A BNCC VERSUS A PRESENÇA ANÔNIMA DA FÍSICA NO COTIDIANO BRASILEIRO

IBRA

Licenciatura em Física

A BNCC VERSUS A PRESENÇA ANÔNIMA DA FÍSICA NO COTIDIANO BRASILEIRO

MARCO AURELIO RADICH GALVÃOAluno do curso de Licenciatura em Física E-mail: marco_radich@yahoo.com.br

Orientador(a): Grupo Educacional IBRA

Resumo

Este artigo tem como objetivo relacionar as estratégias de aprendizagem e ensino e seus efeitos no consciente e inconsciente de pessoas que não vivem o universo
acadêmico. Pontua também nos reflexos que estas estratégias tem sobre os egressos do ensino médio, como a evasão escolar, desmotivação e desinteresse em disciplinas que são a base para um desenvolvimento nacional no campo econômico, tecnológico, social e cultural.
Apresentará uma análise estatística num nível de amostragem, que sustenta a idéia de que existem uma descontinuidade no engajamento dos estudantes das séries finais do ensino fundamental e o ensino médio.
Finaliza com uma sinalização de que a nova base nacional curricular comum tem grande potencial de estreitar as distâncias e criar pontes entre o ensino fundamental e o ensino médio, no tocante as áreas das ciências da natureza, como a física.

Palavras-chave: Física, Evasão, Ensino, BNCC, Competências

Abstract

This article aims to relate the learning and teaching strategies and their effects on the conscious and unconscious of people who do not live the academic universe. It also punctuates the reflexes that these strategies have on high school graduates, such as school dropout, demotivation and lack of interest in subjects that are the basis for national development in the economic, technological, social and cultural fields.
It will present a statistical analysis at a sampling level, which supports the idea that there is a discontinuity in the engagement of students in the final grades of elementary and high school.
It ends with a signal that the new common national curriculum base has great potential to narrow the distances and create bridges between elementary and high school, in the areas of natural sciences, such as physics.

Keywords: Physics, Dropout, Teaching

Introdução

A difícil missão de um docente em nosso país pode e é mais dificultosa, conforme observada na amostragem realizada durante a preparação para a escrita deste artigo, nas áreas das Ciências da Natureza. Em algum momento durante a transição do ensino fundamental e o ensino médio alguns alunos perderam seu interesse nesta área do saber. Isso se traduz no grande número de evasão escolar nesta fase da formação básica. Em algumas localidades do país a evasão chega a 65% (Nunca..., 2017)e isso é muito preocupante. Pois é neste período da formação que o discente é exposto de forma mais direta às disciplinas voltadas aos fenômenos naturais e suas interações com o mundo em que vivemos : Física, Química e Biologia; suas interrelações e efeitos na vida do homem moderno.(Seminário..., 2020) 

Um simples ato de acender um fósforo contém tanta ciência e complexidade que o cotidiano cheio de rotinas já não desperta o interesse pelo "por que" e pelo "como". Assim a ciência e seus fenômenos ficam anônimos e ocultos. A falta de estímulos e a não observação dos efeitos desta desestimulação tem criado uma geração que tem receio das ciências naturais e evitam tê-la como alvo de sua formação acadêmica. Isso se traduz no déficit de docentes.


A disciplina de física carece ainda mais da formação inicial, uma vez que estudos do Ministério da Educação apontavam, em 2001, um déficit de mais de 16000 professores desta disciplina no Ensino Médio brasileiro. As dificuldades inerentes à ciência estudada, que podem ser medidas com o índice de 65% de evasão dos cursos de Licenciatura em Física, bem como o despreparo dos atuais ingressantes, de modo geral, tornam o vestibular ou, mais recentemente, a procura pelas vagas da Licenciatura em Física via Sistema de Seleção Unificado (SiSU), com uma disputa inferior a de outras ciências, como a matemática. (NóbregaMackedanz, 2013, p. 1).


