fosse, ela logo percebia e não conseguia voltar a se concentrar no trabalho, enquanto a ordem não fosse restabelecida. As canetas, os papéis, a disposição dos livros, tudo possuía um local certo. Porém, não conseguia se perceber como alguém muito organizada e metódica e dizia que as colegas de trabalho, eram sim muito mais organizadas do que ela. 

Durante a consulta, menciona que tem dormido pouco e considera que a melhor coisa que ela poderia fazer seria sumir. Comenta que o melhor para os outros, inclusive para a sua família é que ela morresse, pois eles estariam melhor se vivessem sem ela. Diz que não termina com a própria vida por ser muito religiosa. Refere, ao final do relato, que não acredita que a terapia teria meio de ajudá-la a sair desse estado. 


Analisando como um todo, talvez seja difícil dizer qual seria o problema de Silva. Ao lermos a primeira frase, podemos imaginar que seja um quadro depressão e ansiedade que manifestaram-se em sintomas físicos, como a enxaqueca. Mas ao analisarmos paragrafo por paragrafo podemos chegar a conclusão de qual seria seu conflito latente e o que está a acontecer com Silvia. 


No primeiro paragrafo vemos que Silvia teve uma infância complicada, marcada por  brigas com a mãe. Ao descrever seu pai como uma pessoa dominante, podemos entender como ele sendo alguém autoritário, com "punhos de ferro", com isto podemos levantar a hipótese de que este homem tenha aprendido que precisava ser O Homem, aquele que manda e desmanda na casa. A mãe dela, por sua vez, é descrita como sendo uma "mulher simples, concentrava todo o seu tempo nos assuntos domésticos, ocupando-se o dia todo em limpar e arrumar a casa", está arrumação, se não for uma hipérbole da parte de Silvia, poderia ser caracterizada como um TOC (Transtorno Obssessivo Compulsivo) por limpeza ou, como é popularmente chamada, uma mania de limpeza. Levantando a hipótese de ser este Transtorno, talvez ele tenha tido origem com o casamento, este pai dominador poderia, ao chegar, reclamar de algo que estivesse "sujo ou bagunçado" na casa, mesmo quando não estava. Além disso, há um outro conflito: Durante a infância, Silvia e seu irmão possuíam uma relação boa, ela o tinha como modelo, mas algo aconteceu para que isso mudasse. É possível que o conflito latente seja sua relação familiar.

Já no segundo temos a confirmação que a relação parental de Silvia com seus progenitores não era fácil ou agradável, ela relata que era "pouco amistosa com o pai e se dava muito mal com a mãe", ela relata uma infância marcada por "espancamentos e agressões verbais" e que sua mãe tinha uma preferência por seu irmão, por quem a mão "conferia muito carinho e atenção", além de elogios por ser organizado. Está atenção da mãe direcionada apenas para seu irmão é a origem do seu conflito com este, que, a este pé, alguém poderia pensar "ela queria ser ele", mas não era isso que ela queria: ela não queria ser ele, mas sim a atenção que a mãe o dava, e podemos ter está certeza quando é dito que ela tentava agradar a mãe, mas que nada era suficiente e, está rejeição manifestada de uma Transferência Negativa, é o que origina o sentimento de insuficiência que, no inicio do paragrafo, o texto diz que Silvia tem.

Ainda no segundo paragrafo, é relatado um sonho recorrente de Silvia: sua progenitora a empurrando da escada aos 8 anos. Há duas hipóteses para este sonho ser frequente: a manifestação do medo que Silvia sinta por sua mãe ou, a mais provável, uma regressão tópica que consiste na manifestação de algo por sonhos, seja ela de forma alucinada ou por uma memória, que é o que pode estar ocorrendo com Silvia: uma memória que sofreu repressão mas que ficou armazenada em seu inconsciente, mesmo que sem operar.

No terceiro paragrafo, vemos que a cobrança de organização de sua mãe e a falta de afeto fez Silvia se refugiar em seu trabalho, fazendo com que a mesma destaque-se de uma forma positiva entre seus colegas de profissão, seus alunos e os pais destes, como podemos ver no trecho "Professora do ensino fundamental, era extremamente dedicada a sua carreira, sendo respeitada pelos seus alunos, pais e superiores", este refugio era como uma compensação para Silvia, por mais que, segundo o que a mãe dizia, não fosse organizada, ela sempre entregava seus trabalhos dentro do prazo (é possível que até mesmo com bastante antecedência, visto que era comum ela não possuir um horário para trabalhar, principalmente em final de ano letivo pois "em épocas de finalização de ano letivo, por exemplo, era comum que dormisse muito pouco ou quase nada". 

