A ARTE DOS SENTIDOS

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO

A ARTE DOS SENTIDOS

eliana maria lorieri

Resumo

A natureza desse trabalho pretende demonstrar as várias possibilidades de desenvolver processos artísticos através dos sentidos sensoriais, sabemos que um cego, por exemplo, é privado parcial ou totalmente de sua visão, assim como o surdo de sua audição e, por esse motivo, outros sentidos são estimulados e trabalhados a fim de produzir experiências e situações de aprendizagem.
Partindo da premissa que somos seres multiculturais e recebemos essa carga através de todos os nossos sentidos, é importante perceber como despertá-los de forma criativa. É fundamental não apenas para o processo de ensino aprendizagem, mas para a formação integral do indivíduo. Uma pessoa que vê, escuta, percebe os aromas a seu redor, sente gostos que remetem a situações e experiências adquiridas por ele ao longo de suas trajetórias.
Este trabalho pretende demostrar as várias possibilidades de desenvolvimento dos processos criativos através dos estímulos sensoriais que possibilitam uma interação entre as linguagens artísticas e os sentidos das pessoas com deficiências ou necessidades especiais.
A proposta desse artigo é construir vínculos entre as linguagens artísticas e os sentidos das crianças com deficiências, sejam elas surdas, cegas, surdocegas ou com múltipla deficiência sensorial. Faz parte também a produção de experiências e vivências de criação com as diversas linguagens e elaborar um estudo, de modo a perceber as infinitas possibilidades desse indivíduo através dos sentidos. Após estas análises, foi possível verificar que os alunos adquiriram parcialmente a capacidade de criação de melodias e harmonias com os instrumentos utilizados durante o estudo.

Palavras-chave: Educação. Educação especial. Arte. Sentidos.

Abstract

The nature of this work intends to demonstrate the various possibilities of developing artistic processes through the sensorial senses, we know that a blind person, for example, is partially or totally deprived of his vision, as well as the deaf of his hearing and, therefore, other senses Are stimulated and worked in order to produce experiences and learning situations.
Starting from the premise that we are multicultural beings and we receive this burden through all our senses, it is important to realize how to awaken them in a creative way. It is fundamental not only for the process of teaching learning, but for the integral formation of the individual. A person who sees, listens, perceives the aromas around him, feels tastes that refer to situations and experiences acquired by him along his trajectories.
This work intends to demonstrate the various possibilities of development of the creative processes through the sensorial stimuli that allow an interaction between the artistic languages ​​and the senses of people with disabilities or special needs.
The purpose of this article is to build links between the artistic languages ​​and the senses of children with disabilities, whether they are deaf, blind, deafblind or with multiple sensory disabilities. It is also part of the production of experiences and experiences of creation with the different languages ​​and elaborate a study, in order to perceive the infinite possibilities of this individual.

Palavras-chave: Education. Special Education. Art. Senses.

Introdução

Ao longo da trajetória histórica de nossa sociedade, os indivíduos que apresentavam alguma forma de deficiência e ou falta de um ou mais sentidos, eram colocados a margem e privados até mesmo de seus direitos civis e humanos. Um dos exemplos mais conhecidos é o dos surdos na antiguidade durante o Império Romano, onde o Surdo dentro desse núcleo familiar romano nem era considerado humano, pois a fala era o processo final do pensamento, sendo assim, esse indivíduo nem era considerado um cidadão pleno, era proibido para eles até constituir família. Casar e ter filhos era negado ao surdo.

A importância da arte para o ser humano é indiscutível; através dela nossa humanidade transcende, dando espaço à criação e expressão de sentimentos e emoções. 

Ela é considerada uma faculdade ou ato humano pelo qual, trabalhando uma imagem, um gesto ou um som, consegue-se criar beleza; e para isso nossos sentidos têm um papel de fundamental importância, pois cada um deles nos inspira de maneira filosófica.

Como Arte Educadora, em muitas oficinas apresentei, a diversos grupos heterogêneos, experiências sensoriais diversas, como o desenvolvimento e aperfeiçoamento do trabalho com o tato, visão, audição e ou o olfato, de acordo com as necessidades individuais e que foram, além de prazerosas, de extrema importância para o processo de aprendizado.