Embora a maioria das pessoas se dê conta de que existem fenômenos físicos e químicos por de trás de suas ações, tais fenômenos são vistos como distantes e difíceis demais para explicar. Este distanciamento leva muitos a considerarem tais fenômenos irrelevantes no seu dia a dia. Há portanto, aparentemente, um contrasenso. Se por um lado vivemos numa sociedade cada vez mais refém da tecnologia e uma geração fortemente consumidora desta tecnologia, existem os que se contentam em consumir tecnologia sem sequer tentar compreender os fenômenos e princípios por trás dessas benesses.


a física no Brasil

Nosso País, apesar do aparente atraso acadêmico imposto por Portugal, e que levou historiadores a afirmarem "que não havia desenvolvimento científico no Brasil pela ausência de universidades" (Seminário..., 2021) , sempre buscou estar presente no cenário mundial no que tange à ciência. E não seria diferente no ramo da física, astrofísica e astronomia. Já a muito tempo o Brasil relaciona-se com nações aliadas em experimentos e estudos. A criação de centros de pesquisas, institutos e conselhos voltados às ciências são provas de que sempre houve um interesse científico por parte de nosso povo, alguns dos quais ficaram anônimos, "verdadeiros soldados desconhecidos" (Seminário..., 2021).

Em 1916 fundou-se a Academia Brasileira de Ciências e entre os anos de 1920 e 1930 o país recebe a visita de cientistas e pesquisadores estrangeiros, dentre eles Albert Einstein e Marie Curie. Nos primeiros anos da década de 1930 chega ao Brasil o cientista alemão Bernhard Gross. Esse intercâmbio sem dúvida contribuiu para a alicerçamento científico em nosso país, que em 1940 cedia o Congresso de Raios Cósmicos, no Rio de Janeiro.

As porteriores fundações da Sociedade Brasileira para  Pesquisa de Ciências, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas em 1949 e da Sociedade Brasileira de Física em 1966,  também comprova o interesse científico nacional na área da física (Seminário..., 2021).

 A pesquisa de campo

Ao longo do desenvolvimento de minha graduação realizei uma pesquisa de avaliação, tendo como objetivo verificar as impressões dos participantes sobre a relevância das disciplinas e fenômenos da Ciências da Natureza em seu cotidiano. Esta foi elaborada utilizando o formulário do Google Forms. Contou com seis questões, todas de múltipla escolha.

O formulário foi disponibilizado por meio de um link do Google Forms no grupo do Whatsapp de um número de 253 participantes de variadas faixas etárias.

Gráfico 1 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

Gráfico 2 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

Gráfico 3 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

Gráfico 4 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

Gráfico 5 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

Gráfico 6 — Pesquisa Google Forms
Pesquisa Google FormsO autor (2021)

O desafio brasileiro

Nossa Constituição assegura  que o estado deve proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação; (Brasil, 1988). Portanto, é lícito questionar como nosso país chegará a um estado de independência tecnológica, se na base do progresso, a saber : na educação, há um nítido descaso coletivo com disciplinas tão ligadas às tecnologias e ao desenvolvimento industrial e econômico.

O anonimato da Física, expressa a imaturidade social e educacional que nosso país atravessa já por muitas décadas. Quer sejam maduros, quer sejam jovens, o medo das chamadas Ciências Exatas tem ceifado, ou no mínimo, retardado o potencial de crescimento de nosso país em diversos campos.

É perturbador ver que no momento onde a tecnologia humana avança a passos cada vez mais rápidos, quando a busca por fontes alternativas e renováveis de energia, quando fica cada vez mais nítida a nossa dependência da ciência como espécie neste planeta, temos um ensino tão desalinhado com essa realidade. Professores formados em antigos métodos e alunos com grande dificuldade de ser protagonista de sua aprendizagem. Geramos uma geração de alunos e ex alunos que não conseguem contemplar o valor do estudo em sua vida cotidiana, sem que seja pelo olhar da subsistência e do status quo. Estudar para trabalhar. Trabalhar para ganhar o sustento. Não que este não seja um motivo nobre. É, e muito ! Mas, em que momento deixamos de olhar as coisas a nossa volta e desejamos saber que universos estão por de trás desses acontecimentos. O quê no campo da biologia está ocorrendo ? Que reações químicas precisa acontecer para que este evento seja possível. Que leis da física exerceram seus domínios ? Assim pensavam os filósofos no mundo grego. Eram capazes de dedicar uma vida em busca de uma verdade.