Ainda neste paragrafo vemos um comportamento preocupante: o autoisolamento. Ela usa de seu trabalho para evitar relacionar-se com pessoas, talvez por conta da insegurança que ela sente, como relatado no segundo paragrafo, ou medo de ser rejeitada como sua mãe fazia com ela. 


No quarto paragrafo, vemos que ela tinha TOC, o que é perceptível pelo trecho "era demasiadamente organizada, chegava a parecer bastante obsessiva. Se alguém mexesse em no seu armário ou mesa de trabalho, um único detalhe que fosse, ela logo percebia e não conseguia voltar a se concentrar no trabalho, enquanto a ordem não fosse restabelecida". Este TOC talvez seja resultado da Transferência Negativa de sua mãe, originando em uma Introjeção por parte de Silvia, que passa a ter necessidade de manter-se sempre organizada, "as canetas, os papéis, a disposição dos livros, tudo possuía um local certo". Contudo, por ter internalizado as palavras de sua mãe, que dizia que a até então, criança não era organizada. Este fator é perceptível em "porém, não conseguia se perceber como alguém muito organizada e metódica e dizia que as colegas de trabalho, eram sim muito mais organizadas do que ela".

 Por fim, é revelado que Silvia possui ideais suicidas e que só não findou sua vida por ser religiosa. Por fim vemos que a paciente " não acredita que a terapia teria meio de ajudá-la a sair desse estado", demonstrando Resistência.


                                                   Questões


01.  Na avaliação da paciente, o terapeuta deve buscar a relação entre os sintomas (conflito manifesto)  e a ocorrência de algum evento ou circunstância na vida da paciente (conflito latente). Que hipótese(s) você levantaria como sendo o conflito latente de Silvia?

O conflito latente de Silvia é sua mania por organização. Ela não percebe que o tem e nem o quão organizada ela é, mas quando algo está fora do lugar ela logo percebe e somente consegue concentrar-se após arrumar o que está de "errado". Além disso, ela organiza suas coisas, canetas, livros, etcs., de uma forma que haja um padrão, como é dito no quarto paragrafo: "As canetas, os papéis, a disposição dos livros, tudo possuía um local certo". 

02. Um elemento a ser levado em consideração na primeira consulta é como o paciente percebe o sintoma - (ego sintônico ou ego distônico). Analisando a queixa trazida pela consultante e sua percepção acerca  dos sintomas, qual seria a avaliação egóica da paciente? Justifique a sua resposta, reproduzindo trecho(s) do case em que isto se torna evidente.

Deve ser tratado o ego distônico, pois ela não percebe o quão organizada ela é, chegando a exagerar, como, por exemplo, neste trecho:  Se alguém mexesse em no seu armário ou mesa de trabalho, um único detalhe que fosse, ela logo percebia e não conseguia voltar a se concentrar no trabalho, enquanto a ordem não fosse restabelecida".

03. Um dos aspectos comentados por Freud na psicanálise são os mecanismos de defesa. Tratam-se de ações psicológicas que têm o objetivo de proteger a integridade do ego. Nesse sentido diante das exigências das outras instâncias psíquicas – Id, que é nosso lado mais instintivo e do superego, que representa nossos valores morais e regras internalizadas – o ego deseja proteger-se para garantir o bem estar psicológico do sujeito frente a esses conteúdos indesejados. 

Considerando esse enunciado, identifique os mecanismos de defesa empregados por Silvia ilustrando suas indicações com trechos retirados do texto, que demonstrem esses mecanismos. 

  • Introjeção: "Insatisfeita consigo mesma"; "Porém, não conseguia se perceber como alguém muito organizada e metódica e dizia que as colegas de trabalho, eram sim muito mais organizadas do que ela."
  • Regressão Tópica: "Conta que tinha um sonho recorrente no qual a sua mãe a empurrava de uma escada quando ela estava com apenas 8 anos de idade."
  • Compensação: "Professora do ensino fundamental, era extremamente dedicada a sua carreira, sendo respeitada pelos seus alunos, pais e superiores".



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