A aplicação deste estudo se deu em dois polos diferentes de pesquisa: EMEBS “Professora Vera Lúcia Aparecida Ribeiro” – São Paulo – SP e Sala de Atendimento Especializados em surdocegueira, EME ” Raposo Tavares” em Barueri – SP.

É sabida a importância dos sentidos para a música, dança e artes visuais, mas como a ausência de algum(uns) deles pode ser compensada dentro de um processo de superação e supervalorização na Arte?

 Objetivos 

Analisar como a música, a dança e outras linguagens podem ser interpretadas por alunos surdos da Escola Municipal Bilíngue de São Paulo.

Comparar a experiência anterior ao processo tátil de uma aluna surdocega de uma escola inclusiva em Barueri.    

Demonstrar a importância de buscar alternativas, como a exploração dos sentidos, no processo de ensino-aprendizagem da arte, como instrumento estimulador da criatividade e gerador de novas possibilidades de expressões artísticas pelo aluno.

os sentidos humanos

Os cinco sentidos dos seres humanos mais conhecidos são olfato, tato, paladar, audição e visão e são responsáveis pelas sensações e percepções dos ambientes. Os seres humanos possuem receptores nervosos que são divididos da seguinte maneira: exteroceptores e proprioceptores. Esses sentidos foram sugeridos por Aristóteles na antiguidade e ainda hoje são bases para os estudos sobre o tema.

Como o nome já diz, exteroceptores estimulam sensações externas e proprioceptores sensações do próprio indivíduo. Tomamos como exemplo o tato, que se utiliza da pele do corpo todo para obter informações, das mais simples como as questões de temperatura assim como as sensações de dor.

A audição capta os sons produzidos em ondas sonoras e através dela identificamos melodias, ruídos e vozes. Além de nos permitir ter melhor equilíbrio, o pavilhão auditivo (orelha externa) pode diferenciar sons agudos, graves, fortes e fracos e a informação dos objetos.

A visão é um dos sentidos mais importantes para o ser humano, localizado no interior da cavidade óssea e denominadas órbitas oculares, é onde o milagre do olhar acontece. Esse órgão é revestido com um material fibroso, chamado esclerótica, onde está inserido o músculo que orienta os globos oculares. O olhar direciona muitas de nossas atividades do cotidiano. Não enxergar significa que muitas de nossas ações são complexas. É necessário criar novos subsídios para a compreensão do mundo através da cegueira. Alguns recursos são sugeridos para a preparação de material, por exemplo temos a digitação, sistemas de voz, leitores sonoros e de tela, e o ensino do braile.

O paladar tem uma estrutura complexa denominada botões gustativos e são as células epiteliais, com propriedades gustativas. Graças a elas sentimos sabores, reconhecemos o doce, o amargo, o ácido e o salgado. Para uma criança com surdocegueira, o paladar pode ser um instrumento facilitador no processo de aquisição de conhecimento.

O olfato é gerado por milhares de moléculas que se difundem nas fossas nasais. É por esse meio que existe um prolongando movimento sensorial, que através de impulsos nervosos são gerados, facilitando a mensagem para o nosso corpo. Sentir o cheiro nos remete a situações e lugares, a histórias vividas e a sentimentos que nós, seres humanos, carregamos. O olfato também é um facilitador no processo de ensino aprendizagem quando temos crianças com múltiplas deficiências sensoriais.
 

O tato utiliza o corpo como preceptor. Atualmente, especialistas o dividem em quatro outros sentidos: a identificação de texturas, denominado sentido somatosensorial; propriocepção ou cinestesia, um reconhecimento espacial do próprio corpo; termocepção, que é a capacidade de perceber a temperatura e finalizando a nocicepção o sentido de percepção da dor. Muitos órgãos além da pele estão associados a esses sentidos, como o labirinto e a medula.

Linguagens da Arte 

Segundo Proença (2000) “o ensino da arte abrange quatro linguagens: dança, teatro, música e artes visuais. Cada um possui seu objeto de estudo e seus elementos caracterizadores que devem ser compreendidos e explorados no trabalho com os alunos.”


Nas artes visuais, o principal sentido é o da visão. A arte é relacionada com o “ver”, como desenhos, pinturas, gravuras, esculturas, instalações, etc.