Parece que as gerações atuais perderam o interesse pelo novo, pelo intrigante, pelo incompreendido. Interesse que levou os filósofos gregos arquitetarem pensamentos que se tornaram os alicerces do que hoje chamamos ciência (Leal et al.). Diante deste abismo que parece se formar entre os alunos que saem do ensino fundamental e os que adentram ao ensino médio, quantos irão buscar uma carreira acadêmica ? Quantas gerações irão passar até que tenhamos uma maturidade educacional ao ponto de não perdermos bons alunos de ciências, que perdem o desejo, ou sequer o possuem, de avançar academicamente falando nos meandros dos fenômenos físicos e quânticos que ainda hoje demandam muita pesquisa e estudos dirigidos ? São muitas as questões ainda por responder.

Há muitas perguntas na física contemporânea que ainda não conseguimos responder. Uma delas (e talvez a mais importante) é sobre a massa das partículas. De acordo com a teoria vigente, que as partículas foram produzidas nos primeiros instantes de vida do Universo, estas partículas foram produzidas a partir do esfriamento do Universo sem massa. Físicos do mundo inteiro vem se perguntando a razão de determinadas partículas possuírem determinada massa. Além desta pergunta, eles também se perguntam da razão entre as massas e as simetrias existentes na natureza. (NóbregaMackedanz, 2013, p. 1).

O potencial da mudança

Quando observado no Gráfico 5 deste artigo que a grande parte dos que responderam a pesquisa sequer consegue ver importância da física em sua vida, apesar de vivermos num munda cada vez mais dependente de tecnologias de telecomunicações e escasso de recursos renováveis, fica nítido que algo precisava ser feito. Felizmente, uma luz se acende em meio ao potencial de estagnação. Na nova abordagem proposta pela Base Nacional Curricular Comum a multidisciplinaridade tem como um de seus objetivos tornar o ensino médio mais atraente e significativo aos alunos brasileiros.

Uma das missões da BNCC é 

Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria

das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a

imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar

hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive

tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas (BRASIL, 2017, p. 9).


Por meio de dez competências gerais que serão perseguidas ao longo de toda Educação Básica, busca-se estreitar a passagem do ensino fundamental para o ensino médio. (BRASIL, 2017, p. 8).

Sendo o ensino médio o gargalo educacional brasileiro, a BNCC visa a médio e longo prazo diminuir a evasão neste que é a parte final da educação básica em nosso país (BRASIL, 2017, p. 35).


Por fim, e em conformidade com a própria natureza da área no Ensino Médio, a BNCC propõe que os estudantes aprofundem e ampliem suas reflexões a respeito das tecnologias, tanto no que concerne aos seus meios de produção e seu papel na sociedade atual como também em relação às perspectivas futuras de desenvolvimento tecnológico. Desse modo, propõe continuidade ao tratamento dado no Ensino Fundamental, etapa na qual as tecnologias foram abordadas sob uma perspectiva de aplicação de conhecimentos e análise de seus efeitos sobre a saúde e a qualidade de vida das pessoas.

Considerando esses pressupostos, e em articulação com as competências gerais da Educação Básica e com as da área de Ciências da Natureza do Ensino Fundamental, no Ensino Médio a área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias deve garantir aos estudantes o desenvolvimento de competências específicas. Relacionadas a cada uma delas, são indicadas, posteriormente, habilidades a ser alcançadas nessa etapa (BRASIL, 2017, p. 113).

Atitude é fundamental  

Mesmo agora, antes de um possível sucesso na abordagem proposta pela BNCC, comunidades no Brasil a dentro experimentam o êxito em tornar o ensino de ciências interessante e atrativos aos jovens. Olimpíadas variadas, jogos, feiras de ciências, para citar apenas alguns métodos, tem diminuído muito o número de evadidos e delinquentes. Integração social e familiar tem contribuído para que meninos e meninas voltem a cogitar uma carreira acadêmica; ou no mínimo cogitar a formatura no ensino médio. O documentário entitulado "Nunca Me Sonharam" é um emocionante e inspirador relato de que atitudes positivas e positivistas são de muito maior valor que o vitimismo e a resignação que alguns docentes e diretores escolhem (Nunca..., 2017).