A música, instrumento importantíssimo na arte educação, segundo Ostrower (1987), “a música é a linguagem que ultrapassa os alcances da palavra, é a demonstração de sentimentos e emoções. É o conjunto da vida da criança desde o seu nascimento, vindo das canções de ninar, cantigas de roda, rádio, discos, fitas. Antes de saber ler e escrever a criança instruir-se a cantar. Em geral, mais do que o adulto a criança gosta de cantar.  A música tem grande força educativa, por isso torna-se simples e agradável ensinar às crianças através do canto.”

A dança se movimenta não só em função de respostas funcionais, mas pelo encanto do exercício, para empreender o meio ambiente.
Na linguagem do teatro, como diz Ostrower (1987), “A dramatização leva o conhecimento da arte e abre esperança para que o aluno tenha uma compreensão do mundo na qual a extensão poética encontra-se presente: a arte ensina que é possível modificar-se sempre a existência, que é preciso mudar referências a cada momento ser flexível”. 

Isso quer dizer que criar e aceitar são indissociáveis e a flexibilidade é condição fundamental para aprender.

A valorização da escola reconhece ser um espaço privilegiado para a construção de uma sociedade democrática, distinguindo não só para a qualidade de ensino como para a probabilidade de contribuir para as modificações de atitudes discriminatórias, já que na escola inclusiva, com presença das distinções sociais e culturais, hão de criar recursos que diminuam as barreiras elitistas presentes hoje na sociedade.

A Arte na educação brasileira

Para Cardoso (1997, p. 53), “a Arte, na educação, dá espaço ao desenvolvimento artístico: a sensibilidade, a reflexão, a percepção e a imaginação. O aluno passará, então, a conhecer, a apreciar e a refletir sobre as formas da natureza e o que foi produzido artisticamente em diferentes épocas culturais.”
 

Na educação brasileira, os PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais – Arte (BRASIL, 1993, p.15), estabelecem que “a educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico, que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas: por meio dele, o aluno amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação de aprender, pois a arte envolve, basicamente, fazer trabalhos artísticos, apreciar e refletir sobre eles. Envolve também, conhecer, apreciar, refletir sobre as formas da natureza e sobre as produções artísticas individuais e coletivas de distintas culturas e épocas. Para tanto, a escola deve saber aproveitar a diversidade de recursos humanos e materiais disponíveis na comunidade em que ela esteja inserida, a fim de que o aluno, ao longo da escolaridade tenha a oportunidade de vivenciar o maior número de formas de arte.”

Isso porque “a natureza criativa do homem se elabora no contexto cultural. Todo indivíduo se desenvolve em uma realidade social, em cuja indigência e valorizações culturais se adaptam os próprios valores da vida” (OSTROWER, 1987, p.5). E a escola representa uma das bases sociais na vida das pessoas.

Sabemos que a arte na escola não tem como objetivo formar artistas, como matemática não tem como objetivo formar matemáticos […] o que a Arte na escola principalmente pretende é formar o conhecedor, fruidor, decodificador da obra de arte. Uma sociedade só é artisticamente desenvolvida quando, ao lado de uma produção artística de alta qualidade, há também uma alta capacidade de entendimento desta produção pelo público. (BARBOSA, 2007, p.32)

Ana Mae Barbosa (2007, p. 33) afirma, também, que “sem conhecimento de arte e história não é possível a consciência da identidade nacional” e que a escola pode favorecer a integração entre os diferentes códigos culturais existentes, permitindo o acesso à informação e a formação estética de todas as classes sociais.

A Arte como estimuladora de sentidos


As linguagens artísticas são fundamentais para o processo inclusivo de uma criança com deficiência, contudo as utilizações de duas dessas linguagens são ainda mais intrigantes quando se trata dos alunos surdos, ou surdocego; a primeira é a música.
O professor que deseja trabalhar sobre esse vértice já enfrenta obstáculos no ensino regular, pois deverá se preocupar com o caráter multicultural e intercultural do ambiente escolar.

…a preocupação com a multiculturalidade resulta dos desafios colocados por sociedades cada vez mais plurais e menos homogêneas, em que convivem diversas etnias, hábitos culturais em valores diferenciados – por vezes conflitos. (Penna,2008, p.85) 

A autora ainda relata que esse profissional em sala regular deve transformar o ambiente multicultural, sem perder o foco da cultura dos grupos a serem coordenados, sendo assim, a cultura surda também deve ser respeitada assim como todo e qualquer modo de expressão.

Segundo Leinig: “a música fez parte de todos os períodos pelos quais passou a humanidade, sendo considerada também como uma parcela desse fluir contínuo e
ininterrupto de fatos e eventos ocorridos que marcaram a vida dos nossos antecessores” (2009, p.37). Para a humanidade a música sempre permeou as relações, as crenças e as comunidades como um todo.

A Dança é a companheira inseparável da música, desde os registros rupestres observamos que o homem, em sua essência sempre utilizou o corpo para expressar-se como cita Dayrell (2001): “A Música, a dança, o corpo e seu visual têm sido os mediadores que articulam grupos que se agregam para produzir um som, dançar, trocar ideias, postar-se diante do mundo, alguns deles com projetos de intervenção social.”

Quando nos remetemos ao ensino da música e as experiências que ela nos traz, podemos alegar que educar pela música é muito além de formar plateias, é ampliar o universo do repertório do indivíduo, produzir expressão com uma dinâmica totalmente própria, no caso do surdo e deficientes sensoriais, respeitando as especificidades.

“Surdo é o sujeito que apreende o mundo por meio de experiências visuais e tem o direito e a possibilidade de apropriar-se da língua brasileira de sinais e da língua portuguesa, de modo a propiciar o seu pleno desenvolvimento e garantir o trânsito em diferentes contextos sociais e culturais. A identificação dos surdos situa-se culturalmente dentro das expectativas visuais” (Quadros, 2004, p.15).

Quando nos deparamos com a surdocegueira, ainda é mais complexa essa experiência sensorial pois, se na cegueira o indivíduo tem como suporte o ouvir e o surdo o suporte visual, o surdocego, depende de seus sentidos, que na maioria das pessoas são deixados em segundo plano.
A mediação com esse grupo deve partir do uso de outros sentidos, além da audição e visão, já que estão parcialmente ou totalmente anulados. A música e a dança enriquecem essa vivência, propiciando uma melhora em seu esquema corporal.

Quando pensamos em um trabalho relacionado aos sentidos para crianças com surdocegueira, ou deficiência sensorial adquirida, utilizamos objetos concretos. Segundo Stillman e Battle,1984 existe um comportamento imitativo
:

“A compreensão pela criança da correspondência entre suas ações e as ações observadas nos outros. A capacidade da criança de imitar o adulto, demonstrando que compreendeu como deverá realizar as ações. A Capacidade da criança de ampliar a imagem mental dos objetos com as quais mantêm contato, seja pela visão, audição ou tato.” 

A Arte como Ferramenta no Ensino de Pessoas com Necessidades Especiais 

As pessoas com necessidades especiais têm menos oportunidades de realização e fontes de prazer. É importante que descubram valores em suas vidas, sintam-se integradas, úteis e amadas. A arte possibilita essa igualdade, porque através dela, chega-se ao belo, que é apreciado por todas as pessoas, sem distinção de cor, idade, sexo ou religião, e por essa razão é considerada a maior forma de integração e de desenvolvimento do ser humano.

Assim, a Arte na educação especial procura estimular nos alunos a auto expressão, possibilitando o desenvolvimento das potencialidades através da criatividade, flexibilidade, sensibilidade, reflexão e conhecimento.

Segundo Read (1976), “a arte na escola vem remover barreiras à aprendizagem junto aos indivíduos com necessidade especiais, pois funciona como forma de redescoberta, pelo professor e pelo aluno, onde deve observar e registrar dados para, depois de avaliados, servirem para a formulação de teorias oriundas da prática.”

Segundo afirma Apple (1989, p. 46), “a Arte contribui para desenvolver o senso de estética, sensibilidade e criatividade, e nesse processo de aprendizagem a arte é tão importante quanto qualquer outra matéria.

BREVE RELATO SOBRE DEFICIÊNCIA AUDITIVA/ SURDEZ NA HISTÓRIA

Desde os primórdios, a sociedade lidava com surdos e pessoas com necessidades especiais de um modo controverso. No Egito eram adorados como deuses, na Grécia eram estorvos para a sociedade e até condenados à morte. Aristóteles considerava que a falta da fala e da linguagem impossibilitava o indivíduo a formar o pensamento, não adquirindo, então, o conhecimento.