Conclusão

Se as propostas pelo MEC serão suficientes para mitigar ou quiçá eliminar a evasão escolar no ensino médio o tempo não deixará de mostrar. O que cabe à classe docente é se valer desta responsabilidade e oportunidade de virar o jogo e contribuir ativamente para que o cenário mude e que possamos ver cientistas brasileiros figurando entre os que obterão respostas às questões ainda pendentes e que isso tenha efeitos práticos e mediatos na sociedade e desenvolvimento tecnológico do país.

A história pode ser mudada para as próximas gerações a medida que a multidisciplinaridade proposta na BNCC render seus frutos. Uma perspectiva otimista, sem dúvida, pode ser o resultado desta nova fase da educação brasileira.

A minha expectativa é que ao final das próximas décadas nossos jovens e então adultos estejam mais interessados de todo universo científico que nos rodeia não apenas como meros usuários de dispositivos tecnológicos. Que participem de forma mais ativa mas descobertas às perguntas ainda sem resposta. E mais do que isso, que sejam capazes de fomentaram as perguntas e questionamentos no campo da física que sequer imaginamos na atualidade.

Perceber no dia a dia que fenômenos físicos e químicos fazem parte de interações naturais com nosso maravilhoso planeta e com seus ciclos fundamentais e essenciais para o sustento da vida como a conhecemos, tornarão a vida em sociedade mais significativa e responsável tendo em vista os cuidados necessários com o planeta, seus recursos e espécimes, em todas as suas formas (Leal et al.).

Referências

BrasilConstituiçãoRepública Federativa do Brasil de 1988Art.23(Redação dada pela Emenda Constitucional nº 85, de 2015). Brasília, DFSenado Federal, 1988.

BRASILMinistério da EducaçãoBase Nacional Comum Curricular.: Portaria n° 1.570, publicada no D.O.U. , Seção 1, Pág. 146.21 dez. 2017.

LealMaycon Marcos et alDA FÍSICA ANTIGA À FÍSICA MODERNA: UMA VISÃO DO SEU PROCESSO HISTÓRICO . In: CONEDU - Congresso Nacional da Educação, n.  VI2019. Anais [...]12 p. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/59780. Acesso em: 27 abr. 2021.

Nunca me sonharamCacau RhodenEstela Renner Marcos Nisti Luana Lobo. Sofa Digital, 2017Documentários (84 minutos e 19 segundos). Disponível em: https://youtu.be/aE2gOo9rW1w. Acesso em: 28 abr. 2021.

NóbregaFábio Kopp; MackedanzLuiz FernandoO LHC (Large Hadron Collider) e a nossa física de cada dia. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v. vol.35, n. 1p. 1-11, Março 2013ISSN 1806-1117. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1806-11172013000100001 . Acesso em: 27 abr. 2021.

Seminário 1 - Mestrado Profissional em Ensino da FísicaO desenvolvimento da física no Brasil entre 1898 e 1985 parte 1Antônio Augusto Passos VideiraUniversidade Federal do Rio de Janeiro. 2021. Disponível em: https://youtu.be/VVAZrr01nIM. Acesso em: 11 mai. 2021.

Seminário 1 - Mestrado Profissional em Ensino da FísicaO desenvolvimento da física no Brasil entre os anos de 1898 e 1985 parte 2Antônio Augusto Passos VideiraUniversidade Federal do Rio de Janeiro. 2021 (173 minutos). Disponível em: https://youtu.be/pEL7YCGPIfI. Acesso em: 11 mai. 2021.

Seminário 1 - Mestrado Profissional em Ensino de FísicaReflexões sobre a fazer científico a partir de 3 episódios de história da ciênciaCarlos FarinaUniversidade Federal do Rio de Janeiro. 2020 (126 minutos). Disponível em: https://youtu.be/-DIqfmRd8Sc. Acesso em: 5 ago. 2020.

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