Em Roma, os surdos eram privados de direitos legais, não podiam se casar ou herdar os bens da família e a igreja católica os considerava sem salvação, ou seja, não iriam para o Reino dos céus.

Na Idade Média, os surdos eram internados em instituições, longe da sociedade.

No século XVI, um médico italiano chamado Girolamo Cardano defendeu que as palavras faladas não eram indispensáveis para se compreender ideias.

Na Espanha, Pedro Ponce de León, um monge beneditino, criou a primeira escola de surdos no mundo. Seus alunos eram filhos de nobres preocupados com sua exclusão.

Em 1760, Charles Michel de L´Epée, aprendeu a língua de sinais francesa e ensinou aos surdos, para que assimilassem a fé cristã. Desenvolveu-se a partir daí, em Paris, a primeira escola de surdos, com os mesmos objetivos das escolas comuns.

No Congresso de Milão em 1880, porém, os representantes decidiram pelo método oral na educação dos surdos e a língua de sinais foi proibida.

Em 1855, através de D. Pedro II, o professor Huet veio ao Brasil e fundou um Instituto de Surdos-Mudos, onde era utilizada a língua de sinais. Porém, seguindo a orientação determinada pelo Congresso de Milão, a escola voltou-se à oralidade e a linguagem de sinais parou de se desenvolver oficialmente, mas a comunidade surda a mantinha em segredo.

A Libras foi reconhecida como língua brasileira através da Lei 10.436, de 24 de abril, de 2002.

Hoje em dia, mesmo com os preconceitos e dificuldades existentes na sociedade, os surdos conseguiram seus direitos, através de muita luta de movimentos e filosofias educacionais.

 Universo de Pesquisa

Esta pesquisa resultou-se da observação de prática pedagógica, desenvolvida através de estudo de campo dos estágios realizados no ano de 2016, deste curso, com alunos de EMEBS e de uma escola inclusiva.

Foram observados:

▪ Os aspectos sensoriais dos alunos surdos e com múltiplas deficiências, trabalhando os cincos sentidos no desenvolvimento de aptidões artísticas;

▪A importância do instrutor mediador como estimulador desse processo, principalmente nos alunos surdocegos, auxiliando como intérprete utilizando-se de Libras e Tadoma para a devida compreensão por parte dos alunos que fazem parte deste estudo;

▪ As ações das linguagens artísticas e outras experiências de sentidos no universo surdo dos que apresentam múltiplas deficiência.

É importante apontar que esta pesquisa está vinculada ao Projeto Integrado de Pesquisa “Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva: política educacional, ações escolares e formação docente”, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), UNESP, campus de Marília e cadastrada na Plataforma Brasil sob o nº 64353216.6.0000.5406, cujo parecer é de nº 1.939.831, datado de 23 de fevereiro de 2017.

PARTICIPANTES

Os participantes desta vivência foram seis alunos do oitavo ano de uma escola bilíngue “Vera Lúcia Aparecida Ribeiro” e uma aluna surdocega de uma escola inclusiva em Barueri/SP.

INSTRUMENTOS

Foram coletados dados de anotações de diário de campo, através de observações de práticas e vivências dos estágios desenvolvidos nas disciplinas deste curso, no ano de 2016 e prática pedagógica desenvolvida em 2017.

Grupo de surdos e o ouvir pelo olhar

Na escola municipal bilíngue em São Paulo, EMEBS “Vera Lúcia Aparecida Ribeiro”, me foi dada a oportunidade de interagir com seis alunos do oitavo ano, todos surdos (sendo um deles com implante coclear) e o outro com múltipla deficiência sensorial e física. Trouxe comigo uma vivência musical, por ser arte educadora e realizo um trabalho com cultura popular há quinze anos nas escolas da Rede Municipal.

Utilizei nesta vivência os seguintes instrumentos musicais: ganzá, agogô, tambores, triângulos, caxixi, e outros chocalhos de tamanhos variados.

No primeiro momento, a vivência foi direcionada ao experimento livre com os instrumentos, sem intervenção dos educadores. Em seguida, produzimos sons em cadências e harmonia seguindo nossa orientação.

Notamos que o aluno implantado se incomodou com a intensidade do som e com os ruídos que os demais faziam, pois, a potência do seu aparelho acabava por ampliar o som.

O processo se deu de forma natural e espontânea, com utilização do toque, no caso do tato, para sentir a vibração de cada instrumento. Ao final dessa experiência o grupo já estava criando melodias harmônicas.

Uma surdocega e o ouvir pelo tocar

O encontro com a aluna P. se deu na sala de atendimento educacional onde ela recebe atendimento de um professor interventor (mediador), na cidade de Barueri. Esse profissional trabalha em uma sala com grande estímulo sensorial.

Trouxemos a vivência com os instrumentos, porém a dinâmica foi diversificada já que utilizamos pequenas almofadas com diferentes aromas e texturas para a experimentação, os aromas eram de alimentos diversos, como por exemplo: milho verde, ameixas, morango, laranja, erva-doce e baunilha, relacionamos cada cheiro com um som, e permitimos o toque para a mesma sentir a vibração.

A utilização dos instrumentos se deu por meio do toque e de uma experiência de vibração, a aluna demonstrou gostar muito de dançar e movimentar o corpo.

A professora da sala de Atendimento Educacional Especializado relatou que a mesma possui gestos repetitivos, denominados maneirismos. Necessário ressaltar a importância da construção do vínculo, por isso realizamos vários encontros para estabelecer esse contato.

 
Segundo Gense & Gense (2004) e Giacomini (2005), as necessidades que as pessoas surdocegas têm de aprender e de utilizar as técnicas de orientação e mobilidade estão relacionadas a três aspectos, que antecedem às próprias técnicas:

  • VÍNCULO: a aproximação deve ser tranquila e devagar. 
  • SEGURANÇA: a pessoa surdocega começa a se sentir mais tranquila ao perceber que pode confiar nas pessoas com as quais ela formou um vínculo.
  • COMUNICAÇÃO: cada pessoa surdocega dispõe de um sistema de comunicação diferente, que pode ir desde o mais concreto (uso de objetos de referência) até o mais simbólico (libras táteis, escrita na palma da mão).
    O processo de interação foi, então, uma construção diária, até chegarmos na criação de sons harmônicos. Não foi possível notar se a mesma relacionou os sons aos aromas, porém a mesma produziu sons com os instrumentos que foram apresentados.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A comparação entre as duas experiências (os seis alunos surdos e a surdocega), trouxe algumas reflexões em relação a música, os sentidos e como cada grupo se apropriou do som, ora pela vibração, ora pelo tato.

Na primeira, notamos a interação do grupo com os instrumentos, como cada um se apropriou de um deles e resolveu produzir suas criações musicais. De modo geral, o tambor foi o preferido nestas intervenções e o som mais grave foi constante, apesar do incômodo para o aluno implantado, todos sem exceção, obtiveram sucesso em suas vivências como um grupo. Já no segundo processo em AEE, notamos que todo o trabalho deve ser feito devagar, pois a criação do vínculo é mais importante que a própria vivência cultural. 

considerações finais

A partir do questionamento de que a Arte é primordial para os sentidos, observamos ao longo de nossa trajetória como ela foi fundamental para os dois grupos visitados. Apesar de não escutar, as vibrações, pelo tato e os aromas se integraram à experiência musical proposta.

Os ambientes se tornaram além dos educacionais já instalados, espaços de criação e de arte.

Sendo assim, podemos considerar o quanto as linguagens artísticas, a música, a dança, o teatro, as artes plásticas, de forma integrada e interdisciplinar podem gerar, não apenas nos conhecimentos específicos, mas em situações de integração e de riqueza cultural, quebrando o silêncio, gerando superação e trazendo ao indivíduo com deficiência múltipla sensorial ou com surdez, uma vivência única.

É necessário que se garanta mais espaços e ações onde a música, a arte e a exploração dos cinco sentidos possam contribuir para uma educação que amplie horizontes, que forme como um todo, e que traga experiência e qualidade de vida, bem-estar e principalmente o direito de aprendizagem plena de todos os conteúdos propostos, independentemente dos sentidos a serem explorados. 

feito

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